Cristal de Gelo
5 Capítulo 4 - Cacos de vidro
Notas iniciais
O vento e as ligeiramente amareladas folhas das árvores dançavam a mais velha dança do mundo. O gentil restolhar o único som que se fazia ouvir. Folhas secas rodopiavam pelo ar, criando um tapete estalante ao atingirem o solo de erva verde pálida.
Já é Outono, Lyaris pensou. A realização apreendendo-a.
Fechou os olhos. Inspirou fundo, deixando o frio ar matinal preencher-lhe lentamente os pulmões. Elevou os braços, puxando depois para trás o esquerdo. A pena fez-lhe cócegas na pele da face. A madeira protestou, enquanto a corda retesava. Abriu os olhos e pós fixá-los na pequena criatura castanha que corria por entre os ramos das árvores largou a corda.
Um sorriso satisfeito fez o seu caminho até aos seus lábios quando a seta atingiu o alvo. Levantou-se lentamente, pronta a ir buscar a sua presa quando movimento entre os arbustos à sua frente chamou a sua atenção. Depressa tirou uma seta da aljava e apontou-a em direção ao movimento. Um suspiro de alívio escapou-lhe quando Vento Cinzento emergiu dos arbustos com um esquilo na boca. O sangue no seu pelo indicava que ele já caçara. Não pode deixar de sorrir perante a visão enquanto baixava o arco e devolvia a seta à aljava.
Aproximou-se calmamente do lobo gigante, baixando-se quando estava suficientemente perto.
– Estás a tentar roubar-me a minha presa, Vento? – perguntou-lhe, dedicando um olhar humoroso ao lobo que depositou o animal morto aos seus pés. Lyaris não pode conter um pequeno sorriso enquanto estendia a mão e coçava o macio pelo atrás de uma das orelhas de Vento Cinzento. – Obrigada.
Apanhou o esquilo e, segurando-o pelas patas traseiras, fez o seu caminho em direção à carroça que continha o resultado da caçada daquele dia. A quantidade de caça tornava-se menor a cada dia que passava, as batalhas que haviam sido travadas nos arredores tinham assutado os poucos animais que sobreviviam às caçadas dos Senhores para alimentar os seus exércitos. As suas opções estavam a esgotar-se e Lyaris não sabia como poderia continuar a alimentar as pessoas da aldeia aquele ritmo.
Um som agudo encheu o ar fazendo-a olhar em direção ao céu. Um corvo voava baixo sobre as árvores. Uma fita rosa segurava uma mensagem à sua pata esquerda. Bolton. Deixou o esquilo cair no chão e retirou uma seta da aljava, colocando-a rapidamente no arco. Os seus braços ergueram-se, a corda do arco retesou. Os seus olhos semicerram-se, o sol desfavorável à sua visão. Mesmo assim podia ver a ave negra a cruzar o limpo céu azul e não hesitou em largar a seta quando teve a certeza de que o corvo se encontrava na sua mira. A seta silvou, cortando o ar. Atingiu o seu alvo no peito e a ave caiu numa descida abrupta.
Antes que pudesse realizar qualquer movimento Vento Cinzento impulsionou-se nas suas patas traseiras, correndo na direção em que o corvo caiu. A força do seu movimento causou vibrações no solo que foram absorvidas pelos pés de Lyaris. A jovem Umber apercebeu-se pela primeira vez na real extensão da força do animal gigante.
O seu comportamento doce e gentil não lhe tirava a verdadeira força que continha.
Não demorou muito para que o lobo retorna-se com o animal na sua boca e o deposita-se delicadamente aos pés da Umber. Um sorriso adornou os seus lábios.
– Bem, isto está a tornar-se hábito. – disse divertida.
Baixou-se e desatou a fita, retirando o pequeno pedaço de papel. A letra desenhada a tinta preta era descuidada, fazendo Lyaris semicerrar os olhos para poder distinguir as palavras, mas não havia qualquer dúvida de que se tratava da letra de Roose Bolton. Os seus olhos acabaram por se arregalar subitamente quando acabou de ler a mensagem. Abalada pela informação, dobrou cuidadosamente o pedaço de pergaminho e guardou-o no bolso do vestido. Olhou então para a ave, incerta sobre o que fazer com ela. Ergueu-a do chão por uma das patas, ponderando.
