PETÚNIA: planta da família das beladonas com flores em forma de funil de cores vivas. As flores de petúnia são símbolos de raiva e ressentimento, mas também são um símbolo de conforto e de se sentir bem com alguém.

Uma semana e um assassinato. Foi tudo o que Kazumaki precisou para virar a vida de Laura de cabeça para baixo. Em uma noite, ela tinha escapado do plano de vingança dele. Na seguinte, um bruxo havia sido morto em território humano, o colégio Brunet deveria fechar as portas temporariamente por ser no mesmo bairro do crime, e o golpe final: os Watanabe tinham câmeras de segurança que gravaram ela invadir.

O destino havia dado para ele todas as cartas para arruiná-la e foi o que fez. Apareceu na porta dela com o maior sorriso do mundo oferecendo uma "chance de se redimir’’. Uma tarefa simples, ele disse, Laura só precisaria trabalhar junto com o Conselho para RESOLVER O ASSASSINATO! Ah, e se infiltrar em uma escola não-bruxa. Ela só poderia morrer, claro. Nada demais. A outra opção era contar a verdade, então aqui estava ela em frente à fachada da escola de humanos.

O Colégio Estadual Major Brigadeiro Antônio Oscar — ou Brigadeirão, como era conhecido pelos alunos — era um zoológico mal cuidado. Tinha grades nas janelas! Grades. Como em uma prisão. E o muro em volta era feito de varetas de ferro, elas erguiam-se do chão como lanças.

Laura quis ser empalada em uma delas. Parecia menos doloroso do que ter que encarar o resto do semestre como uma estudante dentro daquele lugar.

E as paredes? Decadentes. Onde não havia manchas de umidade, a tinta azul estava descascando. Ela teve medo de entrar no prédio, respirar fundo demais e fazê-lo desabar.

Devia estar fora de si quando concordou com a chantagem de Kazumaki. Estava colocando a própria segurança em risco a troco do silêncio dele. Se alguém realmente estivesse caçando bruxas no bairro, rodar entre os humanos era o mesmo que andar com um colar de carne na frente de um leão. Um leão faminto.

Pelo menos não estava sozinha. O CCM tinha enviado um detetive de verdade para o caso. Leandro Garcia, seu superior. Sinceramente, o trabalho dela era mais parecido com o de babá do que com o de uma espiã. Só precisaria ficar de olho em uma única humana. O que poderia dar errad...

BAM.

Laura sentiu uma pancada na cabeça. Seus óculos voaram para longe. Por instinto, esticou a mão para alcança-los. Perdeu o equilíbrio. Caiu. As palmas das mãos arderam no mesmo instante.

— Ei! — gritaram.

Laura se virou e viu um borrão grande e loiro correr em sua direção. Ele se agachou diante dela e empurrou algo contra sua mão. O metal era frio ao seu toque, as hastes finas...

— Obrigada — tentou encaixar os óculos no rosto, mas por algum motivo suas mãos escorregavam e escorregavam.

— Nada — o garoto, deduziu pela voz de trovão, segurou as mãos dela com gentileza e encaixou os óculos no lugar.

Ela voltou a enxergar com detalhes. Talvez detalhes demais. Estavam constrangedoramente perto. Tão perto que conseguia notar as adoráveis manchinhas douradas no verde das íris dele, como se o pintor tivesse deixado respingar tinta. Ele ajeitou a franja dela para o lado, os dedos roçando contra a pele de seu rosto, e aqueles olhos, aquelas obras de arte, examinaram-na.

— Você vai sobreviver — ele piscou, se levantou e estendeu a mão — Ajuda?

Não viu motivo para não aceitar. O estranho teve cuidado ao puxá-la, evitando pressionar com muita força os arranhados.

— Obrigada.

— De nada —estendeu a mão — Eu sou Gregor.

Laura apertou a mão dele, e mesmo que Gregor continuasse cuidadoso, ela franziu o cenho pelo incômodo quando suas mãos se encontraram. Ele virou a palma dela para cima.

— Você tá bem mesmo, né? Eu posso te levar na secretaria, me sinto mal por te acertar.

— Ah. Foi você.

— Foi mal mesmo — ele voltou seu olhar para baixo, envergonhado, e Laura não conseguiu ficar irritada.

