Crescent Valley
2 1. Aaron
Notas iniciais
Batidas na porta do quarto me fizeram despertar, ainda respirando com dificuldade com os pulmões em brasa. Para o meu alivio tinha sido apenas um sonho. Um bem real por sinal.
Meus lençóis estavam completamente encharcados em suor e colavam em meus braços como se fossem adesivos. Esfreguei os olhos e me sentei na cama procurando meus chinelos para ir ate ao banheiro tomar um banho. Eu teria que trocar a roupa de cama devido ao excesso de suor ali. Isso é o que chamo de sonhos molhados.
Fui ate ao banheiro ainda bocejando, a passos tão preguiçosos quanto os de uma tartaruga em um lamaçal. Essa não era a primeira vez que isso me acontecia, mas esse sonho era algo novo. Nunca senti nada tão real em toda a minha vida. Não era como aquelas cenas indefinidas e confusas normais de sonhos, eram como um filme em alta resolução e bem definido. Um pressentimento ruim me ocorreu, mas fiz o possível para ignorar aquilo. Em alguns minutos eu teria que enfrentar meu primeiro dia de aula do segundo ano, e isso já é ruim o bastante para um único dia.
Escovei os dentes enquanto tomava uma ducha para economizar tempo e logo fui ate o meu quarto me vestir. Coloquei uma jaqueta jeans escura sobre minha camiseta vinho e um jeans escuro com os coturnos habituais. Sóbrio demais para o primeiro dia de aula, mas quem se importa? É só mais um dia de aula afinal de contas, nada de diferente iria acontecer. Nunca acontece, não importa em qual lugar do mundo você viva, o primeiro dia de aula sempre será a mesma coisa todos os anos.
Pessoas vão se abraçar, pessoas vão sentar em seus lugares preferidos, e outras pessoas só estarão lá porque são obrigadas a estar. O meu caso, se te interessa saber.
Joguei minha roupa de cama no cesto do banheiro e apanhei minha mochila no guarda-roupa junto com o celular sobre a cômoda ao lado da cama. Desci as escadas com um pouco de pressa quando percebi que estava um atrasado e encontrei meu irmão tomando café enquanto mexia em seu celular. Heath era meu irmão mais novo, ele tinha dezesseis e eu dezessete, mas às vezes ele parecia ser o irmão mais velho porque era mais responsável quando o assunto era a escola.
Peguei algumas torradas de seu prato e uma caixa de leite na geladeira. Minhas refeições eram uma bagunça porque nada nunca me satisfazia, eu sempre estava com fome e reclamando da mesma.
—Animado para o primeiro dia? –Heath perguntou.
Olhei para ele cansado, sentindo minhas pálpebras pesadas.
—Ainda pode me matar, temos tempo.
Ele sorriu enquanto ia em direção a pia para limpar o que tinha sujado. Éramos apenas nos dois, então fazíamos o possível para manter tudo limpo e evitar discussões desnecessárias. Heath apanhou sua mochila e passou por mim batendo em meu ombro.
—Te espero no carro, não demore.
Primeiro e ultimo aviso. Se eu demorasse ele iria ficar apertando a buzina ate os vizinhos começarem a reclamar. Heath não era a pessoas mais paciente do mundo, mas ainda era um bom garoto.
Em menos de dois minutos eu já estava no carro dirigindo em direção a nossa nova escola em Crescent Valley. O prédio escolar era normal como o da maioria das escolas do norte, havia campos de esportes de um lado, e uma área de descanso do outro lado onde bancos e mesas de madeira e concreto eram dispostos sobre a grama para acomodar os estudantes em seus períodos de folga. O campus era cercado por arvores que já faziam parte da composição da floresta que ladeava toda a cidade. Parecia um lugar calmo, pelo menos a primeira vista.
Minha mãe e meus tios também estudaram aqui quando estavam no ensino médio, assim como a maioria dos Backer antes deles. Não era algo como uma tradição, mas ate quatro anos atrás a Crescent High School era a única escola destinada ao ensino médio na cidade.
Demorei alguns minutos ate encontrar uma vaga para estacionar nosso carro, algo que eu já deveria ter previsto. Caminhando junto a meu irmão em direção à secretaria eu pude reconhecer alguns rostos antigos como Savannah Ritchfeld e os gêmeos Claffin e Jensen Eastwood, só alguns dos mais conhecidos. Os terceiranistas nos olharam como sempre olham para novatos; com desdém. Heath pareceu não se importar porque continuou falando sobre o quão feliz estava em voltar para a nossa cidade natal e reencontrar os antigos amigos. Nós passamos os últimos seis anos morando com a nossa avó paterna em Los Angeles, então eu concordava com ele nessa parte. Estar em casa outra vez era bom.
