Crossfire
57 Final
Notas iniciais
Quando Mia acordou, precisou de algum tempo para entender por que estava deitada em uma cama de um quarto de hotel barato.
Ela lembrou que durante a viagem, Sam e Dean relataram tudo o que aconteceu no St. Mary's Convent com detalhes e em seguida, a encheram de perguntas sobre o que tinha acontecido com ela. Fizeram milhares de recomendações e disseram que se tinha alguma coisa diferente com ela, por causa do sangue de demônio, eles iriam lidar com aquilo juntos, como uma família.
Mia também lembrava que Dean dirigiu por horas, antes de estacionar o Impala em frente a um restaurante. Então, Sam foi comprar as refeições, voltou minutos depois e eles comeram dentro do carro mesmo.
Castiel obrigou Mia a tomar cada colherada de uma sopa que ela classificou como "horrível", Sam optou por uma salada com um suco natural e Dean pediu um X-Bacon com refrigerante. E claro, um pedaço de torta de sobremesa.
Depois disso, eles retomaram a viagem e Mia tomou três medicamentos diferentes que a deixaram sonolenta. Por causa disso, ela acabou apagando e agora estava ali, naquele quarto, em algum estado que ela não fazia ideia qual era. Mas definitivamente, não era mais em Maryland.
Depois de recordar tudo aquilo, Mia afastou o cobertor que estava sobre o seu corpo, e tomou um susto quando viu que não estava mais com a camisola ridícula do hospital. Agora ela usava um pijama, composto por uma calça cinza com coraçõezinhos pretos e uma camiseta laranja vibrante. No centro dela, havia uma estampa em formato de coração, e dentro dele, a palavra "love" repetida várias vezes com letras coloridas num tom bem escuro.
Mia achou o pijama uma gracinha, mas definitivamente, não era uma das suas roupas de dormir. Ela não sabia, mas durante o caminho, enquanto ela estava sob o forte efeito dos medicamentos, Castiel havia comprado aquele pijama e também algumas peças de roupa para ela usar durante a viagem até o bunker.
Ao lembrar do anjo, Mia olhou em volta, o procurando pelo quarto, mas Castiel não estava lá. Na poltrona, ao lado da cama, Mia acabou reconhecendo a sacola com os medicamentos e lembrou que dentro dela também havia alguns itens de higiene pessoal.
Mia sabia que não conseguiria tomar um banho, pelo menos não sem ajuda, mas sentia que precisava jogar uma água no rosto, escovar os dentes, pentear os cabelos, se recompor. No fundo, o que ela queria mesmo era se olhar no espelho e ver como estava a sua aparência. E também estava agoniada por ficar naquela mesma posição e sozinha ali. Precisava se movimentar um pouco. Com certeza, se sentiria melhor depois disso.
Devagar e com muita cautela, a caçadora sentou na cama. O quarto estava semi iluminado pelas luzes de dois abajures, um em cada lado da cama. O rádio-relógio sobre o criado-mudo marcava meia noite e Mia se perguntou onde Castiel teria ido àquela hora. Imaginou que talvez, Sam e Dean estivessem no quarto ao lado e o anjo estivesse por lá. Talvez os três estivessem conversando sobre aquele lance de imunidade a anjos, sobre a sua surpreendente recuperação, sobre o sangue de demônio, sobre Crowley, enfim sobre ela. Mia não sabia, mas o seu palpite estava certo. Sam, Dean e Castiel estavam preocupados com ela e conversavam no quarto ao lado naquele momento.
Com cuidado, a garota arrastou a perna engessada para fora da cama e segurou na cabeceira para se levantar. Esticou o braço e conseguiu pegar a sacola sobre a poltrona. Lentamente, ela deu um passo com a perna saudável e arrastou a perna engessada. Passo por passo, se apoiando na cama e nos demais móveis, Mia conseguiu alcançar o banheiro.
Entrou, acendeu a luz e se apoiou no gabinete que havia em uma das paredes azulejadas. Quando olhou para o espelho pendurado logo acima, quase gritou de susto. Ela estava um caco. E Castiel era um maluco em dizer que ela estava mais linda do que nunca.
A caçadora achou melhor não encarar o próprio reflexo e abriu a sacola. Despejou tudo sobre a pia e separou o que precisava. Primeiro, Mia lavou o rosto e sentiu-se mais disposta ao fazer isso. Depois escovou os dentes e por fim penteou os longos cabelos castanhos com bastante calma.
Era difícil fazer tudo aquilo apenas com uma das mãos, já que a outra estava apoiada na parede, sustentando o peso do seu corpo junto com a perna que Mia podia firmar no chão.
Começou a pensar que se ela ia ter que ficar com aquele gesso maldito por alguns dias, iria precisar no mínimo de uma muleta para se equilibrar melhor. Ou então, do jeito que era azarada, acabaria caindo e quebrando a outra perna. Talvez até os braços.
Mia riu de si mesma ao pensar nessas possibilidades e resolveu olhar rapidamente para o espelho. Só para verificar se estava mais apresentável. Suspirou mais tranquila ao perceber que estava bem melhor do que antes.
Em seguida, Mia abaixou a cabeça e começou a arrumar as coisas na sacola. Engoliu um analgésico que o médico havia receitado durante a sua estadia no hospital, e que Dean havia pegado na enfermaria. Achou a garrafa de água, que estava pela metade, e tomou um gole em seguida. Voltou a recolher as coisas, mas parou quando seus dedos esbarraram em um certo saquinho plástico.
