Crossfire
21 Um passo de cada vez
Notas iniciais
Depois que encerraram o caso da família Carter, Mia e Castiel voltaram para o hotel no Mustang recém consertado pelo anjo. Minutos depois, enquanto Mia tomava um banho, o anjo resolveu sair e ir até um restaurante da região para comprar alguma coisa para a garota comer. Mas ao voltar, Castiel a encontrou dormindo.
Então ele colocou o pacote com o lanche em cima da mesa e se aproximou da cama tomando cuidado para não fazer barulho. Ficou observando Mia por alguns instantes antes de se sentar numa poltrona que ficava perto da cama. Aquela situação fez o anjo lembrar das inúmeras vezes em que ele velou pelo sono da garota e em tudo o que eles viveram até ali.
Castiel não saberia dizer por quanto tempo ficou olhando Mia enquanto pensava nessas coisas. Parecia uma eternidade. Mas agora que tinha voltado a ser um anjo, ele não precisava mais dormir ou se alimentar. E, portanto, tinha bastante tempo livre.
Além disso, olhar Mia dormindo sempre foi algo que Castiel gostou de fazer. Era calmo, silencioso, pacífico. Exceto quando ela tinha algum pesadelo. Mas não parecia ser este o caso. Parecia que Mia estava dormindo o sono dos justos.
No entanto, em dado momento da noite, ela abriu os olhos devagar e encontrou o olhar de Castiel.
Numa situação assim, o normal seria desviar o olhar ou disfarçar. Mas por algum motivo, o anjo continuou olhando para Mia, o que fez ela lembrar de situações parecidas com aquela e de tudo o que os conduziu até aquele momento.
Porém, logo o silêncio começou a ficar desconfortável e Mia resolveu quebrá-lo:
– Por acaso você quer me dizer alguma coisa?
– Sim, eu quero. — admitiu Castiel e depois de olhar para o chão por alguns instantes e pressionar um pouco os dedos, ele voltou a olhar para a garota e continuou — Mia... Quando você disse que achava que não tinha errado tanto assim comigo, você estava certa. O que aconteceu hoje me fez perceber isso. Eu quero dizer... Vamos esquecer a parte em que você foi ferida com aquela navalha e nos concentrar no tiro que você ia disparar, tudo bem?
– Ok. — concordou Mia sem entender direito aonde Castiel queria chegar.
– Então... Hoje você estava pronta para atirar naquela garota. Mesmo ferida, você ia atirar, eu sei que ia. Mas o meu instinto de te proteger falou mais alto e eu achei melhor interferir. E eu sei que lá no fundo, você também sabia que eu ia dar um jeito de lidar com a minha situação como ex-anjo perseguido por outros anjos, que eu era capaz de lidar com os meus próprios problemas como humano e até reverter a situação, como de certa forma eu fiz. Mas o seu instinto de me proteger, de me ajudar também foi mais forte e então você resolveu interferir e foi atrás do Metatron. Por mais que eu não tenha pedido a sua ajuda, você resolveu ajudar. Assim como eu fiz hoje. Assim como geralmente eu sempre faço com você. No fim, o Kevin está certo. Nós pensamos do mesmo jeito e agimos do mesmo jeito. Brigar por isso é brigar em vão. — explicou Castiel.
Mia pensou um pouco e quis confirmar:
– Deixa eu ver se eu entendi. Em outras palavras, você está dizendo que eu estou perdoada?
– Não. Eu estou dizendo que não há o que se perdoar. — respondeu o anjo. — Porque no fim não é errado proteger quem... Quem se...
– Quem se ama? — sugeriu ela.
Castiel ficou em silêncio por um instante antes de concordar:
– Sim, quem se ama.
Pela primeira vez desde que voltou e reencontrou Castiel, Mia conseguiu esboçar um sorriso para ele. Aquela conversa estava começando a ficar interessante e ela resolveu aprofundar o assunto:
– Era isso que você ia me dizer no carro antes de tudo acontecer? Antes da Kate gritar e da gente correr para aquela casa? Você ia dizer que ainda me ama?
Pela primeira vez desde que reencontrou Mia, Castiel também conseguiu esboçar um sorriso para ela antes de responder um tanto sem graça:
– Sim, era isso. Eu te amo, Mia. Aliás, eu nunca disse que não amava, eu só estava magoado com você. Mas não estou mais.
Ao ouvir isso, a garota sentiu o seu coração acelerar subitamente, se mexeu um pouco na cama e segurou no cobertor com certa ansiedade. Mas então Castiel ficou sério, desviou o olhar e não disse mais nada.
