Notas iniciais
Boa leitura!

Estava revirando o lixo atrás de restos de comida, assustando um gato que estava pousando no topo de uma lata, que recuou imediatamente, quando reparei em um baú grande no meio dos sacos, chamando a minha atenção. Um baú descartado em um beco, não se vê todo dia. Decidi abri-lo.

Havia dados, havia bonecos de marionete, bonecos de ventríloquo, fantasias (pensei em guardar alguma para usar e finalmente trocar de roupa em muito tempo), e um apito em um canto.

Segurei o apito e o assoprei, despertando aquele barulho agudo que estava adormecido, a bolinha abandonada em desuso.

*

O cenário era quase todo coberto de neblina, e o céu, cinzento, como em um dia chuvoso. Estava silencioso, não parecia com nenhum lugar que eu conhecia, nem que eu tivesse visto em uma foto.

Bom, o que aconteceu foi que eu estava em outro lugar, e isso ocorreu assim que assoprei o apito, eu preferia pensar que estava sonhando ou tinha morrido, e isso era o além, que meu corpo seria encontrado em uma vala, minha mãe choraria, meu pai suspiraria aliviado. Era mais aceitável que um apito ser a causa de tudo.

― Levanta as mãos! Coloca onde eu possa ver. ― Uma voz feminina, mas muito durona e intimidadora soou.

Demorei um pouco para perceber onde estava a autora da frase, era muito baixa, era uma anã.

― Não pense que só porque sou uma anã, não vou acertar essa flecha. ― Ela disse apontando uma balestra para mim. Levantei meus braços.

― Ela nunca erra. É a nossa melhor atiradora. ― A outra voz se tornou audível, feminina e amarga. Ela estava segurando um arco e aljava, de um tamanho compatível com sua estatura.

― Qual o seu nome? ― O terceiro anão falou, o único homem e seu pomo de Adão se movia enquanto ele falava.

― Franco. ― Respondi. ― O que vocês são?

― Somos nós que fazemos a pergunta aqui. ― Ele pronunciou áspero, enquanto seu pomo de Adão se inclinou.

― Não fale com ele, ele deve ter bebido. ― Disse a anã da balestra. ― Todos eles bebem.

― Beber o que? Eu não bebo. ― Falei, relembrando de minha antiga promessa que eu nunca beberia álcool.

― Ele não bebeu. Pode ficar conosco. ― O anão impôs.

― Ele vai ser um problema. Vai nos atrasar. ― A anã do arco e flecha rebateu. Eu sou um problema, sempre fui um problema para os outros.

― Tudo bem, eu estou acostumado a ficar sozinho. Sei como é. ― Ditei timidamente.

― Não vá. Ele fica. Ele fica. ― O jovem anão avisou a uma e depois a outra. Uma das anãs revirou os olhos.

*

Nos sentamos em volta da fogueira que eles acenderam.

― Somos anões. E também somos rebeldes. ― O anão explicou, em seu rosto crescia uma barba rala, ele não devia ser mais velho que eu. ― Fomos trazidos até aqui para beber um gole de álcool. A força. Por sorte, conseguimos fugir.

― Vocês beberam? ― Perguntei, me aquecendo com a chama.

― Credo, não! ― A anã suspirou, e depois continuou. Pensei que deveria evitar de beber, por causa da minha promessa. ― Eles acham que vai acontecer algo com quem beber. Quer dizer que é como se fosse um teste. Com a maioria não acontece nada, mas eles continuam até achar quem querem. Meu nome é Ruth esses são meus irmãos, Jepsen e Olivia.

― Então significa que eu estou aqui porque posso ser quem eles procuram? Impossível. Eu cheguei aqui por acidente. ― Falei, pensando no baú que eu tinha encontrado na rua.

― Nunca é um acidente chegar neste lugar, seja o que for que o trouxe aqui, foi premeditado. ― Disse Jepsen.

O que é esse lugar? Quem são ‘eles’? Isso está acontecendo de verdade? Pensei em perguntar tudo isso, mas um barulho interrompeu a conversa.

― Eles estão vindo. ― Ao dizer, o anão apagou o fogo e os três ficaram em postura de luta.

Estava escuro, então não tinha como saber onde estavam, apenas o barulho dos passos deles se ouvia. Vi faíscas saindo de uma chama, quem for que estava vindo carregava uma tocha para enxergar. Os anões eram rápidos, eles asseguraram isso, mas não no escuro, talvez.

Uma seta da balestra de Ruth acertou o braço que segurava a tocha, deu tempo de ver o rosto dele, era humano, apenas isso. Assim que acertou e um gemido de dor veio dele, a tocha caiu e se apagou. Agora apenas pela luz lunar vi uma flecha da aljava de Olivia golpear o parceiro dele, por sorte estavam de dupla e não em maior número. Logo eu iria precisar brigar, eu um jovem que nunca brigou na vida. Como exatamente sobreviveria?

Ouvi gritos masculinos, de Jepsen, visualizei a silhueta dos dois homens, senti uma mão em volta do meu pescoço, fazendo pressão. Ouvi protestos, rosnados, levei minha mão até o rosto do que estava me atacando, tentando acertar os olhos com os dedos e assim cegar ele.

Uma dor de cabeça me atingiu.

*

Um ambiente escuro. E amplo.

Minha cabeça estava invertida, eu senti o sangue descendo deixando minha testa pesada e quente.

Meu corpo estava sendo carregado por um deles, os outros estavam andando do lado. Exceto pelos passos e pisadas, tudo estava silencioso.

A iluminação fraca de tochas me permitia ver eles, rapazes acorrentados, sujos. Droga, estou em um cativeiro!

Fui jogado grosseiramente no chão, soltando um gemido de dor. Eu não estava algemado nem machucado, eu acho. Mais sujeitos apareceram, me cercando.

― Beba isso. ― O homem de voz grave falou me entregando um copo transparente com uma bebida. ― Não jogue fora o líquido, por favor.

Fiquei olhando para o copo por um tempo, percebendo que não tinha escolha a não ser beber.

― Vai ser do jeito fácil ou do jeito difícil? ― Ele insistiu, impaciente.

Olhei para ele, vendo que estava bem vestido, era alto e atlético, aparentava ser o líder. Reflito um pouco e logo bebo todo o conteúdo, deixando a bebida descer pela minha garganta até o fundo do canal, parecendo que queimava quando fazia o trajeto. Depois de engolir tossi muito, o que era aquilo? Álcool? Os caras que me trouxeram riram de mim.

Notas finais
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