Criminal
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Sentou-se no sofá com um copo de suco a sua frente e uma lasanha congelada sobre o colo, enquanto passava os diversos canais da televisão, procurando um que a interessasse, parou no canal Discovery Chanel onde passava um documentário sobre a origem do mal.
"Compartilhamos da ideia de que o mal não é apenas um conceito. É real e tem uma presença física. Um rosto — o senhor de idade continuava a falar na breve entrevista- Em certo ponto da vida todos nós o vimos em carne e osso.
— Satã? — o repórter perguntou"
Elsa riu, essas coisas simplesmente não existiam, não se pode falar que uma pessoa cometeu um assassinato por ter algo habitando seu corpo. Não havia explicação para o que ela via sobre as luzes do laboratório todos os dias. Pegou o controle e desligou a televisão. Sem mais histórias para essa noite. Se levantou com a lasanha pela metade e o copo vazio, guardou a lasanha na geladeira e colocou o copo dentro da pia. Verificou a tranca da cozinha e apagou a luz.
Antes de subir para o quarto telefonou para a Thooty, a ligação caiu na caixa postal. Mandou uma mensagem e com o celular em mãos subiu as escadas.
O celular apitou no meio da noite, ela abriu os olhos grogue de sono, esticou a mão o pegando vendo que era uma mensagem de Thooty confirmando o local e o horário, junto a um pedido de desculpas pela demora, a respondeu rapidamente enquanto o brilho da tela machucava seus olhos, colocou o celular no espaço vazio ao seu lado, dando boas vindas novamente ao sono.
(...)
As folhas ao redor já estão começando a se tornarem alaranjadas, o indicio de um novo tempo. Olho pela janela ao meu lado, as pessoas na rua já substituíram os shorts e regatas por leves casacos.
Eu queria muito ver a polícia chegar, mas não sou burro. Sei que estão atrás de mim, e qualquer carro que passar ao redor irão anotar a placa. Eles sabem que meu impulso de voltar é grande. Mesmo agora, enquanto estou aqui, sentado no Stanly Coffee, olhando pela janela, sinto aquele quarto me chamando de volta.
Em vez disso fico sentado bebendo meu café enquanto a cidade de Atlanta acorda aos poucos, afinal é um belo final de semana. Mexo três colheres de chá de açúcar na minha xícara; gosto do meu café bem doce.
O som da porta se abrindo chama minha atenção, ao longe uma sirene uiva. Tiro os olhos da janela, observo ao redor a ponto de meus olhos captarem a mulher que entrara. Ela se senta a um canto afastado de todos, dessa vez o cabelo não está solto e sim preso em uma bela trança, que conseguiu a deixar ainda mais bela.
Ela pega o celular em mãos, logo leva o olhar em direção a porta. E percebo que ela é uma daquelas pessoas que são pontuais e espera que todos sejam assim, fica mais alguns minutos remexendo nervosamente no celular e então o coloca dentro da bolsa. A vejo se levantar e ir em direção a pequena fila que se forma. Deixo meu café sobre a mesa e a sigo. Infelizmente não fui rápido o suficiente e uma pessoa entrou a minha frente nos separando. Espero pacientemente. Quando chega sua vez escuto sua voz aveludada se sobrepor sobre o barulho irritante das vozes dos outros clientes. Ela pede um café puro, com pouco creme, junto ao café ela pede três muffins de morango e um de banana com canela. Com toda certeza isso tudo não é apenas para ela.
Ela se afasta e volta a se sentar na mesa que estava ocupando antes. Ela passa bem perto de mim. Rosto erguido e olhos claros. Vejo que conseguiu chamar a atenção de alguns homens ao redor. Mas ela não percebe esse efeito que causou. Volta a se sentar e começa a bebericar o café sem nem ao menos colocar açúcar. Ai está uma diferença entre nós. Enquanto prefiro o meu doce ela gosta do amargo.
