Crisálida sob franjas azuis
2 Capítulo 2 - Imago
Marcavam 05:21 no relógio quando Chloe despertou abruptamente de um pesadelo. Suas costas estavam molhadas de suor e o coração batia em uma velocidade anormal. Com as pupilas dilatadas e a respiração ofegante, Chloe levantou-se da cama e desceu em direção à cozinha.
Estendeu o braço para abrir a geladeira e puxou a porta em um solavanco. Vazia. Nem sequer uma caixa de leite para misturar com seu cereal favorito. A garota atirou-se na cadeira da mesa adjacente e começou a massagear seu rosto suavemente. Mais um dia nesse inferno, pensou. Puxou a caixa de seus cereais favoritos para mais perto e serviu-se de um punhado do alimento.Algum tempo passou até que Chloe pôde ver os primeiros raios solares daquele dia entrando pela janela da sala. A garota levantou e caminhou até o vidro que a separava da rua, expelindo com força o ar de seus pulmões ao tocar na superfície gélida. Rachel, eu queria que você estivesse aqui, pensou. Assistir à alvorada sempre fazia-a lembrar de sua amada Rachel e as diversas vezes que elas haviam assistido àquele momento juntas. Havia um momento em especial que Chloe jamais conseguira deixar de lembrar, o dia em que ela e Rachel haviam passado a noite escondidas no farol depois de David encontrar resíduos de substâncias entorpecentes no quarto da garota, e por isso, ameaçar chamar a polícia caso ela tornasse a cometer aquele tipo de ato.Normalmente, uma briga com seu padrasto não seria algo relevante para o humor de Chloe, porém justo naquele dia a garota estava absurdamente instável. A garota chorava descontroladamente enquanto tentava colocar para fora ao menos um pouco de suas frustrações, mesmo que apenas fossem ouvidos ruídos ininteligíveis, e David não fazia nada diferente de atacá-la cada vez mais grosseiramente.Foi necessário que Joyce chegasse do trabalho e ouvisse a discussão para que David interrompesse seu discurso em tom rude. Chloe correu para os braços de sua mãe enquanto David esbravejava relatando o que ele havia encontrado e como a jovem estava agindo descontroladamente. O homem não cessou o monólogo até que Joyce fitou-o fulminantemente e vociferou ordenando que ele se mantivesse em silêncio.Alguns minutos depois da pavorosa discussão, Chloe ainda soluçava e lacrimejava. Seus pensamentos dolorosos foram interrompidos apenas quando seu celular começou a tocar no outro lado do quarto. A garota levantou com esforço e foi até a escrivaninha, sobre a superfície de madeira encontrava-se o telefone móvel com a tela acesa e alguém especial a fazer a chamada: Rachel Amber.Em questão de cinco minutos, Rachel estava na porta da casa de Chloe, apenas esperando que ela descesse pela janela, como de costume. Chloe esgueirou-se por cima da bancada de madeira e saiu pela abertura, descendo com cuidado para que ninguém percebesse sua fuga. Ainda soluçando e tentando livrar-se das lágrimas que ainda restavam, a garota de olhos azuis abraçou a amiga vigorosamente, procurando aconchego em seu torso. O carinho de Rachel e a proteção que seus acolhedores braços faziam com que a tristeza de Chloe fosse se dissipando aos poucos, dando a ela um novo fôlego para passar o dia.Bastaram apenas alguns minutos até Chloe recompor-se e partir com Rachel em direção ao penhasco do farol. Uma vez lá, as garotas sentaram no banco de madeira para observar a tremenda imensidão azul coberta por estrelas que estendia-se sobre suas cabeças.— Rachel... – disse Chloe.— Oi?— Obrigada, obrigada mesmo.Rachel sorriu e beijou levemente a testa de Chloe.— Não precisa me agradecer, eu estou aqui por você.Chloe sentia-se tão acolhida na presença de Rachel que quase esquecia de seus problemas. Desde a morte de seu pai, sua vida estivera coberta por momentos dramáticos. Joyce havia começado um relacionamento com David, um ex-soldado autoritário e desrespeitoso que agia como se Chloe fosse uma indigente ordinária. Certamente a garota já teria tentado automutilação ou até suicídio caso Rachel não tivesse aparecido em seu caminho.