– Suponho que não gostes de corvo… — Lyaris indagou, olhando para Vento Cinzento. Uma respiração abrupta foi emitida pelo nariz do lobo e as suas orelhas abanaram ligeiramente. – Pensei que não. As penas não devem ser agradáveis. – ergueu-se com a ave e o esquilo nas mãos, encarando o olhar inquiridor do lobo gigante. – Bem, não deve ter um sabor muito diferente de pombo. – justificou-se.
Retornou ao caminho que antes percorria, sabendo que Vento Cinzento a seguiria. A carroça encontrava-se numa pequena clareira. A maioria dos homens que levara consigo naquela manhã já se haviam reunido com os cavalos. Todos baixaram a cabeça em respeito quando se aproximou, ao que a jovem lhes dedicou um sorriso reconhecedor.
Atirou as suas pequenas presas para a carroça, onde já se encontravam três veados e dez coelhos. Alguns esquilos eram vistos também. Suspirou. Durante quanto mais tempo poderiam aguentar?
– Senhora. – ouviu Sor Clarck chamar atrás de si. – Perdoai-me mas… Um corvo?
Mais uma vez suspirou.
– Não foi propriamente uma caça planeada. – respondeu com um pequeno sorriso enquanto se virava para encarar o cavaleiro de olhos âmbar. – Por favor, lembrai-me que devemos convocar Sor Oliver e um dos soldados de patrulha assim que retornarmos à aldeia.
Viu entendimento passar pelos olhos do homem. Sor Clarck assentiu, entregando-lhe as rédeas do garanhão branco que a havia transportado para Sul, após saírem da Última Lareira. Aceitou as rédeas e aproximou-se do macho, acariciando o focinho do animal. Havia-lhe sido oferecido pelo seu pai três anos antes, pelo seu aniversário, era ainda um potro. Chamara-lhe Neve. Sorriu perante as memórias antes de se mover para o montar.
A pequena coluna moveu-se rapidamente pela mata que já se tornara conhecida para todos. As árvores de troncos esguios e altos começavam a perder as folhas alaranjadas e acastanhadas mas ainda providenciavam sombra contra o sol que, aquela hora, começava a erguer-se alto no límpido céu azul. Vento Cinzento seguia-os de perto, por entre as árvores, mas mantendo um segura distância da coluna. Os cavalos sentiam-se inquietos com a presença do lobo gigante e acidentes e mais feridos era algo de que, com toda a certeza, não precisavam.
A entrada para a aldeia subterrânea tratava-se de uma gruta, de embocadura larga de rochas graníticas. Musgo cobrias as paredes exteriores e um pequeno fio de água corria no lado Norte. O interior era escuro. A passagem para a aldeia era estreita e escondida tanto pela precária iluminação como pela mudança de direção abrupta no caminho escavado na rocha. O terreno começava depois a descer, numa inclinação acentuada, o que obrigava a que os cavalos avançassem num trote lento e cuidadoso.
A entrada na aldeia era assinalada pela luz que começava a iluminar o caminho, providenciada pelas inúmeras tochas nas parede rochosas e nas paredes barrentas das casas que se começavam a alinhar mais ao fundo.
Os cavalos eram guardados nos estábulos que se encontravam numa escavação à direita da entrada, construídos longe da zona habitacional para minimizar o desagradável odor que o local podia emanar.
Desmontou Neve à entrada dos estábulos e entregou as rédeas a um dos soldados que acompanhara a coluna. Em qualquer outra situação teria sido ela própria a tratar do cavalo no entanto assuntos urgentes tinha de ser tratados e não havia um segundo a perder.
– Por favor Sor Clarck. – começou, chamando a atenção do cavaleiro – Chamai Sor Oliver e os soldados responsáveis pelas duas patrulhas. Se tiverdes a amabilidade de deixar que esta reunião ocorra na vossa casa. Não quero preocupar Vossa Graça antes de termos oportunidade de discutir profundamente o assunto. Não há necessidade de perturbar a sua recuperação.
– Não vejo porque colocar impedimentos ao vosso pedido. – Sor Clarck assentiu ao pedido. – Mas se me permitíeis, não seria sábio incluir Vossa Graça nas notícias que nos chegam da superfície, Senhora?
Lyaris fechou os olhos e deixou que um suspiro passasse pelos seus lábios. Não podia negar a razão nas palavras do cavaleiro. Robb era o seu Rei, devia-lhe lealdade e respeito e omitir o que acontecia no reino enquanto ele recuperava não se inseria em nenhuma das categorias. No entanto era o melhor a fazer. Pelo menos por enquanto.
