Crooked
15 Can a Crooked soul work?
Notas iniciais
There was a crooked man and he walked a crooked mile.
(Um homem torto andou por uma trilha torta)
He found a crooked sixpence upon a crooked stile.
(Ele encontrou uma moeda torta numa área torta)
He bought a crooked cat which caught a crooked mouse.
(Ele comprou um gato torto que pegou um rato torto)
And they all lived together in a crooked little house.
(E todos viveram juntos numa pequena casa torta)
– The Crooked Man (O Homem Torto)
Aquelas três horas que passou acordado pareceram minutos. Nico piscou e piscou mais uma vez, tentando compreender a imagem à sua frente. A ruiva ainda estava do seu lado, olhando-o com descontentamento. Ele sabia o que ela iria dizer antes mesmo que abrisse a boca.
– Eu juro para você, se não beber esse chocolate quente... – ela começou a ameaçar. Ele abaixou o rosto, mostrando como estava cansado e tonto.
– Vou vomitar com esse cheiro... – Nico murmurou apertando a caneca entre os dedos frios, tentando controlar a tremedeira. – Não posso. Não dá.
– Nico, pelo amor de Deus- claro que dá! – Rachel exclamou raivosa. Ela pegou a caneca de forma bruta e aproximou do seu rosto, forçando-o a tomar o achocolatado. Nico quis tentar fazê-la parar, mas estava muito fraco para conseguir.
Sua garganta foi esquentando e, com ela, o sangue. Sentiu como se ela tivesse inchado, mas não era isso. Ele perdeu a vontade de lutar, abrindo melhor a boca e deixando o líquido descer, tentando segurar a caneca com as mãos trêmulas, mas foi afastado.
Nico sentia muito bem o caminho que o achocolatado fazia até sentar no seu organismo, aquecendo sua barriga por dentro – uma sensação engraçada atrás da pele. Quando Rachel afastou a caneca, ela estava sorrindo toda orgulhosa e boba.
– Viu? Chocolate cura tudo.
Nico abriu a boca, mas nenhum som saiu. Não conseguia formular nada. Sentia que se tentasse, o resultado seria ruim, muito ruim. Ele olhou para frente, achando Percy numa distância considerável – longe o bastante para que ele não ouvisse o que dizia – abraçando sua irmã mais nova, Lilo. Annabeth a abraçava também, sem tocar em Percy.
Ela chorava descontroladamente e a imagem fez algo estralar na mente de Nico. Por quê? Quando? Onde? Suas células corriam uma maratona, alertas e barulhentas de mais. Ele precisava juntar as peças – estava pertíssimo disso, mas algo o segurava no lugar.
Algo não o permitia entender completamente.
Um barulho de carro estacionando perto do deles chamou a atenção do pequeno grupo. Estavam no encostamento da estrada, mata cobrindo tudo do lado do asfalto. Ele e Rachel sentavam-se na garupa da caminhonete negra que usaram para fugir da cidade, Nico estando acordado apenas há três horas desde então.
Seu cérebro parecia marshmallow derretido.
O carro parou um pouco mais à frente da caminhonete, dele saindo Reyna, Dakota, Charles e Chris. Lembrava-se vagamente deles, por que não foi próximo de nenhum. Por que eles haviam ficado para trás? Não sabia dizer nem por que estavam ali.
Então ele notou que usavam um tipo de uniforme. Levantando os olhos – da roupa até o rosto, Nico viu Reyna o encarando com uma expressão dura e descontente. Os outros o evitavam do melhor jeito que podiam o que era quase impossível.
Percy se aproximou sem que Nico notasse. Lilo estava com Annabeth, que não sabia com o quê ficar preocupada: A garota nos seus braços ou os recém-chegados.
– E ai? – Percy perguntou. Reyna cruzou os braços, semicerrando os olhos para ele.
– O que espera que eu diga? – ela retrucou de forma bruta. Não parecia ela mesma. – Está tudo uma merda lá agora, e mesmo assim vocês optaram por esperar. Obrigado, Percy, obrigado mesmo pela a ajuda.
