Louco ou não, sempre segui minhas próprias regras, sem dever nada a ninguém, pelo menos até aquele dia. A regra de Black não vale para os mortos, eu acho.

O “tléc tléc” da máquina de escrever me acalmava, páginas e páginas cobertas de letras faziam de mim um grande escritor do séc. XX, um dos melhores do mundo. Eu recebia milhares de cartas de fãs uma vez por mês, junto as visitas de meu editor.

Meu textos? Soltavam sangue a cada vírgula, o que atraía a mente dos jovens maníacos, depressivos, sádicos e desocupados, ou seja, quase todos, mas apenas um adolescente me atraia: Alex Draghi.

Raros os dias em que o pequeno Draghi, belíssimo em seus 16 anos, não ia visitar minha mansão, ao alto da colina. O garoto dizia que gostava da vista, pois dava para ver toda a cidade de minha varanda. Alex era curiosos, destemido e possuía uma língua bem afiada, meu tipo favorito de protagonista para matar nas linhas de minhas histórias.

– Deve ser chato viver aqui sozinho- Dizia enquanto lia os meus rascunhos – Faltou uma vírgula aqui.
– Não estou sozinho, tenho você aqui – Sorri – E ali não vai vírgula, não é um aposto.

Nossas tardes eram longas sessões de leitura e risos, com algumas pausas para banheiro e comida. Sempre fazia questão de descrever os olhos azul-celeste e puros de Alex, como seus fios repicados de cabelos negros e seus lábios róseos ficariam, pelo menos na minha imaginação, ao ter o corpo retalhado por cordas de violãocelo, ao ter a face beijada por seu assassino, seu melhor amigo – “Clue” foi um livro que vendeu muito bem.

Certa tarde, com a minha inspiração acabada, Draghi sugeriu uma caminhada, explorar a casa. A idéia soou tosca, mas o tédio estava forte.

– Esta casa é muito grande, Night – Explorávamos o quarto andar, com lanternas nas mãos – em muitos cômodos abandonados por aqui!
– Cinco andares, sendo dois deles o sótão e o porão, para um velho escritor sem netos ou filhos... É claro que minha casa está às teias!
– Que sej... Eca!

Bastou a porta do sótão ser aberta que um “delicioso” arroma de carne podre invadiu nossas narinas. Pensamos que era algum esquilo morto ou algo assim, mas Alex descobriu que não era bem isso. Atrás do sofá, num vão na parede, havia um esqueleto, sangue seco e a carne que ainda não fora decomposta, apesar dos inúmeros vermes amarelados no cadáver.

– Estou enojado – Comentei por fim – De onde isso surgiu?
– Não faço idéia... Chamamos a polícia?

As sirenes escandalosas demoraram quase quinze minutos para chegar, mas os policiais encontraram a casa vazia, afinal, estávamos no cemitério de Chrnos City, em frente a uma lápide curiosa. “Chris Nightmare, grande escritor e amigos”.Meu nome, meu túmulo e agora a polícia estava com meu corpo.

As lembranças daquele dia voltaram à tona. Era uma sexta-feira fria de outono quando, depois de beber demais, eu ataquei Alex. Depois de evitar meus beijos, o garoto fincou uma caneta tinteiro no meu pescoço, tornando-me um chafariz de água quente e vermelha.

Olhei para o lado, o que era um menino segundos atrás, agora era um adulto, com uns quarenta anos, aproximadamente. Lembrei de como ele chorou sobre meu corpo sem vida, como me arrastou escada a cima e depois fugiu. Louco covarde.

Alex, o velho Draghi, deixou uma margarida recém-colhida sobre meu nome e saiu. Descobri que fantasmas também choram às vezes.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!