Criminal
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Jack abriu a porta do apartamento suspirando, havia sido um domingo cheio e ainda nem era tarde da noite, começou a desabotoar a camisa branca a tirando, o calor estava cada vez pior, desafivelou o coldre e o colocou sobre a pequena mesa na cozinha, abriu a geladeira pegando uma garrafa de cerveja.
O telefone acoplado a parede da cozinha tocou e ele o atendeu rapidamente.
— Frost.
— Oh olá — a voz soou feminina e suave — Jack?
— Olá mamãe.
— Lhe liguei o dia inteiro, pensei em ligar no seu celular mas achei que estaria em alguma cena de crime — a voz mudou rapidamente, a mãe não era uma grande fã de seu trabalho, tinha orgulho do homem que se tornará mas mesmo assim sentia medo pelo filho — Afinal você só faz isso — uma pausa e Jack sabia que ela ia começar com o mesmo discurso de sempre — Céus Jack, quando vai se casar? Trazer uma mulher para nos conhecer, uma decente diferente das outras tantas. Quando vai ter filhos? Pelo amor, eu quero netos da sua parte também.
— Já tem dois netos mãe — ele falou e sabia que isso iria irritar a velha senhora.
— Não comece Jack — ela soou autoritária — Jamie me ligou falando que amanhã vai vir para Atlanta e passar a semana, estava pensando em fazer um jantar amanhã, Sophie já confirmou.
— Mãe, não posso prometer nada, ainda estamos investigando o caso de assassinato.
— Você mesmo disse que não houve mais nenhum caso, Jack por favor, vamos jantar em família.
— Mãe não tenho apenas esse caso, minha mesa está cheia de papel.
— Jack por favor, é a única coisa que eu lhe peço.
Jack suspirou : — Sim mãe, amanhã anoite estarei ai.
Jack desligou assim que escutou a mãe agradecendo, tomou mais um gole da cerveja a deixando ainda inteira sobre o balcão, suspirou massageando o pescoço, foi em direção a sala onde seus olhos se focaram no mapa apenas com dois alfinetes.
Onde você está? Quem é você?
A pergunta soava em sua mente enquanto focava o mapa de Atlanta, se jogou no sofá cansado.
(...)
A ligação havia sido feita para o distrito de polícia, ninguém respondera.
O endereço que procuravam ficava na Zona Oeste de Atlanta, após a ligação para o distrito uma viatura havia sido mandada para o endereço no qual rastrearam o telefone, era apenas seis da manhã e Jack já seguia em direção ao endereço que haviam lhe chamado e isso só significava uma coisa, seu assassino misterioso atacará novamente.
— Chegamos — Hiccup falou enquanto virava a direita.
As luzes azuis e vermelhas pintavam o céu laranja que começava a desbotar mostrando que seria mais um dia quente, alguns curiosos já se encontravam ao redor vestidos ainda com robes ao serem acordados brutalmente pela sirene dos carros patrulhas.
— Detetives — um policial apareceu assim que eles desceram do carro, o rosto jovem estava pálido — Aconteceu de novo.
(...)
Elsa saiu da Mercedes e seus sapatos de salto fez um leve barulho em contato como calçamento, suspirou, sabia que havia se precipitado ao colocar saltos essa manhã, bateu a porta do carro vendo a rua movimentada, pelo menos quatro carros patrulha, alguns policiais conversavam, segurou a maleta com firmeza na mão.
Algumas pessoas começavam uma segunda feira de mau humor apenas por saber que teriam pilhas de papéis sobre a mesa, ela por outro lado recebera uma ligação assim que acordará que sua segunda seria repleta de imagens grotescas e cheiro de morte.
— Olá Doutora — uma voz a gritou do outro lado da rua, ela virou o rosto vendo uma jovem policial que acenava, a reconheceu imediatamente, Astrid Hoffers.
— Começaram cedo hoje — ela comentou enquanto atravessava a rua parando em frente a mulher.