— Ei, Chloe, olha aquilo! – disse Rachel, apontando para um cometa que passava no céu naquele exato momento.— Nossa, ele é... lindo – disse Chloe, maravilhada com a beleza do astro que rasgava o espaço acima de si.— Assim como você – devolveu Rachel, logo antes de selar seus lábios com os de Chloe por um breve instante – nunca esqueça disso, ok?Chloe assentiu e voltou a observar o corpo celeste que voava em alta velocidade a milhões de quilômetros dali. Espero que um dia Rachel e eu possamos voar assim, livres desse mundo caótico, pensou.As horas passaram a o momento do nascer do sol aproximava-se cada vez mais, Chloe estava com o olhar preso no horizonte, aguardando ansiosamente o tão esperado início da alvorada. Quando o primeiro raio de sol pôde ser visto, a garota de olhos azuis acordou sua companheira que jazia dormente no chão, deitada acima do fino pano de sua camisa xadrez.— Olha isso comigo – disse Chloe.Rachel começou a esfregar os olhos e levantar para que pudesse sentar-se ao lado de Chloe, que logo lhe abraçou para que se mantivessem mais próximas durante aquele espetáculo da natureza. — Rachel?— Mm? – disse Rachel, ainda sonolenta.— Você me ama? – perguntou após alguns segundos de silêncio usados para tomar a coragem que precisava para fazer aquela pergunta.Rachel posicionou suas mãos ao redor do rosto de Chloe e beijou-a ternamente – Isso responde? – abrindo um de seus sorrisos encantadores após proferir as palavras.Chloe sorriu de volta e apertou Rachel contra si. Era daquela forma que ela queria ficar, sempre próxima à pessoa que ela mais amava no universo.
Chloe não sabia quando, nem o motivo de aquilo ter acontecido, mas ela havia criado uma afeição quase sobrenatural por Rachel. O brilho no olhar da garota de cabelos louros havia lhe conquistado logo na primeira vez em que elas se encontraram. No pátio central da Academia Blackwell, Chloe sentava à beira da fonte. Imersa em seus pensamentos e com uma música tocando no último volume de seu celular, a garota jamais teria notado que o sinal para o início das aulas havia tocado se não fosse pela aparição de uma figura exuberante com olhos cor de avelã e cabelos longos e louros. Rachel lhe estendia a mão e falava algo que os fones de ouvido não permitiam que Chloe escutasse. A garota de olhos azuis apressou-se para remover os dispositivos de suas orelhas e poder ouvir a harmoniosa voz da moça que ali estava. Desde então, a vida de Chloe mudara completamente.A garota sentia um aperto no coração só de pensar no quanto Rachel havia a ajudado, no quão feliz elas eram juntas e nos seus planos para o futuro em Los Angeles. Sua respiração tornou a ficar ofegante e Chloe foi despertada de seu devaneio matutino pelo som de sua mãe descendo a escada.— Que milagre você acordada tão cedo, aconteceu alguma coisa? – disse Joyce, entrando na cozinha.— Oi, mãe – disse Chloe, em tom desanimado.— Você está bem?— Estou, mãe, é só que... – antes que Chloe pudesse pensar em comentar algo sobre seu pesadelo, um fato tomou conta de sua mente, fazendo com que ela o anunciasse instantaneamente – Mãe, Max está de volta à Arcadia!Joyce chegou a achar estranha a súbita animação da filha, não a via com tal vivacidade há pelo menos 6 meses.