Quando nossos pais morreram no acidente de avião há seis anos a nossa avó paterna ficou com a nossa guarda ate podermos ser emancipados legalmente. Ela não podia se mudar para Crescent Valley devido a seus negócios e empresas, então nossa única opção era ir morar com ela.
Adelaide Silverstone não era a mulher mais atenciosa do mundo, mas fazia o possível para garantir nosso bem estar físico e emocional, e por isso também não se importou muito em nos emancipar. Ela sabia que sentíamos saudades da nossa casa e que não adiantaria ficar contra a nossa decisão sabendo que isso poderia lhe trazer ainda mais problemas. A última coisa que vovó queria era problemas.
Voltei minha atenção a Heath que brigou comigo por eu não estar prestando atenção no que ele dizia, enquanto subíamos a escadaria principal. A sala da secretaria era bem organizada apesar das pilhas de papeis que se amontoavam pelas estantes e mesas como se fizessem parte da decoração do ambiente. A senhora Edwards nos entregou as listas de horários e as chaves nos nossos armários e saímos em direção as nossas aulas.
Os corredores tinham cores claras e portas de madeira amarela, com uma janelinha de vidro na altura do rosto. Armários de cor cinza se estendiam pelos corredores e não demorou muito ate encontrarmos os nossos, que ficavam lado a lado. Meu primeiro horário era literatura e o de Heath era biologia.
—Você esta bem? –indagou
—Estou Heath, pare de se preocupar.
Ele olhou ao redor enquanto pessoas iam e vinham pelo corredor tão atrasadas quanto nós dois. Ele se aproximou falando um pouco mais baixo.
—Tem certeza, Aaron?
—Pare com isso Heath. Eu não vou me transformar, esta tudo sobre controle.
—Mas você sabe... se acontecer, saia correndo ok? As pesso... –fechei a porta do armário rindo de canto.
-Tem certeza que esta tentando ensinar a um lobisomem sobre como ser um lobisomem?
Ele balançou a cabeça, irritado por ter sido cortado.
—Há outros como eu na escola, já sei. Deveria estar preocupado com si mesmo Heath, o humano aqui é você.
Afastei-me dele segurando os livros de braços abertos. Meu irmão não gostava de como eu tratava minha situação com tanta calma e despreocupação, afinal, ele não sabia como era ser um lobisomem. Minha mãe era uma Nascida, e meu pai um Transformado. Nunca soube bem sobre o que o levou a ser transformado em lobisomem, mas sempre soube que foi minha mãe que o mordeu. Minha natureza lupina despertou tardiamente quando eu já tinha onze anos, e tudo o que sei sobre ser um lobisomem aprendi no ano anterior ao acidente que os matou e com o que descobri por conta própria nos anos seguintes.
Heath ao contrario de mim nunca manifestou sua natureza sobrenatural. Minha mãe dizia que talvez fosse pelo fato do meu pai não ser um Nascido, e isso tornava os genes instáveis. Apenas filhos de Nascidos têm cem por cento de chance de também nascerem com o gene, em casos de Nascidos e Transformados a chance cai para cinquenta por cento, e crias de Transformados tem uma chance muito pequena de nascerem lobisomens.
Enquanto viva a minha mãe era arquivista do registro sobrenatural da biblioteca das Docas, onde ficava guardado tudo sobre a história do mundo sobrenatural em Crescent Valley. Meu pai era professor de historia na universidade de uma cidade vizinha, e foi assim que eles se conheceram. Minha mãe e ele estudaram juntos na universidade e se conheceram por alguns amigos em comum, e quando se formou ela já estava gravida de mim.
Balancei minha cabeça afastando as memorias e entrei na sala de aula procurando um lugar disponível no fundo da classe. Havia dois perto da janela e um mais próximo a porta. Escolhi o penúltimo próximo das janelas por ficar mais afastado da lousa e também mais próximo ar livre. Eu não gostava de me sentir preso e salas de aula me passavam essa sensação com frequência.