Era estranho, mas aquela harmonia do começo da conversa parecia ter se dissipado subitamente e dado lugar a uma certa tensão.
– Parece que você quer me dizer mais alguma coisa. — pressentiu Mia.
Castiel pensou um pouco e tentou explicar:
– Mia, eu realmente quero colocar um ponto final na nossa discussão, mas... Eu não acho uma boa ideia que as coisas voltem a ser como antes... Entre nós.
– Por quê? — quis entender a garota e diante de mais um silêncio do anjo, ela adivinhou — Por causa do que o Bartholomew fez comigo? Você se sente culpado, não é? Cas, aquilo não foi sua culpa. Eu que fui burra e acreditei no Metatron. Foi minha culpa. Só minha.
– Mia, você foi torturada, você podia ter morrido. E por minha causa. — ressaltou ele.
– Mas eu não morri. — salientou ela.
– Não desta vez, mas você já parou para pensar na quantidade de tragédias que aconteceram com você deste que eu apareci na sua vida? Na quantidade de tragédias que ainda podem te acontecer se nós voltamos? — questionou o anjo.
– Por favor, não estrague este momento. — pediu ela sentindo que aquilo poderia terminar em mais uma discussão.
– Eu não quero estragar, Mia, mas eu estou confuso e preciso ser honesto. E a verdade é que eu não consigo parar de pensar que a sua vida teria sido bem melhor se eu nunca tivesse entrado no seu quarto naquela madrugada. — prosseguiu o anjo.
– Melhor? — repetiu ela incrédula. — Eu vivia na mais completa ignorância, sem saber o que tinha acontecido com os meus pais, sem saber do sangue de demônio em mim, sem saber da existência de nenhuma ameaça sobrenatural.
– Você vivia na ignorância, mas pelo menos estava segura. Depois que eu apareci e trouxe todas essas coisas para a sua vida, você passou por tanto sofrimento... Você morreu inúmeras vezes. — argumentou ele.
– E você me trouxe de volta em todas elas. Porque mesmo quando você não estava lá comigo, era por você que eu voltava, Cas. Era você que me fazia voltar. É por você que eu sempre volto. — contrapôs Mia.
– Isso não significa que eu faço bem para você. — relutou Castiel.
– Você me faz muito bem. — afirmou a garota.
– Esta relação só te trouxe complicações. — ressaltou ele.
– A vida é complicada. — ponderou ela.
– Eu coloco a sua vida em perigo, Mia. — insistiu Castiel.
– Eu não me importo. Aliás, eu prefiro correr perigo ao seu lado do que ficar a salvo sem você. — rebateu a garota.
– Eu não sou bom para você. — afirmou o anjo.
– Você é perfeito para mim. — afirmou Mia e após uma pausa, continuou — Mas eu entendo que você se sinta culpado mesmo assim, que esteja confuso e questionando um monte de coisas. E quer saber? Eu não vou te pressionar, Cas. Nós podemos pensar em tudo isso depois.
– Como assim? — quis entender o anjo.
– Você quer colocar um ponto final na nossa discussão? Ótimo. Por mim este assunto está mais do que encerrado. Então, nós dois concordamos que não queremos mais brigar, certo? — prosseguiu Mia.
– Certo. — concordou Castiel.
– E isso é bom. Mas se a gente continuar esta conversa, nós vamos acabar discutindo, brigando e isso não vai ser bom. Nós vamos nos magoar de novo. — explicou a garota e depois de uma breve pausa continuou — Então, não vamos estragar este momento e o que a gente conseguiu hoje, agora. Vamos com calma desta vez e pensar numa reconciliação depois. Amanhã, depois de amanhã, depois de depois de amanhã, não importa. Um passo de cada vez. Sem pressa, sem cobranças.
– O que exatamente você está propondo? — indagou Castiel um pouco confuso.
– Exatamente isso. Um passo de cada vez. — respondeu Mia e depois de tomar coragem, ela se afastou um pouco, levantou o cobertor e propôs — E agora você bem que podia deitar aqui comigo.
Castiel ficou visivelmente surpreso e desconcertado com aquele convite. Olhou para Mia embaixo do cobertor e ficou ainda mais nervoso. Ela usava um shortdoll delicado e sexy ao mesmo tempo, muito feminino e que caía perfeitamente bem no seu corpo também perfeito, lindo e cheio de curvas...
– Eu... Eu não acho que... Isso... Seja uma boa ideia. — gaguejou Castiel depois de desviar o olhar daquela imagem.