— Verdade? Nossa, que notícia incrível! Você podia convidá-la para ir ao Two Whales para tomar um café com você.Chloe já havia feito o convite à Max, mas não lembrava de ter estabelecido um horário para encontrar com ela no estabelecimento. Sendo assim, a garota pegou seu celular para enviar uma mensagem de texto à sua amiga. O visor acendeu-se mostrando o horário, eram 7:34 da manhã. Não demoraram cinco minutos até que Chloe terminasse de conversar com Max e rumasse para seu quarto para procurar algo para vestir.O estilo das roupas de Chloe havia mudado substancialmente, as estampas infantis haviam dado espaço a regatas, blusas e camisas punk, além das roupas que Rachel havia deixado ali alguns meses antes. Chloe pegou uma de suas blusas brancas e um de seus jeans favoritos para vestir.Um item do vestuário de Chloe que a garota não deixava de usar era sua jaqueta preta. Aquela peça de roupa havia sido o primeiro presente de Rachel que ela recebera, logo, seu valor sentimental era incomensurável.Chloe enviou mais algumas mensagens para Max antes de terminar de se vestir, já que sabia que chegaria atrasada. Era realmente bom rever sua melhor amiga depois de cinco anos, ainda mais agora que Rachel não estava mais presente. Ignorando o fato de que Max a abandonara quando ela mais precisou, Chloe tinha muita sorte em tê-la de volta, ainda mais com as revelações do dia anterior, quando Max comentara sobre um suposto poder de voltar no tempo ou algo do tipo.Um pico de ansiedade para ver Max tomou conta de Chloe e a garota apressou-se em direção à sua caminhonete. Procurou sua mãe na cozinha para ver se ela queria uma carona, mas, aparentemente, a mulher já havia deixado a casa.O vento batia no rosto de Chloe enquanto ela acelerava em direção ao restaurante. Apesar de ter perdido seu pai em um acidente de carro, a garota adorava a sensação de pisar fundo no acelerador e sentir o mundo se movendo depressa à sua volta. Atingir altas velocidades fazia com que ela sentisse como se tivesse um tipo de superpoder, não como o de Max, mas ainda um superpoder.Chegando ao restaurante, Chloe estacionou seu carro e começou a caminhar em direção à entrada do estabelecimento. Parou com a mão na maçaneta e suspirou ao dar de cara com alguns dos folhetos que ela havia impresso e colado pela cidade. Antes que as lágrimas pudessem começar a ser formadas em seus olhos, a garota abriu a porta e adentrou o espaço.Cumprimentou dois de seus amigos, Justin e Trevor antes de anunciar em um tom zombeteiro:— Mãe e Max, juntas novamente.Uma breve discussão sobre a falta de cordialidade da parte de Chloe em tratar as pessoas iniciou-se, mas logo foi interrompida pelo claro cansaço que Joyce demonstrava ter por esse assunto.Chloe zombou novamente da mãe e dirigiu-se à caixa antiga de músicas que havia rente à uma das paredes. Trocou a música e voltou para a mesa de Max, pulando para sentar no banco oposto ao de sua melhor amiga.A garota de cabelos azuis parecia realmente empolgada com a possível existência dos poderes de Max, que não sabia de onde eles haviam aparecido nem o motivo pelo qual eles existiam. Desafiando sua melhor amiga, Chloe pediu uma prova dos poderes de Max. A fotógrafa comentou que poderia enumerar todos os objetos presentes nos bolsos de Chloe.Um aviso de trânsito datado de 21 de setembro de 2013, às 10:34 da manhã, uma chave com um chaveiro de panda robô, sete cigarros e a incrível quantia de 86 centavos de dólar.Os músculos de Chloe se retesaram no momento em que a garota notou que Max não havia errado sequer um detalhe em sua predição. Um arrepio tomou conta de seu pescoço logo antes de Joyce retornar à mesa e servi-las com sua deliciosa comida.Chloe pediu a prova final para acreditar nos poderes de Max, algo tão surpreendente que ela jamais poderia duvidar daquilo novamente. Max inclinou-se levemente sobre a mesa e disse que preveria o futuro.