Crawling Back To You
43 O Beijo de Uma Sereia
Notas iniciais
Katherine
Assim que seu irmão terminou de tomar banho, Katherine, William e Henry voltaram para a praia. O pirata se despediu da criança que já estava esfregando os olhos com sono e lançou um breve olhar para Katherine.
A princesa escondeu um sorriso e seguiu a direção oposta do Thatch, para levar seu irmão a uma tenda. Vendo dois Filhos da Noite de guarda em uma tenda enorme, localizada em uma elevação do terreno e perto da floresta, Katherine imaginou que era ali que estava sua família.
Sua mãe e Margareth já estavam dormindo, pareciam exaustas. A princesa ajudou Henry a se ajeitar em uma cama colocada para ele e sentou ao seu lado, acariciando seus cabelos.
—Mais tarde você me conta as aventuras que você viveu!? —ele sussurrou animado. —E aquele pirata, o senhor William, vocês são amigos?
—Pode chamar ele de Will —Katherine sorriu com a curiosidade do irmão. —A gente é... Isso mesmo, amigos. —ela pensou que não era a hora certa de contar toda a verdade.
—Ele é maneiro —Henry bocejou.
—Durma um pouco, você está cansado —a Lecerf acariciou o rosto da criança.
—Canta pra mim, Kate? Igual você fazia no castelo... Aquela canção sobre a criação do mundo.
—Tudo bem —Katherine deitou ao seu lado e Henry se ajeitou no peito da irmã.
Fechando os olhos Katherine começou a cantar o famoso poema Voluspá.
—Escutem minhas palavras, todos os homens
Vocês, grandes e pequenos filhos de Heimdall
Você me convocou, Pai de Todos, para contar o que me lembro
Dos feitos mais antigos dos deuses e dos homens
Foi no começo de tudo, no tempo de Ymir
Não havia areia, mar ou ondas gélidas
A terra não existia, nem o céu sobre ela
Havia apenas Ginnungagap
O Sol se escurece, a terra afunda no mar
Caem do céu as brilhantes estrelas
O fogo queima a Poderosa Árvore
O imponente fogo alcança até mesmo o céu
Irmãos lutarão entre si e matarão uns aos outros
Primos vão destruir a paz entre eles
Yggdrasil estremece, mas segue em pé
A Antiga Árvore chora e o gigante se solta
Garm uiva forte diante aos portões de Hel
As amarras se quebrarão, e o lobo correrá livre
Muito é o que sei, e mais estará por vir
Até Ragnarök, o dia sombrio para os deuses
Agora vejo a terra novamente
Ressurgindo esverdeada do mar
Cachoeiras fluem e águias voam no alto
Caçando por peixes entre os picos das montanhas
Mais belo que o Sol, é o salão que vejo
Coberto de ouro, Gimlé deslumbra
Ali homens corajosos vão morar
E aproveitar alegrias em suas vidas
Katherine abriu os olhos quando terminou e viu que seu irmão havia adormecido. Ela beijou sua cabeça e com cuidado se levantou da cama.
Assim que saiu da tenda, a princesa pôde ver o acampamento que se estendia pelo litoral até sua visão não alcançar mais. Tochas iluminavam o local, onde se via centenas de tendas e em cada uma, havia uma fogueira com troncos de árvores ao seu redor, onde homens bebiam, conversavam e riam. Os corpos resultantes da guerra foram amontoados mais a distante e estavam sendo queimados aos montes. Tirando isso, o cenário era até mesmo bonito.
A visão de Katherine logo procurou encontrar William. Ele o achou sentado em um tronco, tocava violão e parecia estar cantando. As pessoas também cantavam enquanto erguiam os copos. Katherine percebeu que algumas mulheres o olhavam com desejo e malícia, outras se aproximavam, até tocavam seu braço e ombro quando passavam. Algumas mais afastadas, também olhavam o Thatch e faziam comentários. Katherine riu quando uma pirata se abanou com a própria mão quando passou por ele.
—Você tem o dom de deixar William desesperado —a princesa escutou a voz de Charlotte e virou o rosto, para vê-la se aproximar. —Nunca vi William Thatch se rastejar de volta para alguém como ele faz com você.