Mia olhou para o anel dentro dele e sentiu o seu coração acelerar subitamente. Uma espécie de filme começou a passar pela sua cabeça. Ela pensou em tudo o que lhe aconteceu desde que Castiel apareceu no seu quarto, numa madrugada que ela nunca mais iria esquecer. Lembrou de tudo que ela viveu com ele e de todos os fatos que a marcaram até ali. Da sua fase vampira, das vezes em que morreu ou quase morreu. Lembrou do exército de Abaddon se aproximando do Mustang e do medo que sentiu. Lembrou da última festa e de Castiel dançando com ela. Do pedido de casamento. E do seu vergonhoso desmaio. Da conversa delicada na sacristia. De tudo.
Tudo aquilo parecia ter acontecido há séculos e Mia não se reconhecia mais em alguns momentos. Não acreditava que tinha dito e feito certas coisas. Como nas inúmeras vezes em que brigou ou rompeu com Castiel, por motivos que agora não pareciam mais tão importantes, ou quando recusou o seu pedido de casamento, por exemplo.
Mia se lembrou da emoção que sentiu ao colocar aquele anel no dedo, e do que sentiu quando achou que fosse morrer, depois que aqueles demônios a deixaram numa situação bem delicada. Lembrou de ter olhado para o anel ensanguentado em seu dedo e de ter dito "sim" algumas vezes, numa esperança irracional de que Castiel pudesse ouví-la. Ou apenas para mostrar para si mesma que essa deveria ter sido a sua resposta desde o começo.
Enquanto recordava tudo isso, e sentia todas aquelas emoções de novo, Mia tirou a mão da parede e ficou apoiada apenas na perna saudável. Abriu o saquinho plástico e retirou o anel de dentro dele. Emocionada, e quase sem perceber, ela o colocou no dedo anelar direito ao mesmo tempo em que Castiel abria a porta do quarto.
O anjo entrou e ao ver que a cama estava vazia, olhou em volta preocupado. Viu a caçadora no banheiro e ela se moveu um pouco para olhá-lo de frente.
– Mia! O que você está fazendo aí? Você não devia se levantar! Você está fraca e com a perna desse jeito. Vai acabar se machucando! – exclamou Castiel dando alguns passos a frente.
– Sim. – disse a garota fazendo o anjo parar no meio do quarto.
– Sim o quê? – questionou ele a olhando sem entender.
– Sim. – repetiu ela com mais firmeza na voz tentando conter a emoção que sentia.
Castiel a olhou ainda mais preocupado e disse:
– Oh, Mia... Pelo visto você ainda está com febre. É por isso que está dizendo coisa com coisa. Vem, volta para a cama.
O anjo deu um passo na direção do banheiro, mas parou de novo quando Mia ergueu a mão direita e disse mais uma vez:
– Sim.
Castiel olhou para a mão da namorada e viu o anel em seu dedo. Ao invés de entender o que Mia queria dizer, ele ficou confuso. Não sabia se tinha entendido direito. Era bom demais para ser verdade. Não podia ser verdade.
– Mia... – começou a dizer o anjo.
– Sim! – disse ela mais alto. – Sim! Sim! E sim! – repetiu para que não restasse dúvidas. – Quantas vezes eu vou ter que dizer sim? Sim, Cas! Eu me caso com você... Eu quero me casar com você... Sim, eu sempre quis isso, mas eu tive medo... Eu fui tão estúpida... Por favor, me perdoa por ser tão idiota, às vezes, eu sei que eu te magoei, mas... Sim! Se o pedido ainda estiver de pé, a minha resposta é sim. – disse deixando todas as emoções falarem mais alto enquanto Castiel a encarava visivelmente surpreso, feliz, em choque. – Por favor, diz alguma coisa. – pediu ela após um longo silêncio.
– O pedido ainda está de pé, Mia. Sempre esteve. – conseguiu dizer ele.
A caçadora abaixou a mão e reforçou:
– Então, sim. Sim... Sim... – o anjo sorriu e ela avisou – Cas, eu não posso correr até você, mas eu vou tentar se você não vier aqui agora.
O anjo sorriu ainda mais e rapidamente caminhou até o banheiro. Ao chegar lá, abraçou Mia para que ela não caísse, mas também porque precisava daquilo. Abraçá-la. Precisava dela.
Apesar de dolorida, Mia não reclamou do abraço porque era exatamente o que ela queria também. Ficar mais perto de Castiel. Sentir o seu calor. Além disso, ele sabia que ela estava em recuperação e a abraçou com bastante cuidado e carinho.
Mia sorria quando Castiel a segurou pela nuca e pressionou seus lábios contra os dela. Ela passou os braços em volta do pescoço dele e os dois se beijaram apaixonadamente, urgentemente, intensamente por um tempo completamente irrelevante.
Era bom demais para ser verdade, mas era verdade. Mia não só tinha sobrevivido como tinha dito exatamente o que Castiel queria ouvir. O que ele esperou tanto para ouvir. E valeu, valeu a pena esperar por aquele sim.
De repente, Castiel afastou o rosto e pediu:
– Diz de novo.
– Sim! – repetiu Mia antes de beijá-lo novamente. Depois encostou a testa na dele e disse mais uma vez – Sim, Cas!
Castiel segurou o rosto de Mia com carinho antes de perguntar:
– Por quê? Por que você mudou de ideia?
