Cristal

3 Capítulo 2


Acordei na maior e mais confortável cama que alguma vez vi na minha curta vida. Os lençóis eram macios e perfumados. O quarto é, todo ele, composto por luxo, beleza e conforto. Quase posso jurar que tem o tamanho da minha casa! Bom… da que era minha casa…

Pouco me recordo do que aconteceu. Lembro-me que os meus pais me deixaram, para morrer, sozinha na floresta sombria e medonha. Também me lembro de um homem trajado com tons noturnos, que me carregou nos seus braços. Não me resta memória depois disso.

Enquanto esfregava os meus olhos sonolentos, uma senhora entrou no quarto, com um tabuleiro de comida nas mãos. Pelas roupas deduzi que fosse uma empregada, ou coisa do género. Pensando bem… tenho fome.

Abordou-me com palavras gentis e poisou o tabuleiro ao meu lado.

— Deves estar esfomeada, não é? Podes comer o que quiseres. A nossa cozinheira fez isto especialmente para ti!

Não me lembro de alguma vez ter visto tantas coisas boas para comer, assim, à minha frente. De certo modo, causa-me desconforto e apreensão, da mesma forma que me faz água na boca. O que fazer?

— Não precisas ter vergonha querida. – Disse a mulher, acariciando-me os cabelos. Será que lê mentes? – Depois vais tomar um bom banho quente e trocar essas roupas.

Banho quente? Roupas? Parece-me bem! Eu só conheço banhos de água fria e estes vestidos velhos…

Mas… porque me estão a fazer isto? Porque me estão a tratar tão bem?

Enquanto me debatia com estas questões interiores, o homem das vestes negras entrou discretamente no quarto, pedindo à empregada que saísse, com um simples aceno de cabeça. Aproximou-se da beira da cama e sentou-se, olhando-me atentamente.

— Dormiste bem?

Não respondi. Ele consegue ser bastante intimidante, mesmo não fazendo por isso.

— Devias comer, sabias? Não quero que arranjes nenhuma doença.

É persistente, não haja dúvida!

— Posso saber, ao menos, o teu nome? Ou será que perdes-te o piu?

— Lis… — Pronto, eu rendo-me! – O meu nome é Lis. E tu? Quem és afinal? Porquê tudo isto?

Um meio sorriso aflorou-se-lhe nos lábios, juntamente com uma espécie de gargalhada.

— Muito gosto Lis. – respondeu cortesmente – Eu sou Casper, mais conhecido como Príncipe Negro. Se bem que, agora, sou Rei. Resumindo: sou quem manda aqui. Prometi que te ia ajudar e é o que estou a fazer. “Tudo isto”, como dizes, faz parte da promessa.

Rei? Rei!? Desconfiei que ele fosse um nobre, mas longe de mim pensar que era um rei.

— Sou toda ouvidos.

Peguei no tabuleiro e comecei a debicar a comida á minha frente, enquanto aguardava pelo desenvolvimento da conversa. Casper fitou-me, antes de prosseguir.

— Este quarto, este palácio, podem ser teus. Podes viver aqui e ter tudo o que quiseres, como uma verdadeira princesa. Já imaginas-te? Poder usar vestidos novos e bonitos todos os dias, aprender tudo a que tens direito, desde ler a escrever, entre outras coisas. Ter o amor, o carinho e o respeito de uma família. Todos te tratarão como se sempre aqui tivesses vivido e crescido. Tudo tal como uma menina bonita da tua idade merece. – fez uma pausa. — Poderei saber quantos anos tens, se não for indiscrição?

— Não é delicado perguntar a idade a uma senhora. – contrapus.

— Peço perdão, jovem dama. Erro meu. — respondeu rindo-se com gosto.

Deixei-o rir até não mais aguentar. Quando, por fim, parou, continuei.

— Enfim. Tenho seis anos. Parece interessante, a tua proposta, Casper. Mas… tudo isso a que preço?

Os nossos olhares cruzaram-se. Ele mirou-me, durante algum tempo, com a confusão estampada no rosto, seguida pela compreensão das minhas palavras.

— Hum… em troca da tua felicidade. Quero que sejas feliz, Lis. Bastar-me-á ver-te, todos os dias, com um sorriso no rosto. Ouvir o ecoar das tuas gargalhadas por entre estas paredes. Será pedir muito?

Fiquei surpreendida. A sua sinceridade preencheu-me a alma com um calor suave. Não consegui conter o impulso de o abraçar.

*

Mal tive tempo de pestanejar. Numa fração de segundo, vi a pequena Lis saltar do seu lugar na cama e enlaçar-me o pescoço com os seus braços, depositando-me um beijo na face.

Senti o seu sorriso contra a minha pele e o calor das lágrimas salgadas, que lhe escorriam dos olhos ametista.

— Obrigado! – sussurrou ao meu ouvido.

Completamente desarmado por aquele simples gesto, apenas me restou retribuir-lhe o abraço. E assim ficamos por tempo indefinido.