— Não tem problema, você não tem culpa de não saber jogar — ela abaixou e pegou a bola no chão— Para ser sincera, eu também não sou muito boa com essas coisas, sempre achei que fossem meio estúpidas.

Dessa vez foi ele quem se desequilibrou, como se seu comentário o tivesse atingido como algo físico.

— Estúpidas?! — repetiu, e ignorou o objeto que ela estava estendendo.

Cabeças começaram a se virar na direção deles, atraídas pela exclamação de Gregor, e em um piscar de olhos já estavam rodeados. Os comentários também não demoraram a aparecer:

— Alá! Chamou ele de perna de pau na cara dura!

—Ela disse que ele é estúpido?!

— Quem? O Greg? A garota disse que o Greg não sabe jogar?

Porcaria. Os holofotes estavam nela. Será que iria estragar o disfarce já no primeiro dia?

De maneira alguma! Laura endireitou os ombros, preparada pra responder.

— Bem, eu n...

— Até parece — Gregor a cortou— Não foi o que ela quis dizer.

Ela não queria ficar irritada. Ele não parecia ser má pessoa. Era gentil e tinha cometido um erro. Não queria ficar irritada. Mas por que ele achava que sabia o que ela tinha para dizer?

— Na verdade — as palavras escaparam dela antes que conseguisse engoli-las — foi exatamente o que eu disse. Não com essas palavras, minha intenção não era te ofender. Mas é uma interpretação possível.

O queixo do garoto caiu. E tudo bem, ela tinha noção de como soava rude. Mas não se arrependeu.

As pessoas continuavam chegando. Gregor lançou um olhar por cima do ombro para o amontoado de adolescentes cochichando e apontando, e ela viu a máscara de garoto legal cair do rosto dele. De príncipe a sapo em um piscar de olhos.

— Quem você tá chamando de perna de pau?!

Ela revirou os olhos. Por um segundo, a arrogância dele lembrou Kazumaki. Foi a gota d’água que a fez desistir de não ficar brava Ele reclamava demais para quem tinha acabado de dar uma bolada em outra pessoa!

— Não foi uma grande demonstração de habilidade acertar a minha cabeça.

Alguém entre os espectadores soltou um “Oh” e o rosto de Gregor foi ficando mais e mais vermelho, uma panela de pressão prestes a explodir.

— Eu me distraí! Não é o fim do mundo! — ele finalmente pegou a bola, pôs as mãos exatamente em cima das dela, mas Laura não soltou — E eu pedi desculpa, já é? Não precisa ser grossa.

— Você ainda não me viu sendo grossa.

— Pera aí, então seus pais não te ensinaram como tratar outro ser humano, não? — ele tentou puxar o objeto.

— E os seus não te ensinaram a cumprir horários? — ela puxou de volta — O sinal já vai bater, você nem deveria estar jogando agora.

— Nossa! — puxou — Você acha que é quem para me dizer o que fazer? A diretora?

Os olhares iam dele para ela e voltavam, era como presenciar uma partida de tênis.

— Você está sendo um idiota.

Mais um puxão.

— E você é grossa para cacete.

Mais um.

— Eu o quê?! — arrancou a bola da mão dele. Ela a apertou em suas mãos, sentiu o anel queimar em seu dedo e levou um susto com o estouro que a bola fez antes de se rasgar em mil pedaços.

Gregor estava chocado. Assim como sua pequena plateia.

— Você... estourou a bola de futebol?

Santa fogueira! Como estava ferrada.

— Eu só apertei. Você deve ter enchido demais.

— Não, eu...

— Como eu iria estourá-la? — comentou, forçando-se a parecer desacreditada.

Ele encarou os pedaços de pano espalhados por alguns segundos, coçando a nuca, depois voltou a fitá-la.

— É, você tem razão...

As pessoas voltaram a se espalhar, notando que aquele seria o grand-finale da discussão e que não havia mais nada para ser visto. Gregor também parecia confuso demais para continuar sendo irritante, e, aproveitando a oportunidade, Laura escapou para dentro do colégio. Queria poder apagar aquela cena da mente das pessoas, mas infelizmente nem todo o sangue do seu corpo daria conta de um feitiço desses.

Assim que ficou sozinha, tirou o anel do dedo e jogou dentro da mochila. Era o certo a fazer para proteger seu disfarce. Sem magia dentro da escola.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.