Crianças que choram

1 Crianças que Choram


Notas iniciais
Gente voltei a escrever, por que esses momentos de inspiração não é a gente que escolhe não é mesmo?

Viva às roupas de frio, praia, comida asiática, doramas, música, livros e deuses.

Próxima vez que eu escrever vou ver se mudo de terror para romance ou mundo alternativo, tipo bruxas medievais. Sou bem eclética sabe.

Boa leitura.

Itália, Roma — 21:00 — 2018

Lembro que foi uma das noites mais frias daquele ano. Os becos e ruas estavam vazias, exceto pelos raros casais abraçados e moradores de rua. Ali, no centro da grande praça, descansava o esplendoroso Museu da cidade, um dos mais visitados do país. O segurança estava em sua segunda ronda pelos compridos e largos cômodos, porém escuros, do Museu. Esse, guardava de obras tão caras que pertenciam ao Estado à obras finalizadas a três dias por universitários da faculdade de arte. Para o segurança, a profissão não fazia parte de um sonho infantil, portanto, não queria estar ali. Na verdade, depois do que aconteceu na sala secundária, nem o mais amante de quadros desejaria estar.

Estava caminhando sonolento pelos corredores com uma lanterna grande em uma das mãos. Já gravara cada canto daquele prédio e bufava ao perceber que não havia nada oferecendo risco para as obras.

—Não tem nada aqui.- Abaixou a lanterna – Espero não ter perdido o primeiro tempo do jogo.- Ele se virou e começou a caminhar de volta para sua sala de vigilância. Ao chegar no corredor principal, sentiu uma sombra passando em sua visão periférica, no mesmo momento ficou petrificado. “Ora, pare com isso” pensou se repreendendo. Inicialmente, imaginou ser uma sombra projetada por algo do lado de fora do Museu, mesmo assim ligou sua lanterna e caminhou lentamente para a entrada de um dos cômodos. Foi lentamente, com cada pé encostando o chão, suave como um algodão. De repente, ouviu um sussurro. Estava vindo da sala secundária. Esta não era uma das salas mais importantes, se houvesse uma pessoa lá, seria somente com o objetivo de se esconder. Agora, com os olhos focados no lugar de origem da voz, continuou caminhando, como um predador. Estava suando e com medo, não podia negar. Nunca ocorrera algo parecido antes. “Está atrás daquela coluna”. Quando chegou a centímetros do local, fechou os olhou com força e os abriu já com a lanterna apontada.

—Merda! — gritou um garoto magro, que segurava uma câmera. — Acho que fui pego pessoal. Termina aqui mais um vídeo para o meu canal, não esqueçam de deixar seu comentário escolhendo qual o próximo local para o “passando a noite”.- Então desligou a câmera.

—O que a criança acha que está fazendo aqui? — O segurança perguntou aliviado.

—Desculpa aí seu guarda, é que eu precisava passar a noite aqui, se não perdia um desafio. — O jovem que aparentava ter uns 14 anos disse. — Mas eu já tô indo e não toquei em nada.

—Não sei o que está acontecendo com a geração de vocês. — O guarda bufou.- Mas não pense que deixarei você sair assim, quero seu nome e o número dos seus responsáveis. Vamos. — O guarda segurou o braço do menino e começou a andar.

—Nossa, o senhor estava nervoso mesmo, está até suando pela mão.- comentou o jovem sorrindo desdenhosamente.

—Mais um pio e sua situação pode piorar. — Disse o segurança, agora olhando de lado. — E eu não estava nervoso, está realmente calor hoje. — Estavam se aproximando da saída da sala quando algo chamou a atenção de ambos. -Está mesmo muito calor, parece até…-

—Fogo… Fogo!- O jovem gritou ao olhar para trás e seus olhos brilharam refletindo uma cor vermelha. As chamas seriam velozes para quem olhasse de fora, mas para ambos, elas vinham como cobras serpenteando as colunas vagarosamente. Era de um vermelho hipnotizante, que ocupava chão, parede e teto.

Após alguns segundos, o que era uma cápsula de fogo com o inferno em seu mais alegre dia, se transformou em uma sala cinza, onde minúsculos flocos dos quadros queimados flutuavam fantasmagoricamente.

21:30

Os três telefones da principal Delegacia tocavam sem parar apresentando o mesmo testemunho.

—Delegacia, Boa Noi…- A atendente parou.- Sim senhora… estamos cientes da situação e as viaturas já estão a caminho. — A atendente se levantou e correu até a sala do delegado. — Senhor, houve um incêndio…- Ela parou ao observar que o mesmo estava ao telefone falando sobre o mesmo o assunto.