– Ambos sabemos o que Vossa Graça faria se ficasse a saber e isso é algo que eu não posso permitir.
Foi a vez do cavaleiro suspirar. Baixou a cabeça numa pequena vénia e afastou-se para atender ao pedido da jovem Umber.
Dirigiu-se à casa ocupada pelo cavaleiro em passo lento e cabeça baixa. As suas mãos entrelaçaram-se abaixo do seu ventre, os seus dedos remexendo-se nervosamente. A sua garganta estava apertada e a carta parecia adquirir o peso de uma pedra no seu bolso. Os seus pensamentos corriam selvagens pela sua mente, sem uma ordem específica, demasiado rápidos para que se pudesse concentrar em qualquer um deles. Uma pequena dor depressa se começou a formar nas suas têmporas. O stress a reclamar o seu corpo e a sua mente pela segunda vez naquela semana.
O alívio preencheu-a com avistou a pequena casa. Empurrou a pesada porta de madeira com todo o seu corpo e de imediato se dirigiu a um dos bancos que rodeava a mesa de madeira tosca. O seu corpo caiu no banco como uma pedra no fundo de um poço. Permitiu-se fechar os olhos por alguns momentos e tomou respirações profundas, esperando que isso lhe alivia-se a dor irritante contra o seu crânio.
Voltou a abrir os olhos quando apenas minutos depois Sor Clarck entrava na casa trazendo consigo Sor Oliver e dois dos intendentes responsáveis pelas patrulhas. Com um gesto fluído da sua mão afastou as vénias que lhe dedicaram e indicou os restantes bancos, esperando até que os quatro homens estivessem confortáveis para dar início à inesperada reunião.
– Quais são as últimas noticias das patrulhas? – perguntou diretamente aos dois intendentes.
Não tinham mais do que vinte anos cada um. Um deles era alto e esguio como uma lança. O seu cabelo cor de areia espreitava timidamente por baixo do meio elmo que usava e que retirou assim que a jovem senhora se dirigiu a si. Os seus olhos castanhos nunca a olhando diretamente. Fora um homem de Renly Baratheon no início da guerra, tendo sido abandonado após a morte do mesmo quando o exército, liderado pelos Tyrell, se movera para sul para se juntar aos Lannister, juntamente com mais vinte soldados feridos. Apenas cinco se encontravam aptos para caminhar, tendo deambulado pelo reino em qualquer direção premeditada, em busca de solidariedade e compaixão. Sem que se dessem por isso começaram a dirigir-se a norte. Eram apenas três quando uma das patrulhas os encontrou apenas uma semana após se terem estabelecido na aldeia. Um deles acabara por morrer. Os dois restantes soldados, após completa recuperação, colocaram as suas espadas aos pés de Lyaris, jurando-lhe lealdade em troca da hospitalidade e cuidados médicos que tinham recebido. Foi ele quem respondeu à pergunta.
– Tudo se mantém minha Senhora, mas notícias são de que Jaime Lannister cavalga com uma companhia em direção a Correrio para se juntar ao cerco.
O outro intendente era um homem de estatura média e de ombros largos. Uma espessa cabeleira negro e uma ainda mais espessa barba cobriam a sua cabeça. Um nortenho nascido em Última Lareira que se juntara aos homens do seu pai com apenas catorze anos. Depressa se lançou a completar o relatório dado pelo seu camarada.
– Lorde Edmure continua a ser colocado na plataforma todos os dias, mas até agora os Frey não cumpriram a ameaça de o enforcar e o Peixe Negro continua a recusar-se a abrir os portões. O estandarte Stark continua a esvoaçar nas suas ameias.
Lyaris deixou escapar um suspiro cansado e esfregou as têmporas. A sua dor de cabeça só parecia piorar com as notícias. Se o Regicida se encontrava a caminho de Correrio o rumo do cerco poderia mudar drasticamente. A única coisa que Lyaris poderia fazer era rezar aos Deuses Antigos para que as consequências não tivessem proporções desastrosas.
– Alguma noticia das terras mais a Sul Sor Oliver? – perguntou ao cavaleiro nortenho, olhando para as mãos, ainda perdidas em pensamentos sobre os Tully.
– Obtivemos uma informação que pode interessar muito a Vossa Graça. – a frase captou de imediato a atenção da jovem que voltou o seu olhar para o cavaleiro, mostrando-lhe que este tinha a sua total atenção. – Parece que as irmãs de Sua Graça, a princesa Sansa e a princesa Arya se encontram desaparecidas. Na verdade, ninguém sabe do paradeiro da princesa Arya desde a execução de Lorde Eddard.