– Calma ai, Major! – foi Rachel quem pulou da garupa, deixando Nico sozinho. – Você pode mesmo nos culpar? ‘Nos conhece desde que cagávamos nas calças, ninguém aqui iria para o Refúgio sem ver você antes.
– Uma garota pode sonhar, não pode? – foi Dakota que debochou. Rachel olhou feio para ele. – Mas não adianta brigar por essa merda, não é?
– Era o que eu ia dizer. – Chris deu um passo à frente, sério. – Agora já foi, estamos reunidos de qualquer jeito. Os... INVICTUS vão passar lá a qualquer momento, e não dá pra saber o que eles vão decidir.
– Não é meio óbvio? – Percy disse miserável. Ele virou o rosto para olhar para Nico, assustando-o. – Eles vão me forçar voltar... E o Nico também.
– O que rolou com o guri? – Dakota perguntou, franzindo o cenho para Nico.
Nico se encolheu. O que aconteceu com ele? Por que as coisas estavam tão estranhas e estremecidas ao seu redor, como um filme com má qualidade? O que era aquele sentimento fervoroso esmagando seu coração, que de repente era muito pesado para ele aguentar.
Nico ficou com medo, abraçando seus braços e abaixando o rosto. Fechou os olhos, sendo confortado pela escuridão da fuga. De não enxergar mais nada que não quisesse. Quis continuar imerso ali para sempre, então a escuridão foi se clareando como se o Sol a queimasse até que desaparecesse por completo.
No lugar da escuridão, ele viu imagens. Várias delas que o formavam, o destruíam e o alimentavam. Elas eram ele, do início até o fim. Horrorizado com o quebra-cabeça que ele havia acabado de juntar, Nico gritou. Ele caiu para trás na garupa aos gritos, sentindo como se convulsionasse.
BiancaEthanBiancaEthanLukeEthanBiancaLukeEthanPai.
Nico.
Todos mortos por sua causa.
– Nico! Nico, ei! – a voz finalmente o alcançou, forçando suas pálpebras de se separarem. Nico sentiu a dor de ter as forçando tanto uma contra a outra, coisa que não lembrava passar a tanto, tanto tempo... – Nico... Você está chorando? – Percy indagou mortificado. Tinha um agarre de ferro sobre os ombros de Nico, só assim conseguindo parar o seu surto.
Nico sentiu como se tivesse aberto os olhos pela a primeira vez. Roubou mais ar do que poderia e engasgou no processo. Mas não se importou. Estava vidrado na copa de árvores fazendo sombra sobre o seu rosto, tornando-se mais verdes enquanto ele as encarava. Então Nico girou os olhos até achar Percy, notando como os lábios dele eram rosados e a pele bronzeada.
Mais bronzeada do que antes.
Era como se ele tivesse usado óculos embaçados a vida toda e alguém finalmente o havia limpado.
Nico sentiu a umidade nas bochechas, que só aumentava conforme seu choro piorava. Ele nunca percebeu que estava chorando. Mas não era estranho que a primeira coisa que fizesse quando voltasse a ser vivo fosse chorar, por que Nico segurara há tanto, tanto tempo.
Foi a coisa que ele mais desejou quando morto.
Levou as mãos fracas sobre os olhos, notando as ataduras feitas nos pulsos que tentara perfurar e sentindo outra na barriga o atrapalhando enquanto se movia e respirava. Ela machucava. Causava dor. Nico começou a tossir incontrolavelmente, sem entender o motivo.
Tinha muitas coisas que ele não entendia.
– Dude, — Dakota soou surpreso como todo mundo. – Ele tá... Tipo... Vivo? O coração dele tá batendo?
Nico olhou para Percy como se perguntasse: “Eu estou vivo?”. Percy assentiu completamente desnorteado. Ele levantou o rosto, assentindo para o grupo agora.
– Ele tem pulso. – Percy segurou a mão de Nico com delicadeza, deslizando os dedos até um dos pulsos machucados. Conseguia sentir o coração por de baixo da atadura. — Como a gente.
