Crianças Rubras
3 Capítulo Dois: Os Fantasmas (Parte I)
Notas iniciais
Segundo a tradição Oseram, uma mulher jamais deveria assumir a responsabilidade de uma forja. Benidja nunca concordou com tal opinião. Desde pequena causava confusões por onde quer que fosse enfrentando seu pai ou qualquer figura de autoridade masculina que ousasse reprimi-la. Não foi uma decisão difícil a de ir embora.
Desde que partiu, Benidja se aventurou pelas ruínas dos antigos. Cavando seus túmulos e desenterrando seus segredos. A coisa mais misteriosa que encontrou foi um homem. Vivo. Seus olhos encontraram os da mulher por um segundo. Ela pode perceber a imensidão de um mar escuro que havia neles. Era um homem alto. Usando trajes que Benidja jamais havia visto de leste a oeste. As cores eram radiantes como os Carja, couros e peles eram usados como os Nora, o metal era muito bem distribuído como os Banuk. Aquele homem não era de lugar algum. Ela o achou belo. Como um príncipe. Mas os príncipes eram carjas e Benidja odiava carjas. Eles haviam tirado tudo de mais importante que ela já tivera.
Com o tempo, Benidja e o homem misterioso se encontraram novamente. Ele sempre calado. O rosto oculto por um capuz de pele de raposa, deixando visível apenas uma cicatriz em seu lado esquerdo. O homem começou a acompanhá-la sem dizer nenhuma palavra quando se encontraram pela terceira vez. E com tempo ele e ela desenvolveram uma relação silenciosa de companheirismo e amizade.
As poucas palavras que o homem dissera indicavam que estava à procura de alguém. Uma garota. Sua filha. Ele a havia perdido nos primeiros dias dos Ataques Rubros e acreditava fielmente que ele ainda estava viva. Benidja sentia pena do pobre homem. Mal acostumado ao gelo do norte e ao calor do oeste. Se arriscando por uma possibilidade improvável. Mas ela não podia negar que a esperança era tudo ao que eles conseguiam se agarrar em momentos de guerra.
Haviam rumores sobre uma equipe de crianças circulando pelo território Oseram. Eles eram letais, altamente armados e completamente loucos. Estavam acampados em um vilarejo recém liberto da praga Carja. Onde crianças dançavam, jovens bebiam e os adultos festejavam.
O barulho que retumbava pela aldeia era uma mescla de risadas, gritos, música, pés e palmas. Os Oseram celebravam seus mortos celebrando a vida que tiveram, enquanto comemoravam que ainda estavam vivos. Uma menininha de longos cabelos loiros e olhar feroz dançava com uma garota mais velha de pele morena e cabelos castanhos. Seus movimentos eram acompanhados com bastante atenção por um rapaz de olhos cinzas e barba rala, sentado numa mureta, longe da multidão.
Zekko e Nelbrund faziam companhia um ao outro na noite fria, enquanto todos os outros se divertiam ao seu modo. Zekko estava deitado sobre a neve, olhando as estrelas, e imaginando o que poderia haver além do manto negro que cobria o céu. Enquanto Nelbrund bebericava um copo de cerveja, quase incapaz de fazer qualquer coisa além de encarar a mais bela de todas as beldades que ele já vira.
— Você não precisa ficar aqui comigo. — disse um dos meninos.
— Hum?
Zekko riu e se virou para o mais velho.
— Chama ela pra dançar.
Mas antes que Nelbrund pudesse reagir, Ulatai apareceu correndo através da escuridão e parou ao lado de Zekko enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Zekko… Se eu… Te mostrar uma coisa… Você promete… NÃO contar pra Lore?
Zekko arregalou os olhos com curiosidade e concordou com a cabeça. Com um salto, Ulatai se pôs de pé novamente e ajudou o mais novo a se levantar. Juntos eles partiram para um lugar não muito longe dali. Em uma caverna iluminada pela luz do luar. Por um momento, Nelbrund os observou com atenção. Temendo que as crianças fossem muito a fundo e não conseguissem mais sair. Mas depois de um tempo, eles estavam de volta carregando uma espécie de dispositivo retangular e achatado.
Nelbrund deu um sorriso pelo entusiasmo dos jovens enquanto tentavam desmontar o aparelho. Um jato de tinta acertou o rosto de Ulatai e ela tombou para trás surpresa. Zekko riu e na mesma hora foi atingido por uma mola de ferro. Minutos depois ele estava fugindo, enquanto Ulatai o perseguia com um pedaço de plástico em mãos. O mais velho voltou sua atenção para a festa.
