Cristal de Gelo

2 Capítulo 1 - Memórias de Sangue


Notas iniciais
Primeiro que tudo, ficou impressionada com o número de visualizações que a fanfic teve. Fica difícil perceber se a história agrada sem comentários, mas de qualquer forma, espero que todos os que leram o prólogo tenham gostado (: Vou tentar postar um capítulo todas as semanas, entre domingo e terça-feira, embora não possa prometer que isto aconteça sempre. A faculdade ocupa-me bastante tempo e, em adição, encontro-me no meio de um bloqueio criativo. Tinha decidido uma linha para a história que agora vejo que tem alguns pontos fracos e estou a tentar modificá-la um pouco, o que também não ajuda a superar o bloqueio. Mas estou a dar o meu melhor relativamente a isso. Bem, de qualquer forma espero que gostem deste capítulo (:

Todo o seu corpo estava tenso e dorido, como se há muito não se move-se. Uma dor aguda trespassou-o quando tentou mover um braço fazendo-o soltar uma respiração entre os dentes e morder levemente a língua.

– Os Deuses Antigos sejam louvados. – ouviu uma voz masculina, grave e profunda dizer algures do seu lado direito. Uma porta pesada abriu-se bruscamente. – Lady Lyaris! Lady Lyaris! Os Deuses são bons, ele acordou!

Um longo silêncio se seguiu. A primeira mudança de que se apercebeu foi de algo molhado a tocar-lhe a mão. Tentou retraí-la por instinto e um pequeno lamurio foi ouvido. Tentou abrir os olhos, mas as suas pálpebras estavam demasiado pesadas para as abrir completamente. A sua cabeça latejada. Deixou escapar um gemido de dor e desconforto.

Segundos depois passos apressados foram ouvidos, demasiado leves para pertencerem a um homem. Uma respiração acelerada tocou-lhe levemente o rosto. Uma mão fria e suave tocou-lhe a testa, afastando o cabelo e sentindo a temperatura da pele. Um toque tão familiar. Porquê? De onde? Um suspiro de alívio foi ouvido.

– A febre finalmente cedeu. – uma voz suave, com um ligeiro toque de sinos, disse de forma lenta e quase suspirada, como se um grande peso se eleva-se das suas costas. – Sor Clarck, por favor, uma bacia com água fresca, um pano e o emplastro que eu fiz esta noite.

– Claro Senhora, vou já trazer.

Passos foram ouvidos e a pesada porta voltou a fechar-se. Um pequeno lamurio foi de novo ouvido.

– Está tudo bem. – ouviu-a dizer a alguém. – Ele acordou, vai ficar tudo bem agora. Ele só precisa de algum tempo.

Tentou mover-se de novo. Tentou forçar os seus olhos a abrirem-se. Os seus lábios abriram-se, a pele seca rachou adicionando mais um pouco à dor, mas nenhum som saiu.

– Não vos esforçais por favor. – a voz de sinos pediu – Já vem água fresca para a vossa garganta. Se a vossa cabeça estiver pesada, mantende os olhos fechados. Respirações profundas também irão ajudar. – a porta voltou a abrir – Obrigada Sor. Podeis deixar aqui.

– Ireis precisar de ajuda Senhora?

– Não obrigada. Mas podíeis verificar tudo lá fora por mim, por favor?

– Claro Senhora.

A porta fez um som seco ao voltar a ser fechada. Ouviu o restolhar de água e algo pressionou levemente o seu lábio inferior enquanto uma pequena mão era coloca por baixo da sua cabeça, inclinando-a um pouco.

– Água para a vossa garganta. Pequenos goles, senão irá aumentar à dor por vez de diminuí-la.

Fez como lhe foi instruído. Alívio veio de imediato aos seus lábios e garganta doloridos. Deixou escapar um suspiro quando acabou de beber. A sua cabeça voltou a ser baixada na almofada. Sons de água voltaram a ser ouvidos. Um tecido húmido foi pressionado à sua testa e depois aos lados do seu rosto, limpando suor ele supôs.

