Criaturas das Trevas
3 Noite de 31 de outubro
Notas iniciais
Revirei meu corpo na poltrona, tentei a posição fetal, depois estiquei as pernas no assento, sem conseguir cair no sono. Jepsen estava roncando no sofá maltrapilho e surrado que havia do lado.
Estou com sede.
Ficando de pé, comecei a andar pela casinha tentando preencher o tempo. Mexi nas coisas dele, até achar uma garrafa dentro de um armarinho de madeira.
Segurei a garrafa, devia ser uma bebida que pertencia ao homem, o do regador. Eu sei que não devia beber, eu fiz uma promessa. Mas eu bebi.
Bebi o líquido, que desceu em minha garganta, raspando pelas paredes e acendendo faíscas até arder em chamas quando terminei o gole, nem senti o sabor. Dei mais goladas.
Alguns minutos depois...
Uma luz se ascendeu acima da cabeça de Jepsen, e cenas cinematográficas surgiram como se fosse um projetor.
Vi um quarto de criança, e um menino deitado de bruços, ele era muito baixo, mas não tive como saber de que idade era.
Um rapaz mais velho e alto, sussurrou no ouvido dele “você é feio. você nunca vai ser homem, sua aberração.” Ele ainda estava acordado e ouviu.
Outra cena apareceu, o mesmo rapaz, de pé em frente a uma geladeira, abre uma latinha de cerveja e deixa o conteúdo escorrer pela abertura. Com um sorriso sacana ele diz “ei, anãozinho, é melhor você limpar isso, ou eu bato em você. É só para isso que você serve, bastardo.” Foi aí que percebi que era o Jepsen mais jovem. Aquela nuvem densa eram suas memórias. Então ele tem um irmão.
― O que...você está fazendo? ― Uma voz grave e sonolenta disse. Ele acordou. Ele estava vendo, o mesmo fragmento do passado que eu vi. Seus olhos percorreram as luzes, que foram sumindo aos poucos, sua expressão foi de mágoa à tristeza.
― Eu...não sei como. Foi sem querer. ― Tentei me explicar, e recebi um olhar fatal, ele estava bravo. Se sentia traído.
*
De manhã...
― Me siga. ― O anão disse, seriamente, devia ainda estar aborrecido pelo que houve a noite. Seu pomo de Adão saliente tremeu.
Percorremos um corredor cercado por um muro de vegetação, ainda dava para ver a plantação de abóboras. No fim do corredor, estava uma porta, que levava a uma sala ampla com uma grande mesa no centro, um lustre pendurado no teto, um castiçal apoiado na mesa, várias cadeiras. Não havia pratos, mas alguns cálices vazios.
Aqueles carcereiros de antes estavam lá, minha primeira reação foi fugir, como foi que eu não os vi entrando? Jepsen estava estranhamente quieto e imóvel. Foi quando entendi que eles já estavam ali.
― Desculpe, Franco. Ele ameaçou a vida de meus pais. ― O anão suspirou seriamente.
Aquele cara de antes que estava bem vestido, era alto e atlético, aparentava ser o líder entra na sala.
Jepsen me entregou!
Os carcereiros me agarraram, e suas mãos eram grandes demais, então foi inútil revidar, eles me empurraram grosseiramente até uma cadeira e me forçaram a sentar.
― Que prazer saber finalmente o seu nome. Sinta-se em casa. ― Ele disse ironicamente, com um sorriso desenhado, que o deixava mais atraente.
― Eu ainda não sei o seu. ― Falei, observando seu rosto quadrangular sedutoramente masculino. Ele era o homem mais lindo que eu já havia visto.
― Lúcifer. Deve saber porque está aqui. Eu estava o procurando há muito tempo. E finalmente encontrei! ― Enquanto dizia, seu cabelo que caía em cascata pelos ombros dançava. O que ele quis dizer com Lúcifer? O anjo caído? ― Quando você bebeu aquele drink, nem imaginava que você seria ele. O escolhido. Afinal todos os outros beberam e nenhum deles era, mas você é, Franco. Minha busca acabou.