— O caminhoneiro derruba a xícara e Joyce nega um café novo a ele. O policial recebe um chamado no rádio e o parceiro sai sem ele. Justin e Trevor estão brigando e Joyce os interrompe. A jukebox enlouquece quando uma barata rasteja sobre ela. – disse Max, perfeitamente convicta de cada palavra.Novamente, a garota de cabelos castanhos estava certa. Tudo aconteceu exatamente como ela havia dito e Chloe não teve outra opção além de reconhecer e aceitar os poderes de Max.A garota de olhos azuis convidou sua melhor amiga para ir a um de seus locais favoritos na cidade, onde elas poderiam usar de verdade o poder de Max. O celular de Max tocou enquanto as garotas dirigiam-se à porta. Era Kate Marsh. Chloe até tentou chantagear Max emocionalmente, mas a garota afastou-se um pouco e atendeu o telefone.Joyce aproximou-se e começou uma discussão. Chloe estava farta daquilo, era quase um milagre passar um dia sem brigar com sua mãe. Por sorte, aquele sermão durou pouco e Max voltou logo para que elas fossem em direção ao carro.A inesperada tranquilidade do ferro-velho de Arcadia Bay parecia ter causado um certo impacto na melhor amiga de Chloe. Max andava devagar, enquanto a garota de cabelos azuis abria caminho em direção ao interior do depósito de lixo.— Bem-vinda à American Rust, minha casa longe do inferno – disse Chloe, exibindo a grandiosidade do local com um gesto.O local era calmo e distante, os pombos arrulhavam e o som de um trem passando pelos trilhos podia ser ouvido de longe. Chloe estava realmente empolgada com o fato de estar novamente na companhia de sua melhor amiga, e como um bônus, ela ainda tinha poderes.Chloe havia desenvolvido alguns hábitos enquanto Max esteve fora, como beber e fumar. A combinação desses dois hábitos era muito menos assustadora do que a que a garota sugeria agora: bebida e armas. Ela havia roubado uma das armas de seu padrasto e tinha uma garrafa de cerveja na mão, até indagou se Max gostaria de um gole, mas a mais nova recusou de forma jocosa. A garota conduziu Max até um certo ponto e pediu para que ela procurasse mais algumas garrafas, assim, elas poderiam usar e abusar definitivamente do poder de Max.Enquanto Max buscava os objetos, Chloe ajustava a distância para atirar. A garota ajeitava algumas tábuas enquanto uma série de pensamentos passava por sua mente, lembranças de suas visitas àquele local na companhia de Rachel.A garota cogitou visitar rapidamente o antigo esconderijo dela e de Rachel, mas sabia que ainda não estava pronta para isso. Durante muito tempo elas haviam relaxado ali, conversado, ouvido as músicas do CD que ela dedicara à Rachel, feito competições de dardos e até escapado de algumas aulas da escola. A garota de cabelos azulados quase chorou ao lembrar que, certa vez, ela e a garota de cabelos longos e louros haviam percorrido o caminho até a estação de trem mais próxima. Foram cerca de 20 quilômetros de caminhada percorridos em um tempo próximo de 4 horas. Mesmo tendo noção da passagem do tempo ao chegar ao destino, para Chloe, o avanço das horas havia passado de forma quase que imperceptivelmente, o tempo parecia estagnar toda vez que as garotas estavam juntas.
Alguns minutos depois, Max retornou trazendo um total de cinco garrafas vazias até onde Chloe estava aguardando. A mais velha logo ajeitou as garrafas e adicionou mais uma ao final da fila, dando assim, início ao novo teste de Max. Dois tiros perfeitos foram disparados e as duas garrafas atingidas foram trucidadas no processo, Chloe decidiu subir o nível do teste e pediu à Max um alvo mais emocionante.Havia uma quantidade até considerável de objetos nos quais Chloe poderia ter atirado, uma tela antiga de computador, um barril, um aro enferrujado, entre outros alvos simples. Por fim, Max sugeriu que uma bala fosse disparada contra o carro antigo que estava no topo do monte de lixo. Chloe sentiu uma leve vontade de atirar contra o para-choque do carro, mas Max parecia mais interessada em fazer com que a bala atingisse um dos pneus do veículo.O carro desabou de cima da pilha de lixo, derrubando as garrafas restante e fazendo com que elas se espatifassem no chão. Uma sensação eufórica tomou conta de Chloe enquanto ela comemorava os poderes de Max e tentava fazer com que a garota