— Nem me fale, eu quem atendi o chamado — ela desviou o olhar — Não é nada bonito.
— Acredito que não — Elsa suspirou — O rebecão já chegou?
— Ainda não, faz alguns minutos que ligamos.
Ela concordou com a cabeça, começou a subir a calçada, consciente de que os outros policiais a encaravam. Conheciam seu carro, sabiam quem era ela e ainda mais o propósito de sua visita, assim como sabiam que talvez algum dia um deles poderia ser o infeliz objeto de sua atenção em uma cena de crime.
Olhou para o céu onde o sol já brilhava machucando suas vistas, voltou a atenção para a frente vendo a silhueta de um homem de cabelos castanhos que ela conhecia, Hiccup conversava baixinho com uma criança de cabelos negros que abraçava a si mesma, franziu o cenho confusa.
Continuou a caminhada em direção a casa que havia sido cercada por uma fita afastando os curiosos, parou em frente a casa olhando para a bela residência de dois andares, a porta estava aberta e ela conseguia ver sombras se movendo.
Retirou um par de luvas do bolso da calça as colocando, se apoiou no corrimão da entrada para a varanda colocando os protetores de sapatos.
— Dra. Snow — uma voz soou e ela levantou a cabeça encarando a imagem do detetive que passava pela porta aberta, ele parecia um tanto cansado — Acho bom entrar, estávamos esperando a senhora — ele falou e ela concordou com a cabeça.
Ela seguiu o detetive em direção a porta, ele segurou a faixa com cuidado para que ela passasse.
— Por quê tantos policiais? O caso não é apenas seu? — ela perguntou e viu Jack confirmar com a cabeça.
— Posso estar na linha de frente, mas estamos todos reunidos, é algo grande e sem evidências- ele falou e ela continuou em silêncio — Está no quarto.
Eles seguiram em direção a um corredor deixando a sala bem montada para trás onde alguns peritos de cena criminal já vasculhavam o local.
Seguiram o corredor, Jack na frente, as mãos enluvadas no bolso da calça, Elsa o seguia, a mão apertava a alça da maleta com força, encarou as costas masculinas, o cabelo estava um pouco despenteado e ele trajava novamente o terno preto que se lembrava, se movia sem medo, os sapatos cobertos de papel farfalhando a cada passo.
Elsa parou na metade do corredor, podia ver alguns pingos de sangue.
— Mantenha-se a um canto, temos algumas pegadas espalhadas pelo local — alertou Jack e ela o encarou — Estão bem secas agora mas não quero borrar nada.
Ele falou enquanto pousava as pontas dos dedos calmamente na coluna feminina a guiando por uma trilha sem sangue, ela apenas respirou fundo, os toques por mais involuntários que fosse estavam lhe causando um leve arrepio em seu corpo.
— Quem deu a queixa? — ela perguntou enquanto ignorava a sensação dos dedos ainda parados em sua coluna.
— Foi uma ligação para a emergência — ele falou enquanto os dedos deixavam a regata de seda que ela trajava.
— De onde?
— Desta residência.
Elsa franziu as sobrancelhas o encarando.
— A vítima ligou pedindo ajuda?
— Não, ninguém disse nada, apenas telefonaram — Jack explicava com calma — O primeiro carro patrulha chegou em quinze minutos.
E ela se lembrou da policial falando que ela quem havia atendido ao chamado, conseguia imaginar a garota tocando a campainha, chamando e ao não ser correspondida arrombando a porta com a ajuda do parceiro para encontrar algo que acabaria com seu dia.
Jack fez uma pausa diante de uma porta e olhou em direção a Elsa. Um olhar de advertência — Aqui foi onde o show aconteceu — ele falou e ela concordou com a cabeça.
Jack se afastou e Elsa olhou para o quarto onde tinha dois detetives, os mesmos que havia visto ontem, os dois ruivos estavam a um canto conversando, olhou para o chão tentando evitar a cama sabendo que lá encontraria a vitima, tudo o que viu foi sangue, sangue ao lado da cama e em uma das paredes indicando os últimos suspiros da mulher.
