Cristal
1 Epílogo
A catedral estava silenciosa. O sombrio das paredes de pedra fria, atenuado com o reflexo colorido dos vitrais. Decorria a coroação da Princesa Branca, após a morte do Rei, seu pai.
Ela parecia uma boneca delicada, sentada no trono de carvalho e forra vermelha. A coroa de rainha estava a breves centímetros do seu cabelo platinado, delicadamente segura, pelas mãos enrugadas do velho cardeal.
De súbito, as pesadas portas de madeira escura abrem-se, abruptamente, de par em par. À entrada, surge o Príncipe Negro, precipitando-se pelo largo corredor, com uma amostra do seu colossal exército, todos de espada em punho.
Calmamente, a princesa afasta o cardeal e indica-lhe que encontre um lugar seguro. Algures do trono, desembainha uma espada com lâmina de prata e punho em ouro cravado de rubis… e o seu olhar ametista cruza-se com o ónix à sua frente.
♣
Vi-o nos seus olhos. Apesar da armada, a luta era somente entre nós dois.
Porquê?
Procurei-lhe no rosto respostas. Pouco mais vi do que as mesmas expressões lineares que sempre lhe conheci. O mesmo espelho das suas emoções básicas, que há tanto tempo conheço.
Porquê?
Lentamente nos aproximamos, enquanto as pessoas se afastavam do nosso caminho. Senti-lhes a ansiedade e o desespero. A surpresa e o assombro. A dúvida. O medo.
O grito das lâminas rasgou o pesado silêncio da catedral. Foi uma questão de segundos. A luta era séria.
Porquê?
Não entendo. Não entendo porque estamos a lutar! Não faz sentido! A mim não faz sentido…
Porque tenho de lutar contra o homem que amo?
Não faz sentido!
Vi o duelo evoluir, lentamente, diante dos meus olhos. Cada ataque, cada golpe das espadas, tudo parecia demorar uma eternidade.
Não faz sentido…
Desisto! Recuso-me a continuar… Não consigo encontrar qualquer motivo que seja para o fazer…
♣
A Princesa Branca desistiu. Baixou a sua guarda, cansada do combate sem nexo. O punho dourado da espada deslizou pela mão marmórea e a arma jazeu no chão. Em simultâneo, um som de lâmina a rasgar a carne impregnou o ar em redor. Foi tudo muito rápido.
Perplexidade. Choque. Dor. Desespero. Foi o que passou pelo rosto do Príncipe Negro, ao ver a sua espada cravada no ventre daquela que ele tanto amava. Ao ver tingido de escarlate, o imaculado branco do vestido. Ao vê-la aproximar-se de si, enterrando cada vez mais fundo a lâmina no seu corpo esbelto.
Ela continuou a avançar, ignorando a dor do ferimento e a sensação do metal nas entranhas. Prosseguindo com o seu voluntário trespasse, até as suas mãos alcançarem e envolverem o rosto do príncipe.
Parou e olhou-o ternamente. Lágrimas despontavam como cataratas no rosto de ambos. Ele ainda segurava firmemente o punho da espada.
Um último esforço. A última aproximação.
Reunindo a réstia de energia que tinha, a Princesa Branca encurtou a distância que os separava e encostou os seus lábios nos do príncipe, naquele que seria o seu primeiro e último beijo. Um simples gesto, detentor de inúmeros sentimentos e palavras que nunca foram ditos. No fim, os braços da princesa penderam, inertes.
Livre do choque, ele reagiu, retirando a espada do corpo dela. Mais sangue jorrou do fatal ferimento, colorindo o chão e o vestido com o seu rasto fluído e quente.
Enquanto mais lágrimas se formavam naqueles olhos negros, estreitou-a nos seus braços e explodiu toda a sua raiva num rugido gutural, que ecoou pelas paredes de pedra da catedral…
♣
Sempre lhe conheci sentimentos básicos e lineares. Expressões tão simples quanto uma mesa plana. Mas depois de o beijar… descobri que o que ele sente, afinal, não é tão linear quanto isso. No entanto... agora é demasiado tarde.
Senti o calor do seu corpo cobrir o meu e a força dos seus braços a apertarem-me contra o seu peito. Senti as suas lágrimas e o ressoar dos seus soluços.
Lá ao fundo, como se de um sonho se tratasse, ainda pude ouvir os pedidos de ajuda e o seu estrondoso grito desesperado… antes de o meu mundo escurecer…
Porque tivemos de acabar assim?
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