O bater dos cascos do cavalo contra a lama espessa de Hjaalmarch era o único som que quebrava o silêncio pesado da manhã. À medida que Raed se afastava da cabana abandonada, o pântano enevoado começava a ceder espaço para uma vegetação diferente. Ele abandonou as árvores retorcidas e os lamaçais cinzentos, cruzando os limites das terras do norte e cavalgando em direção ao sul, rumo ao feudo de Falkreath. Enfiou a mão no seu alforge e encontrou um pedaço de pão para seu desjejum.

O caminho era longo e a geografia de Skyrim mudava de forma drástica. Totalmente diferente da quase monotonia das areias de Hammerfell. Conforme subia em direção às montanhas que cercavam a região sul, o ar tornava-se mais denso, impregnado com o aroma fresco e resinoso de uma floresta de pinheiros colossais. Ele chegou a ver ao longe as planícies que levavam a Whiterun, mas virou ao ver a placa que indicava a direção de uma região mais arborizada. Falkreath era conhecida justamente por isso: uma terra de névoa perene, árvores antigas que bloqueavam a luz do sol e um cemitério que parecia maior do que a própria cidade. Havia uma aura de melancolia e morte que pairava sobre aquela floresta. Umm território apropriado para a Dark Brotherhood. Esse pensamento mórbido fez Raed sorrir.

Raed manteve o alerta máximo. Seus dreads balançavam levemente contra seus ombros a cada solavanco da montaria, e seus olhos ávidos escaneavam a densa mata. O céu ameaçava chuva e sua capa com capuz esvoaçava com o vento ameaçador. Animais faziam seus habituais barulhos, e pássaros cantavam como se avisassem a floresta que alguém entrara ali. Ele passou pelas proximidades da cidade de Falkreath, mas, seguindo o conselho de Astrid, não parou. Ele contornou os limites da floresta a oeste, subindo por caminhos pouco trilhados, onde as raízes das árvores irrompiam do chão como garras prontas para derrubar um viajante incauto. Ele viu alguns coelhos e até cervos. Era uma boa região para caça.

Guiando-se pela geografia acidentada, ele buscou os arredores algo que batesse com a instruções da assassina. O ambiente ali era opressor. As copas dos pinheiros eram tão fechadas que transformavam o dia em um crepúsculo perpétuo. O que que parecia indicar que estava no caminho certo. De repente, entre as rochas cobertas de musgo e as sombras das árvores, ele avistou uma luz piscar, como que indicasse onde ele devesse ir. Ele foi, e a encontrou. uma grande porta de pedra encravada diretamente na encosta da montanha. Ele podia jurar que tinha passado e não a tinha visto ali.

Não era uma porta comum. Esculpida no centro do bloco de rocha escura estava a imagem sinistra de uma mão negra estendida, o símbolo inconfundível da Irmandade Sombria. Encravada no crânio de uma enorme caveira humana.

Raed desmontou. Ele amarrou as rédeas de seu cavalo em um galho firme e aproximou-se da estrutura antiga. Ao tocar o solo diante da entrada, um arrepio gélido percorreu sua espinha. Uma voz cavernosa, arrastada e sussurrada diretamente em sua mente, ecoou do interior da própria pedra:

— Qual é a ilusão da vida? — perguntou a Porta Negra.

O Redguard respirou fundo. Ele lembrou-se perfeitamente das palavras da líder dos assassinos.

— Silêncio, meu irmão — respondeu Raed, sua voz ecoando firme contra a rocha.

Por um segundo, nada aconteceu. Então, com um rangido pesado de pedra raspando em pedra e um suspiro de ar confinado que escapava das profundezas, a porta cedeu, abrindo-se lentamente para revelar uma escuridão iluminada apenas pelo brilho tremeluzente de tochas distantes. Raed desembainhou sua espada comum de aço, mantendo a guarda alta por puro instinto, e cruzou o limiar do Santuário.

O interior exalava o cheiro de pedra úmida, sangue seco, incenso antigo e fumaça. Havia uma sala com uma grande mesa de pedra a esquerda, mas estava vazio. Ele avançou. Ao descer os degraus de pedra, ele chegou a um salão central amplo, onde o som de água corrente de uma cachoeira subterrânea misturava-se a vozes sussurradas. A visão por si só já era interessante aos olhos, mas notar que aquilo era realmente uma base secreta e funcional, foi ainda mais chocante. Sua arma desceu inofensivamente para lateral do seu corpo enquanto observa.

Espalhados pelo ambiente, os membros daquela "família" peculiar começaram a se revelar. Raed reconheceu Veezara, o Argoniano que o havia colocado naquela trilha, observando-o com um brilho de aprovação nos olhos répteis. Perto dali uma garotinha de aparência inocente, sorriu de forma macabra, revelando presas afiadas de vampiro. Um homem idoso com trajes de mago, resmungou algo sobre "novatos que fazem barulho demais", enquanto um homem forte de armadura pesada, rosnava de canto. Uma mulher loira o observava de braços cruzados, um sorriso de satisfação moldando seus lábios. Ele vendo seus olhos frios, logo percebeu que se tratava da mesma mulher com quem estivera na cabana.