Quando o corte foi feito o coração dela ainda batia, ainda gerava pressão arterial, ela pensou enquanto entrava no quarto, então seu olhar se deteve sobre a cama, o abdômen da mulher estava aberto, dobras do intestino delgado pulavam para fora como serpentes, sangue seco se acumulara no lençol e algumas pequenas poças ao lado da cama, ela estava nua, se aproximou a encarando, os cabelos ruivos se igualava com as poças de sangue.
Encarou o corpo pálido, os olhos azuis estavam arregalados e agora sem vida, não tinha muito o que fazer ali, e sabia que a autopsia iria indicar a mesma coisa de Jane Potter, uma mulher que havia sido violentada sexualmente e que tivera seu abdômen aberto.
— Ela estava grávida? — ela perguntou virando o rosto para Jack que concordou.
— Embrulhamos o feto, ninguém conseguia ficar olhando por muito tempo — ele falou abaixando a cabeça — Pedimos para ligar pro marido, ele estava em Nova York, encontramos apenas a janela do quarto aberta, desligaram a luz por fora e depois a ligaram, o cadeado da caixa de luz estava quebrado.
Isso era ago que Elsa não esperava, estavam lidando com algo grande, alguém incrivelmente esperto que desligara a energia sabendo que assim as câmeras de segurança presentes na entrada e nos fundos não iriam ser problema.
— Jack — uma voz ecoou e as quatro pessoas presente no quarto encararam a imagem de Hiccup que aparecia na porta — O primeiro carro de jornal chegou, pedi para não o deixarem passar.
— Como eles ficaram sabendo? — Jack perguntou irritado e Elsa levantou uma sobrancelha, ai estava o pior pesadelo que acometia uma investigação, a presença de repórteres indicava informação ao assassino de que o estavam perseguindo.
— Não sei, quando chegamos os vizinhos saíram, talvez algum idiota tenha ligado — o moreno falou parecendo irritado, o que foi um choque para Elsa que se lembrava dele sorrindo na última autópsia — Deixei a menina na sala, ela não sabe de nada.
— Que menina? — ela perguntou voltando para Jack.
— Encontramos a filha dela no quarto trancada.
E ela se lembrou da criança com quem Hiccup conversava.
— Estavam interrogando uma criança? — ela perguntou indignada e o viu a encarar.
Jack olhou a loira de cima a baixo, o timbre de sua voz o chamara a atenção, viu as perfeitas sobrancelhas franzidas.
— Estamos fazendo nosso trabalho doutora.
— Claro, interrogando uma criança com perguntas diretas — ela o respondeu cruzando os braços e Jack suspirou, a viu passar por ele e ir em direção a porta onde Hiccup lhe permitiu passagem, todos os quatro detetives se encararam.
(...)
Elsa seguiu em direção a sala, sabia que estavam apenas fazendo seu trabalho mas ela também havia ido para fazer o seu, e sua opinião contava ali, mesmo sabendo que eles não concordariam assim como ela não concordava sobre tirar as perguntas de um familiar na hora de um crime, isso vagamente a lembrava das notícias que tinha de dar para um familiar de que um paciente acabara de morrer e ainda mais uma criança que devia estar apavorada.
Parou na sala e percorreu o ambiente com os olhos azuis, a um canto uma garotinha estava sentada no sofá preto de couro enquanto Astrid estava ao seu lado em silêncio, se aproximou com calma parando em frente a garota, se ajoelhou não se importando se o chão sujaria sua calça branca, pousou as mãos sobre os joelhos pequenos e infantis e a viu levantar o rosto.
Cabelos negros caiam em frente os olhos azuis, a expressão de tristeza consumia o rosto de boneca e Elsa sentiu o coração falhar.
— Olá — ela sussurrou e a menina abaixou os olhos para a boneca em sua mão, devia ter apenas cinco anos e já estava tendo de enfrentar aquele furacão, Elsa abaixou o olhar para a boneca de cabelos loiros que estava na mão da menina — É a sua boneca favorita ? — ela perguntou e a criança acenou com a cabeça — Qual o nome dela?
