Crianças Rubras
2 Capítulo Um: Sem Rumo
Notas iniciais
Cinco anos depois…
O sol do amanhecer brilhava acima das cadeias montanhosas gélidas ao norte do território Carja. No sopé de uma das montanhas estava acampado um grupo de jovens estranhos, inquietos e muito letais. A guerra os havia transformado em mercenários. Guerreiros pagos para fazerem o trabalho sujo de outras pessoas. Tudo o que fosse possível para sobreviver. Eles eram como uma família, meio esquisita e disfuncional, mas muito unida. As pessoas os chamavam de Fantasmas de Sangue ou Crianças Rubras. Juntos eles haviam enfrentado mais de cinco batalhões e libertado inúmeros prisioneiros. Eram os mais procurados pelo exército do Rei Sol Louco.
Havia uma garota de guarda enquanto os outros descansavam. Ela estava embrulhada em um cobertor de peles de bode que alguém havia deixado para trás em um incêndio causado pelos Carja em um pequeno acampamento Banuk. Seus olhos acompanhavam o nascer do sol, enquanto sua respiração branca acompanhava o ritmo do som do vento passando pelos cristais de gelo que se formavam nas extremidades das rochas. A cicatriz no lado esquerdo de seu rosto se estendia da testa, passando pela sobrancelha, até chegar ao meio de sua bochecha. Alguns flashes do dia em que a conseguiu invadiam sua mente sempre em que ela se encontrava quieta, sem fazer nada. As palpitações em seu peito eram um aviso. Precisava pensar em algo diferente.
Talliyah era uma sobrevivente dos horrores que a guerra havia causado. Assim como os outros. Mas havia algo de muito assombroso no fato de ter estado tão perto do começo de tudo que a impedia de manter seus olhos fechados por muito tempo, por mais pesados que eles pudessem estar.
— Você dormiu? — Uma voz profunda e aveludada a despertou de seus devaneios.
O garoto mais velho do grupo havia acordado e agora se encontrava sentado ao seu lado esquerdo. Seus cabelos castanhos encobriram os olhos escuros que estavam voltados para o rosto da amiga que estampava a resposta para a sua pergunta. Talliyah não havia fechado o olho durante a noite inteira. A garota não respondeu e se virou de lado ficando de costas para ele. Ela brincava com os dedos das mãos por baixo do cobertor, enquanto lutava para se manter alerta.
Ele riu baixinho e pousou a mão na cabeça daquela menina teimosa a puxando para seu ombro. Talliyah se acomodou nos braços dele e passou os seus ao redor da cintura do garoto. Fechou os olhos e começou a respirar lentamente. Seu cabelo castanho-madeira caí em uma única trança do lado direito de seu pescoço sujo e ele acompanhava com os olhos todas as curvas que aqueles fios faziam.
— Está tudo bem. Pode dormir agora. — Ela se ajeitou mais um pouco. — Eu estou aqui.
Quando Talliyah acordou mais tarde ela sentiu cheiro de algo assado. Guaxinim. Os outros do grupo haviam feito uma fogueira e estavam preparando seu estoque de comida e suprimentos para a próxima missão que iriam enfrentar. Ela não estava mais nos braços de seu amigo e colega de equipe, mas sim em um dos colchões surrados no chão. Uma garotinha de cabelos amarelos jogou um pedaço de pinha em Talliyah e riu baixinho.
— Ei, Lore! Deixe-a dormir. — advertiu uma voz masculina.
— Por que nós temos que trabalhar e ela pode dormir a tarde toda? — perguntou a menina com um olhar de coitadinha.
— Porque ela montou vigia a noite toda e não pode dormir. — respondeu a mesma voz de antes.
— Já acordei. — Talliyah se eticou no colchão e se colocou de pé.
Seus olhos encontraram os de Nelbrund e houve um tipo de agradecimento silencioso que ele entendeu muito bem. Ela cambaleou para perto da fogueira onde se sentou entre Zekko e Howl, que estava cuidando da carne assando.
Zekko se encontrava quieto. Tateava um dispositivo que haviam encontrado em uma ruína antiga. Um dispositivo pequeno, metálico e triangular. E fica repetindo para si próprio: "Para que que isso serve?”.
