Crime Perfeito

2 Capítulo 1: Psicologia.


Bip, bip, bip…

Tessa levou um de seus inúmeros travesseiros, de sua cama forjada a ferro, até sua orelha. Com as cortinas fechadas, uma escassa quantidade de luz do sol se infiltrava pela janela, enchendo o quarto com um brilho fraco. Era claramente de manhã pra quem se importasse em olhar.

O barulho irritante continuou. Com um resmungo alto, Tessa se virou e bateu no alarme, o jogando no chão. Puxando sua coberta até seu queixo, ela tentou achar uma posição confortável debaixo do edredom. Sua bochecha acariciou o travesseiro de cetim e suas pálpebras pesadas se fecharam, apenas para abrirem de novo com o som da campainha. Ela continuou a tocar, difícil de ser ignorada.

— É melhor ser importante, Dante. — murmurou, tirando as cobertas e saindo da cama. Era apenas um palpite. Poucas pessoas se arriscavam a ir até sua porta antes do café da manhã, com exceção a seu irmão, que era notório por aparecer sem aviso prévio. Os raios de sol fracos pelas frestas das janelas faziam com que ela precisasse semi-cerrar seus olhos para conseguir acertar a fechadura.

Ela sempre achou que o cara que a encarava do lado de fora fosse bonito. Gino Jr. deveria muito parecer seu pai há trinta anos atrás, com suas feições italianas e um ótimo gosto para roupas. Antes do café, porém, ela não estava interessada em ser social e nem mesmo em se preocupar sobre sua própria aparência — ele teria que se contentar com o que tinha.

Depois de bocejar, ela cumprimentou a visita. — G.J., o que faz aqui?

— Não se preocupa, meu pai não me mandou aqui para te repreender. — ele olhou por trás de seu ombro antes de entrar no apartamento, tirando as mãos sonolentas de Tessa da maçaneta e a fechando logo em seguida, como se houvesse algo o seguindo. Até a voz dele estava conspiratorialmente baixa quando acrescentou: — Como está a cabeça?

— Tenho que admitir, seu pai faz um Manhattan daqueles. — ela respondeu sarcasticamente, levando sua mão até a cabeça. — Deveria ter parado depois do sexto.

O rapaz, ainda com sua jaqueta de couro, começou a andar pela sala com uma aura inquieta. — Achei que tivesse parado?

— Achei que você não tinha vindo aqui para me repreender?

O rosto dele corou. — Sinto muito. É que todo esse papo sobre a Darla me deixa inquieto.

Tessa arqueou uma sobrancelha. — Papo sobre a Darla? Eu estivesse naquele bar por umas três horas e acho que ouvi menos que dez palavras vindas de você.

— Bem, depois que meu pai brigou com minha mãe por falar com aquele repórter, não tive muito incentivo para conversar.

Era óbvio que as coisas haviam mudado. — Vou perguntar de novo. Por que está aqui, G.J.? — ela remexeu a manga de seu pijama um pouco nervosa. Algo na linguagem corporal do rapaz a fazia querer se proteger do que ele estava tão nervoso para dizer.

Ele colocou a mão em seu bolso e tirou um cartão postal. Com alguns passos, ele o colocou nas mãos de Tessa. — Isso chegou dois dias depois que Darla desapareceu.

Antes de sua mão se fechar em volta do papel, ela sabia que não o queria. Tessa tentou devolver, mas G.J. levantou sua mão e se afastou. Tessa olhou para o que estava escrito no cartão; a caligrafia era apressada e difícil de ler. O carimbo do correio era do dia 19 de março. — Por que tá me mostrando isso?

G.J. deu de ombros, seus ombros largos se mexendo por baixo da jaqueta de couro.

Ela virou o cartão e olhou para a foto. O Navy Pier era uma atração turística muito popular em Chicago. — Você sabe quem mandou isso?

Seus olhos escuros encontraram os dela. — Não deveria perguntar 'quem'.

— Eu já ouvi isso antes. — ela desviou o olhar e disse: — Desculpa, não posso te ajudar. Vá até a polícia.