participasse ativamente da diversão. Em poucos segundos, a alegria de Chloe deu lugar à preocupação. Max parecia mal, seu nariz estava sangrando e a garota mal mantinha-se de pé. Chloe foi tentar auxiliá-la, mas a mais nova acabou por desmaiar.O fato de ver sua melhor amiga debruçada sobre suas pernas enquanto tentava recobrar sua consciência era algo curiosamente novo na vida de Chloe. Apesar de ter comparecido à diversas festas com Rachel, a garota jamais tivera de cuidar de uma pessoa desacordada.Max começou a murmurar algo e Chloe perguntou se ela havia melhorado. Max respondeu que sentia-se um pouco melhor e disse que precisava de um tempo para recuperar-se. A garota de cabelos azuis deitou-se no capô do carro onde estivera sentada pelos últimos minutos e começou a brincar com sua arma.Por mais que Chloe tivesse sido ensinada de que violência não era a resposta, às vezes, era impossível não tentar imaginar como seria a cena de ela atirando em Nathan Prescott. A garota já tinha um histórico infeliz com o rapaz, e além disso, ainda tinha uma impressão de que ele estava envolvido com o sumiço de Rachel. A morte do garoto não parecia ser um obstáculo instransponível na busca de Chloe por Rachel, mesmo que isso a levasse para atrás das grades.Max avisou que estava melhor e Chloe levantou-se para continuar com o que havia parado. A garota de cabelos castanhos não parecia muito à vontade com a ideia de segurar uma arma e dispará-la, mesmo que fosse contra um objeto inanimado.A arma de fogo ficou tranquilamente sob a guarda de Max por alguns instantes até que um homem abordou-as e começou a debochar de Chloe. Frank usava um bracelete de Rachel em um de seus pulsos, Chloe avistou o acessório e não demorou um minuto para que ela extrapolasse o limiar do autocontrole. A garota começou a gritar com o homem e esbravejar sobre aquele objeto e a verdadeira dona dele. Frank levantou um canivete contra a garota e começou a fazer ameaças, Chloe provavelmente teria sido cortada ou perfurada se não fosse pelo fato de Max ter empunhado a arma contra o homem.A garota de cabelos castanhos tentou atirar em Frank, mas Chloe já havia consumido todas as balas disponíveis. O homem disse que lembraria daquilo e que o prazo final para Chloe acertar as contas terminava naquela sexta-feira. Chloe pensou em retrucar mais alguma sentença, mas o homem deixou o espaço logo em seguida.A garota de cabelos azuis estava abismada com a coragem de Max, vê-la empunhando uma arma e realmente apertando um gatilho era algo que Chloe jamais poderia imaginar. Via de regra, Max era uma pessoa pacífica, mas momentos atrás ela tivera o impulso de atirar contra outro ser humano, e isso havia a desestabilizado momentaneamente. Vendo a desorientação na expressão de Max, a mais alta envolveu seu corpo em um abraço e continuou reconfortando-a por alguns instantes.Chloe parecia um tanto quanto abismada e empolgada com a coragem de Max ao tentar atirar em Frank, nem mesmo ela, que pensava em atirar em Nathan, tinha a certeza de que apertaria o gatilho quando a hora chegasse.Caminhar nos trilhos havia se tornado um hábito na vida de Chloe, de uns tempos para cá, isso havia transformado-se quase que em um esporte para a garota. A atenção em manter cada passo alinhado e a necessidade de manter o equilíbrio faziam com que ela se sentisse leve por alguns momentos, como se a cada passo sua alma saísse um pouco do corpo e ela entrasse em um estado de descanso e paz interior.As garotas pararam em frente à uma pequena construção adjacente à linha férrea e Chloe deitou-se apoiando a cabeça em uma das extremidades do trilho e os pés da outra. Max seguiu o exemplo da amiga e encostou-se na direção oposta, podendo ver o rosto de Chloe ao olhar para frente. Ali, conversaram brevemente sobre a relação de Chloe com Frank e os planos da garota em sair de