Ulatai empacotava vários potes de madeira com coisas pegajosas, gosmentas e fedidas, enquanto Lore não parava de falar o quanto aquelas coisas eram horríveis e esquisitas.
— Isso aqui é o que vai salvar a sua vida! — disse Ulatai quase no limite.
Talliyah observava a discussão das duas enquanto lutava para se manter acordada. Seu corpo parecia pesar uma tonelada e sua mente estava um turbilhão. Ela tivera o mesmo pesadelo. Aquele que sempre tinha quando fechava os olhos. Que ela estava perdendo sangue e morrendo.
O garoto de cabelos pretos como a noite se chama Howl. Ele e Talliyah foram os primeiros a se encontrar. Ela estava fugindo de alguns soldados Carja quando Howl a salvou, acertando flechas em todos, bem no meio das pernas. Eles eram crianças na época. Órfãos sem lar. Mas haviam acabado de encontrar a sua tribo. Sua família.
Ele sorriu para ela enquanto ela apoiava a cabeça em seu ombro. Observando as chamas. Nelbrund observava a cena e retorceu o nariz. Ele estava calibrando algumas armas quando Lore deu um gritinho. Todos os olhares se voltaram para ela.
— Já sei o que podemos fazer antes de irmos! — exclamou animada. — Caçar Cortadores!
— Cortadores? — questionou Ulatai. — Já temos tudo o que precisamos deles.
— Deixa de ser estraga-prazeres, Uli! Vai ser divertido!
— Divertido vai ser acabar nosso estoque para a missão numa coisa fútil dessas.
— Mas…
— Desculpa, Lore. — disse Talliyah. — A Ulatai tem razão, não podemos fazer isso agora.
— Ninguém nunca me escuta. — murmurou a mais nova fechando os braços.
O garotinho agora se encontrava mais focado do que antes. O objeto possuía um estranho brilho roxo saindo do risco que atravessava o aparelho ao meio. Zekko passou o dedo sobre o risco e começou a brilhar mais ainda. Ele colocou o objeto acima da orelha e…
— Ah!
Talliyah segurou o ombro do menino para que ele não caísse. O objeto caiu na neve.
— O que foi Zekko? — Ela perguntou com uma voz calma.
— Brilha! O fogo brilha!
— Do que ele tá falando? — Lore pegou o pequeno triângulo e colocou na têmpora. — Uou!
O mundo se encheu de brilho, gráficos e glifos estranhos. O fogo cintiliva e a neve estava colorida. Antigas rotas foram traçadas para locais que já não existem mais. A garota apontou a luz para um cilindro de fama e anagramas apareceram diante de seus olhos. O foco captou um pequeno esquilo aos arredores. Lore se levantou e começou a correr atrás da criatura.
— Ei, isso é meu! — Zekko correu atrás de Lore e a agarrou pelo braço. — Me devolve!
— Nem vem! — Lore o empurrou, derrubando-o no chão.
Lágrimas se formaram ao redor dos olhos do garoto. Ele pegou um punhado de neve e atingiu a cabeleira loira da colega. Ela olhou para ele com indignação enquanto ele tentava segurar uma risada caótica. Em questão de instantes a garota pulou em cima do garoto e começou a afundá-lo na neve. O menino se debatia enquanto gelo derretido pelo calor de sua pele se juntava em suas narinas e começava a afogá-lo. A menina sorria deliberadamente como se estivesse se divertindo. E ela estava.
— Ei!
O resto do grupo correu para onde os dois estavam e um par de braços tiraram Lore de cima de Zekko. O garoto levantou a cabeça tossindo, Talliyah se abaixou ao seu lado massageando suas costas como sua mãe fazia quando ela engasgava. Depois que parou de tossir, o menino fechou as duas mãos e começou a golpear a cabeça enquanto lágrimas desciam pelo seu rosto.
— O que fez agora, hein? — perguntou Nelbrund irritado.
— Eu não fiz nada! A gente só tava brincando!
— Você quase afogou ele! — disse Talliyah.
— Eu não fiz isso! Ele queria pegar o objeto e me acertou com uma bola de neve na cara!
— Me dá! — exigiu Nelbrund. — Agora!
— Não! — protestou Lore. — Você e a Talliyah sempre agem como se mandassem em tudo! Mas vocês não mandam em nada!
— Lore… — Howl estendeu a mão. — Dê esse objeto pra mim.