—Sim, preciso de uma equipe para investigar o incêndio no Museu. Estou indo para lá agora. Sim, lhe aguardo lá.- Desligou, pegou seu sobre tudo e sua maleta. — Senhorita Madson, aguente tudo por aqui, ok? — Saiu depressa e parou na porta. Madson levantou as chaves da viatura como uma mãe dizendo “Só não perde a cabeça, por que está grudada no corpo”. Ele voltou e sussurrou um “obrigado, volto logo”.

O Museu, agora iluminado e movimentado devido as lanternas e curiosos, parecia uma criança encurralada e assustada. A única diferença, perceptível apenas para detalhistas, eram três janelas mais escuras do que as restantes. Foi a primeira observação do delegado ao chegar. Seu melhor amigo era chefe de uma equipe de investigadores e o delegado acabou absorvendo muitas manias deste.

—Que noite hein. Pensei que iríamos terminar nossas carreiras somente com homicídios passionais e pequenos furtos.- Comentou o Investigador.- Finalmente pegamos um que testará nosso intelecto.

—Ficaria bem só com pequenos furtos. Aceita um cigarro?- Ofereceu um ao amigo.

—Você não acha que seria um desrespeito às vítimas queimadas?

—Vítimas? Eu pensei que o Museu fechasse às sete.- Começaram a entrar no interior do prédio passando pelas fitas.

—E fecha. Encontraram dois corpos, um do segurança noturno e outro de um jovem. Estavam na sala secundária…

—As chamadas começaram por volta das nove e sete e meu assistente foi informado que a segunda vistoria pelo Museu começou as nove horas. Parece que tudo ocorreu muito rápido…

Enquanto compartilhavam informações, andavam até a sala. Tudo estava conforme deveria estar, claro, sem um incêndio. Para ambos, estava muito estranho. Pararam em frente a entrada da sala secundária sem porta, e, incrivelmente, as chamas não haviam ultrapassado nenhum centímetro para fora. Neste momento, investigador e delegado olharam para a fotografia dos corpos. Ambos estavam retorcidos e a carne estava repleta de bolhas brilhosas. Os corpos deveriam estar carbonizados, devido ao estado da sala. Entretanto, pareciam que foram queimados aos poucos e superficialmente, provavelmente causando uma imensa dor.

—O mais assustador é como os rostos deles ficaram. Demonstra desespero. O que restou dos olhos mostra que estavam com eles arregalados e suas bocas estavam abertas, como se estivessem gritando. Parecem uma caveira com carne meia queimada. Isso é muito estranho. E a causa da morte?- Perguntou, retoricamente, o investigador. — De acordo com a autópsia, parada cardíaca, mais especificamente “susto”. Você está me escutando?

—O quê? — Perguntou o delegado que se concentrou na parede oposta à saída.

—Eu estava falando que o mais assustador é como…- O delegado o interrompeu tocando no ombro do amigo e virando-o.

—Nada do que você falar agora é mais assustador do que isso.- Ambos olharam para a parede, com a lanterna apontada. Lá estava, o único ponto colorido da sala com as bordas de madeira intactas, indicando a culpa. — Como… como aquilo ainda está ali? E por que, justamente, este quadro?

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Yorkshire, EUA – 20:00 – 1991

—I like fine suits, smoke the best cigars, — o quarto cheirava a Tommy Hilfiger e o carpete, quase encoberto, estava repleto de revistas, pôsteres, roupas e fitas gravadas. — Like talking sex to women girls in fast cars…

—Ben! Desliga essa merda agora!- gritou a irmã mais velha, Clair.- Foi mal. É o meu irmão idiota achando que está no colegial. — girou deitada em sua cama, onde haviam pompos azuis e um casaco de futebol americano da mesma cor. — Sim… Eu preparei tudo para essa noite. Droga- Clair levantou e foi até o quarto do irmão. — Você vai desligar essa música.

—Não. — Respondeu o garoto de 14 anos. Estava lendo uma revista de quadrinhos da qual não desviou o olhar.

—Não foi um pergunta.- Ela desceu correndo pelas escadas até alcançar sua mãe que acabara de chegar. — Mãe, o Ben está com aquela porcaria ligada desde cedo. Eu preciso estudar, ok?

— “Clair” e “estudar” na mesma frase? Eu só quero descansar, ok? Comprei diversas coisas para mobiliar a casa, ainda terei que trabalhar muito, então, suba, eu falarei com o seu irmão depois.- Após a típica revirada de olhos, a irmã subiu. A mãe, com olhos fechados, pensou no que poderia falar para o filho naquele momento difícil. Clair poderia lidar com um divórcio, era madura, mesmo com atitudes assim. Porém, Ben só tinha 14 anos e adorava o pai.

Olhou para as compras. Olhou para a escada. E subiu elas.

