Cronicas da Morte

6 O novo recomeço


Notas iniciais
Antes de começar a lerem, tenho que avisar uma coisa. A surpresa que eu tinha falado no capítulo anterior tem a ver com o fato de que nesse último capítulo o ponto de vista vai ser da vítima, não da Morte. Espero que vocês gostem da mudança, por que eu realmente não sei o que esperar desse capítulo.

A grama verdinha refletia o sol, fazendo todo o calor se dissipar sob sua refrescante essência que esbanjava vida e beleza. Deitada de baixo da sombra, uma garota deixava seu corpo suado descansar enquanto o calor parecia a envolver totalmente, nem dando chance para respirar direito. Com um sopro de vento quente, suspira junto com ele o ar de seus pulmões.

Nem sabia ela que seria o último suspiro que soltaria.

Ao ouvir sons de passos, abre os olhos e se depara um par de pernas alvas vindo em sua direção. Nos pés descalços se via apenas o emoldurar das plantas enquanto a misteriosa pessoa vinha, assim como a perna fina parecia tornar forma com a túnica preta. Apesar do corpo reto, a garota percebeu que se tratava de uma menina pela forma suave e delicada de andar, com os braços magros balançando levemente no ritmo do corpo. A túnica parecia estranhamente longa e coberta para o estonteante calor que ela própria notava, porém percebeu que nem mais isso ela sentia com a proximidade da outra.

Com longos cabelos negros que caiam em forma de cascata sobre os ombros estreitos, o rosto alvo e pálido que contrastava com os escuros olhos, a garota percebeu que olhava para sim mesma. Via na estranha que chegava cada vez mais perto o mesmo nariz reto e curto sobre a mesma boca rosada, que tanto fora orgulho da sua mãe. Apenas alguns passos de distancia, sua cópia para e inclina sua cabeça para o lado levemente.

– Chegou a hora. – diz finalmente, com a voz terrivelmente distante e sombria, como numa gravação. Sem conseguir segurar o arrepio, a garota treme inteira ao ouvir a alarmante voz.

– A hora do que? – pergunta levemente, quase sem querer saber a resposta.

Os escuros olhos da outra garota recebem um brilho de interesse, assim como um túnel escuro que recebe um facho de luz. Ela solta um sorriso pouco amigável e finalmente fala:

– De seguir adiante.

– Eu morri? – pergunta com a voz fina, quase que num sussurro tolo perante a intensidade da outra voz. Percebe um sinal de interesse no olhar da outra, reconhecendo-o nos mesmos olhos negros que tantas vezes viu no espelho. – E quem você é?

– Você é a primeira em muito tempo que falou comigo. – diz finalmente. – E eu sou a Morte. – conclui aquela se denominou de Morte.

– Eu pensei que você era diferente. – comenta distraidamente a garota, estudando atentamente a Morte com curiosidade. Um sorriso divertido passa pelos lábios da criatura quando sentava também na grama.

– Eu sou diferente para cada pessoa. – esclarece, não se preocupando em ser formal ao sentar de pernas cruzadas. – Na verdade nem sei por que me dou o trabalho disso, já que muitas das almas já perderam sua consciência.

– Por que eu não perdi? – pergunta a garota com medo, mandando um olhar assustado para a criatura da sua frente.

– E como eu vou saber? – retruca de volta a Morte, sem perceber o olhar assustado da garota. – Se meus superiores querem isso, quem sou eu para reclamar? Estava ficando solitário.

– Você não fica com pena das almas que leva? – pergunta novamente, com a curiosidade se sobrepondo ao medo da situação.

– Não, porque eu sei que as liberto e que as levo para um lugar melhor. – então franze o cenho, num movimento gracioso que imitava perfeitamente os seus próprios. – Pelo menos aqueles que não me fazem esperar. Esses eu quero que esperem o tanto quanto eu próprio esperei.

