Crisálida sob franjas azuis

1 Capítulo 1 - Crisálida sob franjas azuis


Chloe caminhava a passos largos em direção ao banheiro feminino da Academia Blackwell, tinha um encontro marcado e sabia que tudo podia mudar. Já haviam se passado seis meses desde que Rachel sumira sem deixar nada além de preocupação constante e um aperto no coração de Chloe. Parou e respirou profundamente ao chegar à porta do banheiro, em seguida, abriu a porta e entrou com uma postura séria.

O rapaz com quem havia marcado de encontrar era chamado Nathan Prescott. Filho do homem mais influente da cidade, Nathan era um rapaz que detinha uma quantia considerável de dinheiro, porém guardava segredos obscuros. Chloe detinha o conhecimento de algumas informações que não seriam agradáveis para a família do garoto caso fossem a público, assim, as utilizava para chantageá-lo.

A garota de cabelos azuis verificou se o banheiro estava vazio e iniciou sua conversa nada amigável com o rapaz. Chloe havia conhecido o verdadeiro significado de viver no inferno nos últimos meses, havia perdido o controle de sua mente há muito tempo, sua noção de realidade e interação humana haviam sido completamente distorcidas por seu sofrimento. De uns tempos para cá, suas ações eram guiadas por uma impulsividade exacerbada e inconsequente.

Chloe investia ferozmente nas ameaças contra Nathan, sabia que com o dinheiro do garoto, ela teria alguns de seus problemas sanados. O garoto começou a responder e, em um lampejo, Chloe deparou-se com uma arma sendo empunhada logo à frente de seu rosto. Agora o rapaz gritava com ela e aproximava cada vez mais a arma de seu corpo, Chloe sabia que não havia escapatória e, desesperada, começou a tentar afastar o garoto.

Poucos segundos antes de Nathan provavelmente apertar o gatilho e dar fim à vida complicada de Chloe, o alarme de incêndio tocou, deixando o rapaz distraído por tempo suficiente para que a garota o empurrasse e saísse do local sem mais problemas.

Chloe havia passado algum tempo divagando sobre o que acabara de acontecer, certamente, agora havia mais um motivo para odiar Nathan Prescott. Como se já não fosse suficiente o fato de ele tê-la drogado e tentado registrar seu estado entorpecido em um arquivo fotográfico, o rapaz era sabidamente um distribuidor de drogas para os alunos daquela instituição de ensino. Para completar, ainda era provável que ele fosse responsável, ou pelo menos cúmplice, do sumiço de Rachel.

Rachel Amber, cabelo loiro e olhos cor de avelã. Além de linda e popular, a garota era a salvadora de Chloe, o que havia lhe dado forças para tentar viver novamente. Haviam passado ótimos momentos juntas, vivido loucuras e feito planos quase utópicos de fugir daquela cidade e ir para Los Angeles. Rachel havia tirado Chloe do estado de simples existência e lhe concedido o prazer de viver novamente, era quase como se Rachel fosse um sol, iluminando a vida de Chloe e lhe dando aconchego, enquanto Chloe orbitava em sua volta, contemplando sua majestosidade e vigor.

Em meio à confusão que Chloe chamava de vida nos últimos anos, Rachel havia aparecido e lhe estendido uma mão, o que as pessoas mais próximas de Chloe não haviam tido a capacidade de fazer. Desde então, elas haviam se tornado basicamente inseparáveis, quase como se fossem juntas pela cabeça.

Chloe foi despertada de seu devaneio quando um skatista passou deslizando por cima de um corrimão ao seu lado, percebendo que já havia passado mais tempo do que esperava, a garota levantou-se e dirigiu-se ao estacionamento para buscar seu carro.

A caminhonete de Chloe estava estacionada atravessada em cima de duas vagas destinadas a deficientes físicos, demonstrando completo desrespeito com os outros membros da comunidade e a garota tinha ciência disso, porém não considerava esse fato algo importante. Tudo que ela amava havia sido lhe tirado abruptamente, se ela podia viver sem direitos básicos, as outras pessoas também podiam.