—Bob Beans- Chamou com o apelido carinhoso entre os dois.- Preciso falar com você, meu bem.- Após sentar na cama, olhou diretamente para ele. — Eu sei porque você está assim. Não ache que seus sentimentos estão invisíveis para nós.

—Então, por que a senhora não faz nada?- disse sem tirar os olhos da revista.

—Por que eu não posso fazer nada. Quando você tiver alguém que você ame, porém te faz sofrer na mesma intensidade, saberá que em certos momentos, terá que fazer sacrifícios.

—Nós somos os sacrifícios, não é? Porque eu me sinto um.- Respondeu levantando da cama.

—E se Lois Lane se juntasse ao Lex Luthor para derrotar o Super-Homem?- Ben travou na hora. Um olhar de compreensão surgiu no pequeno, sabia que seu pai estava errado e a mãe tentava lhe mostrar isso, mesmo fazendo analogias erradas, porém, no fundo, ainda estava com aquela confusão de raiva e tristeza.

—Estou indo tomar banho mãe, depois a gente conversa.

—Ok querido. Qualquer coisa estou lá em baixo.

Agora, mais aliviada, lembrou o que estava pendente. As compras. Ansiosa para descobrir como ficaria o abajur de cristal, os tapetes feitos à mão e os quadros, abriu todos os pacotes e imaginou posições perfeitas para harmonizar a casa. Sim, era decoradora e observava tudo. Morria de medo que algo acontecesse com sua visão. Acendeu as velas de um pequeno castiçal para vislumbrar a sala quase pronta.

—Está perfeito, só falta um.- pegou o quadro e girou junto a ele no centro da sala, girou e girou até parar em frente a lareira. “Perfeito”- Clair! Desça aqui e me ajude a colocar este quadro. — Estava esticada com, somente, as pontas dos pés no chão. — Clair! Desça aqui agora!- nada, só escutava o som do chuveiro ligado. “Só preciso me esticar um pouquinho mais para encaixá-lo” pensou e, nesse exato momento, sentiu como se o quadro pesasse dez vezes mais do que o normal, fazendo-a cair para frente, onde as velas queimavam silenciosamente. Tudo aconteceu em poucas frações de segundo. Seus olhos foram ao encontro delas. O silêncio foi rompido por gritos de dor e desespero. Tentava soltar suas mãos das bordas do quadro para tatear os olhos, mas não conseguia.

—Mãe! O que está acontecendo?!- O filho mais novo desceu as escadas correndo com o cabelo pingando. Chegando ao fim delas, olhou sua mãe segurando o quadro com as mãos escuras, saindo fumaça. Ficou ali parado, com a boca aberta, parecendo não respirar. Seu coração batia tão forte que parecia estar ao lado dos ouvidos.

—Filho me ajude… venha até aqui.- Ela disse com o rosto abaixado, o resultado dos olhos com as velas estava coberto pelos cabelos pretos e ondulados.

O filho andou lentamente, queria soltar sua mãe daquele quadro para correrem para fora da casa mas estava tão assustado. Quando chegou a centímetros dela, olhou para cima e viu em seus antigos olhos azuis dois buracos pretos, eles pareciam um poço sem fundo. Como um interruptor, Ben recuou e gritou, correndo em direção à porta.

—Filho, me ajude, não vê que estou queimando! — Ela andou em direção ao garoto.

—Socorro! Socorro! Me tirem daqui!- Gritava com lágrimas nos olhos batendo na porta freneticamente. Um ponto de esperança e felicidade passou pelo seu corpo quando viu sua irmã vindo em sua direção do lado de fora da casa. -Clair! Me tira daqui! A mamãe… eu não sei o que aconteceu, me tira daqui!

—Ei, Ben! Calma, eu vou te tirar daí, calma!- A irmã, após encostar a mão na maçaneta, sentiu que essa estava extremamente quente. Olhou para o irmão que chorava descontroladamente do outro lado da porta.- Ben... o que você fez?- nos próximos segundos, que pareceram minutos, Ben assistiu os olhos de sua irmã mais velha subirem e encararem algo acima da cabeça dele. Ela estava ali, atrás dele. Ele se virou e viu um ser que não era mais a sua mãe. Ele esticou sua mão queimada em direção ao Ben, que, hipnotizado, segurou-a. Como uma combustão instantânea, tudo dentro da casa do vermelho foi se ao preto e por fim ao cinza.

Clair, que testemunhara tudo, estava em choque e não sabia o que pensar ou fazer. Após abrir a porta entrou na casa e, junto a ela, um vento frio do lado de fora. Esse, empurrou as cinzas do chão, revelando um único quadro que lembrava o rosto de seu irmão minutos atrás.

