Criando Um Monstrinho
4 Stalker.
Notas iniciais
Boa leitura.
Suspirei.
Estava no intervalo das aulas; uma garrafinha de suco natural de laranja em uma mão e um livro no colo. Era assim que eu passava o tempo. Aliás, geralmente eu ficava sozinha... Só que... Tinha um mentecapto no meu pé naquele momento.
O pior –ou melhor- era que ele mal sabia se esconder.
Lupus estava escondido numa moita logo atrás do banco no qual eu estava sentada. Fazendo o que ali? Ele não é um agente 007 e muito menos trabalha no FBI. Seria pura idiotice? Talvez.
O loiro aparentou baixar a guarda por minha falta de movimento. Deveria ser bem entediante me espionar afinal. Mas lá vai a pergunta: Quem em sã consciência me iria stalkear? Sequer sou interessante ou faço algo além de estudar ou ler livros. Vai saber o que se passa naquela cabecinha cheia de cabelos loiros.
Terminei de tomar meu suco calmamente e li um pequeno parágrafo do livro, logo o fechando silenciosamente. A garrafinha foi para o lixo e o livro... Bom, veremos se ele é útil para outra coisa além dos estudos.
Sorrateiramente, me esgueirei entre a moita, segurando firme no livro com ambas as mãos, até encontrar o dito-cujo no qual aparentava estar me procurando.
Depois de tantas vezes parecendo que eu levaria um soco, já até havia perdido o medo.
Aproveitei que ele estava de costas e dei-lhe uma livrada na cabeça! Vingança por ter me feito subir e descer aquelas malditas escadas e pelo stalk indesejado.
– Qual é o seu problema?! – Murmurei para que somente ele pudesse ouvir, enquanto o mesmo massageava o local atingido.
– Isso eu pergunta pra você! O que foi fazer em minha casa ontem?!
Céus. Ele gritou. Ele. Gritou. Não creio.
Alguns estudantes olharam em nossa direção. Pude notar que alguns riram, uns maliciaram, outros, por outro lado, ignoraram. Afinal, éramos uma menina e um rapaz, escondidos atrás de uma moita! – Coincidência ou nem?-
– Eu já disse! Só levei algumas lições que você perdeu na semana de sua ausência!
Já que já havíamos sido descobertos, o que custava não gritar também? E uau, sequer sabia que eu tinha voz para gritar. Que eu me lembre, nunca mais precisei fazer isso desde minha puberdade, mas voltando ao assunto...
– Mentirosa! – Ele me encarou bravo; seria nessas horas que eu falaria “Levarei um soco”, porém não. A esse ponto estava merecendo um tiro. Ou uma facada. – CrêemDeusPaitodopoderoso.–
Dei-lhe outra livrada na cabeça. – Calado! Eu nunca iria à sua casa por conta própria! Tenho coisas mais interessantes a se fazer. – De certa forma, abaixei meu tom, voltando a minha calmaria repentina. Apesar de já ser um pouco tarde para não querer chamar a atenção.
Alguns alunos já nos olhavam como se estivessem vendo televisão, para ser mais exata, até um Reality Show. Xô!
– Ora... – Ele se levantou, tomando o livro de minhas mãos e o atirou para outro lado, raivoso.
– Ei! Eu não terminei de lê-lo! Vá buscar!
Admito; estava começando a ficar brava, o que era raro. Porém, não havia muito que se fazer. Eu era uma nerd baixinha de meros 1,57cm, enquanto ele era um valentão que aparentava ter seus 1,80cm, até mais, além disso, se duvidar.
O sinal estava tocando e ele se virou para sair da moita.
– Você não vai voltar para a sala antes de pegar meu livro, mentecapto! – Exclamei agarrando na camisa larga do uniforme do loiro.
Não tinha muita força nos braços e ele continuou andando. Resultado: Eu parecia uma carroça, enquanto ele seria um cavalo. – Irônico, não? – E o pior; estávamos sendo bobos-da-corte para o restante dos “expectadores”, que haviam aumentado subitamente.
Môo, não cairia o braço se ele pegasse meu livro de volta. Preferia me arrastar em suas costas pela escola inteira do que simplesmente evitar toda a vergonha.
Estava passando muita, mas muita vergonha... Francamente, pela primeira vez sentia aquela sensação de grande rubor no rosto invadir as maçãs de meu rosto.
Para ajudar, o som perturbador de risadas aleatórias invadia meus tímpanos.
Andando próxima a ele, as coisas iriam de mal a pior. Por hora, eu era uma nerd desmoralizadora de valentões, bobo-da-corte e uma carroça humana.
Pensar que havia praticamente muitos dias e meses de aula restantes para dizer “Quero que isso termine logo”. Teria que suportar esse inferno vergonhoso e extremamente perigoso para minha reputação... Se é que aquilo existia ainda.
E mais uma vez... Eu e minha maldita boca!
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