—Deve ser por isso que ele gosta tanto de mim —Katherine respondeu. A pirata sorriu e ficou ao seu lado, percebendo que a princesa o observava.
—Eu já fui uma dessas garotas —Charlotte cruzou os braços também olhando o rapaz e as mulheres que estavam em sua volta. —Sempre tentando chamar a atenção dele. Talvez seja por causa da família, os descendentes de Edward Thatch sempre foram cobiçados... Mas William é diferente, você deve ter percebido. E na época ele nunca ligou para mim, você sabe, ele prefere as morenas. —Charlottle olhou Katherine. —Bem o seu tipo, na verdade. Então eu comecei a reparar que ele tinha todas as mulheres que quisesse, mas não uma amiga. E foi aí que eu consegui me aproximar.
—Como? —a princesa a olhou interessada e surpresa da garota se abrir para ela.
—Uma conhecida, Lawrence, era uma das preferidas dele e ela me contou que William estava em Santa Helena por alguns dias. Eu o procurei e o encontrei em um bar. Ele estava no balcão bebendo e observando o local, bem solitário. Fui para o seu lado, fingindo não dar muita atenção para ele. E como isso não é muito comum, ele pensou que eu só estaria lá pedindo um drink. Eu me lembro exatamente como foi —a pirata suspirou, fechando os olhos. Katherine percebeu que ela falava com uma certa saudade e desejo. —Pelos deuses, seus olhos azuis me fizeram arrepiar quando eu o encarei e vi que ele também me olhava. Perguntei se ele perdeu alguma coisa, fingindo ser grossa e que não estava afim —ela sorriu. —Ele riu, puxou um assunto e começamos a nos conhecer. Não ficamos juntos essa noite, mas passamos a nos encontrar e viramos amigos. Até que um dia, nós dois bêbados... Ele me beijou.
Charlotte passou suavemente os dedos no próprio lábio como se lembrasse da sensação. Depois de um tempo, relembrando seus momentos com o pirata, Katherine decidiu a trazer de volta para a realidade.
—Você o ama, não é? —a princesa perguntou, fazendo Charlotte abrir os olhos.
—Amo —a pirata olhou a garota. —Mas eu sei que não é recíproco. Sou e sempre serei apenas uma amiga —depois de uma pausa, Charlotte se aproximou de Katherine. —É melhor ter cuidado, majestade, sei que vocês sentem algo intenso um pelo outro, mas ele é um pirata.
—E por que isso nos atrapalharia? —a Lecerf a encarou.
—Há três coisas que William Thatch busca aqui, em Midgard. —Charllote passou as mãos no cabelo da princesa, que não se afastou. —Sangue, ouro e prazer.
—E eu não estou buscando o mesmo? —Katherine retrucou arqueando uma sobrancelha.
Charlotte sorriu com a resposta. A mulher estava tão próxima que Katherine conseguia sentir sua respiração.
—Acho que sei o motivo de William ser tão fascinado em você —Charlotte sorriu passando o dedo pelo rosto da princesa. —Você é diferente, igual a ele...
—Estou perdendo alguma coisa? —um pirata sorriu ao se aproximar, vendo as duas tão perto uma da outra.
—Estou indo, Hakon —Charllote sorriu para o homem e se virou para Katherine. —Você tem sorte, alteza. Você e William. Ficar com alguém que ama nesses tempos é algo raro de se ter, ainda mais para uma princesa. Então não faça algo que o machuque, não quero ter um problema com você.
Katherine afirmou com a cabeça e a mulher se afastou com Hakon. A Lecerf não sabia o que pensar de Charlotte, mas gostou dela. No fundo, a princesa sabia que ela só desejava o melhor para William. Depois de algum tempo pensando no que Charllote lhe contou, Katherine resolveu se juntar ao seu noivo, e desceu a seu encontro. Ao se aproximar, percebeu que a música havia parado e eles conversavam.
—Não —ela escutou William dizer rindo, mas não conseguia vê-lo, devido ao grande número de pessoas amontoadas.
—Vai logo —Robert disse e todos concordaram.
—Você fica sexy cantando essa música —Katherine franziu as sobrancelhas para uma pirata que estava ao seu lado gritando.