A menina ficou em silêncio por alguns minutos, Elsa levantou o olhar vendo que Astrid a encarava, virou o rosto e observou a imagem dos quatro detetives a um canto a encarando, todos se perguntando o que a estranha Doutora Snow estava fazendo, ela era capaz de abrir um corpo sem vida mas não de ver uma criança chorando.
Pois é, essa sou eu, uma estranha, ela pensou enquanto esperava pacientemente a menina responder.
— Luna — a voz soou tão baixa que Elsa pensou ter sido de sua imaginação, voltou o olhar para a menina que a encarava.
— Ela é linda — sussurrou calma dando um pequeno sorriso — E qual o seu nome princesa?
— Melody.
— É um lindo nome — ela sussurrou.
A essa altura o local estava um verdadeiro silêncio, todos na sala observavam intrigados, a estranha interação entre a Rainha dos Mortos e aquela criança.
— Eu me chamo Elsa — ela falou e viu que a criança continuava a encarando — Quando era criança tinha uma boneca como a sua — ela falou e Melody voltou o olhar para a boneca que apertava com força nas mãos pequenas.
Jack se aproximou e a cabeça da pequena se levantou o encarando logo parando no rosto da loira que continuava ajoelhada a sua frente como se apenas ela merecesse sua atenção.
— Ela te protegeu não foi? — a voz de Elsa saiu calma e Jack se sentou no lugar ao lado da criança que outrora Astrid ocupava, encarou o rosto perfeito da loira enquanto ela observava a menina — Luna estava com você quando aconteceu, do que vocês brincaram? — ela perguntou e Jack franziu a sobrancelha confuso.
Melody continuou em silêncio, acariciava os cabelos da boneca com calma.
— Quando eu era pequena e ficava com medo gostava de me esconder debaixo da cama junto com meu urso de pelúcia — Elsa continuou falando com calma — O que você fez?
A criança levantou a cabeça a encarando — Eu também me escondi debaixo da cama, mas eu fiquei com medo porque queria ficar com a mamãe.
Jack levantou o olhar para Hiccup e pela expressão do moreno soube que ele não sabia daquela parte.
Elsa estendeu a mão acariciando o braço miúdo com calma.
— Eu também gostava de fechar os olhos e esperava o medo ir embora, você também fez isso né? Você fechou os olhos — ela sussurrou enquanto se levantava, viu a menina a encarar, sabia que também estava interrogando a criança, mas era esse tipo de interrogatório que tinha de fazer e agradecia mentalmente por ter aprendido isso na escola de medicina.
A criança concordou com a cabeça, Elsa se sentou do outro lado da menina que virou a cabeça para a encarar, levantou o olhar encontrando os olhos atentos de Jack sobre si, o viu concordar minimamente com a cabeça e um pequeno e imperceptível sorriso surgir em seus lábios.
— Você é policial? — a voz de Melody soou fraca.
— Não, eu sou médica.
— O monstro também era — a criança tremeu fraco e a loira sentiu a respiração acelerar, com o medo aflorado a imaginação de Melody havia convertido a cena para coisas que não existiam como o fato dela imaginar o homem como um monstro, embora aquilo fosse verdade, afinal que tipo de monstro faria aquilo.
— Você o viu? — ela perguntou e a criança afirmou com a cabeça.
— Eu escutei a mamãe gritar e fui no quarto dela.
— Como ele era? — a pergunta direta de Jack fez Elsa o encarar.
— Ele usava uma máscara de médico — a criança sussurrou baixo, a loira levantou o olhar para Jack. Com quase metade do rosto oculto por uma máscara e o local escuro de nada adiantava.
— Você ficou com medo e correu pro seu quarto — Elsa sussurrou e a criança concordou com a cabeça.
— Mais a porta do quarto estava trancada — Astrid falou acabando com o silêncio.