No entanto, o coração de Raed parou quando seus olhos cortaram o salão e fixaram-se em uma figura que estava ligeiramente afastada, limpando uma lâmina polida perto de uma forja interna.

Era um Redguard mais velho. Ele exibia a mesma estrutura física robusta de Raed, o mesmo tom de pele marcado pelas batalhas e pelo sol de Hammerfell, e traços severos no rosto que o tempo e as cicatrizes não conseguiram apagar completamente.

O homem ergueu os olhos e o encarou. Por um longo e sufocante instante, o silêncio dominou o Santuário. A lâmina de formato cruel, a adaga que Astrid mencionara pertencer a ele, repousava na mesa ao seu lado.

— Você demorou, meu filho — disse o homem, com uma voz profunda que carregava o peso de anos de separação, mas que continha um orgulho indisfarçável. — Mas vejo que o sangue o nosso sangue e o chamado do Vazio finalmente te trouxeram ao lugar certo.

O homem de cabelos grisalhos e traços fortes idênticos aos seus deu um passo à frente, afastando-se da parede na qual estava próximo. Seus passos eram pesados, mas surpreendentemente silenciosos na pedra úmida. Conforme ele se aproximava, a tensão acumulada nos ombros de Raed parecia se transformar em um nó apertado no estômago. Era ele. Seu pai. O homem cujos passos ele havia seguido desde as areias quentes de Hammerfell até o gélido abraço de Skyrim. E não sabia ao certo porque.

— Você demorou, meu filho — repetiu o homem, a voz profunda vibrando pelas paredes do Santuário, ecoando com um orgulho que ele não conseguia — e nem tentava — esconder. Mas finalmente está aqui. Fico feliz em tê-los por perto.

Raed engoliu em seco, a mão ainda segurando frouxamente o cabo da espada de aço.

— Pai... — a palavra saiu quase como um sussurro, estrangeira em sua própria boca depois de tantos anos.

O Redguard mais velho parou a pouco mais de um passo de distância. Ele olhou bem no fundo dos olhos de Raed, inspecionando cada cicatriz, cada linha de expressão, e o emaranhado de seus dreads. Subitamente, a dureza no rosto do veterano quebrou-se por uma fração de segundo. Ele colocou uma das mãos calejadas e pesadas sobre o ombro de Raed, apertando com firmeza.

— Meu nome aqui dentro é Nazir, Raed. Mas para você, ainda sou o homem que lhe ensinou a segurar uma lâmina — ele disse, e o tom de sua voz suavizou significativamente. — Antes de qualquer coisa... eu preciso lhe pedir desculpas. Desculpas por ter partido sem olhar para trás, por ter deixado você e seu irmão sozinhos no caos de Hammerfell. Eu tinha obrigações com a Irmandade, dívidas com o Vazio que não podiam esperar. Eu os abandonei para protegê-los da escuridão que me persegue, mas sei o fardo que coloquei em suas costas.

Raed ouvia o desabafo em silêncio. A raiva que guardara por anos parecia evaporar diante da sinceridade daquele homem. Mas antes que isso acontecesse, soltou a espada e fechou um punho. O soco o acertou encheio, mas não o fez cair. Ao invés disso cambaleou para tras. Todos os presentes, exceto a loira se mexeram. A vampira chegou a mostrar os dentes, mas Nazir apenas massageou o queixo apaziguando a situação com a outra mão.

— Foi um belo soco – Disse ele ainda massageando o rosto — E sei o que está pensando. Seu irmão. — Nazir deu um meio sorriso, batendo levemente no ombro de Raed antes de soltá-lo. — Não precisa se preocupar com ele. Nós estamos de olho nele desde que vocês cruzaram as fronteiras de Skyrim. A Irmandade Sombria tem olhos em cada feudo, em cada taverna infestada de guardas e em cada acampamento de Stormcloaks ou do Império. Ele está seguro, vivendo a vida dele. Por hora, mantenha seu foco aqui. Ele não corre perigo.

O alívio lavou a mente de Raed como uma onda refrescante. Ele finalmente se abaixou pegou e guardou a espada na bainha, soltando o ar que nem percebera que estava prendendo.

— Bem, bem! Chega de drama familiar, eu vou acabar chorando, e sangue estraga meu visual — uma voz infantil, mas carregada de uma malícia bizarra, cortou o momento.

Raed se virou. Uma garotinha de vestido escuro deu saltinhos para frente, saindo das sombras perto de uma das mesas. Seus olhos brilhavam com uma coloração avermelhada e doentia, e ao sorrir, duas presas afiadas projetavam-se sobre o lábio inferior.

— Eu sou Babette. Não se deixe enganar pelas minhas bochechas rosadas, tenho mais de trezentos anos e sei mais maneiras de paralisar e apodrecer as entranhas de um homem com veneno do que você saberia contar. Seja bem-vindo, irmãozinho. Se precisar de ajuda para fazer alguém parecer que morreu de causas naturais, venha falar comigo.