Itália, Roma — 19:00 — 1964

Preso ao tempo limitado e ao ateliê escuro e abafado pelas velas, o pintor tentava buscar uma inspiração. “Eu preciso terminar isso”, falava pra si mesmo. Com as mangas puxadas até o cotovelo e os braços sujos de tinta, posicionava-os em frente à tela esperando que, ao menos, uma pincelada se formasse. Estava suando, estava nervoso. Após alguns minutos sem resultado, jogou com força o pincel ao chão e passou as mãos pelos cabelos pretos e umedecidos.

—Por quanto tempo você vai sonhar?- Se virou, encontrando a esposa encostada no batente da porta. Sabendo que seria, ali, o início de uma discussão, não respondeu.- Tantos gastos com tintas e telas para nenhuma ser vendida. Seu filho está com fome e frio lá em baixo.- O pintor fechou os olhos controlando sua paciência- Por quanto tempo você vai nos arruinar?!

O Marido virou-se com raiva a ponto de levantar a mão.

— Vamos! Continue! Nem isso você consegue fazer não é mesmo?- O pintor, ao ver onde chegou, recuou e se virou. — Eu vou embora amanhã para a casa da minha mãe.- A esposa foi andando até a porta.- E ele virá comigo. Não quero que meu filho fique igual a você.- E então saiu.

—Não… Não! Não!- A raiva possuiu seu corpo e seu rosto tomou uma forma de ódio. Ele não poderia perder seu filho, seu amor, porém não podia perder sua paixão que era pintar.- Você não vai me tirar ele! Não vai me tirar! Não!- Começou a pegar todos os quadros e jogá-los no meio da sala.- Eu preciso dele para viver, eu preciso, eu.- jogando brutalmente todos os quadros no meio da sala, alguns quebrando, olhava, agora, com admiração e ria. Rodava, como uma valsa, em volta dos quadros no chão. Queria mais cor, mais alegria em meio ao que passava. Recolheu as tintas e as abriu. Sussurrava para si, “Verde, a cor da liberdade”, então, jogava a tinta verde sobre os quadros e passava pelo rosto, pelos braços. “Vermelho, a cor do amor”, olhou para ela com tristeza “Por favor me faça feliz, pois nunca fui amado...”, Disse, passando suavemente a tinta pela boca, mãos e bochecha, sorrindo como um namorado. E repetia, desejando que sua vida fosse como as das cores.

—Vocês nunca me deixarão. Nunca.- Deitou sobre as telas como o homem vitruviano.- Nunca, nunca… Por que vocês são meus únicos amores, minha paixão…- Olhando para o teto e se sentindo no colo de uma mãe, ouviu a porta ranger.

—Papai…- Ao ver o pai naquela situação, ficou com medo e não entrou no ateliê.

—Filho! Filho venha aqui. Venha. Vou te mostrar meus novos amigos.- E puxou seu filho pelo braço, colocando-o de frente para toda aquela bagunça.- Eles não são felizes filho?- Olhou para o filho e abriu um grande sorriso.- Vamos viver com eles, como eles filho.

—Não…- O menino tentava soltar seu braço.- Eu vou embora com a minha mãe.

O sorriso no rosto do pai foi substituído por um rosto traído. Ele se afastou, andou até a porta e a trancou.- Você não percebe que isso é para o seu bem, você nunca vai ser feliz junto a ela.- Andou até seu filho e este se afastou. Naqueles poucos segundos com ambos os olhos fixos entre os dois, um com medo e outro com um desejo insano, não perceberam até a chama ficar alta e o quarto quente. O filho olhou para o lado vendo todo aquele fogo consumindo telas e tintas e, rapidamente, correu até a porta.

—Mãe! Mãe!- Gritou pela sua mãe que subia as escadas com desespero.

—Filho! Meu Deus!- Batia na porta, pois não conseguia abri-la.

O pai não se moveu e com os olhos úmidos olhou para o filho chorando e o fogo consumindo tudo próximo a ele. “Sim, esse é o nosso destino”. Agora, o pintor, olhava para aquele momento lentamente, gravando cada momento como num quadro. Sorriu, pois ali ele via algo vivo. “O amarelo, o vivo consumindo tudo que amo”. Olhou para o fogo, fechou os olhos e abriu seus braços, se entregando à sua paixão.

Notas finais
Tá muito formal? Tem algo errado? O que eu poderia mudar na história?

Só vem que eu aceito crítica construtiva de boas.(comenta aí)

Viva às roupas de frio, praia, comida asiática, doramas, música, livros e deuses.

Valeu por ter chegado até aqui! COMENTA ACOMPANHA E RECOMENDA!

Não custa nada.

Bjs até a próxima :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!