Melody permanecia com a cabeça abaixada enquanto remexia na boneca em suas mãos, Elsa a encarou suspirando, aquelas perguntas deviam estar apenas piorando o psicológico daquela pobre menina.
Estendeu a mão acariciando o cabelo negro e ela levantou a cabeça, era apenas uma criança assustada sem mãe no meio de adultos eufóricos, bateu em sua própria coxa e o ato pareceu ser comum para a menina que pulou para o colo da loira se aninhando em um abraço apertado, era isso que ela precisava, que toda criança precisava, um pouco de carinho e compreensão em um momento confuso e solitário.
Elsa acariciou os cabelos negros com calma — Quer me contar o que aconteceu? — ela sussurrou.
Melody confirmou ainda com o rosto escondido entre a regada que Elsa usava.
— Eu me escondi embaixo da cama, a porta abriu e fechou, fiquei com medo — a criança sussurrava abaixo e a sala estava em um completo silêncio — Quando a mamãe parou de gritar eu fui abrir a porta mas não consegui.
O choro baixo e infantil ecoou, Elsa segurou o rosto entre as mãos vendo as lágrimas escorrerem pelas bochechas pálidas, secou uma das lágrimas com calma.
— Não precisa chorar princesa — ela sussurrou enquanto tentava limpar as próximas lágrimas- Seu pai já está vindo, vamos esperar ele chegar tudo bem ? — ela perguntou e viu a criança concordar, voltou o olhar para todos que a encarava parando os olhos sobre o loiro que permanecia em silêncio ao seu lado.
(...)
Jack encarava a interação entre as duas, Elsa conseguia tirar as respostas com clareza e facilidade da criança e isso o deixava abismado, viu a menina pular para o colo da loira a abraçando e um pequeno sorriso se espalhou no rosto do detetive.
— Seu pai já está vindo, vamos esperar ele chegar tudo bem ? — a voz soou calma e meiga, um som que ele nunca ouvira sair daqueles lábios, quem diria a fria Elsa Snow possuía um coração gentil quando se tratava de crianças, a encarou vendo que os olhos azuis estavam pousados sobre si — Quando o pai dela chega?
— Ligamos já faz uma hora, a viagem de Nova York até aqui são cerca de duas horas — ele falou e a viu concordar com a cabeça.
Elsa encarou a garotinha que parecia mais calma.
— O que acha de me mostrar seus brinquedos? — ela sussurrou e a menina concordou com a cabeça, era uma criança magra e não devia pesar tanto, a pegou com calma no colo se levantando do sofá, a menina apenas passou os braços em torno do pescoço da loira escondendo a cabeça nos cabelos platinados, as duas deixaram a sala indo para o corredor.
Jack permaneceu em silêncio, assim como todos, observou o estofado de couro do sofá e suspirou antes de se levantar.
— Isso realmente aconteceu? — a voz de Hiccup soou próxima a ele.
Jack apenas sorriu de lado, na porta um barulho chamou a atenção de ambos onde o enorme rebecão aparecera para levar o corpo.
(...)
Quando Eric chegara desesperado a cena, foi quando Melody deixou a loira pela primeira vez e seguiu em direção ao pai, Elsa apenas se levantou do chão onde estava rodeada de bonecas, fechou os olhos massageando a nuca, agora poderia ir para seu escritório, andou a passos lentos em direção a sala que estava quase vazia encontrando pai e filha no sofá onde um padre estava sentado ao lado deles, já havia visto essa cena antes.
Sempre quando tinha um familiar desesperado na cena de um homicídio o departamento chamava um padre para sussurrar palavras de apoio aos familiares.
Andou em direção a porta se sentindo cansada, ainda escutava conversas do lado de fora e soube que iria encontrar alguns repórteres.
— Doutora — uma voz soou próxima a ela a fazendo se virar tendo a imagem de Jack a alguns centímetros — Obrigado por hoje — ele sussurrou e ela concordou com a cabeça.