Aquilo inesperadamente fez Raed soltar um sincero sorriso. Logo atrás dela, o homem idoso com vestes vermelhas e desgastadas de mago soltou um resmungo ranzinza, ajeitando as mangas de sua túnica com desdém.

— Grandes coisas, mais um Redguard para gastar nossos suprimentos e fazer barulho com botas pesadas pelos corredores — resmungou o velho, embora houvesse um brilho de curiosidade em seus olhos cansados. — Sou Festus Krex. Se você for inteligente, vai ficar longe dos meus estudos de destruição. Eu transformo alvos em cinzas antes mesmo que eles percebam o feitiço, então tente não cruzar meu caminho quando eu estiver de mau humor. O que, para seu azar, é quase sempre.

— Ah, cale a boca, Festus! Deixe o rapaz respirar! — exclamou Veezara, aproximando-se com passos sinuosos. Suas escamas esverdeadas brilhavam sob a luz das tochas e a cauda açoitava levemente o ar. O Argoniano estendeu a mão em uma saudação tradicional de guerreiro. — É bom ver que você sobreviveu ao teste de Astrid, Raed. Eu sabia que você conseguiria. Não ligue para o velho. Eu você já conhece, mas farei a tradição. Sou Veezara, o último de minha ordem vindo de Black Marsh. Se quiser aprender a arte de se mover sem ser visto e golpear onde a armadura é mais fraca, estarei por perto.

Ao lado de Veezara, o homem massivo que rosnava anteriormente deu um passo à frente. Ele vestia uma armadura pesada com peles de lobo e ostentava uma expressão bestial, quase selvagem. Seus olhos eram fixos e ameaçadores.

— Arnbjorn — grunhiu o homem forte, cruzando os braços imensos sobre o peito robusto. Ele cheirava a carne crua e floresta molhada. — Sou o marido de Astrid. E o aviso é simples: faça o seu trabalho, não crie problemas e, acima de tudo, não olhe para a minha esposa por mais tempo do que o necessário. Se quebrar as regras da família, eu mesmo rasgo sua garganta com meus dentes. Entendido?

Antes que Raed pudesse processar a ameaça física do lobisomem disfarçado ele se virou novamente.

-E se precisar que olhe suas armas, fale comigo!

Astrid, que assistia a tudo de braços cruzados no topo das escadarias com um sorriso divertido, desceu lentamente.

— Acho que já conheceu todos. Nosso novo convidado deve se acomodar — imediatamente o silêncio respeitoso retornou ao recinto. Ela olhou para Raed e depois para Nazir. — Como pode ver, Raed, nossa família é disfuncional, mas somos leais uns aos outros até o fim. Você pagou sua dívida e passou pelo meu teste. Agora, você pertence a nós.

Nazir deu um passo à frente, reassumindo o controle da situação. Ele olhou para o filho com a severidade de um mestre.

— Mas pertencer à Irmandade não significa que você está pronto para receber contratos, Raed — explicou o pai, apontando para o vasto Santuário, indicando as salas de treinamento, a forja e os alvos de arquearia espalhados pelos cantos. — Skyrim não é Hammerfell. Aqui os alvos usam magias complexas, os guardas conhecem o terreno e os perigos se escondem nas sombras das neves eternas. Você vai ficar aqui no Santuário por um tempo.

Nazir cruzou os braços, detalhando o regime que se seguiria:

— Eu pessoalmente vou treinar você. Vamos refinar sua técnica com a espada de aço, ensinar a você a paciência que um assassino precisa ter antes de desferir o golpe de misericórdia e como ler o ambiente ao seu redor. Veezara vai lhe ensinar a andar sem fazer um único ruído no cascalho, e Babette vai lhe mostrar como identificar plantas venenosas nativas de Skyrim. Considere este período como uma pausa da sua jornada e do caos do mundo exterior. Uma preparação necessária. Você só sairá a campo quando eu disser que está pronto.

Raed olhou ao redor. Para os magos, os monstros, os guerreiros e, finalmente, para o pai. O peso das estradas de Skyrim e o cansaço das fugas constantes pareciam finalmente dar trégua. Ali, nas profundezas da terra, cercado pela névoa de Falkreath e pelo calor daquela forja oculta, ele encontrou um refúgio. Uma pausa na sua história violenta para se reconstruir.

— Eu entendo — respondeu Raed, com determinação. — Estou pronto para aprender.

Nazir assentiu com a cabeça, um brilho de satisfação nos olhos.

— Ótimo. Descanse um pouco hoje, coma algo da nossa despensa e conheça os seus aposentos. Amanhã, ao amanhecer, seu treinamento começa. Bem-vindo à escuridão, meu filho.

Todos assentiram para ele com acolhimento. Babbete correu e pegou sua mão para lhe mostrar onde seria seus aposentos, deixando os 300 anos de lado e parecendo uma criança da sua idade aparente. Ele ainda olhou uma última vez para seu pai antes de se deixar guiar.


Notas finais
Irei fazer uma pausa na historia por questões pessoais. Também quero focar em outras. Mas voltarei a ela assim que possível, em uma nova aventura com Raed ou outros personagens.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!