O professor era um cara alto e negro, tinha uma voz bem clara e uma expressão cansada no rosto. Deveria ter uns cinquenta anos devido aos fios brancos sobre a cabeça quase raspada e calva.
—Sejam bem vindos alunos, para mais um ano letivo. Eu sou o Adrien Blake, seu não tão novo professor de literatura. –ele passou a mão sobre a cabeça, se referindo a idade e alguns riram- Bem, hoje é o primeiro dia de aula, então vou lhes entregar um questionário com algumas perguntas para saber como esta o conhecimento de vocês na matéria, certo? Certo.
Ele passou a mão sobre a pilha de folhas e pediu a ajuda de um garoto que sentava na frente para ajudá-lo a entregar. As questões não eram difíceis, todas dissertativas porem fáceis, não exigiam um conhecimento muito profundo.
A garota que se sentava na ultima carteira antes de mim se chamava Becky, ela tinha pele cor de jambo e olhos castanhos cor de terra. Era israelita e adotada por um casal de médicos, tinha problemas de adaptação social e por isso não gostava muito de interagir com a turma. Era uma garota legal, tinha uma voz tão doce quanto seu jeito delicado.
Quando a aula acabou ela me acompanhou ate meu próximo período que era economia, e depois disso seguiu pelo corredor para sua aula.
No terceiro período minha aula foi com Savannah Ritchfeld, que continuava a mesma idiota de sempre. Não que isso tirasse toda a sua beleza, mas ela só tinha isso a oferecer as pessoas. Ela era uma das garotas mais altas da escola, tinha uma pele de cor negra e grandes olhos que combinavam com seus lábios marcados. Ela não passava disso, Savannah era tão raso quanto um copo de água.
Durante a aula ela conversava com duas amigas a todo o tempo fazendo a professora chamar a sua atenção diversas vezes para que ela parasse com seu grasnar irritante. Ela apenas se continha a lançar um olhar sentido, e logo voltar a seu show pessoal.
Quando o sinal tocou e eu estava saindo da sala esbarrei por acidente em Todd, um dos caras da natação que fazia parte do circo de aberrações de Savannah. Ele me empurrou contra um armário derrubando minha mochila no chão, se divertindo em mostrar para todo mundo o seu enorme ego. Eu poderia ter lhe dado uma surra ali mesmo e fazê-lo se arrepender de ter encostado suas mãos em mim, mas eu não podia brigar no primeiro dia de aula e ele era apenas um humano. Quando ele saiu sorrindo com o circo de aberrações atrás de si eu peguei meu material espalhado e notei que alguém estava parado de frente a mim.
Heath me encarava com um olhar na amigável. Peguei meu estojo de sua mão e o enfiei dentro da mochila indo para fora do prédio escolar em direção ao gramado lateral para uma mesa mais afastada das outras. Heath sentou-se de frente para mim e pegou algumas coisas que tinha comprado na cantina da escola para nós.
—O que aconteceu lá no corredor?
—Nada de mais. –Peguei uma barrinha de cereal- Esta gostando daqui?
Ele afirmou com o queixo, colocando um lado do fone de ouvido.
—É bem melhor que a Belmont High. Ate já fiz algumas amizades.
Rolei os olhos, entediado.
—Alguém tem que fazer.
Meu irmão tocou meu ombro enquanto mastigava alguma coisa que tinha cheiro de chocolate e fazia anotações em seu caderno.
—Qual é Aaron? Não é o fim do mundo. A escola é legal, as pessoas são legais, será que não pode fazer um pequeno esforço para fingir que esta gostando?
Por um segundo me questionei se estávamos falando sobre as mesmas pessoas.
—Eu não disse que não estou gostando.
—Conheço você há dezesseis anos Aaron, você acha que não estou percebendo?
—Vamos com calma Professor Xavier, só estou tendo um dia ruim.
Ele deu de ombros e continuou a rabiscar seu caderno batucando sobre a mesa de madeira. Um som ao longe dali chamou a minha atenção por puro instinto. Percebi alguns outros olhares discretos em direção a floresta, mas logo deram de ombros, desinteressados. Outra vez o som chamou a minha atenção, mas dessa vez apenas eu tinha prestado atenção a ele. Vinda de longe dentro das arvores, há pouco mais de um quilometro dali.
Era um uivo dolorido, machucado.
—O que foi agora?
Mandei ele se calar e escutei o som outra vez. Vinha do norte.
