Crimson Day.
19 Capítulo 19.
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— Eu cuido disso. — A varinha já estava em sua mão, ela não pretendia brigar com ele, mas não ia deixar ele fazer o que bem entendesse.
Antes que James abrisse a porta do quarto, Victoire já havia saído com a varinha apontada para ele e fechando a porta atrás de si. O garoto foi pego de surpresa e nem pensou em reagir.
— Mas o que diabos é isso? — Olhou incrédulo para a prima.
— Olha aqui James, eu realmente espero que você deixe de ser o canalha que você tem sido e ajude a Molly com as crianças ou eu mesma trato de tirar sua cabeça fora.
— Isso eu pago para ver. — Seu tom foi debochado.
— É mesmo? Então vamos ver se o tio Harry vai gostar de saber que você anda fazendo coisas horríveis nessa casa pelas costas dele. Talvez ele te obrigue a conviver com a Molly e o Seth do lado, cuidando das crianças. — O sorriso vitorioso da ravina foi lindo por demais quando James fez uma carranca de ódio. — Eu e você sabemos que ele seria um pai perfeito. — Concluiu. Os olhos esverdeados de James assumiram um tom enciumado e ele bufou.
— Vai me deixar entrar ou não?
— Antes você vai ter que me prometer que vai andar na linha.
— Tá, veela. — Respondeu revirando os olhos, tentando ultrapassá-la.
— Babaca! — Abaixou a varinha e voltou para o quarto. O primo a seguiu com raiva, mas a cena que viu no interior do quarto o fez mudar de ideia. Molly amamentava Hector, e mesmo de longe, e ele não podia acreditar no quanto ele havia crescido e engordado nos últimos dias.
— Oi. — Ele disse apenas, baixando os olhos. Molly levantou os olhos e acenou com a cabeça, mais concentrada em alimentar seu filho. A verdade é que ela não podia olhar pra ele sem imaginá-lo cantando a música brasileira. E isso provavelmente a faria chorar.
— Bom, eu preciso ir, papai e mamãe devem estar preocupados. — Victoire se aproximou de Molly depositando um beijo no alto de sua cabeça. — Se cuida, Molls. — Em seguida lançou o olhar para James. — Não deixa ela ficar sem comer, certo?
— Pode deixar. — Respondeu o moreno, com o tom meio frio pelo fato de o pedido — que mais parecia uma ordem — ter vindo de Victoire.
— Fala para Keira que eu volto para encher a paciência dela. — Vicky e Molly riram juntas, ignorando James por alguns segundos. Mas a loira deu apenas mais uma olhadinha nos pimpolhos antes de aparatar.
Molly não sabia exatamente como agir ou se sentir naquele momento, sozinha com os filhos e o pai deles. Até que Hector terminasse de mamar, ela não se moveu muito. Então subiu o corpo do bebê gordinho até seu ombro e deu leves tapinhas em suas costas, o fazendo arrotar. Em seguida, deitou-o em seu colo cruzando as pernas sobre a cama. Não se deu ao luxo de olhar para James, e este os observava com cautela. Havia algo diferente nela.
— Meu amor, como você está cada dia mais lindo! — Sussurrou a ruiva para o bebê, segurando sua mãozinha e beijando-a docemente. Com o dedão, acariciou a testa do menininho. Notando que ele ficaria quietinho, Molly levantou-se e trouxe-o consigo até o berço, e quando ela ficou de pé é que James pôde constatar o que ela tinha mudado: estava extremamente magra. As pernas estavam finas, os braços apenas esguios. Ela estava seca.
— Molly, por que você está emagrecendo tanto? — Perguntou o rapaz, com o tom meio frio. Enquanto pegava Meghara, ela suspirou inaudivelmente e deu de ombros.
— Eu não sei. — Respondeu e então assentou-se na cama com a ruivinha. A semelhança das duas sempre deixava James encantado. A resposta dela o deixou encabulado, até mesmo um pouco bravo, mas se lembrou do que seu pai dissera e também Vicky.