Mia conteve a vontade de rir diante do constrangimento do anjo e esclareceu:
– Cas, eu não estou forçando uma reconciliação aqui. Como eu disse, eu não vou te pressionar. Te atacar, abusar sexualmente de você, nem nada do tipo. E quando eu digo "nada" eu quero dizer nada mesmo. Mas... Eu senti a sua falta, você deve ter sentido a minha também, nós finalmente paramos de brigar, então que mal tem se a gente ficar só um pouco mais perto?
– Eu não sei... — relutou Castiel sem saber que argumento usar porque não estava conseguindo raciocinar direito e acabou olhando para ela de novo.
Após um momento de silêncio, Mia intimou:
– Tira os sapatos e vem pra cá.
Castiel hesitou mais um pouco, mas acabou se convencendo de que Mia não estava pedindo nada de mais. Nada mesmo. Afinal, não aconteceria nada entre eles. Nada mesmo. Além disso, se ele dissesse não, certamente os dois acabariam brigando e o anjo não queria isso. Não queria estragar o que eles conseguiram até ali, embora não conseguisse pensar numa reconciliação naquele momento. Mas como Mia disse que eles não precisavam pensar nisso agora, que mal tinha deitar ao lado dela? Em ficar mais perto dela?
Pensando nisso, Castiel começou a tirar os sapatos e quando viu que ele terminou, a garota sugeriu:
– Por que você não tira o sobretudo também? E o cinto e talvez a gravata?
Castiel a repreendeu com o olhar e Mia esclareceu:
– Sem segundas intenções, é claro. É só para você ficar mais à vontade. Eu juro.
O anjo pensou um pouco e resolveu tirar as peças que Mia havia sugerido. Em seguida se aproximou da cama e deitou ainda um pouco tenso com aquela situação.
Mia jogou o cobertor em cima deles até a altura da cintura e se aproximou mais do anjo passando um dos braços em volta da barriga dele e entrelaçando uma das pernas em uma das pernas dele. Então encostou a cabeça em seu ombro, suspirou e fechou os olhos sentindo o calor do corpo de Castiel aquecendo-a bem mais do que o cobertor.
– Então quando você disse "ficar um pouco mais perto", na verdade, você quis dizer "bem perto", não é? — observou ele.
A garota sorriu sem que Castiel visse e o abraçou um pouco mais antes de questionar:
– Você acha que eu mereço um beijo de boa noite?
– Mia. — repreendeu ele.
– Ok, não está mais aqui quem falou. — tranquilizou ela. — Boa noite, anjo.
Em seguida, ela sentiu a mão de Castiel finalmente repousando no seu ombro e um beijo suave em sua testa.
– Boa noite, Mia. — desejou ele.
Embora como anjo, Castiel não dormisse, ele resolveu fechar os olhos para tentar se concentrar em outra coisa que não fosse a garota em seus braços. Em outra coisa que não fosse o corpo quente e macio dela colado ao seu. Que não fosse a perna dela sobre a sua. Que não fosse a mão delicada sobre a sua camisa.
Estava difícil. Praticamente impossível. Mas Mia parecia ter falado sério quando disse "sem segundas intenções". Ela estava realmente tentando dormir.
Então Castiel resolveu fazer um esforço e aos poucos foi se acostumando com aquela proximidade entre eles. Não podia negar que aquilo era muito agradável. Mas, por via das dúvidas, decidiu que quando Mia dormisse, ele iria voltar para a poltrona. Só por precaução.
XXX
De manhã, quando Mia acordou e não viu o anjo ao seu lado, ela olhou automaticamente para a poltrona, mas ela estava vazia.
Mia não sabia, mas Castiel tinha ido comprar o café da manhã e reabastecer a garrafa térmica da garota.
Depois que ela tomou um banho e trocou de roupa, Castiel voltou para o hotel. Os dois se olharam por alguns instantes, mas não tocaram no assunto da noite anterior. Ao invés disso, os dois sentaram à mesa e Mia decidiu falar sobre o caso:
– Sabe, eu fiquei com um pouco de dó daquela garota na casa. Era só uma garota. Não um fantasma ou um demônio, era apenas... Um ser humano.
– Um ser humano que matou uma pessoa, que ia te matar sem pensar duas vezes, que sequestrou uma criança e que estava aterrorizando uma família. Nós não tivemos escolha, Mia. Ela ia matar de novo. — argumentou o anjo.
– Eu sei, mas mesmo assim é triste. Ela também não teve muitas escolhas na vida. Nenhuma, na verdade. — refletiu Mia.
Depois de terminar o café, ela e Castiel deixaram aquela cidade para trás e continuaram evitando o assunto da noite anterior. Mas pelo menos eles tinham concordado em não brigar mais. E, portanto, o primeiro passo tinha sido dado.
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