Pago meu café e sigo em direção a sua mesa, ela não vê que estou me aproximando aos poucos. Continua encarando a porta enquanto segura o celular ao lado da orelha. A vejo franzir o cenho.
— Bom dia — falo e ela vira o rosto, por um segundo vejo que ela fora pega de surpresa antes da feição séria encobrir novamente seu rosto. Ela me encara tão atentamente que me sinto perdido naqueles olhos azuis.
— Bom dia — me responde por fim. Percebo que ela ainda me avalia com o olhar.
— Já nos vimos antes. Talvez não se lembre de mim — falei e ela me encarou levantando uma das sobrancelhas.
— Me desculpe, mas não me lembro — eu apenas sorri com sua resposta.
— Não se preocupe. — olhei para a cadeira vazia a sua frente — Está esperando alguém? Ou posso me sentar?
Ela fica em silêncio por uns segundos.
— Estou esperando uma pessoa.
Afirmo com a cabeça tentando parecer o mais decepcionado possível. A vejo encarar o celular sobre a mesa. Um celular moderno e novo. Ela percebe que ainda estou em pé ao seu lado e a vejo morder o lábio nervosamente. Ela não gosta de estranhos próximo. Isso é claro pra mim quando a vejo pegando o saco com os muffins dentro e se levantando.
— Já está indo ? — pergunto quando ela coloca o celular dentro da bolsa.
— Já esperei demais — ela comenta.
— Te entendo, também não gosto de esperar. Não suporto nem esperar em um fila de caixa, normalmente desisto — comento e ela me encara sorrindo nervosamente. Sei que esse sorriso não foi verdadeiro, mas foi direcionado para mim. Ela está parada tão perto de mim que quase posso esticar a mão para tocá-la. Imagino o quão macia sua pele deve ser.
— Tenha um bom dia — ela falou enquanto me dava as costas. Em nenhum momento perguntou meu nome. O que chega a ser decepcionante.
— Você também doutora — falo alto e a vejo parar e virar o rosto em minha direção. Provavelmente se perguntando como a conheço. Sorrio em troca e ela me da as costas novamente.
Ela desaparece pela porta. Sem jamais saber que eu a estive observando o tempo todo. Respiro fundo sentindo o cheiro que ela deixou. Um perfume sútil e suave. Me sento onde ela estava ocupando antes, meus olhos param sobre o copo de café ainda cheio que ela havia pedido, o abro e coloco três colheres de açúcar. Mexo com calma, o tampo novamente e tomo um gole. Sabendo que meus lábios estão tocando onde os dela tocou.
(...)
Quando o carro dobrou a esquina ela freou, confusa observou os carros da polícia de Atlanta que preenchiam e fechavam a rua, as luzes vermelhas e azuis piscando. Ela desligou o carro, subitamente alerta, abriu porta do carro ainda encarando os diversos carros de policia mais a frente. Poderia estar enganada.
Um dos policiais se adiantou, gritando e acenando para que voltasse, ela não o respondeu. Caminhou até a calçada, a ansiedade aumentando enquanto se aproximava do grupo de curiosos e via todos aqueles carros de policia estacionados em frente a bela casa, sentia suas pernas bambas. Talvez fosse engano. Talvez teria acontecido algo com algum vizinho? E não com os donos daquela casa. Uma série de possibilidades passou pela sua cabeça.
Rompeu a multidão de curiosos chegando a frente do local, seu coração acelerado, se chocando contra as costelas com força, a adrenalina era tanto que sua mão tremia ao levantar a faixa amarela que impedia a entrada de curiosos. Atravessou a ampla porta entrando no hall elegante, olhou ao redor .
Elsa sabia que ali era uma cena de crime porque viu uma figura conhecida. Mesmo estando a um corredor de distância, ela podia reconhecer o detetive de homicídios Jack Frost. Ele estava parado, olhar para baixo enquanto conversava com um homem que estava de costas para ela.
Foi o parceiro de Jack, Hiccup, quem viu Elsa primeiro. Sem palavras agarrou o braço de Jack, que levantou a cabeça rapidamente fitando a mulher a frente.
(...)
Jack a encarou, a imagem feminina a alguns metros de distância parecia perdida em meio a catástrofe que circulava o local. Voltou o olhar para Hiccup.
— Pedi para não chamá-la — ele falou sério e viu o parceiro negar com a cabeça.
— Não chamamos.
Ele voltou o olhar para o homem que estava a sua frente. Eram amigos a anos e nunca o vira como agora, sempre tentando esconder suas frustrações e sentimentos, e agora estava ali, de cabeça baixa deixando a todos os estranhos presentes verem sua dor.
Elsa se aproximou dos dois homens, quase em transe, sua mente trabalhava rapidamente e todos os fatos que apareciam ela tentava negar.
— Elsa — foi a voz de Jack que soou, baixa e ressentida como um aviso.
Ela olhou para o homem que estava em silencio, olhar baixo e mãos apertadas frente ao corpo.
— O que está acontecendo? — ela perguntou embora uma parte sua já soubesse a verdade, voltou o olhar para o homem que estava com os olhos baixos o tempo todo — Bunny — falou alto e o viu levantar os olhos. Vermelhos e inchados.
— Elsa — a voz saiu em um sussurro tão doloroso que ela sentiu os olhos marejarem, o coração se apertar dentro do peito. Antes que pudesse dizer algo foi puxada para um abraço apertado. O choro alto de Bunny ecoando em seu ouvido era a resposta que precisava. Continuou em transe, parada, enquanto as lágrimas molhavam seu casaquinho. Ele se afastou um pouco a encarando nos olhos — Por favor, não quero que as pessoas olhem para ela, que a vejam nesse estado. Por favor — o sussurro dele era repleto de súplica.
Jack quem se aproximou pousando uma mão sobre o ombro feminino. Conseguia ver toda a confusão e desespero no rosto da mulher que tanto tentava esconder seus sentimentos.
— Jack — a voz saiu tão baixa que ele pensou ter sido algo de seu próprio pensamento, abaixou o olhar encontrando olhos azuis repletos de lágrimas, a viu passar as mãos nos olhos rapidamente, tetando esconder as lágrimas que escaparam — Onde está a Thooty?
Elsa sentiu o braço de Jack ao redor de sua cintura, seu aperto firme, indicando que ele estava ali, a segurando. Ela deixou que ele a conduzisse escada acima, o silêncio do local conseguia ser mais doloroso do que o choro de Bunny que ainda ecoava. Ela tomava cuidado para não tropeçar em nenhum degrau enquanto ele se mantinha ao seu lado, a mão apertando sua cintura. Percebeu que dois policiais pararam sobre a escada a observando.
Como perita médica, estava acostumada a ficar sob as vistas do público, cada movimento que fazia sendo acompanhado pela polícia e pela imprensa, mas naquele dia a atenção era um tanto diferente. Todos a encarava com cuidado, como se soubessem que ali não estava Elsa Snow, a rainha dos mortos e médica legista. Mas sim Elsa Snow, uma amiga confusa e desesperada.
Ela seguiu a frente, a mão de Jack já não ocupava mais sua cintura, ele a seguia com cuidado e atento a cada movimento que ela fazia, entrou pela porta no final do corredor, onde havia um dos quartos mais luxuosos que ela já havia visto. Ainda se lembrava da primeira vez que entrara naquele aposento e brincara com a amiga sobre ela e Bunny terem transformado aquele local em um quarto melhor que hotel de cinco estrelas.
Os olhos pararam no o corpo sobre a cama. Elsa ficou sem voz. Olhou para a pele cor de marfim, os cabelos curtos, os lábios cheios e ligeiramente abertos, como tomados de surpresa. Ela cambaleou para trás, com as pernas subitamente bambas, e teve a sensação atordoante de estar voando para longe, o corpo não mais ancorado na terra. Uma mão agarrou-lhe o braço mantendo-a de pé. Era Jack quem a sustentara, ela nem ao menos escutou sua chegada.
— Oh meu Deus — o sussurro quase não sairá, sentia um bolo se formando em sua garganta, deu o primeiro passo se aproximando da cama quando uma voz feminina se elevou sobre o silêncio do local.
— Ei, ela não esta com os protetores, não dê mais um passo doutora — ela levantou os olhos, livrando sua mente da visão de Thooty ainda deitada, para capturar a mulher ruiva do outro lado do quarto.
— Como? — ela perguntou ainda atordoada.
— Coloque os protetores de sapatos — a voz de Merida soou um pouco mais alta — O local ainda tem um pouco de sangue, se a senhora entrar ira estragar a cena do crime.
Jack encarou a ruiva com uma seriedade que ela nunca vira antes. Elsa não ligou para os pedidos da detetive, puxou o braço o soltando da mão de Jack e se aproximou da cama, ainda aos protestos de Merida, levou a mão em direção aos lábios quando pela primeira vez percebeu algo embrulhado cuidadosamente ao lado do corpo da amiga, respirou fundo, o cheiro de sangue ainda estava forte no local. Esticou uma das mãos prontas para encostar nos fios negros e curtos da cabeça de Thooty quando seu pulso foi segurado, ela levantou o olhar vendo a mulher ao seu lado.
— Não pode encostar na vítima doutora — Merida estava tão próxima e mesmo sendo mais baixa que Elsa a encarava de igual.
— Ela não é uma vítima, ela tem um nome — a voz de Elsa saiu alta e desesperada.
— Doutora se acalme — Merida tentou soar mais calma, mas não conseguira, a raiva que estava sentindo pela médica ter chego a cena nem ao menos se importando com o trabalho deles já estava a consumindo.
Elsa não a respondeu, ao invés disso seus olhos voltaram para a mulher nua na cama, sabia o que Bunny havia dito, "Não quero que as pessoas olhem para ela, que a vejam nesse estado". Ela sabia que a violação do corpo de Toothy só terminaria depois que ela fosse revirada pelo avesso, tivesse cada centímetro de seu corpo fotografado e exibido aos especialistas, policiais, advogados, juízes e membros de um júri. Não faltariam pensamentos e comentários sobre os atributos físicos ou a falta deles.
— Já tiraram as fotografias? — a pergunta baixa de Elsa ecoou pelo local silencioso.
— Sim — Merida a respondeu rapidamente.
—Cubram-na — ela sussurrou abraçando o próprio corpo, encarando os olhos verdes agora opacos.
— Como?
— Cubram-na, já tem as fotos que precisava detetive — ela voltou o rosto para Merida — Não tem mais necessidade dela ficar desse modo.
Uma risada nervosa escapou dos lábios de Merida enquanto ela dava um passo a frente chegando mais perto de Elsa.
— Sabe que não podemos fazer isso, doutora — ela falou e Elsa percebeu que o 'doutora' sairá recoberto de raiva — Não vou acatar a suas ordens.
— Merida — a voz de Jack saiu como um aviso, grave e profunda. Lançou um último olhar para a ruiva, virou-se em direção a Elsa pousando a mão sobre seu ombro, os olhos azuis o encarou enquanto ela ainda permanecia abraçada a si mesma, como procurando forças para se sustentar — Vamos cobri-la Elsa — ele sussurrou.
— Por que está fazendo isso? — a voz de Merida saiu alta e ele se virou para ela — Conhece nosso procedimento, não podemos tocar na vitima antes do legista.
Jack não a respondeu, ao invés disso lançou um olhar em direção a Hiccup que concordou com a cabeça antes de lhe dar as costas indo em direção ao closet a um canto, o moreno voltou com um lençol de seda na cor cinza o jogando sobre o corpo de Thooty. Ele voltou o olhar para Merida a vendo vermelha de raiva, a ruiva lhe deu as costas saindo do quarto. O silêncio reinou novamente, ele voltou o olhar para Elsa a encarando.
— Acho melhor ir para casa Elsa — ele sussurrou e ela concordou com a cabeça, ele a guiou em direção a saída do quarto, desta vez não estava a segurando. Ela seguiu a frente, pernas bambas e cabeça baixa, uma imagem que nunca demonstrara antes, passaram pela sala e ele olhou para o lado vendo a imagem de Bunny a um canto enquanto Astridd estava em silêncio ao seu lado. Com um suspiro continuou a caminhada em direção a porta.
— Vou lhe deixar em casa — ele falou e ela o encarou.
— Não tem necessidade — ela a respondeu rapidamente enquanto descia os degraus do pórtico.
Ela saiu da casa e inspirou o ar, um vento frio de outono passou balançando sua trança. Os curiosos ainda estavam no local, embora o número tenha diminuído, dessa vez não havia repórteres para a atormentar e ela agradecia por isso, andou em direção a sua mercedes que continuava estacionada no meio da rua. Tirou as chaves do bolso e apertou o botão para destravar as portas, o carro apitou como aviso. Ela voltou o olhar para trás vendo que Jack a observava, ainda parado sobre as escadas de frente para a casa, entrou no carro e o ligou.
Jack suspirou quando viu o mercedes virar a esquina, olhou ao redor, dois carros patrulhas ainda estavam no local e ele reconheceu uma silhueta dentro de um deles, com as mãos nos bolsos desceu os degraus e andou em direção ao carro, bateu no vidro fechado e o motorista o encarou, olhos estreitos. Demorou um segundo para Merida abaixar o vidro do carro.
— O que você quer Frost? — a pergunta saiu ríspida e Jack suspirou.
— Você seguiu como o esperado, mas eu sou o chefe dessa investigação. Quero que entenda o por que fiz aquilo.
— Que se foda que você é o chefe, faça esse trabalho sozinho então. E não precisa me explicar, sei que fez isso para conseguir uns pontos com a doutora e uma boa foda não é mesmo?
Jack a encarou com os olhos cerrados, sabia que Merida estava com raiva, mas ela não tinha o direito de falar dessa maneira. Passou as mãos no cabelo respirando fundo, Merida era cabeça quente e discutir com ela nunca levava a nada, se inclinou na janela do carro a encarando, rostos tão próximos quanto dois amantes.
— Você pode não saber Merida, mas elas eram amigas à anos — ele falou, a ruiva ficou em silêncio por uns segundos, Jack a viu abaixar o olhar — Se fosse um dos nossos, ou algum amigo, iriamos reagir do mesmo modo. Passaríamos por cima dos procedimentos — ele se levantou ainda a encarando — Pense nisso ruiva, e tente se acalmar.
(...)
A volta para casa fora um borrão, apenas quando chegara a um quarteirão de sua casa seu cérebro finalmente voltou a funcionar. Só então ela rompeu a sequência obsessiva de lembranças que repetia em sua mente.
Em casa subiu direto para o banheiro, o estômago estava revirado, se sentou em frente ao vaso sanitário, forçando-se a eliminar tudo aquilo que estava a fazendo mal, o que não fora muito, já que havia apenas tomado alguns goles de café. Se levantou retirando a roupa e abrindo o chuveiro, fechou os olhos quando a água quente entrou em contato com sua pele, começou a desfazer a trança embaixo d'água, não se lembrava de sentir tanta dor nos últimos anos, havia perdido sua amiga da pior forma possível, se sentou no chão quando as lágrimas já não a deixava respirar direito, o choro forte preenchendo a casa silenciosa, havia conseguido se segurar na frente de todos, mas agora sozinha em seu próprio refúgio poderia lidar com a própria dor, um soluço alto escapou de seus lábios e ela abraçou os próprios joelhos tentando se acalmar.
Após alguns minutos ela se levantou, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha, no quarto colocou um shorts e uma camiseta, abriu as gavetas do guarda-roupa as remexendo, retirou dois comprimidos, ai estava sua válvula de escape, os engoliu a seco e se deitou na cama encarando o teto.
(...)
O som da campainha a fez despertar com um sobressalto. Ainda tonta de sono, sentou-se na cama e viu que já eram cinco da tarde, os calmantes haviam feito um trabalho melhor do que esperava. Desceu as escadas as pressas, ao abrir a porta e ver quem estava parado no pórtico se arrependeu por não ter olhado pelo olho mágico.
Jack estava parado no pórtico, terno cinza amassado e um olhar cansado.
— Posso entrar? — ele perguntou e ela afirmou com a cabeça lhe dando passagem, ele entrou fechando a porta com calma, a viu lhe dar as costas e se sentar no sofá, a acompanhou sentando-se ao seu lado — Como você está? — a pergunta saiu baixa e calma, ela apenas levantou o olhar em sua direção.
Por um tempo nenhum dos dois ousou falar nada, ela abaixou o olhar encarando a mesinha de café em frente ao sofá, ali ainda estava o saco contendo os diversos muffins que havia comprado pela manhã, entre eles o que sua amiga tanto queria.
" Não cancele comigo por causa dos mortos" fora a última frase que ela falara. Eu não lhe troquei Thooty, estive lá lhe esperando, mas dessa vez era você quem seria minha mais nova paciente e nenhuma de nós sabíamos disso. Dessa vez, você quem me trocou pela morte.
— Elsa — Jack sussurrou pousando a mão sobre a dela, ela estava fria, o simples toque a fez se levantar.
Ela caminhou até a janela e olhou para fora, era uma bela vista de um jardim começando a escurecer por conta da troca de estação, do outro lado da rua as crianças de seu vizinho brincavam no quintal.
— A culpa foi minha — disse Elsa — ela me ligou falando que iria ficar sozinha, me chamou para passar esses dias com ela, mas fui egoísta e neguei — ela balançou a cabeça e riu — Ela só me pediu um favor, apenas isso, se eu estivesse aceitado nada disso teria acontecido, ela estaria viva, iria dar a luz a Noah a alguns meses, eu iria ter minha amiga e meu afilhado ao meu lado. Que tipo de monstro faz isso? — Ela esfregou os olhos com as costas das mãos, enxugando furiosamente as lágrimas. Sua voz caiu para um sussurro — Ela não merecia isso. Não merecia.
Ela tremia com o esforço para não chorar, abraçando a si mesma, seus dedos afundando em seus próprios braços enquanto lutava para manter-se firme. Ele se levantou do sofá e caminhou até ela, suavemente tocou-lhe o ombro, ela não estremeceu, não recou. Jack puxou-a para si, envolvendo-a com os braços e apertou-a contra o peito. Ficou chocado com a extensão de dor de Elsa. Podia sentir o corpo inteiro tremer.
Embora não fizesse qualquer som ele sentia as inalações trêmulas de sua respiração, os soluços contidos. Jack pressionou os lábios contra o cabelo de Elsa, agora as lágrimas já molhavam sua camisa. Segurou o rosto de Elsa entre suas mãos e a beijou na testa, logo em seguida secando uma das lágrimas.
Ela permaneceu imóvel em seus braços, o encarando meio a visão embaçada, piscou expulsando as lágrimas agora observando o olhar terno de Jack sobre si.
— A culpa não foi sua Elsa — ele sussurrou antes de puxá-la novamente contra seu corpo em um abraço apertado, enquanto acariciava os cabelo platinados com calma.
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