—Tá, tá... —William cedeu e todos bateram palmas.
Katherine com dificuldade começou a andar para frente para ver o pirata. Depois de se apertar entre as pessoas, ela conseguiu ter a visão da situação.
William continuava sentado em um tronco e James colocava nele uma bandana preta na cabeça, com alguns riscos vermelhos, o fazendo rir. Sua camisa estava com três botões desabotoados e as mangas arregaçadas, dando para ver suas tatuagens. Para acrescentar, ele estava com o violão em seu colo e Katherine teve que concordar com o que a pirata havia gritado. A princesa mordeu o lábio olhando o pirata, tentando se controlar para não ir até ele.
—Prontos? —William sorriu e começou a tocar o violão.
—Aye!! —eles levantaram os copos em resposta animados.
— This ain't a song for the broken-hearted (Esta não é uma canção para quem está de coração partido) —William cantou e uma onda de palmas invadiu a praia, fazendo o pirata balançar a cabeça sorrindo. — No silent prayer for faith-departed. I ain't gonna be just a face in the crowd, you're gonna hear my voice when I shout it out loud(Não é uma oração silenciosa para os que perderam a fé. Eu não serei apenas um rosto na multidão. Vocês vão ouvir minha voz quando eu gritar bem alto) —ele parou de tocar e olhou para os piratas que levantaram as mãos e cantaram em uníssono.
— It's my life, it's now or never (É a minha vida, é agora ou nunca!) —eles pararam de cantar para escutar William que voltou a tocar.
—I ain't gonna live forever (Eu não vou viver para sempre)—ele sorriu fechando os olhos e sua voz se sobressaindo. Katherine sorriu e começou a dançar acompanhando os piratas ao seu redor. — I just want to live while I'm alive (Eu só quero viver enquanto estiver vivo...)
— It's my life!(É a minha vida!) —os piratas voltaram a cantar brindando os copos e derramando bebidas, uns pulavam, outros dançavam. Katherine começou a rir se assustando quando um pirata lhe entregou um copo com rum.
—My heart is like an open highway. Like Frankie said: I did it my way. I just wanna live while I'm alive. It's my life (meu coração é como uma estrada livre, como Frankie disse: eu fiz do meu jeito. Eu só quero viver enquanto estiver vivo. É a minha vida) —William cantou e Robert batia palmas.
Katherine olhou para os Thatch, os três assim, comemorando e cantando juntos... Se a princesa não soubesse dos problemas que tinham, juraria que eram unidos. No fundo Katherine desejava que William fizesse as pazes com Robert e James, mas ela já conhecia os dois e sabia que a personalidade deles não combinava com a de William.
— This is for the ones who stood their ground. For Greg and Molly who never backed down (Esta é para aqueles que conquistaram seu espaço. Para Greg e Molly que nunca desistiram) —William voltou a cantar e ergueu a mão para um casal de piratas que estavam abraçados e sorriram com a menção. — Tomorrow's getting harder make no mistake, luck ain't even lucky, got to make your owns breaks (Amanhã será mais difícil não cometer erros, nem a sorte é afortunada, tem que fazer suas próprias oportunidades. )
— It's my life!(É a minha vida!) —todos cantaram com o Thatch, e Katherine cantou bem baixo, já que não conhecia a música por ser de piratas. Além de que desde pequena seus pais pediam para ela não cantar em público. A única pessoa que Katherine soltava a voz era com Henry, já que ele dormia mais tranquilo quando ela cantava. — It's now or never. I ain't gonna live forever! (É agora ou nunca! Eu não vou viver para sempre!) —a voz de William se sobressaiu novamente, fazendo a princesa se arrepiar.
A princesa amava as comemorações dos piratas e cada vez mais se sentia parte disso.
— Better stand tall when they're calling you out. Don't bend, don't break, baby, don't back down (É melhor estar alerta quando eles te convocarem. Não se curve, não ceda, querida, não recue) —William cantou enquanto um pirata se aproximava e falou algo em seu ouvido, apontando para a princesa.
O Thatch olhou na direção de Katherine, a notando. A princesa acenou discretamente e William piscou para ela
—Cante com a gente, majestade —uma pirata disse olhando a garota.