Mia suspirou profundamente, afastou o rosto e respondeu:
– Primeiro porque eu te amo. E segundo porque... Bem, eu quase morri, anjo. De novo. Esse tipo de coisa muda um pouco as nossas perspectivas. Eu continuo sem saber como será o nosso futuro, mas eu não quero pensar nisso agora. Eu quero viver o presente. Eu só quero viver.
Castiel a olhou com carinho. Ele entendia o que Mia queria dizer. Ele era um anjo e ela era uma humana. Era difícil prever como seria o futuro deles. Mas Castiel tinha certeza de que eles dariam um jeito. Ainda não sabia como, mas tinha certeza disso.
– Eu também te amo, Mia. – retribuiu ele a fazendo sorrir. – Mas agora vem, vamos sair deste banheiro. Hora de voltar para a cama.
Mia se apoiou em Castiel e manteve um dos braços em volta do pescoço dele, enquanto o anjo passou um braço pela cintura dela a mantendo segura e firme junto ao seu corpo.
Os dois saíam do banheiro devagar, quando a caçadora insinuou:
– Por falar em cama...
– Mia, nós não podemos. – cortou ele.
– Mas eu não disse nada. Nada mesmo. – defendeu-se a garota se fazendo de desentendida.
– Que bom porque, como eu disse, nós não podemos. – reforçou Castiel. – Não vai acontecer nada esta noite, ok?
Após um breve silêncio, Mia questionou:
– Por que não?
– Porque você não está em condições, sua maluca. – lembrou Castiel enquanto a ajudava a se deitar na cama.
– Tudo bem, você tem razão. Mas depois, quando eu estiver 100%, nós vamos ter que recuperar o tempo perdido, tudo bem? – propôs a caçadora com um olhar malicioso.
– Ok. – concordou Castiel lhe devolvendo o olhar enquanto sentava de frente para ela.
– Ah! À propósito, eu gostei do pijama. – disse Mia mudando de assunto. – Foi você que comprou?
– Sim. – respondeu o anjo.
– E vestiu em mim? – quis confirmar ela.
– Sim. – assentiu o anjo.
Mia ergueu as sobrancelhas e perguntou:
– Enquanto eu dormia?
Castiel deu um meio sorriso e admitiu:
– Sim. – e diante do olhar acusador da garota, ele esclareceu – Mas eu não fiz nada. Nada mesmo. Eu juro.
– Sei... – duvidou ela sorrindo também. – Bem, eu sei que não vai acontecer nada, nada mesmo, mas mesmo assim... Deita aqui comigo. – pediu em seguida enquanto o anjo colocava o cobertor sobre ela.
– Pedindo assim... – disse Castiel deitando ao lado de Mia instantes depois.
Ele a abraçou com cuidado e Mia suspirou profundamente antes de fechar os olhos. Mas, de repente, ela os abriu e exclamou:
– Ai meu Deus! Eu vou casar!
Castiel riu, acariciou os cabelos dela e disse:
– Nós vamos. Mas agora você precisa descansar, Mia.
– Ok. – concordou ela fechando os olhos com força. – Boa noite, anjo.
– Boa noite. – respondeu ele enquanto observava com um olhar sereno o anel no dedo da namorada. Ou melhor, no dedo da noiva. Sorriu.
Duas semanas depois
Era manhã e Mia estava no seu quarto no bunker. A caçadora dormia profundamente na enorme cama de casal, mas a sua expressão indicava que ela estava incomodada com alguma coisa. Mia estava tendo um sonho muito estranho e, de vez em quando, se mexia involuntariamente em meio aos lençóis e ao cobertor.
Ela, Castiel, Sam e Dean haviam voltado para o bunker há duas semanas. A caçadora não usava mais o gesso na perna direita, nem as bandagens no abdômen, e os hematomas no seu corpo haviam desaparecido por completo. Mia havia parado de tomar os medicamentos receitados no hospital e agora deixava que o tempo terminasse de recuperá-la. Embora já se sentisse completamente bem.
Mia não tinha mais aquelas enxaquecas, tonturas, nenhum mal estar. Mas continuava sonhando e tendo algumas visões que indicavam possíveis casos envolvendo o sobrenatural.
Como, até poucos dias, Mia não estava em condições de caçar, quando ela tinha algum presságio do tipo, ela passava as pistas para os Winchester, suas esposas e para o Bobby. Eles checaram cada pista e resolveram três casos com base nos sonhos e visões de Mia, que estavam cada vez mais claros e precisos. Definitivamente, ela estava diferente desde o acidente.
Mia também voltou a ter visões com o Metatron. Era sempre a mesma coisa. Ele em um bar, conversando com outro anjo, oferecendo a ele a oportunidade de voltar para o Céu e falando algo sobre uma escada que o levaria até lá, já que os anjos não tinham mais as suas asas para voarem.
Àquela altura, Mia já tinha descoberto o nome do bar e onde ele ficava: em Chicago. E era como se o seu lado sobrenatural estivesse insistindo, quase implorando para ela ir até aquele bar, como se fosse uma pista realmente importante.
Era por isso que Mia e Castiel pegariam a estrada ainda naquela manhã. A caçadora já estava praticamente recuperada e o anjo também estava intrigado com a frequência e com o conteúdo da tal visão. Eles precisavam ir atrás de Metatron. Agora mais do que nunca, porque a graça que Castiel tinha em seu receptáculo estava dando sinais de que estava perdendo a energia.
Ele precisava recuperar a sua graça original o quanto antes, aquela que Metatron usou para fazer o feitiço da queda dos anjos. E precisava fazer o anjo escriba, que agora se intitulava "Marv, o novo Deus" pagar por tudo o que fez ao Céu e aos anjos.