– Céus. – Reyna levou as mãos à cabeça, começando a andar em círculos. – Kronos estava certo, ele estava certo, porra! – ela deu um soco na porta do carro, perdendo o controle da voz e de tudo. Soltou uma respiração.
– Não, pera ai! – Rachel exclamou. – O Kronos achou que ia ter outro Renascimento, que outros zumbis iam levantar dos túmulos. Isso – ela apontou para Nico que era segurado por Percy. – não é outro Renascimento. É tipo...
– Um milagre? – Chris perguntou com a voz cheia de amargura e incerteza. – É o que as Comunidades queriam.
– O que você quer dizer?
Essa foi a primeira vez que Annabeth se pronunciou na conversa. Chris crispou os lábios.
– Clarisse me contou. Disse que ela não podia ficar mais na cidade se sentindo vigiada, e eu perguntei por quem. Aparentemente... A Comunidade também achava que o Nico era o Primeiro Renascido que traria o Segundo Renascimento.
– Por quê? – Annabeth soltou Lilo por um instante, aproximando-se. – Além de Nico ter sido o primeiro a levantar, eu suponho, e a “brincadeira” com o parentesco dele. O que o fez ser o Primeiro Renascido?
– Por que ele foi o primeiro a morrer? – Rachel murmurou. – Antes das outras mortes na cidade, ele... Praticou suicídio primeiro.
– Puta que pariu velho. – Dakota deu um tapa na própria testa. – Isso explica os zumbis e os soldados eram coisa da INVICTUS. Eles provavelmente estavam apoiando Kronos com a ideia maluca do Renascimento, o que torna tudo pior.
– Então... Tinha um partido político contra os zumbis, uma Comunidade de zumbis e um fanático maluco atrás do Nico? – Charles se pronunciou, recebendo um olhar feio de Chris.
– Não faz sentido. – Rachel soou aflita. – O Segundo Renascimento não aconteceu, mesmo assim... Nico está...
– Ele aconteceu, Rachel. – Annabeth completou, olhando diretamente para Nico. Ele fez um esforço para se libertar de Percy, mais por não querer do que pela a força do garoto.
Ele sentia nas veias quentes e pulsantes que tinha que fazer aquilo. Tinha que se mexer agora antes que fosse muito tarde, mesmo que estivesse numa condição horrível – o cérebro e os sentidos voltando à vida da pior forma. Quanto mais cedo enfrentasse, mais cedo acabaria.
Nico passou por muita coisa para não conseguir passar por aquela.
– Por que eu não morri. – Nico grunhiu, levando uma mão à testa e a enterrado no cabelo negro. – O Primeiro e o Segundo Renascidos iriam ter que ser sacrificados até o final daquele dia. O Segundo morreu, mas eu não.
– Quem era? – Percy perguntou cheio de preocupação. Nico balançou a cabeça negativamente, apertando os lábios. Claro que ele ainda chorava. Tentou apagar todas as imagens que passavam na cabeça, para que o choro não piorasse. Não era hora para aquilo.
– Mas o que tem o Segundo? – Annabeth perguntou.
– Ele iria me morder. – Nico respirou fundo, encarando o chão. Sentia como se a visão tivesse escurecido de repente. – Ethan ia me transformar num zumbi e então não ocorreria um Segundo Renascimento. – um grande peso sobre as costas de Nico o forçou se curvar, sem coragem e capacidade de continuar.
Mas era estúpido da sua parte achar que o que sentia importava.
– Porra. – Reyna cortou o silêncio tenso e surpreso que se instalou entre os jovens, dando um soco na porta do carro. Nico pode ouvi-la andando até ele com passos pesados para depois ter a cabeça levantada por ela, a aparência patética à mostra. – Está seriamente dizendo que só você vai voltar à vida por que Ethan foi morto? Perdeu a mente de vez?
Percy puxou o braço de Reyna.
– Você precisa se acalmar, Ramirez. – ele a encarou de forma rígida, fazendo-a se afastar com brutalidade. Reyna estava muito zangada para reagir daquela forma. Ninguém poderia culpa-la, tinha acabado de sair de uma guerra e matado mais pessoas do que poderia contar. – Não adianta ficar assim agora.
