Crises do Amor

3 Capítulo 3 - Dores do Amor


A areia fofa não me feria como antigamente, pois ela conhecia o que se passava dentro do meu fúnebre ser tão desolado. A água do mar era tão simples e calma que eu não mais me sentia naquela isolação que um dia fora colocada. Minhas pacíficas ações me faziam caminhar vagarosamente para o encontro que eu mais queria, contudo, não conseguia alcançar. Os risos e alegrias, eu não mais vivia, o que seria isso? Ah, como era bom a vida antes desses tormentos que me faleciam as vestes não nobres que eu vestia; ah, como seria bom que nada disso tivesse me abalado.

Os passos não eram tão leves, eu retornava à realidade e meus amigos me socorriam com imensa força que me faziam sentir a proteção que jamais recebi. Eram gritos e desespero que imaginava como eram por causa de um terror que me assolou quando as noites já não eram mais próximas, muito menos calmas e transgressoras como eram em noites e dias passados.

O desespero de me arrancarem tão intensamente de onde atuava o meu pequeno amor que sentia dores intensas que não sabia como penetrar nesse mundo tão fútil e tão pútrido. Quem poderia me dizer se era certo ou não, somente eu sentia as chamas bailando sobre meu corpo que dançava complexas articulação nada inocentes e me faziam pensar como era o dia em que não devia ter saído de casa, ter permanecido em meu amado templo, o meu sarcófago tão acolhedor que não pretendia ser rachado, muito menos violado pelas decisões incorretas de um imperador sem noção que arranjava desculpas para me fazer seguir as ordens infiéis que ele jurava serem corretas.

Nada mais que súbito, eu me via na escuridão, não aquelas que eu me acasalava, mas aquela que eu não reconhecia. Foram segundos, minutos, horas e dias naquele estado de transe insuportável para não me abalar ainda mais os arranjos que eu usava para me sustentar.

Assim que puder sentir as luzes da vida me abençoando, relando na pele cremada que eu tanto senti e sofri, queria não ter essa crocância que muitos sentiriam o salivar ao notar meu mais puro sentimento sofrido. Ódio era o que mais me reinava, era um pecado mais do que carnal, era infernal, era a decadência que o ser humano não podia colocar em nossas poesias. Seríamos nós que arautaríamos o fim de uma espécie tão furtiva?

Não sei muito bem como consegui acordar naquele quarto tão pálido, tão branco, tão sem vida que eu apenas poderia olhar os fins que os espelhos não me entregavam. Quem poderia me resgatar desse mundo tão solitário, dessa vida tão desalmada que eu não conseguia viver? Seria esse anjo em chamas que eu preciso muito para salvar as pobres desolações.

Eu senti alguém colocando as mãos em meu corpo e em meu coração. Olhei para cima e visualizei meus pais eram um sentimento bem mais que aconchegante. Como um dia eles poderiam me odiar? Como um dia eles poderiam renunciar a filho que ambos colocaram no mundo? Não seria simples a vivência de um não saber tão profundo e tão cinzento, uma negação simplória e fundamentada em palavras nada mais que populares.

Eles choravam, em uma miscigenação de alegria e tristeza. Eu me sentia uma açucena que decaia com os ventos fortes de uma tempestade tenebrosa que colocou o fim ao pequeno encontro de um casal tão amado e tão bem felicitado. Seria uma fúnebre despedida se eu fechar meus olhos? Como ficaria meu imenso reino de felicidade que eu demorei para notar? Não sei como eu consegui mexer as minhas mãos que arruinavam aos poucos a minha pele mais negra que imensas pedras de carvão. Bem, eu era uma imensa peça de minério resultado de uma imensa impopularidade em seu cheiro sulfúreo.

Nas tentativas inúteis de me levantar, me coloquei na dor de ter o corpo todo a cremado e deixado para as cinzas adentrar naquele reino tão fúnebre e tão utopisado de forma trágica. E, sim, é totalmente doloroso pensar que um dia você chegaria dessa forma. Meu rosto, porém, ainda sentia a vida percorrendo. Ele estava limpo, estava límpido, estava mais puro que as alvas superfícies líquidas do nosso hipócrito mundo.

Sem muito o que fazer, todos me deixaram, mais uma vez, naquela sala que eu chamava de término da minha lucidez, eu deixava tudo o que eu sabia de sanidade para as minhas tristes e amargas doçuras que não sabiam ter o pouco de magia que as minhas higidezes tinham em tempos seletos. Na solidão que me afagava os cabelos já tostados e com a pele na ardência de um somente fim, eu me desventurei a mexer o pouco corpo que me restava e consegui sair de onde estava para cair no que não era o esquecimento, era a mais dolorosa sensação de não saber como o psicológico saberia me dizer.

Em mais de diversas tentativas de arrancar o último suspiro dos meus pulmões milagrosamente intactos, eu me malparei a fim de reaver aquilo que perdi há muitos anos, aquilo que um dia me fez pôr a vida afrente dos outros para ter o término que não desejava a ninguém. Nas diversas performances de show de horrores que eu me permitia participar, me coloquei tão abaixo dos outros, tão inferior ao tenebroso que serve de almoço para os mais finos farrapos que apreciam a boa e velha iguaria tão sem graça que um dia não sei como não experimentei outra especiaria. Ignorando os comentários infames de um dia não reconhecido, eu ainda me colocava em pé, mas nada de ser visto como herói ou valente, era exclusivamente um que colocava medo naqueles ignorantes que não pensam nos outros.

Pensei neles, até amais do permitido, e me encontro assim, vivo das dores e das desolações; existo para contar o trecho da história que não é minha. Não é somente de amor que se vive, mas a simplória de uma janela aberta é o suficiente para salvar.