Talliyah estava sozinha. Ela se encostou contra uma parede de madeira enquanto olhava as pessoas com uma certa tristeza. Um rapaz alto, de cabelos tão negros quanto a noite e olhos mais escuros ainda se juntou a ela. Howl estava ao seu lado segurando uma caneca de seiva de catador. Ele bebericou um pouco do líquido que desceu queimando em sua garganta. Fez uma careta. Tallyah riu baixinho e encostou seu ombro no ombro do amigo.
— Quando isso vai acabar? — perguntou ela em um suspiro profundo.
— O quê? — Ele estava olhando para dentro do copo se perguntando se aquilo não era realmente óleo de máquina.
Talliyah riu. Um pouco mais alto dessa vez.
— Deixa pra lá. — Ele sorriu para ela. E ela para ele. Como faziam há quase cinco anos. Significa que podiam confiar um no outro.
Cinco anos antes…
Havia uma garotinha correndo pela floresta. Uma máquina feroz a perseguia. Sua velocidade em quatro patas de metal era muito superior às pequenas pernas frágeis de carne e osso da menina. Sua única vantagem, era um certo domínio na arte da esquiva.
A máquina se preparou para avançar, mas a menina pulou para o lado e com o pé atingido uma árvore tomou impulso indo para o Leste. Suor escorria de sua pele. Havia dias que estava fugindo. Não só de máquinas, mas também de homens. O Exército do Sol marchava por aí matando a qualquer um ou a qualquer coisa em seu caminho. E aqueles que sobreviviam viravam escravos.
Ela estava quase se entregando ao inevitável, completamente exausta e sentindo que não poderia mais aguentar, quando uma flecha atingiu com precisão uma das partes vulneráveis da besta. Talliyah aproveitou a distração e se arrastou até a grama alta. Tremendo da cabeça aos pés.
O animal artificial ficou em estado de alerta. Os cabos em seu dorso se eriçaram e ele esticou o corpo em uma posição felina. Outra flecha o atingiu na costela. O Dente-Serrado detectou um movimento acima da copa de uma árvore e se atirou contra ela. Um garoto Nora se chocou contra o chão e, ignorando a dor que irradiava de sua perna, ele se colocou de pé novamente ajeitando o arco em suas mãos.
Ele quase não teve tempo de desviar quando a máquina lançou um outro ataque. As garras arranharam seu braço esquerdo e ele urrou. O couro rasgado pendendo pro lado. Em meio a gotas de sangue e gemidos de dor, o garoto se jogou ao chão deslizando enquanto a fera pulava para cima dele e acertou uma flecha com ponta espetada bem no meio das entranhas metálicas.
A máquina caiu de lado. Howl tirou uma pequena faca de seu cinto e se arrastou até a besta atordoada. Apunhalando-a bem na base do pescoço. A luz de seus olhos se apagou e seus circuitos cessaram. O menino se levantou e começou a retirar as peças que queria da carcaça daquele demônio abatido.
Talliyah o observava a uma certa distância. Suspirou aliviada pela perseguição ter acabado, mas permanecia tensa com a presença de um desconhecido aos arredores. Ela tentou se levantar silenciosamente, mas seus membros vacilantes a fizeram cair em cima de um galho. Howl pegou seu arco e apontou para a grama alta. Talliyah soltou um soluço de pavor.
Com o arco ainda apontado para aquela gramínea vermelha, ele se aproximou devagarinho. Parando há uma distância segura do alvo.
— Quem está aí? — perguntou. — Apareça devagar e com as mãos pra cima, senão eu atiro.
Uma trêmula cabeleira castanho-mel surgiu por entre a vegetação, seguida por um rosto pálido com enormes olhos castanhos e redondos arregalados de terror. Suas mãos delicadas estavam abertas e à mostra acima da cabeça. Howl abaixou o arco e em questão de segundos a garota se lançou contra ele, derrubando-o. Ela enroscou seus braços finos em no pescoço do garoto e suas pernas no torso e começou a asfixiá-lo.
Howl lutou para se soltar, mas o ar já escapava de seus pulmões. Ele tateou até encontrar sua faca e a cravou na coxa direita da menina. Ela urrou de dor e o soltou. O garoto se colocou de pé, pegou sua bolsa de peles e correu rapidamente para a parte mais densa da floresta. Deixando seu arco para trás.
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