James ficou sem saber o que dizer e então foi até o berço brincar com Hector enquanto Molls amamentava Megg. Ou foi isso o que ele pensou que estava acontecendo. Molly franziu o cenho com algumas tentativas falhas de dar o bico à neném, que não o pegou. Deu de ombros cobrindo o seio: talvez só não estivesse com fome. Os olhos azuis vagaram até o primo e ela suspirou inaudivelmente, lembrando-se das palavras em português: “Ela Vai Voltar”. Ajeitou o pijama e levantou-se, indo à sacada com a filha. O vento richocheteou seus fios ruivos, e estava um pouco gelado, o que a fez encolher Meghara dentro de seu cobertor em seus braços. Era outono. A vista de sua sacada a permitia ver folhas alaranjadas e secas sendo arrastadas pelo vento, decorando os jardins de Godric’s Hollow, inclusive o seu próprio. E então, ela começou a cantar uma música trouxa. Seth a havia apresentado inúmeras ótimas bandas do mundo dos que não eram bruxos, e ela dorava ouvi-las, fazendo com que decorasse sua maioria.
— Dark years brought endless rain, out in the cold I lost my way; but storms won’t last, they clear the air for something new… the sun came out and brought you through. — Sua voz era fraca, porém melodiosa. Quando seus lábios disseram o último verso, ela deu um sorriso para Megg e a apertou mais contra si, abraçando-a forte.
Lá de dentro, James as observava. Suspirou e virou-se para Hector.
— Ei, campeão. Ajuda o titio a cuidar da sua mãe… ela ainda é o amor da minha vida. — Sussurrou o rapaz, para o bebê que dormia profundamente. — Isso fica entre nós, mas, ela não é perfeita? — Continuou, com os olhos esverdeados seguindo os fios ruivos dela sendo ricocheteados pela corrente de vento.
— Don’t speak, no use for words. Lie in my arms, sleep secure… I wonder what you’re dreaming of, lands rare far, a timeless flight to reach the stars… — Continuava Molly, acalentando a filha que estava quase adormecida. Imitou o som da guitarra com os lábios fechados, o corpo movendo-se levemente de um lado para outro. Ela então pulou uma grande parte da música para a que mais gostava. — I’ve come so far to meet you here, to share this life with one I hold so dear. And I won’t speak but what it’s true, the world outside created just for you… is for you, is for you! — Seu canto era direcionado a seus filhos, era a canção que usava para niná-los. Ela tinha uma percepção incrível para interpretar as letras de músicas de maneiras diferentes, e até mesmo entender o que o autor queria dizer com elas. Alguns segundos depois, quando teve certeza que Meghara havia dormido, adentrou o quarto cantando os últimos versos da canção: — But if the sun will rise, bring us tomorrow… walk with me, crimson day… — Ela terminou de cantar justo quando deitou a neném no berço e sorriu acariciando a bochecha dos dois filhos. Assim, seguiu para a cama de casal e começou a arrumá-la. James aproximou-se e ajudou-a com o procedimento, e ao acabarem, Molly se jogou na mesma, respirando fundo.
Depois de alguns minutos, ela pediu que James olhasse as crianças para que tomasse banho. Hesitante, ele aceitou quando ela disse que não demoraria. Assentou-se na cama e ficou ouvindo-a cantar durante o procedimento, com um sorriso nos lábios. O tal sorriso só sumiu quando a voz dela entoou um idioma diferente.
— Minha mente nem sempre tão lúcida e fértil me deu a voz, minha mente nem sempre tão lúcida fez ela se afastar, mas ela vai voltar… mas ela vai voltar. Deixa eu te levar pra ver o mundo, babe. Deixa eu te mostrar o melhor que eu posso ser... — Os olhos de James perderam o foco e o cenho dele se franziu.
Aquela música o remeteu a uma lembrança boa, algo a ver com fogueiras… AH! É claro. A primeira vez que ele ficara com Molly no luau. Ele engoliu em seco e tentou fugir dos pensamentos. Já era tarde para isso, estava quase revivendo o momento ali, no quarto dela. Balançou a cabeça negativamente interrompendo a sensação e foi até a sacada, onde levou o rosto às mãos, esfregando-o até a altura dos lábios, onde parou com as mesmas. Mesmo com o beijo de Seth e ela, mesmo com tudo o que ele havia passado e sentido, ainda se via perdidamente apaixonado por Molly. Seria possível? Ele suspirou, e logo ouviu a porta do banheiro se abrir com a garota saindo de lá, vestindo uma blusa azul que realçava seus olhos e uma calça legging preta. Calçava simples rasteirinhas, e desembaraçava os cabelos enquanto cantarolava alguma outra música. James levou os olhos a ela ainda um pouco confuso e ela franziu o cenho.
— O que foi? — Perguntou, um pouco nervosa com a resposta que poderia ter.
— N-nada. — Respondeu o rapaz. — Molls, come um pouco.
— Não estou com fome.
— Por favor, vai. As crianças precisam de você.
— Credo, não é como se eu fosse morrer, James.