Mais do que isso, Castiel precisava limpar o seu nome porque a maioria dos anjos ainda acreditava que ele sabia o que Metatron planejava e que ele compactuou com a queda de todos eles. Castiel queria justiça e iria atrás disso, junto com Mia.
O anjo abriu a porta do quarto, pensando em acordar a garota, para que eles pudessem sair o quando antes, mas enquanto Castiel fechava a porta atrás de si, Mia se virou, arrastando o cobertor consigo, despencou da cama, bateu a cabeça no criado-mudo e resmungou um "Ai" ao finalmente acordar com o susto de cair no chão.
– Mia, você está bem? – preocupou-se Castiel se aproximando e a ajudando a se levantar.
A caçadora se apoiou nele com uma das mãos, enquanto a outra massageava a testa dolorida devido à pancada no pequeno móvel ao lado da cama, e respondeu:
– Sim, eu estou bem, anjo. Mas eu tive o pesadelo mais estranho e perturbador da face da Terra.
– Sério? E com o que você sonhou? – interessou-se ele enquanto Mia caminhava até o guarda-roupa.
Castiel se abaixou para pegar o cobertor que estava no chão e o colocou sobre a cama, enquanto Mia separava algumas roupas e pegava uma toalha para tomar um banho.
– Sabe... Eu acho melhor eu contar tudo durante o café. – disse ela fechando a porta do guarda-roupa.
– Tudo bem. Então até daqui a pouco. – assentiu o anjo a acompanhando com o olhar enquanto Mia deixava o quarto.
Minutos depois, a caçadora estava embaixo do chuveiro, ensaboando o corpo enquanto a água quente caía sobre ela.
Enquanto percorria o corpo com uma esponja macia e fazia bastante espuma, Mia não pôde deixar de reparar nas cicatrizes do acidente. Ou melhor, na ausência delas. Todas as marcas que indicariam o que ela passou perto daquele convento, que serviriam como testemunhas daquele pesadelo que ela viveu, haviam cicatrizado rapidamente e sumido completamente da sua pele nos últimos dias. Sem deixar rastros.
Era como se Mia tivesse desenvolvido uma incrível capacidade regenerativa, que poderia inclusive explicar a sua recuperação, que os médicos mesmo não conseguiram entender.
Assim como Castiel, que já havia reparado no desaparecimento das cicatrizes, Mia achava que a explicação para tudo aquilo estava no sangue de demônio. Ele realmente tinha a mudado de alguma forma. Lhe dado a imunidade a anjos, aquela capacidade de regeneração, deixado as suas visões mais claras e ainda sumido com as fortes enxaquecas e com todo o mal estar que ela costumava sentir quando estava prestes a ter alguma visão ou quando tinha algum pesadelo.
Mia estava mais forte. E isso não parecia ser algo ruim. Pela primeira vez, o sangue de demônio no seu corpo não parecia ser um inimigo, mas sim um importante aliado. No entanto, só o tempo diria até onde ele iria, até onde a mudaria e o que tudo aquilo significava.
XXX
Depois do banho, Mia desceu para tomar café e encontrou todos, exceto Bobby, sentados à mesa. Suspirou feliz, se aproximou, puxou uma cadeira e sentou ao lado de Castiel enquanto dizia:
– Bom dia! Eu já disse que eu vou me casar?
– Bom dia. – responderam todos enquanto Castiel dava um meio sorriso e a olhava de canto.
Depois de fingir que estava contando nos dedos, Dean respondeu:
– Com essa é... A milésima vez? Bem, sei lá, eu já perdi a conta.
Mia pegou uma xícara e enquanto a enchia com café, prosseguiu:
– E eu já disse que vocês são os padrinhos e madrinhas, não é?
– Umas mil vezes. – respondeu Natalie enquanto devorava um pedaço de torta e tomava um pouco de suco de laranja.
– E nós estamos honrados com o convite. – afirmou Sam.
– Muito honrados. – completou Claire sorrindo levemente para o casal.
Neste momento, Bobby entrou na sala e guardou o celular dentro do bolso da jaqueta surrada que vestia.
– Bom dia, filha. – cumprimentou ele olhando serenamente para Claire enquanto se aproximava da mesa.
– Bom dia, pai. – respondeu ela.
– Bom dia, idjits. – disse Bobby olhando para as outras pessoas na mesa depois de se sentar.
– Bom dia. – responderam os outros.
– Por acaso você estava falando com a Jody? – indagou Mia que tinha notado que Bobby entrou ali segurando o celular, como se tivesse acabado de encerrar uma ligação.
– Não que isso seja da sua conta, cupido, mas sim. Eu estava falando com a Jody. – confessou Bobby fazendo todos olharem para ele esperando mais detalhes. – O quê? Ela só estava me contando sobre um possível caso no Arkansas. Parecem ser ghouls. – esclareceu ele incomodado com aqueles olhares curiosos e que tendiam a tirar conclusões precipitadas.
– Sei. – provocou Mia sem acreditar que tinha sido só sobre aquilo que Bobby e Jody tinham conversado ao telefone.
– Então você vai caçar? – perguntou Claire tentando salvar o pai daquele momento embaraçoso.
– Sim. Você quer vir comigo? – sugeriu Bobby.
– Eu adoraria, mas vai ter que ficar para a próxima, porque eu já combinei de ir caçar com a Natalie. – respondeu a filha.
Sam e Dean pararam de tomar o café e olharam para as duas visivelmente surpresos. Foi o mais novo que resolveu perguntar:
– Como assim você combinou de ir caçar com a Natalie?