― O escolhido de que? ― Perguntei, me ajeitando na cadeira.
Lúcifer estalou os dedos, e um homem trouxe um pergaminho, que ele abriu e começou a ler. Sorrindo e com uma voz melodiosa escolhendo as palavras a dedo.
― Um homem chamado Jack, um alcoólatra grosseiro, em um dia 31 de outubro bebeu excessivamente e o diabo veio levar sua alma. Desesperado, Jack implora por mais um copo de bebida e o diabo concede. Jack estava sem dinheiro para o último trago e pede ao Diabo que se transformasse em uma moeda. O Diabo concorda. Mal vê a moeda sobre a mesa, Jack guarda-a na carteira, que tem um fecho em forma de cruz. Desesperado, o Diabo implora para sair e Jack propõe um trato: libertá-lo em troca de ficar na Terra por mais um ano inteiro. Sem opção, o Diabo concorda.
“Feliz com a oportunidade, Jack resolve mudar seu modo de agir e começa a tratar bem a esposa e os filhos, vai à igreja e faz até caridade.
Mas a mudança não dura muito tempo…”
“No próximo ano, na noite de 31 de outubro, Jack está indo para casa quando o Diabo aparece. Jack, esperto como sempre, convence o diabo a pegar uma maçã de uma árvore. O diabo aceita e quando sobe no primeiro galho, Jack pega um canivete em seu bolso e desenha uma cruz no tronco. O diabo promete partir por mais dez anos. Sem aceitar a proposta, Jack ordena que o diabo nunca mais o aborreça. O diabo aceita e Jack o liberta da árvore. Para seu azar, um ano mais tarde, Jack morre, e em seguida tenta entrar no céu, mas sua entrada é negada.
Sem alternativa, vai para o inferno.”
“Chegando lá, encontra o diabo, o qual ainda desconfiado e se sentindo humilhado, também não permite sua entrada, e como castigo, o diabo joga uma brasa para que Jack possa iluminar seu caminho pelo limbo. Jack põe a brasa dentro de um nabo para que dure mais tempo e sai perambulando.”
Aparentemente, tinha chegado ao fim. Eu já tinha ouvido isso antes. A lenda de Jack o’Lantern.
― Então você acha que eu sou o que? A reencarnação de Jack?? ― Quebrei o silêncio, e senti uma vibração subindo em minha garganta, uma risada involuntária saiu e eu ri daquilo tudo.
― É claro que não é. Você é a nova geração dele. ― Ele enrolou o pergaminho e fez a expressão mais irada que podia. ― Depois que Jack morreu, seus filhos tiveram filhos, e um dos seus netos foi o herdeiro de seus poderes. De geração em geração, isso continuou até chegar em você, Franco. As vezes pulava uma geração.
― Está insinuando que Jack foi um antepassado meu? ― Perguntei, gostando cada vez menos dele.
― Muito distante, mas sim. Muitos nunca souberam. Seus poderes só despertam quando ingere álcool. É a herança do alcoolismo dele. Quando sai da sua corrente sanguínea você volta a ser apenas um adolescente. Como você acha que fez todas aquelas coisas? Não foi você, foi o Jack. ― Lúcifer explicou ainda aborrecido.
Então eu só recebo os poderes quando beber álcool? Isso explica porque nunca senti eles antes. E se mantivesse minha promessa, nunca saberia.
― Eu quero ir para casa. ― Revelei, sem saber de onde tirei a coragem para falar isso.
― Receio que isso não seja possível. ― Ele respondeu, me olhando nos olhos.
― Então eu quero um banho. E trocar de roupas. As minhas estão sujas. ― Ditei a frase.
― É melhor você falar comigo de um jeito menos autoritário. Ou... ― Lúcifer tentou usar um tom imperioso, mas parecia que estava recuando.
― Ou o que? Vai me matar? ― Rebati. ― Se levou tanto tempo para me achar, não acho que me queira morto.
― Vou providenciar seu banho. Depois vamos ter uma conversinha, pirralho. ― Ele reinou, com uma expressão zangada.
Nem acredito! Finalmente vou me banhar!
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