– Onde estou? – conseguiu finalmente articular. As palavras arranharam a garganta, causando dor no local.

– Num local seguro. – ela respondeu simplesmente.

Voltou a tentar forçar as suas pesadas pálpebras. Quando os olhos se abriram um pouco preparou-se para ser cegado pela luz, mas tal não aconteceu. O local onde se encontrava estava fracamente iluminado, a única fonte de luz provinha de duas velas, uma de cada lado do seu leito. Desviou os olhos na direção de onde ouvia a voz.

A primeira caraterística que identificou foram olhos cinzentos. Olhos cinzentos… Os seus próprios olhos esbugalharam-se. Olhos cinzentos… Porque é que sentia como se uma faca lhe tivesse trespassado o coração?

– Estais bem? Estais como dores? – ela perguntou apressadamente. Um ligeiro pânico entrelaçado nas palavras.

– O que aconteceu? – perguntou ele. A sua mente era ainda um acumular de névoa.

– Não vos lembrais?

Abanou a cabeça numa resposta negativa. Não, não se lembrava. Não sabia como chegara ali, o que acontecera ou quem era. Mas algo doía. Algo doía mais do que os seus membros doloridos, a sua garganta arranhada ou os seus lábios secos e estalados. O seu coração e alma doíam. Uma dor esmagadora, quase insuportável.

Algo voltou a tocar a sua mão. Primeiro uma superfície molhada. Depois algo macio, pêlo macio. Voltou a virar o seu rosto na direção da rapariga, olhando agora para baixo. Olhos dourados encararam-nos. Profundos, misteriosos e tão familiares. E não humanos.

– Vento Cinzento.

Um esgar de dor percorreu-o desde a base do seu crânio até às suas têmporas. O ar foi empurrado dos seus pulmões. Memórias invadiram-no com tal força que foi como se alguém o tivesse empurrado com a força de uma montanha para o seu leito.

Neve, vento, corvos, cartas, estandartes, duas torres ligadas por uma ponte de pedra, uma coroa de espadas, batalhas, um casamento, sangue. Olhos azuis. Olhos de mãe.

Lágrimas acumularam-se nos cantos dos seus olhos. Quis gritar, esmurrar, partir, correr. Mas tudo o que o seu corpo pesado conseguiu foi ficar empurrado contra o colchão que o suportava, enquanto arquejava pesadamente.

Uma mão tocou-o suavemente no ombro.

– O casamento, as Gémeas… — disse com dificuldade.

Procurou de novo os olhos da sua cuidadora. Mas ela fechou-os. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto de pele de porcelana, um pequeno e triste sorriso surgiu nos lábios cheios e rosados.

– Lamento. – disse ela suavemente – Todos nós perdemos alguém importante nas Gémeas. Mas o que importa agora é que estais vivo, Vossa Graça.

Robb. Robb Stark. Filho de Eddard Stark, Senhor de Winterfell e Rei no Norte.

Sim. Todos tinham perdido alguém querido nas Gémeas. Mas ele perdera demasiadas pessoas nas Gémeas. Os seus homens, os seus amigos e concelheiros, a sua mãe. E também deveria ter perdido a sua vida.

Tentou abstrair-se das memórias. Concentrou-se na rapariga que se sentava junto ao seu leito. Não teria mais do que a sua idade. Cabelos castanhos-escuros emolduravam o seu rosto de cor clara, ondulando ligeiramente nas pontas. Envergava um vestido azul-escuro que mostrava já alguns sinais de uso. Em volta do pescoço tinha um fino fio de prata do qual pendia um pequeno cristal de gelo, também ele feito de prata. Havia algo familiar sobre ela…

– Já nos encontramos antes Senhora?

Ela abriu os olhos, encarando-o com olhos tristes mas, de certa forma, calorosos.

– Apenas uma vez. – ela respondeu após soltar algumas respirações. – Eramos ambos muito pequenos. Seis anos, talvez? A minha mãe tinha morrido há pouco tempo. – os seus olhos pareceram entristecer mais um pouco. – O meu pai… O meu pai levou-me a mim e ao meu irmão a Winterfell para conhecermos o vosso pai.

