Crimes Inocentes
3 Capítulo 3
O Detetive Burning soltou um longo suspiro de cansaço. Levantou de sua cadeira, saiu de seu escritório e se espreguiçou, talvez, pela quarta vez aquela manha. Estava tendo um duro dia de trabalho, com vários relatórios e casos intermináveis. Com apenas pausas a cada uma hora para fumar, ele estava trabalhando intensamente.
Ao voltar para seu escritório, soltou um gemido de dor ao sentar em sua poltrona. Mesmo ela sendo feita de um estofado confortável, em suas costas a espuma já estava se soltando e dando uma leve sensação de desconforto. Após alguns minutos analisando o trabalho que ainda faltava, ele mergulhou novamente nas papeladas.Ele foi tirado de sua concentração por uma leve batida na porta. Ele sabia quem era, então mandou entrar sem hesitação. O homem que passou pela porte se chamava Hugerson, um sujeito alto e forte usando um terno preto maçico. Ele levava uma pequena apostila, e Burning sabia que era mais um caso para ser resolvido.– Sente-se. — Burning ordenou ao ver Hugerson se aproximando.Ele se sentou e após alguns segundos de silêncio, estendeu sua mão e entregou o envelope para Burning. Então ele começou a fazer uma profunda analise do papel, prestando atenção em cada detalhe do caso.– Bem, parece que temos mais trabalho a frente. — resmungou Burning. — Qual o nome do sujeito? Não estou vendo aqui na ficha.Hugerson se remexeu inquieto na cadeira em frente a escrivaninha, e franziu a testa por alguns segundos tentando lembrar o nome.– Jefferson. — ele disse finalmente. — Jefferson Trodestark. Um garoto que aparenta estar sendo acusado de vender drogas em sua Escola, acompanhado de um amigo.– E qual seria o nome desse amigo? — Burning disse. Ele gostava de todas as informações em mínimos detalhes. – Frank Peterson. — dessa vez ele não hesitou. — Ambos foram vistos atrás da cantina de sua Escola vendendo drogas.Hugerson percebendo a pergunta surgindo nos lábios de Burning, logo se apressou.– Não sabemos o nome do comprador.Burning levantou de sua poltrona pensativo, observando através da janela a vista quase inteira da cidade. Seu escritório não tinha nada de especial. Duas prateleiras recheadas de livro em dois cantos distintos da parade feita de um branço maçico, e no centro uma escrivaninha de madeira de carvalho recheado com seus utensílios de trabalho.Porém atrás de sua escrivaninha linha uma larga janela, e como seu escritório ficava no décimo andar da corporação que ele trabalha, a ANPEG, ele tinha uma vista privilegiada. – Essa vista da janela já salvou muitos casos que pareciam ser um mistério sem fim. — ele sempre comenta na reunião de trabalho e de familiares. — Se não fosse por aquela janela em meu escritório, eu não seria um detetive tão renomado como sou hoje em dia.E o fato de Burning ser um detetive renomado não era apenas um exagero. Ele até hoje foi invicto em todos os casos que já fez.Mal sabia ele que, por culpa de um simples garoto de 16 anos, ele estava prestes a encarar o maior desafio de sua carreira.&&&&&&Minha vida tinha mudado completamente em apenas poucas semanas. No começo, eu ocasionalmente fazia uns trabalhos para Frank nos fins de semana, o suficiente para pagar as sessões de quimioterapia que minha mãe tinha começado a fazer.Porém, após eu ver que isso estava gerando resultados lucrativos, começei a me empolgar. Agora isso era uma rotina. Estava fazendo um ou dois trabalhos por dia, cada vez mais meu dinhero só aumentando.Agora meu objetivo tinha mudado de rumo. Eu não queria apenas arcar com os custos do tratamento da minha mãe, mas queria poder ter dinheiro para comprar tudo oque eu sempre quis ter, mas nunca consegui. Olhei no meu relógio aflito. O cliente tinha marcado para nos encontrarmos meia-noite em ponto, e já passava de uma hora da manhã. Estava encostado em um tronco que ficava em uma pracinha ao lado da Escola que estudo. Logo no momento que estava me preparando para ir embora, vejo na rua paralela a da pracinha um sujeito de capuz preto andando rapidamente em minha direção segurando um bolo de dinheiro nas mãos.Nas primeiras vezes, esse era sempre um momento de tensão para mim. Mas agora, eu ficava frio e calmo, e isso serviu para melhorar ainda mais minhas táticas de entregador. O cliente chegou perto o suficiente para me entregar o dinheiro, e ao fazer uma rápida verificada no dinheiro, entreguei a ele o pacote. Tudo aconteceu em questão de segundos, e ninguém trocou sequer uma palavra. Andei casualmente em direção contrária ao comprador, tentando parecer o menos suspeito possível. Uma das coisas que Frank tinha me ensinado era que sair correndo após a negociação terminar só resultava em chamar a atenção mais ainda. Mesmo as ruas estando desertas, olhei para os dois lados antes de atravessar a rua. Não por medo de ser atropelado, e sim por espectadores. Com exceção de alguns carros estacionados na porta de algumas casas que já estavam com as luzes apagadas, a rua parecia calma como devia estar em um horário desse. Fui andando em direção a minha casa que ficava um quarteirão dali. Porém, no meio do percurso, dei uma pequena desviada para enganar possiveis seguidores. Aquilo era mais um truque que Frank tinha me ensinado.
– Sempre espere estar sendo seguido e observado. Pois dessa maneira, será menos propício a fazer merda. — ele comentara nas ocasiões em que ele me acompanha nas negociações para me inspecionar. Após alguns minutos virando em ruas aleatórias, finalmente decidi que não tinha ninguém me seguindo e segui o rumo original para minha casa. Ao chegar em casa, pude perceber que as luzes do quarto da minha mãe ainda estavam ligadas. Não me assustei com aquilo, desde que comecou a terapia eu podia a ouvir chorando no seu quarto, e aquilo me deixava profundamente triste. Passei pelo pequeno jardim em frente tomando cuidado em cada passo que eu fazia, e tirei as chaves do meu bolso, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho. Desde que comecei a sair frequentemente de noite, tinha passado óleo nas dobradiças para que elas não fizesse nenhum tipo de barulho.Ao passar pela sala principal e pelo longo corredor que se estendia até a porta do meu quarto, fiz o máximo possível para arrumar tudo o quanto antes. De primeiro, tirei todas as minhas roupas e fiquei apenas de cueca, para conseguir disfarçar melhor caso minha mãe me visse. Eu já tinha colocado meu travesseiro e cobertor em uma posição que parecesse que eu tinha acabado de sair da cama. Colocando apenas a cabeça para fora da porta, consegui ver o clarão que se estendia na brecha que tinha no pé da porta, uma luz forte e amarela que indicava que minha mãe ainda estava acordada. Me esforcei para ouvir melhor, e consegui ouvir choramingos vindo de dentro.– Amanha eu resolvo isso. — disse baixinho para mim mesmo. Eu estava me sentindo fisicamente e mentalmente cansado. Mesmo estando acostumado a fazer essas negociações noturnas, eu não deixava de ficar tenso. Como se meu estômago estivesse tentando digerir uma pedra.Mas então, para minha surpresa e de minha mãe no quarto ao lado, ouvi uma leve batida na porta. Meu cérebro foi inundado em hipóteses e perguntas. Oque alguém iria querer fazer aqui quase 2 horas da manha? – Fui seguido. — foi a primeira coisa que veio a minha mente. Mas então rapidamente descartei a idéia. Eu tomei todos os cuidados possíveis, e não vi nenhuma forma de vida durante o caminho.Exceto, talvez... comecei a pensar. Mas logo descartei a ideia por tão ridícula que ela era. Eu não iria deixar de notar algo assim.Me tirando do desvaneio, ouço a porta da minha mãe abrindo e seus passos largos no corredor. Vesti rapidamente minha roupa, e sai do quarto para acompanha-la. Ela me viu mas apenas continou.Ela deu uma minuciosa inspeção de quem era pelo olho mágico, e convencida de que não apresentava nenhuma ameaça, a abriu.Um sujeito barrigudo e relativamente baixo estava parado na frente da nossa porta. Ele usava um terno cinza e tinha uma longa barba que ia até os seus queixos, com olhos pretos penetrantes. Ele segurava em sua mão uma apostila com uma capa de plástico vermelho, e após alguns segundos nos observando, disse:– Eu sou o Detetive Burning. Tenho que falar com seu filho. — o homem com uma voz rouca e estridente disse para minha mãe.
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