G.J. estava na janela, usando dois dedos para mover a cortina para que pudesse olhar para a rua. Depois de um segundo, ele soltou o tecido. Silenciosamente, ela concordou com a desistência do rapaz em olhar para fora — três andares e a vista não era muito inspiradora. Ele se afastou da janela antes de responder: — Precisamos de mais ajuda que os policiais podem oferecer.

Eles trocaram olhares, cheio de história. A voz de Tessa estava monótona quando perguntou. — Foi isso que Gino disse? Ele te mandou aqui?

— Meu pai teria um ataque se soubesse que estou falando sobre isso. — G.J. disse. — Tudo o que ele diz é 'Deus é piedoso'.

Encarando o rabisco italiano no cartão, Tessa disse um pouco baixo. — Deus não escreveu isso. — a caligrafia era estranha, o traço mais notável sendo o 'e' invertido.

O Perelli jr. começou a caminhar, distraindo-a. Ela estava prestes a gritar com ele, dizer para se sentar e se acalmar, quando as mãos do rapaz seguraram a dela, levantando o cartão postal contra a luz do sol. Gravado na frente estava algo escrito com tinta azul que se misturava com as águas do Lago Michigan. Estendia-se até a borda inferior, parecendo mais com um giro de estoque do que com uma mensagem.

L E V I 24 17

Tessa franziu o cenho. — Quem é Levi?

— Não é Levi, é Levítico. — Gino respondeu impaciente. Ele marchou até a estante de livros da mulher. — Todo esse tempo na igreja e você nunca prestou atenção? — Tessa podia sentir a frustração do rapaz que procurava algo na coleção de livros escassa. — Cade sua Bíblia?

— Um, deixe-me ver... — Tessa recusava-se a admitir que não possuía uma bíblia. Sua salvação havia sido encontrada em um livro de música. Ela havia passado seu tempo na igreja praticando órgão ao invés de escutar o padre.

— Todos os bons italianos são católicos; todos os católicos têm uma Bíblia. — ele percorreu seu dedo sobre as espinhas dos livros, olhos focados em sua tarefa. Seu próximo comentário poderia ter sido inocente, mas seu tom de voz era sério. — Quantos de seus vizinhos sabem que seu último nome é Morgano e não Morgan?

— As chances são de que esse número é zero se você estiver querendo que eu faça algo sobre isso.

Olhando por trás de seus ombros, Gino a encarou com seus olhos escuros. — Mas você faria se eu te pedisse?

Tessa não gostou nenhum pouco do ênfase no pronome pessoal. — Faria o que?

— Você conhece pessoas, Tessa.

— Não mais.

— Ligue para seu pai.

O rosto dela ficou pálido, suas palavras nada além de um sussurro. — Não.

— Você não pode negar sua hereditariedade. Não pode negar seu passado.

Tessa queria debater e discordar. Cinco anos atrás ela havia se mudado e trocado seu nome. O passado não existia mais.

Ela e G.J. não existiam mais. Sua história como um casal feliz havia acabado.

G.J. tinha outras ideias. Seu sorriso era paquerador, encantador, e seu olhar era familiar o suficiente para lembrá-la de suas próprias fraquezas. — Então por que você ficou no bar ontem à noite? Achei que havia ficado até depois de fechar, só esperando-

Algo bateu contra a porta da frente. Tessa mal notou o som intrusivo, mas G.J. pulou como se alguém houvesse disparado uma arma na sala. Sua mão derrubou alguns livros da estante e ele se inclinou para pegá-los, seu corpo abaixando até o chão.

— Qual é o seu problema? — Tessa perguntou. Ela se virou e abriu a porta, pegando o jornal antes de virar-se para sua visita novamente.

G.J. estava perto de repente, quase relando em seu ombro quando passou pela porta. — Tenho que ir.

Perplexa, Tessa observou enquanto ele andava apressadamente até o elevador do condomínio. Antes que ela pudesse chamá-lo de volta, ele entrou pelas portas de aço e desapareceu.