Claire franziu o cenho um pouco confusa e disse:
– Sam, meu amor, eu te falei disso ontem e você concordou, lembra?
– Eu concordei? – surpreendeu-se o Winchester mais novo tentando se lembrar do que tinha acontecido na noite anterior. E ao fazer isso e se lembrar, ficou um tanto vermelho e acrescentou constrangido – Ah, é. Eu concordei.
Enquanto Sam tomava mais um gole de café e evitava alguns olhares sobre ele, Dean voltou-se para Natalie e questionou:
– Baby, e por que você não me contou?
– Por que eu contaria? – rebateu a loira achando aquela pergunta meio sem sentido.
– Porque eu sou o seu marido. – lembrou Dean com certa indignação.
– Eu sei disso, benzinho. Mas eu sou caçadora também e não acho que eu preciso te dar satisfações de tudo o que eu faço. – respondeu Natalie naturalmente.
– Isso é jeito de falar com o seu marido? E na frente de todo mundo? Você quer me matar de vergonha, Natalie Winchester? – esbravejou Dean.
– Natalie Jones. Eu não mudei o meu sobrenome. Eu gosto dele e é bem mais bonito do que o seu. – esclareceu ela. – Mas tudo bem, me desculpe por não ter contado sobre a caçada. Foi mal.
– Tudo bem, não tem problema. Mas nós vamos com vocês. – disse Dean.
– O quê? De jeito nenhum. – discordou Natalie prontamente.
– Algum problema sobre eu e o Sammy irmos com vocês? – estranhou Dean.
– Não, nenhum. – interveio Claire. – Mas é que... A Natalie e eu somos amigas e nos demos conta de que nunca caçamos juntas. Então, o Garth nos ligou, falou de um caso envolvendo bruxaria e nós achamos que seria legal irmos conferir isso juntas.
Dean olhou para Natalie e perguntou com certa tristeza:
– Então é isso? Você não gosta mais de caçar comigo?
Natalie sorriu e, o olhando com carinho, respondeu:
– Claro que eu gosto, Sr. Awesome. Mas isso não significa que nós temos que caçar sempre juntos, que temos que ficar o tempo todo juntos, entendeu?
– Em outras palavras, você e a Claire estão nos dispensando. – deduziu Sam também meio desanimado com aquela ideia e preocupado que a esposa fosse caçar sem ele.
Claire segurou a mão de Sam sobre a mesa e explicou:
– Claro que não. Eu só quero caçar com ela e a Natalie comigo. Só para... Sei lá, fazer um programa de amigas. Qual é o problema?
– Caçar não é um programa de amigas. Caçar nem é um programa. – protestou Dean.
– Além disso, é perigoso. Duas mulheres caçando por aí... Sozinhas. Onde já se viu? – preocupou-se Sam.
Cansada daquela conversa que não levava a lugar algum, Mia colocou a xícara vazia sobre a mesa, olhou para os Winchesters e resolveu se intrometer:
– Olha, eu acho que as meninas só não querem ficar tão dependentes de vocês. E vocês também não deviam ficar tão dependentes delas. Vocês se amam, estão juntos, e formam boas duplas caçando, tudo bem. Mas por que vocês dois não fazem a mesma coisa, meninos? Por que vocês não vão caçar alguma coisa por aí, também? Como nos velhos tempos. – Sam e Dean se entreolharam. Fazia um bom tempo que os dois não caçavam juntos. – Imagina depois como vai ser quando vocês reencontrarem as suas lindas esposas, hein? Vocês vão poder dividir experiências, matar a saudade, namorar bastante e...
– Ok, Mia! – interrompeu Sam temendo que a garota entrasse em mais detalhes.
– Nós já entendemos. E quer saber? Você está certa. – aprovou Dean e olhando para Natalie, provocou – Sinto muito, baby, mas agora quem não quer mais caçar com você, sou eu, ok? Pode ir caçar com a minha cunhada, eu não ligo. Nem o meu irmão, não é, Sammy?
– Nem um pouco. – concordou o mais novo. – Inclusive, eu acho que vocês deviam ir logo. Agora mesmo. Nem precisam terminar o café.
Claire riu da rabugice de Sam e questionou:
– Então quer dizer que você não vai ficar preocupado comigo?
O Winchester mais novo hesitou, mas por fim resolveu mentir:
– Não.
– Nem você, Sr. Awesome? – perguntou Natalie esperando uma resposta afirmativa e repleta de carinho.
– Eu não. – mentiu Dean enquanto retomava a refeição. – Por que eu me preocuparia? Você é uma caçadora, lembra? Vai em frente.
Natalie fechou a cara e pegou o último pedaço de torta.
– Ei! – protestou Dean. – Esse pedaço era meu!
– Sério? Que estranho porque eu não vi o seu nome nele. – resmungou a loira colocando um pedaço da torta na boca e fechando os olhos enquanto o saboreava.
Dean fechou a cara e Claire voltou-se para o marido ao dizer:
– Sam, olha, é sério, você não precisa se preocupar...
– Quem disse que eu estou preocupado? – interrompeu ele sem olhar para ela. – Eu já disse, eu não estou. Pode ir. Eu vou caçar também, e com o meu irmão. Nós caçávamos juntos bem antes de vocês duas aparecerem, sabia?
Claire suspirou inconformada com o rumo que aquela conversa tomou. Mas preferiu se mostrar indiferente e disse com desdém:
– Tudo bem. Assunto resolvido.
– Resolvido e completamente esclarecido. – rebateu Sam.
– Ótimo. – falou Natalie.
– Ponto final. – completou Dean.
Então os quatro suspiraram um tanto irritados com a pequena discussão, ficaram em silêncio, concentrados na refeição e evitando olhar um para o outro.
Castiel, Bobby e Mia se entreolharam e deram de ombros. Eles sabiam que os casais não estavam discutindo de verdade. Era só uma briguinha de casal sem muita importância, que envolvia um pouco de carência e muito instinto protetor.
Mesmo assim, o clima estava ficando um pouco tenso e Castiel resolveu começar uma nova conversa:
– Ah... Mia, você disse que sonhou com alguma coisa. O que foi?
A garota agradeceu mentalmente por Castiel ter quebrado aquele silêncio constrangedor, tomou um gole de café e, antes de dar uma mordida em uma torrada com geleia, ela respondeu:
– Então, na verdade foi bem estranho. Eu sonhei que a Claire e a Natalie estavam grávidas.
Se soubesse o efeito que aquela revelação iria causar, Castiel com certeza teria ficado em silêncio. Mas era tarde demais. Ouvir aquilo, fez Natalie se engasgar com o pedaço de torta, Claire engasgar com o café com leite, Dean cuspir um pouco de suco, tamanho o susto que levou, e Sam derrubar a xícara de café na mesa, depois de também cuspir o líquido, por ter ficado tão assustado quanto o irmão.
Mia olhou para tudo aquilo confusa, enquanto Bobby pensava à respeito daquele sonho com um olhar sereno e distante, e Castiel passava as mãos pelo rosto, arrependido por ter iniciado, sem perceber, um assunto delicado e embaraçoso.
– Gente, mas o que foi que eu disse de tão grave? – estranhou Mia.
Dean pegou um guardanapo e limpou a boca. Sam fez o mesmo e voltou-se para Claire preocupado. Deu leves tapas nas costas dela para a esposa desengasgar. Dean fez o mesmo em relação à Natalie e rebateu indignado:
– O que foi que você disse de tão grave?! Mia... Você é maluca? Como que você diz uma coisa dessas com a maior naturalidade do mundo em pleno café da manhã? Como você achou que nós fôssemos reagir?!
– Bem, certamente não desse jeito. – respondeu ela enquanto observava Natalie e Claire tomando alguns goles de água que Dean e Sam serviram para elas rapidamente. – Além disso, eu nem contei a parte mais estranha.
– Por favor, não conte. – pediu Sam e olhando para a esposa, perguntou – Claire, você está bem?
Ela tomou mais um pouco da água, respirou fundo e respondeu:
– Sim...
– Naty, você está grávida? – perguntou Dean distraído fazendo a loira arregalar os olhos. Rapidamente, ele voltou a si e corrigiu – Eu quis dizer "bem"! Você está bem?
– Acho que sim. – respondeu a loira tomando o restante da água e servindo mais um pouco em seguida.
– Grávida ou bem? – quis confirmar Dean, mas diante do olhar fuzilador da esposa, ele entendeu qual era a resposta.
– Qual era a parte mais estranha? – indagou Bobby fazendo um silêncio se instalar em seguida.
Os dois casais olharam para ele e em seguida para Mia um tanto apreensivos. Não tinham certeza se queriam saber a resposta, mas de repente, a curiosidade pareceu maior do que toda a confusão que aquele assunto causava neles. Precisavam saber a resposta. Mas antes de dá-la, Mia resolveu esclarecer algumas coisas:
– Tudo bem, antes de mais... Nada... Nada mesmo... Nem tudo o que eu sonho são presságios. Às vezes, são só sonhos mesmo sem qualquer significado. – após uma pausa pensando, ela ressalvou – Se bem que este sonho, particularmente, parecia bem real.
– Eu acho que eu estou passando mal... – murmurou Claire segurando o copo d'água com as mãos trêmulas e bebendo mais alguns goles.
– Do quê? Não me diga que você está enjoada? – perguntou o Winchester mais novo sem perceber. E quando a esposa engasgou mais uma vez, ele voltou a bater nas costas dela e lamentou – Me desculpe...
– Mas não se preocupem. Mesmo que seja um presságio, eu tive a impressão de que tudo aquilo se passava bem no futuro. Então vocês não precisam se preocupar com isso agora. Não pirem. Ainda. – tentou tranquilizar Mia. – Além disso, se vocês não querem ter filhos, existem muitas formas de prevenir... Vocês sabem disso, não é? Eu, por exemplo, tomo pílula regularmente...
– Mia! – repreendeu Dean achando aquela conversa cada vez mais embaraçosa.
– Ok! – assentiu ela nervosa com todo aquele alarde.
– Conta logo qual era a parte mais estranha. – pediu Natalie querendo acabar logo com toda aquela agonia.
– Tudo bem. Eu vou contar. – anunciou Mia e depois de um momento em silêncio, relatou – Bem, o sonho começava com você e a Claire grávidas, mas quando ele terminou... As crianças já tinham crescido um pouco. Vocês as chamavam, respectivamente, de... Henry e Rachel e... Me convidavam para ser a madrinha.
Natalie e Claire não acharam estranha a parte em que elas faziam aquele convite para Mia. O que as deixou completamente estupefatas foram os nomes que a caçadora mencionou. E ouvir aqueles nomes, também deixaram Sam e Dean completamente em choque, pasmos, sem reação.