Reparou que ela pareceu engolir em seco e respirar de forma mais trémula.

– O vosso pai… — tentou encontrar palavras para o colocar de forma delicada, mas sabia que não haviam palavras delicadas para o que queria perguntar. – O vosso pai ainda é vivo?

Os seus olhos voltaram a fechar-se.

– Não, penso que não. Nem o meu irmão. – humedeceu os lábios – Mas talvez Vossa Graça me possais confirmar os meus medos.

Não tinha a certeza de poder ajudá-la, mas…

– Como se chamava o vosso pai?

– Jon Umber. – ela disse quase num murmúrio.

Os olhos de Robb abriram-se como pratos. Como? Grande-Jon tinha uma filha? Então lembrou-se. Lyaris Umber, filha mais nova de Jon Umber. Poucos podiam dizer que tinham visto a jovem donzela, uma vez que poucas foram as vezes que saíra das muralhas dos domínios do seu pai. Talvez fosse por isso muitos se esquecessem da sua existência. Nunca ninguém soubera explicar a relutância que Umber tinha em deixar que vissem a sua filha.

– Lamento Lady Lyaris. – disse suavemente. Os olhos da rapariga agarraram-se aos seus, lágrimas começaram a formar-se neles. – Mas não posso responder às vossas dúvidas. Não sei o que aconteceu ao vosso pai e ao vosso irmão.

Um suspiro abandonou os lábios de Lyaris e um triste sorriso voltou a apoderar-se.

– Ainda há alguma esperança então. – disse ela suavemente. – Achais que podeis sentar-vos Vossa Graça? As vossas feridas precisam de ser limpas e as ligaduras trocadas.

Reparou pela primeira vez que a parte superior do seu corpo se encontrava exposta. Uma manta de peles cobria-o da cintura para baixo, mas podia também sentir tecido a cobrir e envolver as suas pernas. Ligaduras envolviam o seu abdómen, a parte inferior do seu braço direito bem como o seu ombro esquerdo. Quase podia ainda sentir a seta neste último. Uma tala de madeira também se encontrava ligada ao seu antebraço esquerdo. Partido, compreendeu.

Tentou então erguer a parte superior do seu corpo, silvando de dor durante o processo. As mãos de Lyaris vieram então ao seu auxílio, uma foi colocada entre as suas omoplatas ajudando na sua elevação enquanto a outra foi colocada no seu ombro direito para lhe dar estabilidade. Soltou um suspiro quando finalmente se sentou. Levou a sua mão direita, com algum esforço ao rosto, passando-a pelo lado da face. Não sentiu nenhuma barba, mas podia sentir finas e pouco elevadas linhas. Uma desde a sua têmpora até à altura da sua orelha, junto à linha do cabelo. Duas ao longo da mandíbula. Uma na sua bochecha. Cicatrizes.

– Fiz o que pode. – a jovem Umber disse suavemente. – Alguns dos corte não deixaram qualquer vestígio, mas outros… Mas são muito ténues e quase todos possíveis de esconder com o cabelo ou deixando crescer uma barba. – tentou confortá-lo.

Robb deixou escapar um pequeno sorriso.

– Está tudo bem. – respondeu olhando-a. – Obrigada pelos cuidados Senhora.

Lyaris sorriu-lhe de volta.

– Não há nada pelo que agradecer Vossa Graça.

Viu-a levantar-se do pequeno banco de madeira em que estava sentada. As mãos dela estabeleceram-se nas suas costas, desatando os seguros nós das suas ligaduras. Começou então a desenrolá-las de forma lenta. O seu rosto contorceu-se em desconforto. As ligaduras estavam coladas à sua pele por suor, sangue seco e algum tipo de emplastro. O desenrolar tornou-se ainda mais lento quando ela notou o seu desconforto.

– Durante quanto tempo… — começou a questionar, mas parou, não sabendo exatamente como colocar a questão. A jovem compreendeu-o no entanto.