A garota de cabelos azuis sentou-se ao volante e ligou o carro, engatou a marcha e partiu rapidamente rumo ao asfalto da rua adjacente. Em um lampejo, Chloe viu-se obrigada a apertar o freio abruptamente. Três estudantes discutiam no estacionamento e um deles recém havia despencado em direção ao chão. Quando a figura surgiu erguendo-se do chão e olhando em sua direção, os músculos de Chloe se retesaram, a palavra saiu tão rápido de sua boca que a garota mal teve tempo de perceber.

— Max? – disse Chloe, incrédula com a imagem que via.

— Chloe? – devolveu a garota de cabelo marrons e curtos que se apoiava no para-choque do carro.

Dentre todas as pessoas que Chloe poderia esperar encontrar em Arcadia Bay, certamente Maxine Caulfield não era uma. Cinco anos atrás, Max e Chloe eram melhores amigas, inseparáveis, verdadeiras companheiras de expedições piratas. Haviam construído uma casa na árvore, pintado um mural e até feito uma sessão de degustação de vinho. Tudo fluía bem até que o acidente aconteceu, o acidente que levou o pai de Chloe para sempre e lhe trouxe tristeza. Perdas são terríveis acontecimentos que todos acabam por passar em algum momento da vida, mas o sofrimento de Chloe poderia ter sido muito menor se Max tivesse permanecido em Arcadia Bay.

Max havia a abandonado justo quando ela mais precisava, a garota acabara de perder o pai e logo depois sua melhor amiga estava de mudança para uma cidade distante, nada poderia piorar. Max não ligou uma vez sequer, não mandou uma única mensagem e muito menos uma carta durante aqueles cinco anos longe. Desprovida de qualquer ponto de apoio e orientação, Chloe teve uma adolescência rebelde, envolveu-se com pessoas indevidas, utilizou substâncias ilegais e tornou-se alguém de difícil relacionamento. Não que após tantas catástrofes na vida da jovem garota fosse esperado que ela se mantivesse saudável mentalmente, mas Chloe havia passado de uma garota feliz e divertida a uma pessoa egoísta e impulsiva.

As rodas do carro giravam enquanto Chloe pressionava o pedal do acelerador, ver Max sentada ao seu lado depois de tantos anos era quase irreal. O mais frustrante para Chloe era perceber que Max transparecia não dar importância ao fato de não ter ligado em 5 anos. Enquanto ela havia sofrido pela morte do pai e as catástrofes subsequentes, aparentemente, abandoná-la e ir para Seattle havia sido algo bom para Max.

Passaram-se alguns momentos de conversa sobre os motivos de Max ter retornado à Arcadia Bay, até que Max começou a fazer algumas breves tentativas de explicar o motivo de não ter contatado Chloe assim que chegara à cidade cerca de um mês atrás, o que obviamente não foi aceito como sincero pela garota de cabelos azuis. Max notou que sua câmera estava estragada e fez uma piada sem graça, quebrando o clima tenso que pairava pelo ar alguns segundos antes. Chloe amoleceu e disse que Max poderia consertar a câmera em sua casa, já que seu padrasto tinha uma coleção de ferramentas. Após alguns segundos de silêncio, Chloe comentou:

— Bem-vinda ao lar, Max.

O quarto de Chloe definitivamente havia mudado desde que elas eram crianças, as paredes eram cobertas por gravuras ou frases, a escrivaninha cheia de folhetos sobre o desaparecimento de Rachel e cigarros, o chão era bagunçado e a lixeira lotada de infrações de trânsito. A garota entrou pela porta e dirigiu-se à sua cama, deitando nela enquanto sua antiga melhor amiga procurava um CD para que elas pudessem ouvir música.

Max pegou uma foto de Chloe e Rachel guardada em uma pequena caixa debaixo da cama da amiga. Ao notar o objeto na mão da amiga, a garota de gorro azul levantou-se de supetão e, grosseiramente, ordenou que Max largasse a fotografia.