Mia não tinha como saber, mas os dois casais já haviam conversado sobre aquele assunto, e mencionado aqueles nomes quando se perguntaram como chamariam os seus filhos. Se eles fossem ter filhos, é claro. O que não era o caso.
Mas Mia não sabia o que aqueles nomes significavam para aqueles casais, eles não tinham dito absolutamente nada sobre aquilo para a garota. Então, como ela sabia? Como ela sonhou com aqueles nomes? Justo com aqueles nomes?
Foi Natalie que quebrou o silêncio dizendo:
– Ok, para mim já chega. Vamos, Claire.
A loira levantou da mesa e Claire levantou em seguida. Ela percebeu que Sam a olhava com uma expressão confusa, de alguém que não sabia o que pensar e, antes de se afastar, fez questão de pedir:
– Nem uma palavra sobre este assunto. Por favor.
O Winchester mais novo voltou-se para o irmão que permanecia mudo, assim como ele. Se entreolharam um tanto assustados.
Desta vez, foi Bobby que quebrou o silêncio dizendo:
– Uma netinha? – os olhos do caçador brilharam ao imaginar como seria uma filha de Claire e Sam. Nunca tinha pensado naquela possibilidade, mas de alguma forma, ela lhe agradou profundamente. Mais do que ele conseguia compreender. – E um garotinho? Bem, de certa forma, ele seria meu neto também, não é? – acrescentou enquanto imaginava um filho de Dean e Natalie.
Bobby sorriu e Sam e Dean arregalaram os olhos ao notarem certa empolgação naquele sorriso. O mais velho levantou e se afastou da mesa rapidamente dizendo:
– Para mim, também já chega.
– Com licença. – pediu Sam antes de se levantar e seguir o irmão.
– O que deu neles? – estranhou Mia enquanto Bobby suspirava e voltava a tomar o café.
Momentos depois, o caçador levantou da mesa e se despediu:
– Bem, eu tenho que ir. Boa sorte com o Metatron.
– Obrigado. Nós vamos precisar. – respondeu Castiel.
– Boa sorte com a Jody... – insinuou Mia com um leve sorriso.
– Idjit... – resmungou Bobby antes de sair com o rosto um tanto vermelho.
Sozinho com Mia, Castiel reparou que a garota estava enchendo a xícara com café mais uma vez. Então ele perguntou:
– Mia, quantas dessa você já tomou?
– Ah, anjo... Não faça perguntas difíceis. Eu tive o sonho mais estranho do universo e preciso relaxar um pouco. – justificou-se ela.
Castiel achou melhor não discutir e ficou em silêncio pensando no sonho da garota. De repente, sem perceber, a pergunta acabou saindo da sua boca de uma forma incrivelmente natural:
– Mia, o que você acha de filhos?
Ao ouvir aquilo, a caçadora tomou um susto tão grande que engasgou com o café e a xícara caiu sobre a mesa derrubando o líquido quente sobre o jogo americano. Castiel a olhou preocupado e começou a bater nas costas da garota. Não entendia o que tinha dito de tão chocante para deixá-la naquele estado. Era só uma pergunta.
– Calma, respira... – orientou ele.
Ainda recuperando o fôlego, Mia passou um guardanapo pelos lábios e levantou dizendo:
– Eu vou pegar a minha mala.
– Já está no carro. – avisou Castiel que tinha pedido o veículo da Claire emprestado por enquanto que ele e Mia procuravam outro para substituir o Mustang.
– Então vamos. – respondeu Mia fazendo o anjo levantar e a seguir.
Ao chegarem do lado de fora, eles viram Claire, Natalie, Sam e Dean se despedindo perto do Camaro da loira. Aparentemente, eles tinham esquecido a pequena discussão durante o café da manhã sobre caçarem separados, mas ainda estavam sob o efeito do que tinham ouvido de Mia, sobre o sonho mais estranho e perturbador do universo. Via-se que os quatro estavam fazendo um enorme esforço para evitar o assunto e tentando agir naturalmente.
Bobby passou por eles e buzinou. Ele dirigia uma caminhonete que havia reformado no seu ferro velho na última semana. Os casais acenaram para ele e o observaram se afastando por alguns instantes.
Em seguida, Sam voltou-se para a esposa, que estava na sua frente e orientou:
– Se cuida. – e depois de uma pausa, esclareceu – E... Eu não estou com raiva de verdade por você ir sem mim. Eu só me preocupo. Demais.
– Eu sei. Mas não se preocupe tanto, ok? – pediu Claire o olhando com carinho. – Eu fui muito bem preparada para isso. Tive um excelente professor.
Em seguida, a garota se aproximou mais um pouco e tocou os lábios de Sam com um beijo suave. Ele segurou em seu rosto com carinho e aprofundou o beijo o tornando mais envolvente e caloroso. Depois afastou o rosto e declarou:
– Eu te amo.
– Eu também te amo. E logo eu estarei de volta, ok? – disse Claire sorrindo levemente para ele, já com certa saudade.
– Ok. – assentiu o Winchester mais novo.
Então Claire se afastou e entrou no carro de Natalie, que naquele momento se despedia de Dean com um beijo apaixonado.
Quando a loira afastou o rosto, Dean murmurou sem fôlego:
– Oh, baby... Você me deixa louco, sabia?
– A recíproca é verdadeira, Sr. Awesome. – retribuiu Natalie ainda com os braços em volta do pescoço do caçador. Em seguida, ela pensou um pouco e mudou de assunto – Olha, eu prometo que da próxima vez que eu for caçar, nós vamos juntos, tudo bem?