– Três meses. – ela respondeu com suavidade. – Na verdade já tínhamos perdido a esperança de que voltásseis a acordar. A febre foi implacável e a maioria das feridas infetam com frequência e estão a demorar a fechar. – explicou. Robb apenas assentiu.

Três meses. O quanto teria mudado em três meses?

– Onde estamos? – voltou a perguntar.

Lyaris suspirou e as ligaduras abandonaram o seu tronco. Aproveitou a oportunidade para avaliar o estrago. Um fino corte horizontal percorria todo o comprimento do seu diafragma. Não parecia profundo. Um corte mais largo e profundo rasgara o seu abdómen obliquamente, quase se encontrando com o primeiro. Sangue seco rodeava as feridas, mas por baixo do sangue era possível ver a pele vermelha e inchada. O ar frio do seu aposento entrou em contacto com a pele aberta, fazendo-o soltar um esgar de dor. Podia sentir finas e torturantes alfinetadas na parte baixa das suas costas também.

Lyaris mergulhou um pano na bacia com água, torcendo-o antes de começar a limpar o mais delicadamente possível os cortes na parte frontal do seu tronco.

– Ao largo da floresta que rodeia Atalaia da Água Cinzenta, numa vila subterrânea abandonada, semelhante a Vila Toupeira.

– Porque estáveis tão a sul, Senhora?

Ela parou os seus movimentos por alguns segundos, fechando os olhos com força. Tomou então uma respiração profunda e retomou os seus cuidados, limpando uma crosta de emplastro antigo e sangue seco no seu corte superior.

– Eu vinha ao encontro de Vossa Graça e do senhor meu pai com informação importante. As cartas enviadas pelos senhores das diversas casas do norte estavam a ser intercetadas por homens de Ferro e até mesmo por… Alguns outros senhores do norte. A informação nunca seria entregue a não ser que eu o fizesse pessoalmente. Os meus tios não ficaram satisfeitos com a minha partida, mas não lhes dei muito espaço para discussão.

Ela faz uma pausa no seu discurso para limpar o pano na água. Esta ficou rosada quando ela torceu o pano, librando-se do excesso de água. Passou então a limpar o corte mais profundo.

– Se tivesse partido mais cedo… Se tivesse partido mais cedo talvez tudo isto pudesse ter sido evitado.

Robb reparou que as suas mãos começaram a tremer. Num impulso mal contido tomou uma das mãos da rapariga nas suas, tentando passar algum conforto.

– Que informação era essa Lady Lyaris? – encorajou-a.

– A traição dos Bolton.

A informação apanhou-o desprevenido.

– Como é que…

Mais uma vez ela soltou um suspiro.

– Quando Theon Greyjoy se apoderou de Winterfell os homens do Forte do Pavor marcharam em direção às muralhas. Nós pensamos que eles fossem apenas para expulsar os Homens de Ferro e assegurar a segurança do castelo até que Vossa Graça retornasse, então eu convenci os meus tios a mandaram alguns homens da Última Lareira para ajudar. – as palavras pareceram ficar presas na garganta de Lyaris e esta respirou profundamente algumas vezes antes de prosseguir. Robb esperou pacientemente para que ela continuasse. – Quando os homens voltaram, as noticias que nos trouxeram não eram o que nós esperávamos. Quando os homens do Forte do Pavor entraram em Winterfell e subjugaram os homens de ferro, passaram os seus habitantes pela espada e o castelo pelo archote. Os responsáveis pelo massacre de Winterfell são os Bolton.

Notas finais
Peço desculpa por qualquer erro que não tenha detectado. Caso encontrem não tenha medo de me dizer por favor! A Lyaris, como podem reparar, é uma personagem original que saiu de algum recanto muito questionável do meu cérebro. Levei mais de um dia a decidir-me em que Casa a colocaria, os Umber pareceram-me a melhor opção. Embora seja uma opção questionável xD Espero que tenha gostado e, bem, um comentário não leva muito tempo e deixa sempre um autor feliz (: