Crime Perfeito
1 Capítulo 1: Química.
As águas escuras do lago tiraram todo o oxigênio do carro que havia rolado ladeira abaixo até as profundezas. Dois homens estavam na praia rochosa, observando. Eles poderiam ter esfregado suas mãos em satisfação. Mas não fizeram. Nenhum sorriso arqueava seus rostos; nenhuma parabenização passava em seus lábios. Uma mulher havia morrido.
— Tudo isso pra nada. — um deles disse.
O outro acendeu um cigarro, soprando a fumaça na direção do carro. A fumaça branca desapareceu assim que o capuz do conversível afundou. — São sempre vítimas inocentes...
— Não há vencedores nessa estrada. — não havia nada além de arrependimento nas águas calmas do Lago Michigan. — Que Deus tenha piedade de sua alma.
Quando ele se afastou, o outro homem hesitou por alguns momentos, se perguntando se a última frase havia sido para a falecida ou para ele.
~***~
Click, click, click...
Cada vez que a tecla enter era pressionada, uma página no arquivo de notícias era avançada. Fatos piscavam no monitor do computador como luzes de Natal, e Scott Crawford estava sentado à sua mesa assistindo a exibição. O instinto do repórter estava tinindo, mas até agora, seus dedos e seu cérebro não acharam nada inspirador.
Ele estava entediado.
Nenhum incêndio, corrupção policial ou sequestros apareciam. Mesmo os boatos na internet não ganhavam seu interesse. Isso deixou Scott com os arquivos. Ele precisava de uma ideia, uma história que pudesse jogar na mesa do editor antes das 5 da tarde, para que ele pudesse ir para casa, fritar um bife e dormir. A fome o fez continuar clicando.
Seus dedos pararam — uma pessoa havia desaparecido há um mês, a filha de um rico dono de restaurante em Chicago. Scott inclinou-se para a frente, seu nariz se aproximando do monitor. Ele se recusava a usar seus óculos.
Enquanto lia o artigo, ele pôde sentir uma fragrância nauseante. Uma combinação de lavanda e cítricos. Poderia ser o cheiro de shampoo ou algo assim; na maioria das vezes ele tentava não se aproximar muito dela para descobrir. Inclinando-se para trás, Scott olhou para o escritório de Tessa do seu cubículo e a viu em sua mesa; uma perna dobrada por baixo de sua figura pequena, a outra encostada em seu tórax.
Scott levantou-se e caminhou até lá. O escritório de Tessa não era acolhedor; sem plantas, sem itens pessoais fofos, nada que fazia você querer entrar, ou muito menos ficar nele. A escritora-chefe não olhou na direção de Scott quando ele entrou, achando seu monitor muito mais interessante.
— Ei. — Scott começou, dando seu melhor sorriso.
Na semana passada, seu nome havia saído no rodapé do jornal duas vezes, o que fez com que ganhasse de Tessa. Essa competição dava o que falar na editora, mas ele realmente não se importava. Não que ele realmente a considerasse como rival, ele só achava graça em ver as reações dela. Sua voz era um sussurro, quase conspiratório. — Tá trabalhando no que?
— No de sempre. — ela respondeu, colocando uma mecha de seus cabelos ruivos atrás da orelha.
Seu tom frio fez com que Scott arqueasse uma sobrancelha. — Você não tá brava comigo ainda, tá?
Com mais força do que necessário, ela anotou alguma informação no caderninho ao seu lado. A ponta do lápis quebrou; Scott aceitou isso como uma confirmação. Ele levantou sua mão, com um sarcástico gesto de rendição, fazendo uma careta quando seus frios olhos azuis encontraram os dele. — Olha, aquilo não foi pessoal.
— Você está aqui há cinco semanas. — ela disse, seu tom implicando que ele não tivesse o conhecimento e a experiência para trabalhar na Tribune. — Eu estou aqui há cinco anos.
— Eu mereci ter meu nome nos artigos. — ele quase ia adicionar mais alguma coisa, mas decidiu apertar seu maxilar para não dizer o que pensava.
— Nova York. — ela bufou, como se a cidade não fosse nada perto de Chicago. — Você deveria ter continuado lá. — com um suspiro, Tessa balançou a cabeça exasperadamente. — O que você quer, Crawford?
— Darla Perelli. — ele disse. Os olhos dela semi-cerraram em reconhecimento. Scott não se deteu pela atitude. — Você escreveu o artigo há um mês atrás. Ela já apareceu?
— Tipo uma bagagem perdida no aeroporto?
Scott não achou que tivesse sido insensível, mas se sentiu ligeiramente envergonhado pela pergunta da mulher. Quando Tessa colocou o lápis que estava segurando em sua mesa, e o objeto rolou até a ponta, Scott o pegou, tentando parecer casual. — Não foi isso que quis dizer.
Tessa se levantou. Ela mal chegava na altura do ombro de Scott, mas ainda era bastante intimidante. — Continua. — ela disse, pegando o lápis da mão do rapaz.
As palavras saíram de seus lábios assim que o lápis saiu de sua mão. — Eu li o artigo e pensei em investigar.
— Por que? Ela era só uma garçonete em um restaurante de massas aqui perto. Dificilmente alguém que você escolheria para fazer um perfil. Você é da área de política e escândalos.
— Você também.
Tessa o ignorou abrindo uma gaveta em sua escrivaninha e retirando um frasco. Ela levou o frasco de prata até seus lábios, tomando um gole.
Ao ver o olhar surpreso de Scott, ela disse. — É leite com chocolate. Não achei minha garrafa térmica.
A vida particular de Tessa era um pouco misteriosa; mesmo aqueles que alegavam conhecê-la bem, revelavam poucos fatos conclusivos. Com um piscar de seus olhos, Scott disse: — Talvez se você bebesse algo mais forte do que produtos lácteos, você relaxaria um pouco.
Seus olhos azuis se deslocaram para Scott, mas ela não virou a cabeça. Com um suspiro breve, ela declarou com firmeza: — Eu não bebo! — e, para validar seu ponto, com a mão ainda alguns centímetros de sua mesa, ela colocou o frasco na superfície de madeira com força.
O som ecoou pelo pequeno escritório, sua força fazendo a mesa vibrar. A porta do escritório estava aberta, as paredes dos cubículos eram curtas, e Scott podia ver alguns colegas de trabalho se interessarem pela conversa.
— Okay. — ela disse, sua voz parecida com um rosnado. — Achou algo interessante nessa sua pesquisa da Perelli? — houve um silêncio. — Algo que precise de ajuda?
O sorriso preguiçoso em seu rosto era menos brilhante, mas ainda mascarava o que ele realmente estava pensando. Por um segundo, ele quase disse 'talvez' apenas para ver o tipo de reação que ele conseguiria dela. Seus dedos passaram pelo seus curtos cabelos castanhos e ele contou até dez. — Não. — ele disse, olhando o relógio em seu pulso. — Tenho que ir.
Assentindo firmemente, Scott se virou e saiu do escritório sem olhar para trás.
Tessa o observou indo embora, sua boca entre-aberta em uma tentativa de falar algo, mas decidiu que seria melhor não. Ela se inclinou sobre sua mesa, olhando para a superfície de madeira e pensando no que havia acabado de acontecer. Por que você não consegue fingir ser legal?
Quando levantou sua cabeça, viu alguns colegas de trabalho a encarando. Sua voz havia aumentado durante a conversa, enquanto a de Scott permanecera baixa. Era sempre Tessa que recebia os olhares curiosos depois de suas discussões, enquanto o garotinho de ouro aparentemente não fazia nada de errado.
Tessa pegou sua bolsa e jaqueta, deixando seu escritório. De frente com ele, estava o cubículo vazio de Scott. Ela rapidamente caminhou até ele; colocando sua mão a centímetros do mouse enquanto encarava o monitor desligado. Sua mão se aproximou e depois parou. Depois de um segundo, ela se endireitou como se houvesse sido queimada.
Ela se virou, forçando-se a se retirar, e rapidamente desceu as escadas até o térreo. Saindo do prédio da Tribune, Tessa balançou a cabeça sem acreditar. Até seus pensamentos a traíam. Invadir sua privacidade, tudo pelo ego.
Tessa teria que encontrar conforto para aquietar sua energia irritada e curiosidade em outro lugar.
~***~
Levava apenas algumas quadras da Tribune até o Ristorante di Gino. A decoração era tradicionalmente italiana, e os olhos de Scott levaram alguns segundos para ajustar a iluminação fraca do local.
— O dono está por aqui? — perguntou Scott.
A mulher que havia se aproximado para anotar o pedido de Scott sorriu. — Eu sou a dona. Maria Perelli.
Scott havia planejado questionar Gino Perelli, o pai de Darla, mas estava contente em falar com sua mãe, percebendo que o estabelecimento era regido pela família.
— Eu sou do jornal Tribune, estou escrevendo um artigo sobre sua filha. — ele olhou ao redor do restaurante quase vazio. — Pode me dar um momento?
A mãe de Darla se juntou a ele, mas ela só sabia o que já estava escrito no jornal. Scott tomou um gole de seu café e fez algumas perguntas. Os fatos eram simples. A filha dela havia simplesmente desaparecido uma noite.
— Nenhum contato depois do dia 19 de março? Um pedido de resgate? Qualquer coisa?
A voz de Maria era suave, como as chamas da pequena vela no centro da mesa. — Nos pediram 100 mil dólares. A polícia nos disse para não pagar.