Não era possível.
A sua testa franziu-se e os seus pensamentos pareceram formar um turbilhão na sua mente. Alguma peça não encaixava naquele tabuleiro. O jogo estavam a jogar os Lannister?
– Tendes a certeza dessa informação Sor Oliver?
– A fonte é de confiança Senhora.
Aquela informação mudava tudo. E tudo parecia fazer mais sentido agora. Talvez houvesse esperança e ainda fosse possível ganhar aquela guerra. E aquela nova peça era vital no tabuleiro do perigoso jogo dos tronos que ela, sem se aperceber, começara a jogar.
Retirou do bolso o pergaminho e desenrolou-o, colocando-o na mesa ao alcance dos olhos dos quatro homens.
– Foi escrita pelo Lorde Bolton em pessoa, dirigida ao seu filho bastardo que, aparentemente foi legitimado. – começou, explicando o conteúdo da carta. – Afirma que chegará a Fosso Cailin, que se encontra nas mãos dos Homens de Ferro, dentro de uma semana e que trás consigo a princesa Arya. Um casamento entre a Princesa e Ramsay Bolton deve ser celebrado em Winterfell assim que todos os vassalos do Norte se reúnam no castelo.
Esgares de espanto foram ouvidos na pequena divisão. Sor Clarck foi o primeiro a vocalizar os seus pensamentos.
– Mas se a princesa Arya se encontra desaparecida, a rapariga que Lorde Bolton trás com ele…
– Provavelmente alguém a fazer-se passar por Arya Stark.
– Os vassalos irão saber que não é ela. – Sor Oliver interveio.
– Nenhum deles se atreverá a chamar o Bolton de mentiroso. Se ele disser que se trata de Arya Stark todos abanaram a cabeça obedientemente e ele terá aquilo que sempre quiseram e porque traiu o seu Rei: Winterfell e o Norte.
– Senhora, perdoai-me a intromissão, mas não seria hora de trazer ao conhecimento de Vossa Graça os últimos acontecimentos? – o cavaleiro nortenho interveio.
Lyaris pensou cuidadosamente na resposta. O seu coração tão apertado como quando a mesma pergunta fora feita por Sor Clarck apenas momentos antes.
Confiava nos dois cavaleiros com todo o seu ser e valorizava os seus conselhos e opiniões. Mas o senso de proteção que tinha desenvolvido para com Robb nos meses em que cuidara do Rei durante a sua inconsciência manifestava-se mais fortemente do que qualquer outro sentimento que pudesse ter para com o mundo à sua volta. Ela tinha de proteger Robb, mesmo que isso significasse omitir-lhe os acontecimentos do mundo exterior.
– Se Vossa Graça for informado sobre o que se passa ele irá querer marchar para Correrio. Todos sabemos as consequências que isto pode trazer. O Norte, por mais que nos desagrade, está subjugado Lorde Bolton, alguns dos vassalos marcham ao lado de Stannis. Quando ouvirem que o seu Rei vive, talvez já não haja um Rei a quem jurar lealdade. As forças que temos no momento não são suficientes para lutar contra qualquer um dos inimigos que nos rodeiam.
O silêncio flutuou pesado no pequeno espaço da modesta casa e Lyaris sabia que os dois cavaleiros entendiam a veracidade das suas palavras. Mas isso não tornava a situação mais fácil, ou afastava o sentimento que, de alguma forma, estavam a ser desleais para com o seu suserano.
Quando abandonaram a casa, para que cada um volta-se às suas rotinas, todos se encontravam de cabeça baixa e peito pesado. O sentimento não abandonou Lyaris durante um único segundo do dia, enquanto se movia rapidamente pela enfermaria, prestando toda a assistência que podia. Na verdade tornava-se cada vez maior, aumentando também a dor de cabeça e o cansaço que se prendia aos seus ossos como uma camada de gelo envolvia os galhos nus das árvores durante os meses de Inverno.
Tudo pareceu piorar quando abandonou a enfermaria em direção a sua casa, decidindo que uma hora de repouso poderia restaurar pelo menos parte das suas forças. Robb caminhava lentamente pela aldeia com Vento Cinzento ao seu lado. Cumprimentava e falava brevemente com alguns dos aldeões. Um pequeno sorriso apareceu no rosto do Stark quando os olhos de ambos de cruzaram e Lyaris forçou-se a sorrir de volta e a caminhar na sua direção, sentindo-se a mais pecadora das almas que caminhava em Westeros. Sentiu uma pequena quantidade de satisfação quando viu o braço esquerdo de Robb ao peito, mas o sentimento depressa foi abafado com sensações mais sombrias.
