Critical

1 Realidade


Eu o seguia todos os dias, era meu maior vício. Era estimulante, quase excitante, saber que sua vida inteira estava em minha cabeça e ele nem lembrava mais da minha existência. Quem soubesse disso poderia me chamar de louca, mas eu não ligaria. Era mesmo.

Por ele.

Obviamente fazer o papel de perseguidora não era o mais romântico de todos, mas eu tinha contato com ele, um que o mesmo não sabia que existia. Nós estávamos juntos dos momentos mais felizes aos mais tristes. Acompanhei todos os seus choros a anos, o mesmo vale para suas risadas e sorrisos. Não me importava se era algo unilateral, eu tinha contato e isso era o que realmente tinha importância, já que minha memória guardava momentos tão marcantes com Fellipe.

O dia mais marcante, com toda certeza, foi o dia que ele me tocou.

Chovia e ele estava doente e sem guarda-chuva. Estava voltando da casa da namorada e a vadia nem para emprestar um para que não se molhasse (não era a toa que o relacionamento não durou mais do que três meses). Então, com passos largos e rápidos caminhei até Fellipe e fiquei ao seu lado — com a cabeça virada para o lado para não ser descoberta -, alcancei sua mão e lhe dei meu próprio guarda-chuva. Eu estava usando um sobretudo que me chegava a altura dos joelhos, então não era algo muito ruim de se fazer.

Logo após saber que ele havia conseguido pegar o objeto, comecei a caminhar rápido para que logo desaparecesse entre a escuridão da noite daquele dia. Mas uma mão fria tocou a minha e o tempo congelou. Virei inconscientemente e lá estava Fellipe, sorrindo e com os olhos puros que só ele poderia ter. Entregou-me o guarda-chuva e com a voz aveludada que eu já conhecia e nunca esqueceria, disse:

– Você vai se molhar, não precisa. Minha casa é aqui perto. Muito obrigado. — e correu em direção a primeira farmácia.

Sua casa não era perto e ele tinha saído sem a carteira. Eu sabia disso.

Pela primeira vez em anos havia me permitido desfocar-me dele por alguns minutos. Estava quase que literalmente paralizada. Ele era perfeito, mas Fellipe nunca deixava de me surpreender cada vez mais e aquele dia era uma prova disso. A prova de que tudo aquilo valia a pena, desde que pudesse o acompanhar de perto.

Às vezes era difícil. Todavia, tudo na vida não leva sacrifícios? Esquecer de minha própria vida e focar-me na dele, esse era o meu. Vinte e quatro horas por dia durante o ano me concentrava apenas nele. Tudo que fazia envolvia Fellipe. Se me cuidava não era por mim, mas para me manter saudável para nunca precisar parar de acompanhá-lo. Cafeina e maçãs já faziam parte do meu organismo, de tanto que consumia para me manter acordada.Talvez fosse mais do que loucura, afinal.

Eu me sentia no controle de seu destino. Se algo de ruim fosse acontecer, eu impedia. Se estivesse precisando de algo, daria um jeito de proporcionar a ele sem me notar.

Até que o que eu nunca previ aconteceu.

Enquanto ia para praia de picape com os amigos, Fellipe estava cantando e dançando com eles ao mesmo tempo em que dirigia. Não era algo que o mesmo não faria, pois gostava de se divertir mesmo nos momentos mais simples e entediantes. Entretanto, a montanha ficava mais ingreme e isso estava começando a me assustar. Eu, a que nada temia, comecei a sentir medo. Medo por mim, medo por ele. Entretanto, continuava dirigindo. Contanto que estivessemos perto, tudo daria certo.

Era nisso que eu acreditava.

Quem sabe eu não tenha sido boa o suficiente? Será que é por isso?

Tudo que vi foi o carro bater na parede da montanha e Fellipe perder o controle da direção. Ver o veículo fazer seu desgovernado zigue-zague foi uma das coisas mais aterrorizantes de toda a minha vida, mas não tanto quanto observá-lo cair sem poder fazer nada para imperdir. Tudo que consegui fazer foi parar o meu carro e ver o dele rolar em direção a floresta.

Meu cérebro se contradizia nos pensamentos, enquanto tudo que havia restado do trajeto da queda tivera sido as árvores caidas ou quebradas, "Ele está vivo, mas machucado, você tem que ir lá, ele pode morrer. Talvez já esteja morto. Não! Ele está vivo."

Até que percebi que não tinha tempo, teria de fazer algo. Como sempre, não por mim, por ele.

Sendo assim, liguei a ignição e de frente para o mesmo lugar aonde Fellipe tinha capotado, pisei fundo e joguei-me. Batia minha cabeça mesmo estando de cinto, mas não me permitia sentir dor ou desmaiar. Não até conferir se poderia salvá-lo antes. Assim, tudo que eu fazia era gritar e olhar para frente.