Lore bufou e relutantemente andou até Howl para entregar o objeto estranho. Ele analisou o metal triangular por alguns segundos e depois colocou em sua bolsa lateral.
— Veremos o que fazer com ele. Depois da missão.
O grupo voltou a empacotar. Talliyah ficou com Zekko até que ele se acalmasse depois foram ajudar os outros com os preparativos finais. Lá pelo fim da noite eles estavam se movendo para o Norte, em direção à um vilarejo Oseram afastado. Se passaram dias de caminhada.
Havia cheiro de enxofre, carne queimada e morte por todos lugares que eles passavam que fora tocado pela guerra. Nelbrund sentia um arrepio toda vez que via a armadura Oseram cintilar em cadáveres no meio de vilas destruídas. Ele havia sido um deles. Antes da guerra. Trabalhava como ajudante de seu pai na velha oficina de tralhas no limite com o território Carja. Mas agora tudo o que restou daquele tempo são as dolorosas lembranças e os projetos de armas que ele desenvolve para manter sua nova família a salvo.
Foi Zekko o primeiro escutar. Gritos em algum lugar por perto. Ele diminuiu o passo e tocou o ombro de Talliyah que andava ao seu lado. A garota escutou o grito de uma mulher alguns segundos depois.
— Esperem! — ordenou ela baixinho.
Todos pararam de andar. A gritaria chegou aos ouvidos de todos e eles se entreolharam. Subiram de vagar o barranco de neve e se agacharam quando obtiveram visão do vilarejo do outro lado.
Soldados Carja ateavam fogo em casas e oficinas. Massacraram alguns aldeões sem piedade enquanto outros eram feitos prisioneiros. Uma menininha e sua mãe estavam sendo separadas quando uma flecha atingiu o pescoço do guarda que arrastava a garotinha e outra atingiu o olho daquele que segurava a mãe. Uma chuva de flechas começou a cair sobre os soldados e elas pareciam vir de lugar nenhum.
— Malditos Fantasmas! — sibilou o capitão.
O Exército do Sol começou a recoar e as crianças os perseguiram pelas sombras da noite. A superstição pegou o inimigo. Sons grutais de bestas saiam das gargantas dos jovens deixando suas presas fragilizadas pelo medo. O batalhão se dividiu e assim também fez o grupo.
Nelbrund e Zekko encurralaram alguns soldados próximo de uma passagem que foi mandada pelos ares. Soterrando seis ou cinco pessoas. Ulatai e Howl perseguiam um outro grupo que pensaram estar seguros o bastante para fazer uma pausa. Foi quando os garotos surgiram do oculto e cortaram todas as gargantas. Lore havia ficado no vilarejo. Acertando flechas nos soldados que ainda estavam por lá.
Talliyah perseguia o capitão implacavelmente. Ele tentava fugir. Assustado com tudo o que vira. Talliyah corria pela neve como se levitasse. Sem fazer nenhum barulho. O céu estrelado sob sua cabeça e a respiração ofegante do capitão eram suas únicas companhias no gélido vazio de uma natureza em hibernação.
O capitão diminuiu o passo acreditando estar fora do perigo quando uma faca atingiu suas costelas por trás. Ele atingiu a neve arfando e cuspindo sangue. Seus olhos se ergueram até uma figura encapuzada diante de si. Mesmo diante da imensa escuridão, ele reconheceria aquele tecido em qualquer lugar. Seda Carja. De qualidade reservada apenas a nobreza.
— Q-q-quem é você? — Ele gaguejou.
A sombra não respondeu.
— P-p-por quê?
Ela ergueu uma faca acima da cabeça.
— Hora de pegar pelos seus pecados, Mharev. Que o amanhecer queime todos eles! — A faca foi enfiada tão abruptamente no peito que a vida de capitão se esvaiu num instante.
Quando ela era criança e corria pelos corredores do templo, Clérigos do Sol costumavam dizer que suas cinzas douradas não saíram de seu corpo e se uniriam ao Eterno Amanhecer porque ela era uma criança muito levada. E lá estava ela sentada diante de um homem honrado pelo Rei Sol em pessoa. Um homem morto. Cinzas douradas não saiam de seu corpo. Não havia nada no ar. Nada além de sangue e gelo.
Fale com o autor