– Falou o especialista em sentimentos, não é?! – Reyna retrucou. Ela balançou a cabeça e bufou, perdendo a raiva com o tempo. – Eu sei, Perseu. Eu sei.
– Você tem direito de ficar irritada, Rey. – Rachel tocou o ombro dela com cautela. – Todos nós temos.
– Claro, mas não por muito tempo. – Annabeth soou. Ela estava de braços cruzados com a postura impassível. – Não dá para ir ao Refúgio “mais tarde”. Quanto mais cedo deixarmos Nico lá, mais cedo podemos voltar para a Olímpia Antiga e resolver tudo. De uma vez por todas.
– São oito horas e meia de viagem. – Charles resmungou. – O máximo que consigo agora é ir até um motel, e não me importa o que vocês acham sobre isso.
– Charles está certo. – surpreendentemente, foi Reyna quem o apoiou. – Não vai ser bom para nenhum de nós voltarmos para lá agora.
Reyna e Percy trocaram olhares tensos, como se fossem dois líderes tentando descobrir o movimento um do outro. Percy levantou as mãos em rendição, o rosto tenso de tão sério. Reyna apenas balançou a cabeça negativamente e suspirou, saindo junto com Rachel em direção aos carros.
Percy tocou o ombro de Nico, inclinando-se para ficar à altura do seu rosto. Nico não conseguia ver mais nada além do rosto dele.
– Hora de te levar pra um lugar seguro.
Nico o abraçou, chorando no seu ombro. Nico sabia que Percy estava receoso sobre o seu novo estado. Qualquer um ficaria talvez até pior. Mas Percy só o segurou. Não deixou nada transparecer enquanto ajudava Nico a levantar e ir com ele.
Nico queria ser melhor que isso, realmente queria. Ele queria continuar lutando como havia feito até agora. Mas algo se quebrara terrivelmente dentro de si, e as forças haviam se ido. O restinho que tinha, Nico gastara.
Nico queria descansar.
xx
Nico sentiu que estava dormindo muito, mas diferente de outras vezes ele ficava melhor a acordar. Não recuperado – isso não aconteceria por um bom tempo, Nico não precisava se enganar pensando o contrário. Mas com energia. Energia para pensar. Energia para se lamentar e energia para sentir dor.
Nico estava com medo de dormir à noite. Quando tudo ficava escuro e perigoso, completamente sozinho quando Percy fosse levado em seu sono de descanso merecido. O que ele iria fazer para lidar com os demônios? Eles iriam ataca-lo de uma vez, não iriam?
Ele não tinha como se proteger, de qualquer forma. Os demônios eram os certos e não Nico. Pelo menos, ele queria acreditar nisso. Mas a humanidade que nunca morrera em quem Nico era não o deixava se entregar completamente ao sentimento de culpa. De desesperança. De vazio.
Afinal, Nico tinha muito. Mas era só ele. A um custo tão alto que não valia à pena. Mesmo assim, ele estava ali deitado naquela cama de motel, acordado há apenas alguns minutos. Com tanta gente para alugar quartos, foi fácil para Nico passar despercebido e, ironicamente, arranjar um quarto sozinho.
Ou quase isso.
Quem diabos queria dormir com o garoto que matara o primeiro amigo?
Nico limpou as lágrimas que não paravam de cair. Elas pareciam ter vida própria. Na verdade, tinham. Como o resto do seu corpo. Ele era... Vivo de novo? Respirar era tão doloroso que Nico evitava pensar nisso a qualquer instante, mas sabia que acontecia. Sabia que o peito descia e subia como devia fazer. Era bizarro. Completamente bizarro voltar à vida daquela forma.
Ainda mais nas custas de tudo que acontecera. Um desastre atrás do outro, até as coisas “boas”. O que Nico podia fazer agora? O que ele deveria fazer? Percy havia dito que eles iriam passar aquela noite no motel e depois voltaria para a cidade. Nico não iria com ele.