Ela voltou o olhar para frente onde diversos repórteres ainda esperavam em frente a casa, todos entusiasmados e ela sentiu o estômago revirar, o ser humano era capaz de se alegrar com a desgraça de outro apenas para ter uma boa matéria.
— Preparada? — Jack perguntou ao lado dela e ela suspirou sorrindo de lado, teria de se arriscar entre as câmeras.
As câmeras famintas se voltaram para uma nova vítima — Elsa — e os repórteres se aproximaram enquanto ela descia os degraus da varanda.
— Dra. Snow ! Quer fazer alguma declaração? — uma voz soou próxima a ela, ela apenas respirou fundo continuando com a cabeça erguida.
— Dra. foi algum ataque sexual?
Elsa sabia que estava sozinha, ali cercada de abutres, deu mais alguns passos tentando se desvendar das inúmeras pessoas, remexeu na bolsa tentando achar as chaves do carro, a cabeça abaixada fazendo com que os cabelos loiros ocultassem seu rosto.
— Qual é cara- um grito ecoou e ela preferiu não se virar, levantou a cabeça tentando se desvencilhar de um câmera que parara bem a sua frente.
Escutou seu nome soar novamente, desta vez soou como um alerta, se virou rapidamente vendo um homem caído no chão onde outra pessoa estava em pé ao seu lado.
— Ele bateu com a cabeça no chão — um dos homens gritou, Elsa correu em direção ao sujeito.
— O que houve? — perguntou — Ele caiu?
— Não — um homem a respondeu — Esse idiota estava bêbado a essa hora e eu o empurrei, acho que bateu a cabeça.
Ela ajoelhou-se ao lado dele, o sujeito estava com a barriga para cima, o observou com calma, um sujeito pesado com cerca de 50 anos, as roupas estavam amassadas e era possível sentir o cheiro de álcool, como alguém ia trabalhar naquelas condições.
Abaixo da cabeça uma pequena poça de sangue aparecia, ela levou o dedo médio e indicador em direção a jugular.
Não respirava.
Inclinou a cabeça dele para trás expondo o pescoço gordo e grosso, curvou-se para dar inicio a ressuscitação. O cheiro de álcool e cigarro a atingiu lhe provocando náuseas, pensou nas enormes doenças que poderia adquirir apenas com o contato da boca de ambos, respirou fundo se forçando a seguir em frente.
Juntou as bocas e soprou ar, viu o tórax se erguer e soprou novamente, levou a mão em direção a carótida, ainda não demonstrava sinais.
Estava a ponto de abrir a camisa de botões do homem mas alguém já fazia isso para ela, levantou a cabeça e viu Jack ajoelhado do outro lado, mãos grandes apalpando o tórax do homem em busca de referência. Encontrou o esterno e olhou para ela.
Elsa encarou olhos azuis surpreendentes.
(...)
Jack estava a um canto com Melody ao seu lado enquanto observava Hiccup conversar com o homem que parecia desolado demais para falar, abaixou o olhar vendo que a garotinha continuava com a mesma boneca de antes nas mãos.
Um grito do lado de fora lhe chamou a atenção, ele deixou a menina de lado correndo para a porta onde viu um grupo se aglomerar, entre eles uma cabeleira platinada chamou sua atenção, correu em direção ao grupo pedindo passagem.
(...)
— Comece a bombear — Elsa ordenou com a voz fria e Jack a obedeceu.
Ele entregou-se a tarefa, contando alto a cada compressão de modo que ela pudesse intercalar a respiração, trabalharam juntos como se fizessem parte de uma mesma equipe e trocaram de posição para descansarem um ao outro.
Quando a ambulância chegou os braços de Elsa doíam e ela suava, se levantou vendo Jack a imitar, respirou exausta enquanto a equipe médica colocava uma agulha endovenosa no homem caído, embora ela soubesse que de nada adiantaria, ele já estava inconsciente a tempo suficiente.