Tessa olhou para cima e para baixo no corredor. Talvez alguma da paranoia de G.J. havia permanecido quando ela adentrou em sua casa e trancou a porta. Colocando o cartão postal no bolso desnecessário de seu pijama, Tessa abriu o jornal e folheou a seção local em busca do artigo de Scott.

Polícia local está ligando o desaparecimento de duas mulheres na área metropolitana de Chicago. Darla Perelli e Gal Lorence foram dadas como desaparecidas por membros da família, uma das quais confirmaram sequestro como um possível motivo por causa de um pedido de resgate. As mulheres eram ambas garçonetes, que desapareceram durante a noite. A polícia não divulgará que evidências possuem, ou se estão atrás de algum suspeito em particular.

Tessa não poderia deixar de bufar; o artigo estava escondido na página 4, longe de ser a capa do jornal. — Você tá forçando a barra, Crawford. Eu te disse que não havia história nenhuma. — ela murmurou para ninguém em particular. A vitória era pequena, mas boa. Sua vida estava de volta ao normal; dentro de uma hora ela estaria vestida e a caminho de seu trabalho.

~***~

Quando as portas do elevador da Tribune se abriram, seus lábios foram forçados em um sorriso. Tirando o leve tom de vermelho em seus olhos pela noite mal dormida, esse era o rosto normal de Tessa pela manhã; alegre mas não tão alegre assim. Se apressando até seu escritório, Tessa abriu sua porta e deu um grito ao ver Scott sentado em sua mesa. — Jesus, eu deveria pedir para arrumarem essa tranca.

Ele se inclinou na cadeira, braços cruzados, em alerta e só esperando. Se ela tivesse sido um pouco mais observante, teria notado que ele não estava sorrindo.

— Dá licença. — a voz de Tessa estava cansada e rouca. Ela se esticou até o monitor e pegou um frasco de pilulas que estava ao lado. Retirando duas de uma vez, Tessa as colocou em sua boca, só agora percebendo que não tinha nada para beber com o remédio.

Ela fez uma careta quando o sabor amargo chegou até seu paladar. — Eca. — ela resmungou, ao mesmo tempo pegando a caneca de café das mãos de Scott e tomando um gole do líquido morno. — Nossa, isso é ainda pior. — ela disse, devolvendo a caneca para Scott. — Como consegue beber essa coisa?

— O que tá fazendo? — ele perguntou.

Sua voz era ainda mais fria que o café. Ela nunca o havia visto sem um grande sorriso, mas agora seu rosto estava sem nenhuma expressão.

— Aspirina, enxaqueca. — ela disse, mostrando o frasco e apontando para sua cabeça. Ela jurou que seria mais amigável e evitaria fofocas. Tessa tentou parecer alegre. — Se tiver algum problema, eu comprarei outro café pra você.

— Não estou falando do café.

— Então do que você-

— Candice me disse que você foi até meu cubículo ontem. O que estava procurando?

— Nada. — Tessa disse, mesmo que não fosse tão verdade assim. — Do que você está me acusando?

— De me espionar.

— Por que eu faria isso?

— Não tenho certeza. — ele deu de ombros de uma forma casual, mas seu tom ainda estava acusatório. — Talvez eu não deveria ter te provocado ontem. Competição faz as pessoas agirem estranho.

Tessa estava brava. Tinha várias coisas na vida que ela não gostava, e ser acusada de algo que não havia feito era uma delas. Suas mãos pararam em seu quadril e ela virou sua cabeça para Candice. A mulher intrometida não os escutava, mas isso não a impediu de olhar na direção deles.

— Candice é uma vadia. — Tessa disse. — Eu não daria ouvidos à ela.

Os olhos de Scott se cerraram. — Você não se justificou exatamente.

Ela respirou fundo antes de continuar. Seu coração batia forte, tornando a sua confissão difícil de sair, mas mesmo assim ela foi objetiva e direto ao ponto. — Eu estive em seu cubículo. Eu não tinha nenhum direito de ir até lá, mas eu não toquei em nada.... Em nada. — ela deu ênfase.

Ele não se moveu. Ela mudou de tática. — Por que? Tem algo lá que eu não deveria ver?