Os dois ficariam separados de novo, por que era muito perigoso. O “Refúgio” que eles estavam falando tanto era para onde Hazel havia ido, uma comunidade em Nova Orleans. Havia poucas dessas espalhadas pelo Mundo, onde SFP não eram julgados e tinham pena reduzida. Onde eles podiam ser felizes.
Nico pensou no pai. O grupo que ficou na cidade por mais tempo disse que o levou para o médico e ele sabia que Nico iria para o Refúgio. Hades não foi contra a ideia. Na verdade ficou especialmente quieto, apenas assentindo com a cabeça. Nico não sabia o que sentir sobre isso.
Deveria ficar feliz? Triste? Decepcionado? Compreender que o pai não estava em suas melhores condições? Afinal... Hades deixou Hazel ir. Não existia um motivo para isso? Que pai – com um histórico tão ruim com os seus entes queridos – deixaria os únicos filhos que tem o deixarem se não um que pensa no melhor?
– Nico. – a respiração quente tocou seu rosto ainda frio, enquanto a voz fazia seus ouvidos vibrarem. Nico virou o rosto para enxergar Percy deitado do seu lado, vestido com uma roupa confortável e (choque) as luzes estavam apagadas.
Nico deve ter ficado parado na cama olhando para o teto como um real cadáver todo aquele tempo enquanto Percy se arrumava. Sentia que essa distração iria se repetir por muito tempo. Talvez nunca pare, pois não vai haver Percy em qualquer lugar feliz que esteja para trazê-lo de volta.
Percy é a água gelada que o abraça de forma tão quente. Não queria perde-lo, de jeito nenhum. Pode ser comodidade? Claro que pode. Nico e Percy não se conheciam o suficiente ainda. Eles tiveram pouquíssimos momentos para decidirem que querem passar a vida um com o outro.
Mas uma coisa era bem simples e real: Eles se queriam. Nico era atraído por Percy e acreditava que o efeito era o mesmo nele. Que se eles tivessem uma chance, uma pequenina chance, seriam felizes juntos. Mas não agora. Não com uma bagunça tão grande para arrumar e Nico tendo que catar os cacos da sua mente para reconstruí-la.
Mas porra, como Nico queria que fosse agora.
– Você não ‘tá me ouvindo, né? – Percy balançou a cabeça, desistindo de falar. Nico virou o corpo para o lado dele, encarando-o com olhos reluzentes e sinceros. A íris escura ia crescendo de volta ao redor da pupila que diminuía, como um painel de arte em movimento.
– Não acha que eu tenho muita coisa pra entender e aceitar?
– Eu... Eu entendo isso, Nico. – Percy mordeu a língua, meio constrangido. – ‘Desculpa, eu...
– Está na mesma situação que eu. – Nico murmurou, acariciando o rosto dele levemente. – Percy... Quando você notou que eu era seu... – ele pigarreou obviamente desgostoso ao falar aquilo. – Primo?
Percy engoliu a seco, desviando os olhos por um instante.
– Antes de sair correndo, no seu interrogatório. – Nico continuou o encarando em busca de respostas. Percy suspirou. – Mas eu já tinha minhas suspeitas antes.
– Quando saímos da lanchonete naquele dia... Você agiu como se soubesse que eu não tinha lugar para voltar.
– Isso foi mais presunção do que qualquer outra coisa. – Percy deu uma risada, debochando de si mesmo. – Eu tinha acabado de tentar me matar, Nico. Não espere lógica de uma pessoa assim.
– Eu também tentei me matar. E eu consegui, uma vez. – Nico murmurou, mordendo o lábio. Percy ficou sem palavras. – É assustador. – ele respirou fundo. – Isso? Viu o que eu acabei de fazer? De verdade?
– Olha... – Percy colocou seu braço na cintura de Nico carinhosamente sem querer assustá-lo. Ele aproximou ainda mais o rosto, prendendo os olhos de Nico nos seus. Prendendo tudo de Nico nele. – Essa é a melhor parte nessa bosta toda. Você é humano, Nico. Eu não vou te pedir para gostar disso agora, mas...