cidade sem devolver o dinheiro que havia pego emprestado a ele, o quão bom seria de Max e Rachel se conhecessem e fossem amigas, a adoração de Chloe por deitar nos trilhos do trem, entre outros assuntos.Max levantou-se para tirar algumas fotos enquanto Chloe continuava a aproveitar a quietude dos trilhos. Pensamentos sobre aquele lugar e a presença de Rachel ali voltaram a tomar conta de mente de Chloe, tantos bons momentos, tantas fugas da escola, tantas coisas compartilhadas ali. A nostalgia havia a posto em um estado de descanso momentâneo combinado com uma leve desatenção ao mundo real, o que não seria um problema, até o momento em que a garota sentiu seu breve relaxamento perder espaço para o pânico crescente que havia se instaurado quando ela percebeu que seu pé estava preso no trilho. A garota começou a implorar por ajuda, mas Max parecia ter tido outro episódio de perda de consciência.Chloe continuou a gritar, apavorada com a possibilidade de morrer dali alguns instantes. Max aproximou-se e tentou puxar a amiga, a jovem não tinha força suficiente para remover Chloe dali. O som do trem pôde ser ouvido mais perto a cada segundo que passava, Max havia desaparecido momentaneamente e a garota de cabelos azuis sentiu seu batimento cardíaco aumentar desenfreadamente. O trem aproximava-se rapidamente e Chloe já podia vê-lo dobrando a última curva, a garota não achava que sairia viva dali, o terror já havia sido instaurado e ela respirava vorazmente. Felizmente, Max conseguiu fazer com o trilho que prendia a bota de Chloe se mexesse, deixando assim o pé da garota livre para que ela saísse.A garota de cabelos azuis teve a sorte de escapar viva e ilesa, assim que Max ativou o sistema, Chloe moveu-se para fora do trilho, aproximadamente um segundo antes do trem atingir aquele local. Arfando, a garota não teve outro reflexo senão abraçar Max e agradecer por seu salvamento.As palavras fugiam de Chloe toda vez que ela tentava iniciar uma sentença e agradecer decentemente à Max. Alguns minutos se passaram e seu batimento cardíaco diminuiu consideravelmente, Chloe fez uma piada e abraçou Max novamente. As garotas tornaram a caminhar sobre os trilhos enquanto conversavam sobre o quão bom era elas estarem reunidas novamente.— Meus poderes podem não durar, Chloe.— Está tudo bem — nós vamos. Para sempre.Chloe pressionou gradualmente o pedal do freio de seu carro ao aproximar-se do prédio da Academia Blackwell. Ao chegar mais perto da entrada do campus, parou definitivamente o carro e iniciou um breve debate sobre os poderes de Max e a provável relação deles com a teoria do Chaos. Não era como se a garota fosse expert no assunto, mas ainda tinha algum conhecimento acerca do mesmo. Ela lembrava vagamente de um intervalo antes da aula de ciências que havia tido alguns anos atrás, quando uma colega havia iniciado um simples debate sobre uma escolha que havia feito. A estudante pedira ao professor um conselho sobre o que fazer sobre a tal decisão, uma vez que ela pensava ter escolhido o caminho errado, e outra colega entrara no assunto comentando sobre as linhas temporais alternativas e os possíveis impactos daquela simples decisão, baseando-se na teoria do caos como explicação. Chloe achou o assunto interessante e pôs-se a procurar mais na internet ao chegar em casa, segundo as fontes, um evento ínfimo detinha o poder de causar uma reação em cadeia com a possibilidade de culminar em um acontecimento catastrófico.Max desceu do carro e acenou em despedida enquanto Chloe tornava a acelerar o veículo. A garota de franjas azuis desejava que sua melhor amiga não tivesse aulas para comparecer, mas isso não mudava o fato de que Max precisava voltar para a escola no horário das disciplinas.Um pingo de chuva caiu no braço de Chloe que estava apoiado na janela, despertando-a de seu devaneio, por sorte, justo quando