– Vossa Graça. – cumprimento com uma respeitosa vénia quando se encontravam próximos.
– Pensei que tínhamos chegado a um entendimento quanto a títulos, Senhora. – ele disse-lhe com um sorriso que, com o passar do tempo, começava a chegar aos seus olhos azuis.
– Perdoai-me Vossa Graça, mas penso que devo manter uma certa formalidade em público. Não gostaria que pensassem em mim como desrespeitosa para com Vós. – ela respondeu e amaldiçoou-se pela irregularidade da sua voz.
Viu as sobrancelhas de Robb enrugarem-se e juntarem-se no centro da sua testa e de novo se amaldiçoou. Claro que ele notaria a diferença.
– Estais bem Senhora. – os seus olhos e expressão mostravam clara preocupação.
– Apenas cansaço, Vossa Graça. – e a facilidade com que a mentira escorregou pelos seus lábios alarmou-a. Mas não tanto como a expressão suave que o rosto de Robb adotou perante as suas palavras. Ele confiava plenamente nela e Lyaris começava a duvidar ser digna de tal confiança.
Os seus pensamentos e a atenção do Rei foram quebrados quando uma pequena comoção começou a gerar-se à sua volta. Olhou freneticamente à procura da fonte do alvoroço. As mulheres remexiam-se inquietas e as crianças começaram a correr. Acabou por avistar uma menina, com não mais do que seis anos, a correr vinda da entrada da aldeia.
– Eles chegaram. Eles chegaram Trazem feridos.
Os pés de Lyaris iniciaram imediatamente passos apressados em direção à entrada da aldeia. A patrulha que saíra em direção aos limites das Gémeas regressara e trazia feridos consigo. Não se demorou a aperceber que Robb e Vento Cinzento a seguiam.
Avistou rapidamente a pequena patrulha de seis homens, cada um deles trazia um ferido apoiado em si. Todos homens percebeu. O mais novo teria pouco mais de vinte anos, o mais velho talvez quarenta e todos envergavam uniformes de diferentes cores. Soldados deixados para trás.
Soldados da Última Lareira depressa acudiram para ajudar a levar os recém-chegados para a enfermaria. Lyaris aproximou-se imediatamente do intendente responsável pela patrulha. Robb colocando-se ao seu lado.
– Senhora. Vossa Graça. – o homem de complexo entroncado e feições austeras cumprimentou. Sem que desse qualquer oportunidade para Lyaris falar, retirou do pequeno saco que trazia à sua cintura um pequeno objeto e entregou-o à Umber.
Lyaris estendeu a mão, observando a peça. O ar ficou preso na sua garganta e o mundo à sua volta desabou. Tratava-se de um simples e delicado colar. O fio de prata brilhava sob a luz dos archotes, ostentando um pequeno pendente bordado a prata entrançada com um pedra de aqua marinha no seu centro. O colar favorito da sua mãe. E apenas uma pessoa poderia ter aquele colar.
– Encontrámo-lo ao pescoço de um cadáver muito deteriorado ao largo das Gémeas. – lembrava-se perfeitamente de lhe pendurar o colar ao pescoço, fazendo-o prometer que ele lhe retornaria em pessoa um dos poucos objetos que possua da sua falecida mãe. Lembrava-se do sorriso que ele ostentara naquele momento e no abraço quente de despedida que lhe dera enquanto ela controlava as lágrimas. – Lamento imenso Senhora.
E naquele momento não havia como controlar as lágrimas que caíram livremente pela sua face. As pernas demasiado fracas para suportar o seu peso dobraram-se e os seus joelhos depressa encontraram o chão de terra dura e ressequida. Os seus pulmões recusaram-se a aceitar o ar que, a custo, inspirava e Lyaris sentia-se a afogar. A afogar-se num mar de angústia, raiva, pesar e tristeza.
Oh Jon. Meu querido, meu irmão Jon.
E então veio o vazio. O nada. Porque isso era o que ela agora tinha: nada.
Algo pareceu estilhaçar dentro de si. Cacos de vidro espalhando-se por todo o seu ser. Lyaris percebeu então que fora o estilhaçar do seu coração.
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