As câmeras voltaram para a ambulância, afinal o espetáculo tem que continuar, ela pegou a bolsa que estava jogada no chão e levantou o olhar para Jack.
— Obrigada — ela sussurrou e ele sorriu.
— Venha Doutora, vou lhe acompanhar — Jack falou enquanto a guiava em direção ao carro, os dedos novamente na coluna reta dela e ela se perguntou se aquilo seria uma mania dele.
Assim que pararam em frente a mercedes escura ela abriu a porta e entrou, acenou para ele pronta para sair daquele lugar, sua semana havia começado agitada demais.
(...)
Estou sentado no meu sofá assistindo ao noticiário dessa noite, ansioso para o aparecer da notícia.
Um repórter está diante da casa da Dra. Ariel Mermaid e com uma voz carregada de tristeza da a notícia de mais um assassinato, me inclino para a frente, fitando intensamente a tela, esperando.
E finalmente a vejo.
A câmera se moveu pela casa e capturou-a em um plano fechado enquanto ela saía pela porta da frente. Um homem loiro emerge a sua direita. Eles parecem conversar sobre algo e ela da um pequeno sorriso, ah doutora você conseguiu chamar minha atenção. Sem saber que o operador de câmera está focado sobre eles, a voz do repórter continua a soar mas eu não ligo, me levanto me aproximando da televisão.
Ela parece cansada e pequena, mas sua postura séria continua, faz tempo desde que a vi pela última vez no hospital e desde então sonho com você doutora, você ainda não me traiu, continua minha, em meus pensamentos, seu olhar sério me encarando.
Então ela começa a descer as escadas, as câmeras dando close em seu rosto perfeito, toco a televisão acariciando a pele clara.
De repente ela se foi, desapareceu da tela e essa se focou em um homem gordo, me afastei irritado, mas não por muito tempo, logo ela estava lá novamente ao lado do homem e todo o processo de ressuscitação foi filmado enquanto a via respirar ofegante. Ah querida por que nem assim você deixa seu porte sério de lado? Não me traia meu amor e nada acontecera a você.
(...)
Elsa jogou a bolsa sobre o sofá, retirou os sapatos, aquele dia nem havia acabado e já havia sugado todas as suas forças, naquela noite ansiava um descanso e aconchego.
Serviu-se de um cálice de xerez e sentou-se no sofá, as lembranças daquela manhã ainda a atormentavam, suspirou se lembrando da pequena órfã de mãe agora, era uma criança tão inteligente, tão bonita.
Olhou para o lado de fora vendo a rua movimentada, todos tinham alguém com que compartilhar momentos felizes, tristes ou apenas para lhe oferecer um abraço apertado e era disso que ela precisava, de alguém.
Encarou o telefone que estava na mesa. Já sentia os efeitos do xerez e sabia que qualquer decisão que tomasse agora seria influenciada pelo álcool, ergueu o fone. Enquanto a telefonista ligava para o quarto, ela encarava a mesinha de vidro a frente pensando: isto é um erro, você vai se machucar de novo.
— Alô — a voz soou e ela suspirou.
— Joshua.
— Quem é? — ele perguntou e ela riu sem humor, com certeza ele esperava outra ligação.
— Não reconhece mais a voz de sua ex mulher — ela falou e dessa vez ele quem riu.
— Agora estou surpreso, que bom que ligou.
— Sei que está tarde — ela desculpo-se.
— Ainda não são nem sete horas, nem jantei — ele a respondeu divertido.
— Não deveria ter ligado — ela sussurrou e o silêncio se formou pro alguns segundos.
— Então por quê ligou?
Ela ficou em silêncio, fechou os olhos respirando, tentando achar a resposta para essa pergunta.
— Está na hora de pararmos de nos ignorar, você disse que gostaria de conversar comigo.
— E quero.
— Quando quer me ver?
— O que acha de agora, posso comprar o jantar e conversamos.
Ela olhou para a janela, as luzes das casas acesas e suspirou, encarou o cálice vazio em sua mão.
— Anota meu endereço — ela sussurrou.
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