— Você pode não morrer, mas o leite pode secar. — Argumentou o garoto, que foi até onde o bolo estava, partiu um pedaço e serviu um copo cheio de suco para a ruiva. Levou até ela e a olhou. — Vamos, coma.
— Tá bom, pai. — Respondeu a garota com um ligeiro mal-humor, a sobrancelha arqueada. Pegou o copo e o deixou no criado, enquanto começou a comer o bolo. Estava prestes a deixar a comida de lado na segunda garfada outra vez quando James pigarreou.
— Qual é. Come direito, ou eu vou te forçar.
— Me forçar? Tá, sei.
— Não duvida. Você tá tão magra que se eu lhe encostar, vai se quebrar toda, Molls!
— Não exagera.
— Não é exagero, Molly, eu conheço o seu corpo inteiro. — Ele disse sem se dar conta do clima que iria criar. E criou. Ela apenas assentiu, e comeu o resto do bolo com muito custo. — Agora o suco. — Exigiu o garoto, e a ruiva bufou ao pegar o copo e tomar uns goles do líquido, já se sentindo abarrotada. — Boa garota. — Comentou em tom divertido, e Molly deu a língua pra ele.
Molly deixou os recipientes agora vazios em cima de uma das cômodas e deitou-se de lado na cama, suspirando. Estava prestes a fechar os olhos quando alguém pareceu acordar. Céus, ela queria que tivesse dormido junto com os filhos. James, por sua vez, gesticulou para que ela não se levantasse e ele mesmo foi atender a criança.
— Ih… ela não parece muito feliz, Molls. — Comentou antes de trazer Megg até a mãe, que a aninhou em seus braços. Foi o suficiente apenas para que ela se acalmasse, mas ainda assim, não parou de resmungar. Mesmo deitada em tal posição, tirou o seio com os olhos pesando para que dormisse e mais uma vez, Megg procurou pelo mesmo e não conseguiu pegá-lo: o bico escorregava de seus lábios. Os olhos azuis de Molly rapidamente lutaram contra seu sono e ela levantou o tronco apoiando-se em um dos cotovelos, com o cenho franzido.
— Calma, pequena. — Disse, mas é claro que de nada adiantaria. Meghara já não havia mamado antes de dormir e parecia estar afobada, desesperada de fome. Então Molly tentou mudar de posição, deitando-se de barriga pra cima com a filha deitada em sua barriga, a cabeça bem perto de onde mamaria. Suspirou nervosa ao ver que nem isso adiantaria. Mais uma vez tentou mudar, e assentou-se, tentando da maneira convencional. Estava começando a ficar preocupada e nervosa com a situação, e ao notar isso, James preferiu ficar calado e não olhar muito pra elas, embora quisesse entender o por que de Megg não estar conseguindo mamar.
Por fim, a ruiva sentia-se tão afobada quanto a pequena bebê e sentiu as lágrimas escorrerem por sua face. Por que Megg não conseguia mamar? Por que não conseguia alimentar a própria filha? Seu choro se intensificou mas não quis torná-lo sonoro, e aproveitando que James não tinha os olhos sobre si usou a mão livre para limpar as próprias lágrimas. Um soluço, porém, escapou de seus lábios fazendo o primo olhá-la. Os olhos dele se estreitaram até ter certeza de que vira rastros de lágrimas no rosto dela e então ele mordeu o lábio inferior.
— Molls, eu posso ajudar? — ela negou com a cabeça reprimindo outro soluço com os olhos fixos na filha, tentando fazer de qualquer maneira que ela pegasse o peito.
Isso começou a desesperar também o garoto. Não pelo fato de o choro de Megg estar ecoando estridentemente ou nada do tipo, mas era ver a agonia nos olhos de sua ex-namorada ao não conseguir amamentar a própria filha. Desde que se apegara às crianças, notou o quão maternal Molly II era. Até complementava os fatores em comum dela com a Molly I. Sem contar que ele ainda era apaixonado por sua prima, e ela estava quase definhando. Perguntou-se qual sua parcela de culpa naquilo, e sentindo-se extremamente culpado, decidiu que os ajudaria. Que se redimiria para ela, independente da dúvida que tinha sobre ela ainda gostar dele. Achava sinceramente que ela apenas não merecia tudo aquilo e precisava de seu amigo James, não que ainda o amava. Mas ele via um brilho diferente nos olhos celestes dela… um brilho que só estava lá quando era ele a pairar sobre seu campo de visão ou imaginação. Aquilo começou a impregnar nos pensamentos dele, junto com a sensação de inutilidade do momento.
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