Scott se levantou da cadeira, se inclinando sobre a figura menor de Tessa. — Se tiver, — ele sussurrou. — Você nunca vai descobrir.

— Você está colocando sua confiança no lugar errado. — ela disse, o empurrando levemente e sentando-se em sua cadeira. — Admito que sou bastante competitiva. Eu tenho que ser nesse ramo, você sabe disso, e sim, você me venceu algumas vezes. Não vou negar que isso me irritou, mas falar que eu faria algo desse tipo por causa disso...

—Justo.

Ela piscou com o súbito fim da animosidade de Scott. Antes que ela pudesse perceber o que estava acontecendo, Scott estava saindo de seu escritório.

— Ei! — Tessa o chamou. — Eu li seu artigo. É bem... discreto.

—Pensei que não quisesse que eu continuasse com isso. — Scott disse, sua voz cética e reticente que as palavras da mulher fossem um elogio. — Mudou de ideia?

— Você não tem muita coisa.

— Verdade. Mas têm duas coisas sobre esse caso que eu não gosto. — ele começou devagar, mas decidiu que era melhor compartilhar. — Primeiro, as mulheres se pareciam muito — quase da mesma idade, morenas. E as duas desapareceram dia 19 de um mês, Gal em fevereiro, Darla em março. E em abril...

— O que tem em abril? — Tessa perguntou.

Ele hesitou, como se estivesse decidindo o quão mais poderia revelar. — Levou algum tempo. Estava escondido, está listado como assassinato. Nossa terceira vítima, uma mulher chamada Russo, foi encontrada morta há alguns dias atrás. Seu corpo foi retirado do Lago Michigan junto com seu carro. Ela morava sozinha, foi dada como desaparecida quase no mesmo dia que as outras. Ela também parece combinar com a descrição das outras, garçonetes que trabalhavam no restaurante da família. Peguei alguns detalhes do recinto local.

— Como ela chamava?

— Russo. Kate Russo. Conhece ela também?

Tessa balançou a cabeça negativamente mas não olhou nos olhos do rapaz. — Você não escreveu nada sobre ela.

— Por que tem mais alguma coisa. — ele disse. — Ela foi encontrada no lago. Quase que um quilômetro longe de Navy Pier. Detetive Blaine me disse o local exato.

O rosto de Tessa ficou pálido. — Fazendo amigos, né?

Scott colocou suas mãos na cintura, como se quisesse mudar de assunto. — Falando nisso, como se saiu com os Perellis?

Ela franziu o cenho por Scott ter assumido que ela estava fazendo sua própria investigação, mas respondeu mesmo assim. — Eles não queriam falar.

O celular de Scott tocou. Estava claro em seu rosto que o homem estava descontente com a interrupção. Sua expressão escureceu quando viu o nome na tela. — Tenho que atender. — ele murmurou.

Tessa observou Scott saindo de seu escritório. Era óbvio que estava falando com um mulher, seu tom de voz estava suave e cantante. Ela revirou os olhos quando se viu perguntando sobre a vida amorosa do homem inegavelmente bonito. Scott não possuía nenhum anel, e ele falava menos de sua vida pessoal do que ela. Ela sabia que ele evitava esse tópico quando os outros perguntavam. Sua imaginação criou um passado obscuro- algum segredo maligno que o fizera sair de Nova York e se esconder em Chicago.

Ela revirou seus olhos novamente e balançou a cabeça. É por isso que não escrevo ficção, ela pensou.

Colocando sua atenção em outra coisa, ela fuçou pelo arquivo de notícias em seu computador, sem saber, seguindo os mesmos passos que Scott no dia anterior, tentando achar todos os arquivos com o nome de Kate Russo.

Batucando seus dedos no cartão postal em seu bolso, ela redirecionou sua pesquisa a Levítico, refrescando sua memória sobre a frase.

Todo aquele que matar um outro ser humano será também executado.

G.J. estava certo sobre uma coisa. Catolicismo e italianos combinavam. Quem melhor saberia o que estava acontecendo do que o padre da família?

Tessa trocou a Bíblia online pela guia telefônica.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.