Até que vi.

O veículo deles estava amassado ao pé da maior árvore. Uma a qual não tinha como partir, como as outras que haviam ficado no caminho. Algumas pessoas estavam ensaguentadas perto do mesmo, penso eu que na tentativa de se salvar, mas falha. Afinal, já pareciam mortos, e aquilo me desesperou mais do que nunca. Não me importava com eles, mas e Fellipe? Poderia estar já naquele estado?

Virei o voltante para que batesse em uma montanha de terra que me faria freiar melhor e sai desesperada do carro o procurando, mas sem sucesso.

Até que ouvi a voz aveludada soar fraco em minhas costas:

– Socorro.

Por impulso escondi o rosto.

O que eu estava fazendo? Isso não importava mais.

Virei-me e conferi seu estado. Melhor do que havia imaginado, já que estava vivo, mas não deixava de estar lamentável. Cortes em sua boca, abdômen, pernas e braços, estavam sangrando e me fazendo enjoar só de olhá-lo desse jeito. O líquido vermelho saia de seu ouvido direito e escorria em direção ao seu peito. Ele estava coberto de sangue e me doía ver, mas tinha que ser forte.

O abaixei para que ficasse sentado e encostado na raiz de uma das árvores, tirei seus sapatos e tirei sua blusa para ver se nenhuma costela havia quebrado. Felizmente nenhuma parecia fraturada e só depois de conferir me dei conta da intimidade que estava tendo. Agora não, pensei e peguei a camiseta de alguns de seus amigos para fazer torniquetes em suas coxas e braços. Alcancei suas garrafas de bebidas que sabia que haviam trazido no carro e ia jogar em seus machucados quando Fellipe quase gritou em desaprovação ao meu ato.

– Pelo amor de Deus, não desperdiça isso. Foi caro pra caramba. Tem alcool no porta-malas, trazemos para fazer fogueira.

Tirei as chaves da ignição e correndo fui tentar abrir o porta-malas. Eu estava em pânico e demorei até achar o buraco para colocá-las.

– Calma, eu estou bem. Apenas fique calma.

Com as mãos tremendo tirei minha própria blusa e passei o alcool para limpar seus cortes.

– Você também está machucada, e sua testa está sangrando muito. Passe em você também.

– Eu não preciso. — me deixei dizer algo pela primeira vez.

– Não tenho como sair dessa floresta sozinho, então acho melhor você se cuidar para não me abandonar também. — falou já começando a chorar observando os amigos jogados no chão.

Bom, ele não está falando besteiras, pensei. Assim fiz o que me pediu e gritei como uma criança por causa da ardência. Meu corte realmente era grande.

– Como conseguiu ficar tão pouco ferido?

– Eu malho, sou forte. — tentou rir, uma tentativa falha. — Mentira, é que eu estava com a minha mala no colo. Tinha medo de alguém avacalhar com ela, meus amigos não são... não eram confiáveis quando se tratava de brincadeiras. Faziam das mais leves às mais imperdoáveis.

O tom de voz era o mais melancólico que já tinha ouvido de Fellipe e resolvi não tocar mais no assunto.

– Consegue levantar?

– Eu acho que não, pelo menos não agora. Só quero virar e sentar do outro lado da árvore, não quero mais ver tudo isso.

– Ah, sim, desculpa.

– Não é sua culpa.

Era sim, eu fui fraca e não tive como fazer nada, não pensei em nada, não tive o poder de mudar seu destino naquele momento como sempre tive.

Virei-o e fui ver o que tinha nos carros para ser usado. Ainda estava de manhã, mas nunca conseguiriamos encontrar alguém nas montanhas antes de anoitecer. Estávamos muito a baixo das estradas, não teria como.

Encontrei lanternas, barracas, roupas limpas, isqueiro, comida e água. Tudo o que precisava para um acampamento e, agora, para sobrevivermos por um tempo.

Uma coisa que me surpreendeu de um jeito muito bom foi ver um kit de primeiros socorros na mochila de um dos amigos de Fellipe, com alguns remédios para queimadura, band-aids, ataduras, remédios para dores de quase todos os tipos que eu conhecia, entre outras coisas que eu não sabia para que serviam. Resolvi levar e pedir para Fellipe ver o que seria útil para ele e, se precisasse de ajuda, me chamar enquanto continuava procurando coisas que poderiam servir para algo.

Finalmente a dor dos meus ferimentos estava chegando para me incomodar e a tontura que antes sentia pouco, aumentava conforme mais rápido me mexia. Obrigava-me a pensar que não era hora para frescura, mas estava ficando insuportável, minha vista começava a dobrar e não enxergava o que estava a pouca distância da minha frente.

– Hey! Preciso de ajuda.

Foi tudo que ouvi antes de cair inconsciente no banco passageiro do carro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.