Creep
1 O desespero - Capítulo único
Notas iniciais
Não é nada demais, meu amor, é só o simples fluir da vida.
Eu queria um descanso, você, distância de mim, eu encontrei a solução.
Pelo menos, para um de nós foi aceitável, já para você, eu não saberei.
Machucados sempre teremos, os que eu causei, foram intencionais, porém, foram pra te mostrar a intensidade do meu amor, da raiva que eu sentia por termos nos separados, pelo desespero sufocante que sentia por ter de ficar longe de você.
Minha paixão.
Não me entenda mal, não fique com raiva... Não sinta remorso, era a única saída.
O caos que eram os meus pensamentos, a minha solitária vida sem você, o vazio em meu peito, isso eu não podia suportar. Quando estávamos juntos, tudo era diferente, o mundo, os objetos, as pessoas, eu...
Mas aí, você foi embora, me deixando à beira do abismo, a mercê de coisas ruins, desejos macabros, pesadelos sonhados acordado, vividos. O que gostaria que eu fizesse? Suportasse? Seguisse em frente? Impossível. A razão de tudo era você.
Minha pequena.
Não hesitei em amarrar os cordões, não vacilei em impulsionar meu corpo sem alma, para frente.
Em direção a morte.
Lembre-se de mim, guardarei em minha alma, você, e o nosso amor. Espero que faça o mesmo...
***
─ O que o senhor é dele? Um homem de meia idade, fardado, perguntou para aquele desolado senhor. Não havia lágrimas em seus olhos, apenas o vazio, o pânico crescente, a impotência estampada em seu rosto. Ele encarou o policial depois de fitar por um longo tempo, o corpo sem vida, com uma corda em seu pescoço, pendurado no cano do chuveiro. Esfregou freneticamente as mãos no rosto e começou a falar.
─ Ele é meu filho. Era, na verdade... Nunca imaginei que o meu menino fosse chegar a esse extremo, nunca! Enquanto ele falava desenfreadamente, mexia em seus bolsos, como se a resposta pra tudo aquilo, pudesse sair de lá. Ele não era dessas coisas, sempre centrado, amigável, ele, ele... Tinha acabado um relacionamento conturbado com uma menina esses dias. A-a gente falou pra ele deixar pra lá, seguir com a vida dele, mas olha só no que deu! Oh, meu Deus, o que aconteceu com a minha criança?
Aquele homem perguntou desesperado, olhando o teto do pequeno banheiro e saindo do apartamento a passos lentos, com a cabeça abaixada. Com a vida acabada.
Mas ele não poderia sair, não agora.
Desconsolado, aquele pai vagou por cada um dos cômodos, lembrando por onde seu filho esteve, parou em frente a cama onde ele, outrora, dormira, seu coração se apertou, de tal maneira, que seus joelhos fraquejaram.
Caído ao lado do pequeno criado-mudo, olhando a esmo o quarto vazio, ele viu um pequeno pedaço de papel. Dava para perceber que era a letra do seu menino, escrita em poucas palavras.
Alcancei o meu limite, eu não conseguiria seguir, simplesmente, não ia conseguir... Desculpa.
Fábio
As lágrimas desceram lentamente por seu rosto, embaçando sua visão, dando vazão a dor, ao sofrimento que o consumia por dentro.
Ao conhecimento de que sua criança não voltaria.
Nunca mais.
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