– Agora eu posso morrer junto com você ou depois? – Nico balançou a cabeça, raiva o picando como um mosquito irritante. – Eu não posso pensar assim, Percy!
– Ei, ei! – Percy segurou o rosto dele, murmurando “Shhh’s” para segurar Nico no lugar. Ele queria bater em Percy. Bater em si mesmo. Só... Se destruir. Nico não tinha noção do quanto estava sensível até agora. – Você vai ter que pensar Nico, uma hora ou outra! Eu sei que é uma porra, mas é a realidade. E você está dentro dela, não ouse pular fora. Não ouse.
– P-Percy... – ele choramingou. Percy o abraçou forte. – Ethan não merecia isso... Meu pai... Hazel... B-B...
– Nico, está tudo bem agora. Está tudo bem. Ninguém te odeia e ninguém vai. – Percy beijou a nuca dele, provavelmente mais desesperado que o garoto. Não havia nada para se dizer que o ajudasse agora. Nada. – Você vai conseguir seguir em frente. Não por você mesmo, mas por essas pessoas. Se não a morte delas vai ter sido em vão.
– I-Isso não faz sentido nenhum... – Nico exclamou entre choros, enterrando o rosto. Percy o forçou a encará-lo de novo.
– Faz claro que faz! Você matou Nico. Todos nós matamos. Eu matei a minha mãe quando a ‘deixei sozinha, matei a inocência da minha irmã quando a maltratei, matei meu pai por ter nascido diferente dele. Eu matei meu avô, Nico, e eu faria isso de novo. E todos aqueles zumbis? Sabe quantos eu matei no Renascimento? Naquela comoção na cidade? O que eu posso fazer, Nico, o que eu posso fazer? Não dá para trazer nada de volta! Você sabe bem disso. Não dá para reciclar sentimentos ou pessoas. Eles não voltam como antes. Por que nada é como antes. Mas eu vou saber Nico Di Angelo. Eu vou saber pelo resto da minha vida o que aconteceu com cada uma dessas pessoas. Eu vou viver com isso, do pior jeito possível. Então só assim vou saber que não fiz nada em vão. Que eu não fui mal ou pejorativo para ninguém que me amava ou que me amou, e que essas pessoas que morreram... Essas pessoas nunca vão me odiar. Não importa onde eu esteja. Eu achei que me matar era o único caminho que eu tinha. Como eu estava errado. Olho para toda essa bagunça que fiz e só da pra pensar o quanto de trabalho que eu vou ter agora, que pode até estragar a vida que eu quero ter no momento. Mas foda-se. As pessoas têm obrigações. Ninguém faz o que quer o tempo todo. E eu quero ter as minhas, por mais que isso me afaste de você.
Nico arregalou os olhos. Desde o começo Percy era o cara despreocupado, que não parecia se afetar por nada. Que sempre se levantaria depois de cair como se nunca tivesse sido derrubado. Sem orgulho, honra ou dignidade. Apenas sentimentos. Errados ou corretos. Ele era esse tipo de cara.
Agora ele havia crescido. Amadurecido. Entendido que, nem sempre, seus sentimentos iriam bastar. Nem sempre as risadas iriam suprimir. Nem sempre nós seríamos felizes pelos meios mais convenientes. Como ser o sobrevivente, não o morto. Como ser a vítima, não quem segurou a faca em legítima defesa.
Como quem foi escolhido para as coisas boas, e não manipulado e jogado nas ruins.
Infelizmente para Nico, essa era a sua situação. Ou ele vivia com isso, ou vivia.
Era um consolo frio e duro, mas aqueceu Nico até o fundo da alma. Por que alguém se importava. Alguém se esforçava o bastante para fazê-lo entender de uma vez por todas. Alguém que iria repetir caso não desse certo, pois acreditava em Nico.
Percy não iria concertá-lo, mas ajudava. Céus, como ajudava.
– Obrigada, Percy. – Nico murmurou abaixando o rosto. – Eu estava precisando de um tapa...
– N-não foi isso que eu quis... – Percy foi interrompido quando Nico beijou a sua boca. – Nico? – perguntou bobo por conta do beijo quando Nico se afastou.