– Você é vingativo. – diz, com uma risada que ecoou pelas árvores como o vento. – Mas tenho mais uma dúvida. – vendo que a Morte acenou aprovando a próxima pergunta, continua. – Você se refere como “ele”, mas é “a” Morte. Afinal, você é homem ou mulher?

– A Morte não tem sexo, porque ela não é viva. – explica calmamente, e a garota percebe com certa satisfação que a Morte estava gostando conversar com ela. – É mais um espírito, e pode ser alojada tanto na alma de uma mulher como a de um homem. – a garota começou a ficar cada vez mais tensa ao compreender que quanto mais perguntas eram respondidas mais apareciam.

– Então você já foi uma pessoa? – pergunta espantada, pensado naquela sua cópia andando pelas ruas à séculos atrás.

– Assim como aquelas almas que vieram antes de mim. – a Morte para de falar por um tempo a observa com certo interesse renovado. – Acho que chegou minha hora.

– Como assim sua hora? – pergunta com a voz aguda. – Você vai para o outro lado junto comigo? Quem vai ficar no seu lugar?

A Morte sorri tristemente e pega a mão quente da garota. O toque gelado da outra mão faz com que estremecesse novamente, e a outra se inclinou para frente, deixando seus rostos a centímetros de distancia.

– Não, eu vou sozinho, e quem irá ficar no meu lugar é você. – com o coração na garganta, ela assente com a cabeça percebendo que no fundo esperava isso desde que encontrou com a Morte. Sente as lágrimas invadindo os olhos pela aquela alma que nem conhecia direito, sentindo sua partida como uma morte. Não é surpresa que seja isso, porque afinal, esse vai ser meu papel daqui a diante. Pensa amargamente quando a lágrima escorre.

Com mais um sorriso triste, a forma da garota vai escorrendo do corpo dele, que torna a sua verdadeira forma. Ela percebe com certo receio que aquele que havia sido a Morte instantes antes era um garoto realmente lindo. A túnica negra havia dado lugar para uma branca, que fazia as pernas fortes do garoto ter um bronzeado estonteante. Os braços grossos tinham algumas marcas brancas que apontavam antigos machucados.

Quando finalmente olha para o rosto do garoto, vê seu sorriso enorme encobrir todo o rosto. Com o maxilar forte e o rosto longo, a garota definiria aquele rosto como perfeito, assim como o nariz levemente torto por causa de algum ferimento e a boca – apesar de ser fina – bastante definida. Os olhos, claros como o céu que se estendia em cima deles, brilhavam com alguns fios dourados do cabelo caindo por cima.

Agindo totalmente por instinto, aproxima-se mais ainda do garoto e chega perigosamente perto dos seus lábios. Ela o olha e diz, com a voz firme e com a certeza que nunca imaginaria ter:

– Eu aceito. – e sela seus lábios num beijo inocente, como numa forma de promessa. Afasta-se num gesto repentinamente tímido, e olha para os olhos claros do garoto e vê algo que não esperava.

– Estou com medo. – confessa ele, mexendo no cabelo que adquiria tons dourados a medida que os raios do sol penetravam a fortaleza de folhas que os protegiam.

– Não se preocupe, você vai para um lugar melhor. – afirma ela, sem saber que essas mesmas palavras seriam repetidas inúmeras vezes.

Com um último sorriso ele é envolvido por luz azul, que desse do céu na direção do garoto, e quando ela se dissipa já não há mais ninguém lá. Repentinamente, ela se sente sozinha como nunca e com a estranha sensação de centenas, se não milhares, de almas espalhadas pelo mundo que estão a esperando para ir adiante.

E com um suspiro, vai para a próxima alma.

Ela nem sabia que esse seria o primeiro suspiro de muitos que a acompanhariam.

Notas finais
Agora que a história chegou no fim, queria agradecer a quem comentou, a quem favoritou e também quem a leu até aqui! Queria só pedir para se vocês puderem, comentem e façam assim uma autora feliz.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!