o semáforo mudou de vermelho para verde. A garota não conseguia tirar algumas perguntas de sua mente, um turbilhão de pensamentos sobre o retorno de Max e seus novos poderes tomavam conta de seu cérebro. Não seria tão difícil assimilar aqueles acontecimentos se um ponto novo não houvesse aparecido: Frank. Ver a pulseira de Rachel no braço do homem realmente havia feito com que Chloe perdesse o chão.Eram 11:05 quando Chloe chegou em casa. A garota dirigiu-se a seu quarto e atirou sua jaqueta por cima da cama antes de deitar-se com o rosto virado para cima. Respirou profundamente, prendendo o ar por alguns segundos antes de expulsá-lo vigorosamente. Enviou algumas mensagens à Max e tornou a deitar com os olhos fechados. Em poucos segundos sua mente já havia tornado a girar em torno das mesmas questões anteriores, por que Max havia retornado e recebido poderes logo quando Nathan ameaçara matar Chloe? Por que Frank estava com o bracelete de Rachel? O que realmente ele tinha a ver com a garota de olhos cor de avelã?Chloe deixou a mente fluir por alguns minutos até que chegou a uma pergunta que lhe deixou inquieta: O que há de registro sobre Rachel em Blackwell?Era impossível que eles não tivessem pelo menos uma pista sobre o que acontecera com ela, a data de desaparecimento coincidia com uma das festas do Vortex Club, eles deviam estar escondendo algo. Uma série de teorias conspiracionais começou a tomar conta de seus pensamentos, incluindo pessoas impossíveis como culpadas pelo desaparecimento de Rachel. A garota continuou perdida em suas reflexões por mais algum tempo, e antes que pudesse notar, seu pensamento havia passado de um simples devaneio diurno a um sonho de fato. Chloe acordou com o barulho de David chegando em casa e fechando a porta da garagem com força. Pela altura do som, o homem estava estressado. Passos subindo a escada puderam ser ouvidos e Chloe decidiu sair pela janela antes que o homem descontasse seu mau humor nela. A última que Chloe viu através da janela, antes de descer para o térreo, foi a porta de seu quarto sendo aberta bruscamente. Uma breve sensação de alívio tomou conta da garota ao notar que acabara de se poupar de uma discussão inútil com David. A garota entrou em seu carro e deu a partida no motor.Arcadia era uma cidade pequena, Chloe logo ouviu o que havia acontecido em Blackwell. Uma sensação de culpa pareceu atingir Chloe com uma força dizimadora, algumas horas atrás ela havia basicamente coagido Max a ignorar Kate Marsh. A colega de sua melhor amiga podia estar morta se Max não tivesse ignorado as chantagens emocionais de Chloe e atendido ao chamado de Kate.O farol da cidade materializou-se no extremo do campo de visão de Chloe, já era perto do horário do pôr-do-sol, então a garota decidiu dirigir até lá e aproveitar o incrível espetáculo.Sentar no banco adjacente ao farol sempre fazia com que Chloe fosse inundada por lembranças de Rachel, desde aquela primeira noite que elas haviam passado ali, até a célebre janta a luz de velas que ela havia feito de surpresa para sua amada cerca de um mês antes de ela desaparecer. A costumeira sensação de aperto no peito voltou a incomodar e a garota decidiu acender um cigarro para relaxar.O pôr-do-sol ainda levaria algum tempo para acontecer em um dia comum, mas havia algo errado. Chloe levantou o rosto de pôde notar a existência de um eclipse não previamente anunciado no céu. A garota removeu seu aparelho móvel de seu bolso e pôs-se a enviar mensagens para sua melhor amiga.— Sinto muito pelo que houve com Kate. Espero que você esteja bem. Esse eclipse me assusta. — enviou.— Vamos descobrir o que está acontecendo. Juntas. — respondeu Max.Chloe deu mais uma tragada em seu cigarro e permaneceu ali, sentada no banco, contemplando o desenrolar dos fatos ao seu redor.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor