Crimes Inocentes
1 Capítulo 1
Eu estava a duas horas esperando pelo médico, sentado em uma cadeira com um estofado rasgado nada confortável. Vendo pessoas entrarem, saírem. A atendente marcando consultas, fazendo relatórios no Excel, saindo pra pegar um cafézinho de vez em quando. E nada de médico.
Minha mãe desmaiou bem enquanto fazia o almoço, a três horas atrás. Como lá em casa só mora eu e minha mãe, tive de faltar de aula para levá-la ao médico. Estava nervoso. Aflito. Os olhos dela reviraram completamente segundos antes de cair no chão.No momento, eu fiquei desesperado. E então, após alguns segundos cego de medo, resolvi tomar uma decisão e liguei para a ambulância. Demorou 10 agonizantes minutos para chegar.Minha mãe acordou no caminho para o hospital, dentro da ambulância. Ela foi levada ao pronto-socorro e tudo oque deram para ela fora um remédio contra tontura e soro. E então, decidi levá-la a um médico particular para uma revisão.A porta da sala do médico se abre, me tirando do desvaneio. Um senhor barbudo e barrigudo segurando um exame de raio-x chama pelo meu nome.- Sr. Jefferson, me acompanhe.A sala era feita de parades com um branco maçico, com uma pequena maca no canto da sala rodeada por equipamentos cirúrgicos e uma escrivaninha mais adiante contendo uma placa escrita: "Dr. Terisson".Na frenta da escrivaninha, tinha duas poltronas de couro, e minha mãe estava sentado em uma delas. Me aproximo rapidamente dela para vê-la.- Tudo bem, mãe? — tento disfarçar minha preocupação. - Sim, filho. Não se preocupe. Provavelmente não é nada.- Provavelmente? — penso.Me ajeito na outra poltrona, que por sinal é bem confortável. O médico dá uma pequena tossida e começa a falar, com sua voz grossa e cortante:- Os resultados do raio-x indicaram uma massa em seus rins. Coágulos se formando em seus pulmões indicam que está sofrendo metástase. O pouco que eu sabia daquilo, dava para ver que não era nada bom. Comecei a ficar preocupado.- E isso significa oque, Doutor? — pergunta minha mãe, aflita.O médico hesitou por alguns segundos, fitando os olhos da minha mãe. Ele parecia não querer contar.- Significa que a Senhora tem um câncer de rim no estágio IV. — ele finalmente disse depois de alguns minutos de silêncio.Naquele momento, eu queria chorar. Eu queria gritar. Eu queria ficar nervoso. Mas tudo oque eu fiz, foi congelar. Meu corpo não movia um músculo. Eu nem sequer piscava. - Minha mãe? Ela só tem 30 anos! Ela não pode ter isso! — pensei.Com apenas 30 anos de idade, minha mãe ostenta um longo cabelo loiro que lhe cai até os ombros, ondulados na medida certa. Seus olhos azuis piscina, chamam a atenção por onde passam. Mas nesse dia, ela estava acabada. Seus olhos, geralmente um azul penetrante, estavam apagados e sem vida. Seu cabelo, que irradiava luz, estava bagunçado e desajeitado. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço.Eu por outro lado, não tenho nada de especial. Meus olhos castanhos escuro, meu cabelo um preto maçico e encaracolado, com apenas 16 anos. Ela apoiou sua cabeça nos joelhos e começou a chorar. Meu corpo não conseguia processar aquilo. O médico nos ficou olhando por vários longos minutos, esperando que absorvessemos essa informação. Eu queria chorar, mas eu não conseguia. A dor era mais forte que isso.- Tem um método de prolongar a vida de sua mãe em até 2 anos. — o médico disse.Uma súbita onda de esperança toma meu corpo. Meus olhos começam a sair lágrimas, escorrendo livremente pelo rosto. Minha mãe levantou sua cabeça entre os joelhos lentamente e olhou para o médico. - E qual é essa opção? — ela disse rouca.- Quimioterapia. E também podemos testar em você remédios experimentais que estão sendo desenvoldido especificamente para câncer de rim. Não temos 100% de certeza de sua eficácia em um câncer com um estágio tão avançado desse, porém... — ele deu uma pausa para tossir. — Vale a pena. As notícias não eram muito animadoras, porém valeria a pena tentar. Olhei para minha mãe, e começei a acariciar levemente seus cabelos loiros. Ela olhou para mim, tentando esconder a dor.- Não precisa fingir que não está com medo, mãe. Eu também estou. Vamos enfrentar isso juntos. - Mas tem um porém. — o médico fala. — O tratamento com a quimioterapia junto com os remédios experimentais não são baratos. Isso me deixou preocupado. A nossa renda lá de casa era o suficiente para vivermos. Eu, com apenas 16 anos, fui obrigado a arrumar um emprego de manhã enquanto não estou na escola para ajudar minha mãe nas despesas. Eu ajudava empacotando mercadorias em um supermercado próximo a minha casa, e o pagamento era pouco mais que um salário mínimo.- De quando estamos falando, Doutor? — pergunto.- A quimioterapia irá custar cerca de 500 reais por sessão, enquanto os remédios experimentas podem chegar a custar até 5000 reais cada frasco. — ele disse.- Não podemos pagar por isso! — eu levantei da cadeira e falei com um quase-grito. O médico, mesmo com minha reação explosiva, estava calmo.
- Podemos tentar apenas as sessões de quimioterapia. Cada sessão são apenas 500 reais. — ele deu uma pausa, pensando no que acabou de falar. — Por outro lado.. são 3 sessões semanais. - Você está me dizendo que iremos ter que arcar com 1500 reais semanais? — desta vez era minha mãe falando com raiva na voz. — Não temos dinheiro para pagar isso mesmo se roubássemos um banco!- Se roubassemos um banco teriamos dinheiro sim. — pensei.Mais tarde, já em casa, começei a considerar isso como uma ótima ideia. &&&&&&Quase não consegui prestar atenção na aula de matemática. Estava mergulhado em pensamentos. Pensando em possibilidades de arrumar dinheiro para pagar o tratamento da minha mãe. Eu precisava pensar em algo o mais rápido possível. O médico nos avisou que a cada dia, as chances dela diminuem.Um colega de classe que sentava do meu lado cutucou meu ombro.- Volta pra vida real, Jefferson. — ele disse em um tom de brincadeira. — No que está pensando?O garoto ao meu lado se chamava Frank, um cara da escola que todos sabiam que mexia com coisas erradas. Ele tinha suspeitas de vender drogas para os calouros atrás da cantina na hora do recreio. Principalmente maconha.Ele é um garoto magro e alto com cabelos loiros lisos. Seus olhos são verdes esmeraldas, porém apagados e sem vida. Ele está usando uma blusa de frio, mesmo estando um calor infernal.- Estou passando por problemas, cara. — comento.- Oque está acontecendo?- Minha mãe. Está doente e o tratamento é muito caro. No mesmo instante ele levantou da sua carteira e chegou perto de mim, o suficiente para sussurar no meu ouvido. Sua expressão era séria.- Me encontre depois da escola na entrada. Posso te ajudar com isso.Eu poderia recusar essa oferta. Eu sabia que, vindo dele, só podia ser algo perigoso.Porém, era esse tipo de convite que eu estava esperando.
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