Chloe sabia que Max não tinha culpa alguma sobre o que havia acontecido com Rachel e logo baixou a guarda novamente. Não demorou muito tempo até que a garota de cabelos azuis começasse a falar sobre o quão triste ela havia ficado por Max não ter mantido contato e de como Rachel havia a salvado de todo aquele sofrimento.

A fotógrafa até tentava confortar Chloe dizendo que havia errado em não dar sinal de vida durante aqueles cinco anos, mas era extremamente perceptível que nada no mundo faria sua melhor amiga se sentir melhor naquele momento. Até sua voz parecia perturbada ao falar sobre aquilo, toda a dor que Chloe havia aguentado durante os últimos anos parecia estar se manifestando em sua fala. A perda de seu pai, o abandono de Max, o fato de sua mãe estar envolvida com um homem que era muito rude aos seus olhos, e por último, o desaparecimento de Rachel. Chloe sentia que desde que Max fora embora tudo havia desmoronado, e mesmo que ela tentasse se reerguer, as bases sempre falhavam e ela se via presa no fundo de um poço novamente.

Chloe contou à Max sobre seus planos com Rachel, sobre como elas estavam felizes até que ela havia desaparecido sem deixar rastros. Um sentimento devastador tornou a ocupar a cabeça de Chloe e ela pediu para que Max colocasse o CD no aparelho de som e fosse à garagem procurar as ferramentas enquanto ela acendia um cigarro e refletia sobre sua catastrófica vida.

Max obedeceu e deixou Chloe sozinha, deitada em sua cama com um cigarro na boca e um cinzeiro apoiado no torso. Os minutos que Max passou no andar de baixo deram à Chloe a oportunidade de refletir mais profundamente sobre o que havia acontecido naquele dia. Um garoto havia apontado uma arma para ela e ela provavelmente estaria morta se alguém não tivesse soado o alarme de incêndio. Seja lá quem fosse que tivesse soado o alarme, Chloe lhe devia muito.

Estar com Max novamente era um tanto quanto estranho para Chloe, depois de cinco anos sem conversar uma vez sequer, nada parecia ter mudado, elas ainda tinham uma química espetacular. Uma sensação reconfortante passou pelo corpo de Chloe, agora sua melhor amiga estar de volta e as coisas iriam melhorar. O sangue da garota começou a correr mais rápido só de pensar em como ela e Max precisavam reaver os momentos perdidos nos últimos cinco anos e uma onda de calor tomou conta de seu corpo, Chloe decidiu tirar o casaco para ficar mais confortável.

A melhor amiga de Chloe entrou pela porta do quarto com uma caixinha de minúsculas ferramentas e a garota de cabelos azuis disse que ela podia sentar-se à escrivaninha e tentar consertar a câmera quebrada. Chloe ficou observando Max lutar contra a pequena Polaroid estragada até que sua amiga demonstrou sinais de desistência.

Chloe levantou-se da cama e caminhou até Max, soltando seu cinzeiro e observando as novas fotos que sua amiga havia tirado, havia uma foto muito peculiar sobre a mesa, uma imagem mostrando uma borboleta azul apoiada em uma superfície de metal. Não demorou mais de um segundo para que Chloe ligasse os fatos, Max havia sido a pessoa a soar o alarme algumas horas mais cedo, foi Max quem salvou sua vida.

Após alguns segundos de preocupação sobre quem teria ficado sabendo do incidente no banheiro, Chloe dirigiu-se à estante perto do chão e dela tirou um objeto valioso.

— Essa é a câmera do meu pai de verdade... eu quero te dar isso.

A priori, Max tentou rejeitar o presente, mas Chloe justificou sua escolha e disse que pegaria a foto da borboleta no banheiro como símbolo da reunião delas. Alegre com a presença de Max e finalmente livre da insegurança de que alguém houvesse ficado sabendo do incidente no banheiro, Chloe decidiu colocar uma música no último volume. Convidou Max para dançar junto e pediu para que ela tirasse uma foto com sua câmera nova.

