Crazier
1 Stalker
Fazia muito tempo que não sentia assim.
Vazia.
Solitária.
Queria poder entender a razão dele tê-la deixado.
Não encontrava resposta. Isso era incomum.
Talvez tenha sido por causa de sua personalidade; nem sempre lhe dava atenção como deveria. Talvez fosse por causa de suas manias um tanto estranhas – Isso já havia afastado muita gente. Mas o quê podia fazer? Isso era parte dela!
“Tanto faz”, pensou. “O motivo realmente não importa”. Mesmo dizendo isso, imagina-lo com outra era extremamente doloroso.
Aninhou-se embaixo do cobertor, queria dormir. Porque quando dormimos, esquecemos tudo que não é agradável; a mente se entorpece; e no torpor a vida se torna tolerável. Isso! Era isso que ela desejava mais que tudo.
Dormiu.
Horas se passaram.
Acordou e, percebendo que o efeito dos calmantes passara, levantou-se para ir procurar por mais.
Passou como um fantasma pelos espaçosos cômodos, dessa casa que outrora abrigara seus sonhos, seu amor, sua vontade de viver. Nada mais restava dessa felicidade. Uma felicidade efêmera. Na casa, agora, nada se podia mais distinguir. Krista mantinha todas as janelas fechadas e a casa era completamente engolida pela escuridão, refletindo seu estado de espírito.
Na cozinha, abriu um pequeno vidro de remédios, que ficava guardado no fundo falso de uma gaveta. Era uma verdade: Seu terapeuta sempre lhe disse para nunca tomar remédios. Tirou dois comprimidos e os engoliu.
“Dane-se”, era tudo o que conseguia pensar; sobre seu terapeuta e o mundo nesse momento. Nada disso fazia muito sentido desde o inicio mesmo.
Mesmo em meio ao efeito dos calmantes, ela continuava com uma sensação estranha: tinha a sensação de estar esquecendo algo. Mas o quê seria?
Voltou para o quarto e deitou-se novamente.
O telefone tocou várias vezes, um toque monótono e irritante.
A chamada caiu na secretária eletrônica. Era sua mãe, aparentemente, preocupada com ela. “Que tédio, me deixe em paz”, foi o que conseguiu pensar através da nuvem de ‘felicidade’.
***
- Eu sei que você está aí! Atenda logo Krista! Eu não vou parar de ligar, então atenda! – Mamãe estava quase chorando ao telefone.
“Que Saco...”
Me arrastei até a cabeceira e peguei o fone.
- O que foi? – Disse meio grogue
- Graças a Deus! Pensei que o pior tivesse acontecido com você filha! Por favor, volte pra casa! Não há mais motivo pra você morar nessa casa, então, por favor, volte! — Ela deve achar que eu vou me matar a qualquer momento! Um sorriso triste se formou nos meus lábios.
- Eu estou bem... Um pouco cansada, é verdade, mas bem. Eu já... Hum... – Preciso pensar em como acalma-la. Eu não vou voltar para aquele hospício, nem morta! – Bem... eu já arrumei um novo namorado... – A mentira mais insustentável possível.
- Krista, querida, eu já te falei que não precisa mentir. Eu e o seu pai te amamos muito, e sabemos que o fim do seu casamento não foi culpa sua. Então esqueça as desculpas e volte pra casa, filha. – Ela tem razão é mentira. Mas uma mãe deveria tentar acreditar no que os filhos falam! Ela não leva sequer um segundo para me desacreditar.
- Eu não estou mentindo! Eu realmente tenho um novo namorado! – Desespero. Preciso esconder ele e fazer ela acreditar...
- Ah Krista... – Sua mãe começou a soluçar.
Ela não está acreditando! — um nó começou a se formar na minha garganta – Seja mais convincente! Você é uma escritora famosa! Você tem dois Best-Sellers publicados, seja forte!
- Porque é tão difícil acreditar em mim?! – Só tenho que continuar...
- Então me diga o nome dele! – Gritou ela, lutando contra a vontade de me estrangular via telefone.
- O nome dele... – Agora ferrou.
Levantei da cama e corri até a janela.
Tem que ter alguém aqui que sirva pra enganar ela! Tem que ser alguém que ela não conheça, mas que eu tenha alguma chance de namorar, realmente.
A sorte sorriu.
Seu nome era Allan: Cabelos escuros, olhos cor-de-mel, corpo malhado... Perfeito! Ele fumava bastante, pelo que havia percebido (sua mãe poderia desconfiar, já que ela sempre lhe disse que odiava cigarro), mas poderia justificar-se dizendo que era hora de ter novas experiências. Ele havia se mudado um pouco antes do divórcio de Krista.
Na época, ela estava tentando salvar o casamento, e por isso deixou de investigar o rapaz. Bem, agora parecia ser um bom momento para reavivar seus antigos hábitos.
- O nome dele é Allan.
- Quando começaram a sair? – Por que ela não pode simplesmente acreditar e desligar o telefone?
- Saímos... Ontem! Ele é realmente encantador, acho que você ia adorar conhece-lo.
- Ótimo! Acho que ele não vai se importar em aparecer na festa da sua irmã na quinta, então. Quero cumprimentá-lo o quanto antes – Ela só pode estar louca!
- Mãe! Eu só o conheço há alguns dias, não posso levá-lo em um evento familiar! – Isso serviria para ganhar tempo.
- Ok, que seja. Mas lembre-se de trazê-lo se achar que deve querida. – Ela se deu por vencida, mas essa foi só uma batalha. Minha mãe não quer perder a guerra. Quer dizer que eu vou ter que leva-lo lá em algum momento. Droga.
- Certo obrigado pela compreensão! Te vejo na quinta? Claro que sim! Tchau! – Nem dei tempo dela responder. Coloquei o telefone no gancho
Afundei na cama, novamente.
O que eu vou fazer? Tenho que namorar esse cara, de qualquer jeito! Mas antes tenho de descobrir quem ele é. O que faz. Como é sua família. No que trabalha...
Sorriu.
Era isso. Estava de volta!
Agora dormiria, mas pela manhã voltaria a ser como antes.
Amanhã começaria a segui-lo.
Afinal, quem é você Allan? Vamos, conte-me os seus segredos.
Pela primeira vez em meses, dormiu tranquilamente.
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