O sinal do retorno escolar tocou e Heath começou a guardar suas coisas. Eu sabia que não devia, mas meus instintos me diziam para que fosse ate lá. Joguei minha mochila para Heath junto com a chave do meu armário.
—A onde você vai Aaron?
—Tem um animal machucado na floresta, preciso ir ver o que é.
—Não! Esta ficando louco? É perigoso Aaron, não pode ir sozinho!
Voltei para perto dele e esperei as pessoas se afastarem mais.
—Se eu não voltar em meia hora, chame a policia.
—Não, eu vou com você. –ele jogou a mochila de volta para mim.
—Não, não vai. Preciso que cubra minha saída. Prometa que não vai fazer nada estupido.
Heath sorriu nervoso e incrédulo pegando a mochila de volta.
—É você quem vai entrar na floresta atrás de um animal selvagem, e sou eu que não deve fazer nada estupido? –exasperou- Certo.
Pisquei para ele e sai disfarçado em direção as arvores quase correndo quando já tinha tomado uma boa distancia do campus. Tentei sentir o odor do lobo sobre a umidade que vinha do solo, mas era difícil encontrar um odor especifico em meio a tantos outros. E pra ser claro meus instintos ainda estavam se acostumando com o ambiente sobrenatural de Crescent Valley.
Subi rápido por uma inclinação íngreme e cheia de galhos quebrados ate chegar ao topo e não sentir mais o odor do animal. Algo estava errado. Eu tinha certeza que o cheiro vinha dali, mas não havia animal nenhum. Olhei ao redor com a visão lupina para tentar encontrar algum sinal do animal e continuei perdido com meus sentidos. Só me restava um último recurso, e foi nele que depositei todas as minhas esperanças.
Fechei os olhos por alguns instantes e tentei isolar a maioria dos sons como cantos de pássaros e passos de outros animais, ate chegar a um ponto próximo de mim onde apenas um batimento descompassado persistia. Ele estava perto. Muito perto.
Quanto abri os olhos o animal avançou contra mim com os dentes expostos me fazendo tropeçar para trás e cair de bunda no chão. Ele latiu com as íris azuis geladas cintilando, fazendo a pelagem cinza parecer ainda mais escura. Era um lobisomem.
Coloquei-me de pé com cautela, e em movimentos calculados indo a sua direção com os braços para frente tentando acalmá-lo. Ele ganiu e recuou, mostrando o que lhe causava dor. Estava preso em uma armadilha de urso com a pata direita rasgada e parte do osso exposto, mas sem muito sangramento. Quando suas íris voltaram ao normal eu fui ate a armadilha e afrouxei a prensa que o feria, fazendo mancar para sair dali. Quando tentei me aproximar dele para checar a ferida ele rosnou e avançou contra mim arranhando meu braço esquerdo com raiva, e depois correu pela floresta ate desaparecer de vista.
Eu poderia ter corrido atrás dele e descobrir quem era, mas preferi ficar satisfeito em ter salvado sua vida das garras de caçadores. Meu braço começou a curar antes mesmo de eu chegar ao campus escolar, porem meu braço estava sujo de sangue e minhas mãos também. Por sorte não havia sujado minha roupa com sangue e isso já era ter sorte o bastante.
Entrei desconfiado pelas portas laterais da escola em passos silenciosos para não chamar a atenção do inspetor, mas quando já estava quase no fim do corredor pude o ouvir chamar a minha atenção. Segui rápido em direção ao banheiro para despistá-lo e poder lavar o sangue que já secava na pele.
Entrei e fechei a porta silenciosamente suspirando aliviado por ter escapado dele. Encostei-me a porta tentando me acalmar, mas foi então que meus ouvidos capitaram o som de água caindo e senti cheiro de perfumes diferenciados misturados ao vapor quente. Quando abri os olhos eu tive vontade de abrir um buraco no chão e me enterrar.
Garotas estavam enroladas em toalhas espalhadas por todo a vestiário e me encaravam com expressões nada amigáveis.
—Oi. –falei profundamente envergonhado, com o rosto queimando.
Pude antecipar a reação delas e abri a porta rápido, saindo para o corredor e batendo a porta atrás de mim. Muitos objetos se chocaram com a madeira da porta atrás de mim e os xingamentos foram muitos, enquanto outras garotas apenas gargalhavam.
Eu tinha acabado de começar o ano letivo com o pé direito. E algo me dizia que isso era só o começo de uma longa jornada.
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