– Por um minuto. – Nico esticou o dedo indicador para realçar o que falava. – Por um minuto eu não quero mais pensar nisso tudo. E eu descobri... Que você é o único que apaga a minha mente.
Nico o beijou de novo, sendo correspondido dessa vez. Percy tocou seu rosto e sua cintura, trazendo-o para perto. Ele sentia medo de quebrar Nico e isso era palpável. Não apertava de mais, não encostava muito. Nico colocou uma mão no seu peito e outra no ombro, perdendo a linha do beijo.
Começou inocente o bastante e de repente ele estava perdendo o ar. Não gostou da sensação de ter o fôlego roubado. Preferia quando Percy era o único passar por isso. Pois bem quando as coisas estavam ficando boas, Nico foi obrigado a se afastar por não conseguir mais prender a respiração.
Ele ia dar uma das suas risadas machucadas até ver a expressão de Percy. Os olhos estavam meio fechados, recheados de vontade, desejo. Desejo por Nico. Isso o assustou, apenas um pouco, mas o susto passou quando Percy o deitou e se apoiou em cima dele.
– Vai ser mais que um minuto. – murmurou antes de atacar seus lábios de novo. Nico soltou um ruído do fundo da garganta quando Percy mordeu seu lábio ligeiramente, mas isso foi o bastante para fazê-lo sangrar. Talvez ele realmente estivesse frágil.
Quando Percy desceu os beijos, a sala começou a rodar. O sangue de Nico fervia de uma forma nada normal e sentia sintomas de pressão baixa. De nenhum jeito aquela para ser uma boa ideia. A pele que acordava ardia sobre as carícias de Percy, um pouco ásperas de mais para Nico aproveitar.
– P-Percy, espera, ah. – Nico mordeu o lábio para controlar aquele maldito gemido, mas não conseguiu. Percy parou no mesmo instante, com medo de ter o machucado. – Antes que pergunte você não fez nada de errado. – Percy soltou uma respiração de alívio por isso. – Acho que... Estamos correndo de mais.
– Concordo plenamente!
Nico franziu o cenho.
– Jura? Não pareceu.
Percy bufou e enterrou o rosto no ombro de Nico.
– Eu fico louco em pensar que não vou te ver amanhã ou depois. Vou fazer o impossível pra te visitar, mas eu não sei o que vai acontecer. Por isso... Eu queria ter alguma coisa... Sua... – ele começou a abaixar o tom de voz, extremamente envergonhado. Nico sentiu vontade de rir, borboletas fazendo cocegas no seu estômago.
Essa foi a primeira sensação boa que teve desde que ficou vivo.
– Percy, eu te amo. – Nico levantou o rosto dele. – Até onde eu sei, eu te amo. Não vou te trocar, de forma nenhuma. Eu não estou bem fisicamente agora, mas a minha mente está toda nisso. – Nico o abraçou. – Só não quero que vá embora, nem agora e nem nunca, mas sei que não sou eu quem decide.
Percy o apertou.
– Prometo que vou voltar. – Percy murmurou. Nico não esperou pelo o “Eu te amo”. Eles tinham formas muito diferentes de se expressar, e oportunidades.
Nico poderia esperar. Talvez fosse melhor assim. Percy tinha que enfrentar seus demônios assim como Nico iria. Juntos só tendiam a fugir da realidade e um relacionamento daquele não ia dar cedo. Nico queria que desse, mais do que tudo. Queria ser algo importante com Percy, por que era simplesmente tão bom.
Nico sabia que não seria fácil. Que ele não havia feito nada ainda. A partir dali as coisas só começariam. Tinha que entender o porquê de realmente ter voltado a vida, e entender mais um monte de coisas. Tinha que continuar tentando, como sempre disse para si mesmo.
Por mais que doesse e por mais que não estivesse bem com isso. Nico estava fazendo uma promessa agora e iria lutar por ela. Simplesmente iria.
De qualquer maneira, a vida pareceu melhor do que na época em que vagava na rua.
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