Scott não podia permite-se em mostrar empatia, mas colocou sua mão sobre a dela na mesa, oferecendo um gesto simbólico de conforto. — Então você não ouviu mais nada além disso?
Ela encarou o nada, balançando a cabeça negativamente.
— Quais são seus planos agora? — Scott questionou.
— Eu amo minha filha. Rezo para que ela esteja bem, mas cada dia minha esperança diminui um pouco mais. — balançando a cabeça, ela acrescentou: — Mio marito não iria quer que eu te contasse muito, mas...
— Mas o que?
— Darla não é a única. Gino acha que eu vejo conspiração em tudo, mas mesmo assim... — Maria se levantou como se pudesse fugir das possibilidades. — Você não é um detetive particular ou da polícia, mas talvez você possa...
Abaixando seu olhar, ele silenciosamente concordou com o que a mulher estava pedindo. Ele pegou sua caneta e se preparou para escrever. — Quais são os nomes das outras mulheres?
— Só tem mais uma. Gal Lorence. Ela era uma garçonete igual minha Darla.
— O que aconteceu com ela?
— Não sabemos. Desapareceu quase que um mês antes de Darla.
— Algum pedido de resgate?
— Os Lorence não falam sobre isso.
Scott afastou sua xícara vazia de café. — Obrigado pela atenção. — ele disse. — Verei o que posso fazer.
Quando Scott se levantou e se preparou para ir embora, seus olhos correram para o bar anexado. Seu olhar pairou sobre uma mulher de cabelos ruivos, vestida de azul e sentada em um banco. Sua voz chegava até ele.
Um sorriso estava nos lábios dela enquanto falava, provocando o bartender sobre o serviço. — Che cosa devo fare per un po' di attenzione?
Aparentemente ela havia acabado de chegar. O bartender levantou sua voz alegremente para cumprimentá-la. — Tessa, che bello di verderti!— Gino disse. — Sei cosí magra! Ti porterò qualcosa di buono.
Uma de suas mãos se levantaram, descartando distraidamente sua afirmação de que ela estava muito magra. Negando seu pedido para comer algo, Tessa disse: — Gino, tudo o que preciso agora é de uma bebida.
O homem de meia-idade franziu a testa, marcando bem suas rugas. De primeira não estava claro se ele iria obedecer o pedido, mas com um balanço desapontado de sua cabeça, ele cumpriu. Colocando um Manhattan em frente à jovem, ele comentou novamente que era bom vê-la, depois se moveu para o lado oposto do balcão e voltou ao trabalho, deixando Tessa com seus pensamentos e Scott com os dele.
Scott debateu sobre ignorar a coincidência da presença da mulher no mesmo restaurante. Ele poderia sair e ir atrás de suas pistas, mas hesitou. No final, ele caminhou até o bar. — Que bom vê-la aqui. — ele comentou, olhando para a bebida no copo e a nota de vinte dólares no balcão. Leite com chocolate. Ele silenciosamente se perguntou sobre o que mais ela mentiria se estivesse sob pressão.
Enchendo a mão de amendoins de uma tigela, seus olhos se encontraram com os dela pelo espelho atrás do bar e disse: — Não estamos atrás da mesma história de novo, estamos?
— Não tem história nenhuma aqui. — Tessa disse. — Deixe essas pessoas em paz.
Scott assentiu. — A polícia os disse para serem cuidadosos, mas não estou convencido.
Não demorou muito para ela descobrir. — Você falou com Maria? — ela perguntou, sua voz baixa.
Ele imitou seu tom. — Sim.
— Da última vez que tentei mexer no assunto de Darla, Gino pediu que eu deixasse pra lá. Tenho que honrar esse pedido.
Olhando para o bartender, Scott disse. — Talvez eu devesse ir então, antes que ele me peça o mesmo. — a forma como ela usava o primeiro nome dos Perelli o intrigou. — O quão bem você conhece eles?
O silêncio foi a resposta.
— Não seria um plano melhor descobrir o que aconteceu? — ele perguntou.
— Talvez. — ela finalmente respondeu. — Mas já faz dois meses. A sorte não está a favor deles.
Scott batucou levemente seus dedos no balcão. — Sim, mas concluir esse caso seria uma coisa boa.
Tessa o olhou rapidamente. — Não se você não gostar da resposta.
Ele não se moveu; havia uma história ali. Ele conseguia dizer pela forma que seus dedos queriam escrever. — Maria me deu uma pista. Quer ouvir? — ele tentou.
— Não. Você não tem algum político para seguir? Essa não é sua área.
— Eu gosto de mistério.
— Não se intrometa, Crawford.
O tom de aviso na voz de Tessa apenas aumentou seu interesse. Ele se levantou, seu sorriso preguiçoso reaparecendo. — Você me conhece melhor do que isso. — ele disse, antes de acenar e sair.
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