A alegria durou pouco, vindo do andar de baixo, uma voz grossa surgiu ordenando que Chloe desligasse o aparelho. O padrasto de Chloe era um homem difícil de conviver, moldado pela guerra e com aparentes transtornos psíquicos ocasionados pela mesma. A garota até imaginava a possiblidade de haver câmeras escondidas pela casa sem ela e sua mãe fossem notificadas.

O homem parecia querer subir ao quarto de Chloe, o que fez com que ela ordenasse que Max se escondesse. Max entrou no armário enquanto Chloe segurava a porta para que seu padrasto não pudesse simplesmente empurrá-la, vendo que não havia mais como evitar que ele entrasse, Chloe cedeu e permitiu a entrada do adulto.

David Madsen começou a atacar Chloe como sempre fazia, dessa vez, culpando-a pela falta de uma das armas que ele guardava em um armário na garagem. Chloe negou a acusação e David avistou um cigarro de maconha logo acima da bancada da garota, o homem surtou novamente e chegou ao extremo de agredi-la com um tapa no rosto. Chloe enfureceu e disse que ele nunca mais deveria tocá-la novamente, o homem deixou o quarto da garota dizendo com desdém que um dia ela cresceria.

Chloe estava sentada na cama, massageando o local onde David havia a agredido. Max abriu a porta do armário e deu um passo em direção à Chloe, a garota parecia um pouco em dúvida sobre se havia feito o certo em não interromper a discussão e ajudar sua melhor amiga. De toda forma, já era tarde, Chloe havia sido violentada e Max nada fizera para evitar.

— Vamos sair pela janela, há um lugar legal para ir nesse fim de mundo. – disse Chloe, logo antes de abrir caminho pela bancada e deixar o quarto.

Chloe estava visivelmente estressada com o ocorrido em seu quarto, a garota estava sentada em um banco com vista privilegiada para o pôr-do-sol, à beira do penhasco onde havia o farol da cidade. Max sentou-se ao seu lado, tentando aproximar-se novamente. O assunto desenvolveu-se acerca de David e sua relação com Chloe, passando por sua tentativa de perturbar Kate Marsh, até Max revelar que havia descoberto um sistema de câmeras instalado na garagem.

A garota de cabelos azuis contou o motivo de ela e Nathan terem marcado aquele encontro no banheiro, ela havia guardado isso por algum tempo e era um alívio poder contar para alguém que não a julgasse, principalmente Max. Chloe levantou e deu uns passos em direção ao precipício, proferindo algumas palavras enquanto observava o sol descendo em direção ao horizonte.

De súbito, Max recuou um pouco ao sentir um desconforto incrivelmente forte e desconhecido em sua cabeça, Chloe virou-se para auxiliá-la, mas sua amiga aparentava ter ficado fora do ar.

Chloe pôs a mão sobre o ombro de Max, fazendo-a perder o equilíbrio e ir ao chão. Chloe desceu até seus olhos ficarem no nível dos de sua melhor amiga, permitindo um melhor contato visual. Max pareceu voltar ao normal, a não ser pelo fato de que falava coisas absurdas como a vinda de um tornado que extinguiria a cidade. Em um dado momento da conversa, Max segurou o braço de Chloe, o que fez a garota congelar por um instante. Chloe estendeu seu outro braço em direção à Max e a segurou, a garota de cabelos castanhos parecia insegura, nervosa com algo e até um pouco assustada.

— Tenho que te falar algo... hardcore – disse Max, desnorteada.

ax começou a falar e Chloe tentava compreender de uma forma lógica o que sua amiga dizia. Não havia sentido algum no que Max dizia até que ela comentou sobre visões e a forma como havia salvo Chloe no banheiro naquele dia. A mais velha não acreditou no início, porém antes que Max pudesse tentar desenvolver melhor a história, flocos de neve começaram a cair, mesmo que a temperatura estivesse em 26.6ºC.

— Mudança climática – disse Max, erguendo-se do chão – ou uma tempestade está vindo.