Crises do Amor

4 Capítulo 4 - Mistérios do Amor


Não era o aconselhável a se fazer, viver trancafiado em um quarto branco amarrado e com dores que jamais desaparecerão nesse intenso pêsame de não saber o que se aconteceu. Entretanto, enxergar esse caminho deplorável como a última solução para esse drástico problema que eu não quero enfrentar não é o mais aceitável a se seguir. Nesse intenso de vozes meigas que ecoam em minha mente, ordenando por qual percurso eu deva correr para viver um pouco da vida que não aguento mais suportar.

Por favor, me afoguem no oceano gelado que um dia eu cheguei a pisar, pois minhas mágoas doem muito mais. Nesse andar pelos matos que decoram a imensa construção de onde eu fugia, não era um prisioneiro, mas sentia como tal enquanto eu penetrava pelas multidões que não mais se importavam com a manchete da pessoa que quase queimou viva, sobreviveu com dores que jamais sonhou em padecer. Oh, meu caro sol, por que me atrapalha com essa intensa iluminação que jamais gostei de sentir?

Meus passos não eram nada amigáveis com essa intensa solidão que retornava ao meu lado e me colocava em cima de seus ombros para me levar para o mais profundo subsolo de onde sequer um instante saberei para qual saída bloqueada deverei escapar. Assim como uma surpresa que nos pega com tanto amor e afinco, me deparo sentindo aquilo que eu fiquei anos sem sentir, aquilo que me fez ficar deitado por tantos anos na cama da misericórdia em busca de um único motivo para sair daqueles lençóis quase fétidos e mofados. O sinal de um sentimento que ninguém que o sentiu deixou de esquecer.

O sabor da carne viva e lotada de sangue, elas se encontrando e trocando o mais do que o possível e inimaginável nessa lacuna de vida para suportar as flechadas flamejantes que se tenham entre nós. Aquele último sinal do eterno beijo que senti antes de ser ateado para o mais profundo ardor que me fez cremar como um ramo em nossas testas após a carnificina que chama de festa, mas que curto do meu jeito e que não se importa com as convicções dos outros.

Eu senti ele saindo de minhas mãos, eu senti uma intensa luz cair em cima de mim, eu senti que nada mais valia se não me esforçasse para colocar as mãos deles junto das minhas novamente. Essa união que o futuro separa para nos dar deve ser muito bem aproveitada e colocada da silhueta mais caridosa e carinhosa que as pontas de papel nesse origami deve formar para unir pontos tão distintos e polarizados da natureza. Passo a mão pelo meu corpo, ou aquilo que eu chamaria de pele e camada superficial por longos dias e incontáveis sofrimentos. Seria eu mais um que o destino castigará?

Nessa busca intensa pelas trilhas para encontrar o mais perdido bem que não tenho a colocar, nesse veículo de tão potência extrema que eu queria poder trafegar para no chocar com aquilo que eu degenero nessas alterações que venho colocando em minha perpétua vivência. Minhas roupas que não são minhas tangenciam as mais craquelantes partes do meu ser e arrancam até a intensa chama para diluir nesse sofrimento que deus não tem pena.

Finalmente, posso os comunicar que não só estou nesse mundo. A residência de que tanto me apeguei se encontra diante dos meus olhos e para ela que minha mente e minha razão, unida a única emoção que tenho, comandam a marcha para eu me aproximar daquilo tudo. O caminhar se tornou correr, que se torna compaixão, que vira esperança e assim flui a vida de forma suspensa. Meu corpo latejava, minha alma gritava de dor, mas minha emoção corrompia o sofrimento que passei nesses instantes de dor sufórica.

Ao analisar cada detalhe daquele mundo que de azul se tornou amarelo, esqueci aquilo que a escuridão me deixou e larguei tudo para trás. Bati na porta, mas nenhum barulho; esmurrei a entrada até não tolerar mais nada. Caí, mais uma vez caí em meu padecimento.

Após fugir, após deixar o mais silencioso momento em que não senti em minha vida, pude ver novamente as cores ao meu redor, as cores de uma moradia cuja existência seria o mais importante para eu poder relaxar minha doce aura que tanto se cansada. Todavia, eu não entendia mais nada. Eu sentia que ali não era o meu lugar, ali era um pequeno refúgio que eu não saberia porque entrei e porque, sim, eu deveria sair. Era minha casa, meu lar, mas eu alguém me dizia para sair dali, para ir em busca daquilo que eu queria que fosse importante.

Em uma onda de desespero, mesmo com o corpo dolorido, lotado de feridas queimada que somente me faziam sentir um olhar mais deprimente do mundo vivido por mim. Por fim, corri para o meu querido alvo, não queria saber se era verdade ou não, sentia um pressentimento tenebroso jamais sentido antes. Eu não era um ponto fraco, era um porto forte que sabia ser herói. Percorria o mais tortuoso caminho com um único intuito, saber se o meu amado ou não seria o ponto mais estável para a minha vida.

Sua habitação estava mais solitária que a minha, mais perdida em um espaço maior cujo tempo e espaço deixou de habitar. A entrada já não tinha mais proteção, estava destruída, derrubada, acabada. Tudo estava em pedaços, nada por completo, tudo parecia um caos, mais perdidos que as minhas vidas anteriores, mãos que me apoiavam sem saber que me guiavam para um lugar que eu não imaginava estar tão perto.

Eu vagava por tão pouco, meus passos estavam pesados, tão intensos que eu arrastava tudo que meus pés carregavam. Cacos de vidro, pedaços de madeira, tudo explodido, tudo no chão, com exceção... De um pequeno anjinho de aço, apesar de ter uma asa faltando, pequeno acidente de anos atrás, em que nossas mãos se perderam em uma brincadeira um pouco mais ardente e nos fez ter um de nossos presentes com um defeito.

Percebi sombras atrás de mim, o medo tomou conta de mim, eu tinha ainda uma fratura tão exposta, tão rúptil para eu simplesmente ter um nocaute tão torcido como esse. Ao tornar minha face, encarei um homem, forte e de rosto cicatrizado, com pelos cerrados em forma de barba, com um olhar preocupado. Sabia de mim, sabia da gente, era vizinho nosso, amigo e grande apoio sobre um passado de tantos erros que merecem mais histórias que a própria sociedade maluca que me fez ficar perdido.

Então, ele me contou, revelou que, de um passo em falso, fui parar dentro da fogueira, assando como um porco preso em uma lança medieval de crueldade. Após um beijo, após um ato de amor em que duas pessoas que sabiam apenas do seu amor, ele escapou enquanto eu me recuperava, ainda mais com todos os ferimentos que ficaram em minha fina pele. Ele se foi, raptado, quase sacrifício pelo ódio que jamais esperava sentir. Era momento de salvá-lo, sabia da ajuda recebida pelo meu amigo, do apoio de um que mais pareciam diversos quanto mais unidos do que nunca.