– Combinado. – concordou Dean. – E... Eu não me importo que você vá com a Claire desta vez, eu só... Vou ficar com saudade.
– Eu também. – admitiu a loira. – Mas logo eu estarei de volta. E eu prometo que vou trazer uma torta deliciosa para você. – os olhos de Dean brilharam ao ouvir aquilo e brilharam ainda mais quando Natalie insinuou – Para a gente, na verdade. E com bastante chantilly.
– Eu te amo, sua insuportável. – disse ele em seguida lhe dando um selinho demorado.
– Eu também te amo, idiota. – retribuiu Natalie antes de se afastar e entrar no Camaro, enquanto Mia e Castiel entravam na Pajero que estava estacionada perto dali.
– Você não respondeu a minha pergunta. – lembrou Castiel enquanto a noiva colocava o cinto de segurança.
Incomodada com aquele assunto, Mia passou as mãos pelos cabelos, depois mostrou a aliança em seu dedo e esclareceu:
– Está vendo? Eu vou me casar. Nós vamos nos casar. E eu estou muito ansiosa e feliz por isso, Cas. Mas filhos? Filhos nem pensar. Filhos estão fora de cogitação e eu tenho certeza que você entende os motivos.
– Eu não estou dizendo que nós vamos ter filhos, Mia, eu só estou perguntando o que você acharia de ter filhos? Se já pensou nisso? Alguma vez? Em algum momento? – perguntou o anjo e como Mia não respondeu, ele mudou de estratégia – Tudo bem, então me diz só que nome você daria. Eu ia querer um nome bíblico. Abrahão, talvez.
– Quê?! – desaprovou Mia. – Nunca que eu ia deixar você colocar esse nome ridículo em uma criança inocente.
– Abrahão foi um grande homem. – argumentou Castiel um pouco ofendido.
– Mas tinha um nome muito feio. – contrapôs Mia.
Castiel suspirou e insistiu:
– Certo, mas então que nome você daria? Se fosse uma menina, por exemplo. Mas ia ter que ser um nome bíblico de qualquer jeito.
– Ia ter que ser um nome moderno. – corrigiu Mia.
– Bíblico e moderno. – propôs Castiel para acabar com o impasse. – E então? Como ela se chamaria?
A caçadora ficou em silêncio encarando o anjo com uma expressão confusa. Não entendia por que de repente aquele assunto tinha surgido entre eles, muito menos por que Castiel estava dando tanta importância para aquilo. Resolveu apelar para o lado da razão e lembrou:
– Cas, ela nem seria uma criança normal. Seria uma nephilim. Com sangue de demônio. Atrapalhada como o pai e elétrica como a mãe. Nós não podemos fazer isso com o mundo.
– Que nome? – insistiu o anjo tomado por uma curiosidade que não entendia, mas que de repente estava lá, o dominando cada vez mais.
Mia suspirou vencida. Entendeu que Castiel não ia desistir de ter uma resposta sua. Os dois tinham uma longa estrada até Chicago, então era melhor ela responder de uma vez e encerrar aquele assunto.
Então Mia pensou um pouco, bastante na verdade, olhou para o anjo e respondeu:
– Isabel.
Os dois se olharam em silêncio por algum tempo, sentindo que aquele assunto mexeu com eles de alguma forma. Sentindo que aquele nome mexeu com eles de alguma forma.
De repente, Mia voltou-se para a direção e deu partida. Enquanto os dois se afastavam do bunker, ela ouviu Castiel dizer:
– Eu gosto de Isabel.
Mia o olhou pelo retrovisor e observou a sua expressão serena antes de falar:
– Eu também gosto. É bonito, né?
– É lindo. – opinou o anjo.
Mia e Castiel ficaram em silêncio novamente e, sem perceber, sorriram enquanto imaginavam a pequena Isabel.
Enquanto isso, Sam e Dean observavam o Camaro e a Pajero se afastando até que o mais velho começou:
– Sammy.
– O quê? – disse o caçula.
– Eu preciso caçar. – confessou Dean um tanto aflito.
– É, eu também. – admitiu Sam. – Mas nós nem temos um caso para investigar, nenhuma pista, nem um ponto de partida...
– Nós podemos pensar nisso no caminho. Está cheio de coisas para caçar por aí. – sugeriu o mais velho. – O que eu não posso é continuar aqui, sem a minha Baby, e com este assunto das... Mini pessoas martelando na minha cabeça.
Sam pensou um pouco, e ainda com os olhos fixos nos carros que seguiam ao longe, perguntou:
– Dean, você acha que o sonho da Mia pode se concretizar um dia?
O Winchester mais velho pensou um pouco e respondeu intrigado:
– Eu não tenho ideia.
Os dois ficaram em silêncio e quando os veículos desapareceram do alcance de visão deles, Sam anunciou:
– Tudo bem, então eu vou arrumar as coisas para a viagem.
Em seguida, ele se afastou e caminhou na direção do bunker. Logo Dean o seguiu e ofereceu:
– Eu te ajudo. – e afastando todos os pensamentos sobre aquele delicado assunto (mini pessoas), Dean encerrou animado – Vamos caçar, Sammy! E fazer aquelas duas malucas morrerem de saudade da gente. Elas vão ver só...
O mais novo riu e os dois entraram no bunker. Meia hora depois, após arrumarem tudo o que precisavam levar no porta-malas do Impala, os dois também partiram. Para salvar pessoas e caçar coisas, já que definitivamente aquele era o negócio da família.
FIM
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