—It's my life! (É a minha vida!) —eles voltaram a cantar e as pessoas ao redor de Katherine esperavam ela os acompanhar. Sorrindo, a princesa assim fez. —It's now or never. I ain't gonna live forever (É agora ou nunca, porque eu não vou viver para sempre. )
Katherine animada, fechou os olhos cantando e não percebeu que as pessoas ao seu redor começaram a parar de cantar e ficaram encarando-a.
— I just want to live while I'm alive, my heart is like an open highway, like Frankie said: I did it my way. I just wanna live while I'm alive (Eu só quero viver enquanto estiver vivo, meu coração é como uma estrada livre, como Frankie disse eu fiz do meu jeito. Eu só quero viver enquanto estiver vivo...) —Katherine continuava cantando.
—It's now or never (É agora ou nunca) —William olhou com as sobrancelhas franzidas para o lado da princesa, onde todos a olhavam igual a zumbis.
Assim que o Thatch e todos ao seu redor escutaram a voz de Katherine, que começou a se sobressair, aos poucos foram parando de cantar.
Katherine notou o silêncio e abriu os olhos. Todos a olhavam quietos. Alguns começaram a se aproximar e a princesa parou de cantar.
—Foi tão ruim assim? —ela olhava para os lados com medo.
—C-Canta de novo —uma mulher se aproximou. Suas pupilas estavam dilatadas e seu olhar encarava a boca de Katherine. Outras pessoas com a mesma reação começaram a pedir em múrmuros.
—It's my...life... It's now or never... (É a minha...vida... É agora ou nunca...) —a Lecerf obedeceu com medo. — I ain't gonna live forever... My heart is like an open highway, like Frankie said: I did it my way, I just wanna live while I'm alive... Cause it's my life... (Eu não vou viver para sempre... Meu coração é como uma estrada livre, como Frankie disse: eu fiz do meu jeito, eu só quero viver enquanto estiver vivo... Porque é a minha vida...)
Ela ficou em silêncio quando bem devagar, todos iam para sua direção. Katherine olhou para William, que também a olhava completamente vidrado.
—Gente!? William!? —a princesa começou a ficar desesperada.
O pirata voltou para a realidade ao escutar seu nome e balançou a cabeça. Logo, todos estavam normais novamente, mas a olhavam com curiosidade.
O Thatch colocou o violão de lado e se levantou indo até a garota com as sobrancelhas franzidas.
—Eu não faço ideia do que aconteceu que vocês...
Katherine parou de falar quando William segurou seu rosto, contornando sua boca com o dedo. Ele suspirou e segurando sua cintura, a puxou para ele, a beijando.
—Nossa —a princesa o olhou com um sorriso, um pouco envergonhada de terem se beijado assim na frente de todos. —Eu...
—Vem aqui —ele segurou sua mão e levou Katherine para a praia, onde ficariam sozinhos.
Os piratas acompanhavam Katherine com o olhar e logo começaram a comentar o acontecido.
Assim que se afastaram, William a beijou de novo, como se não pudesse se separar dela.
—Will... —Katherine os separou sem fôlego. —O que deu em você? —ela sorriu notando que o rapaz estava apressado demais passando a mão pelo seu corpo..
O pirata abriu os olhos, ainda olhando a boca da garota.
—Agora eu entendo —ele voltou a contornar a boca da garota com o polegar. —Entendi o motivo do seu beijo ser tão diferente de qualquer um que eu já provei.
—O que tem o meu beijo? —Katherine disse um pouco receosa da resposta.
—Nenhum homem sobreviveu para contar como é um beijo de uma sereia —William sorriu de lado. —Acho que eu tenho a sorte de saber como é.
—Meu beijo? É de uma sereia? —Katherine perguntou confusa.
—Você é a filha do deus do oceano. Acho que você não tem ideia do poder que tem, Kate.
—Meus pais sempre me repreendiam quando eu queria cantar...
—Deve ser porque você faz todo mundo ficar igual um idiota querendo te beijar —o pirata sorriu.
—Será que é só o canto? —a princesa disse animada. —Ou eu tenho mais algum dom?
—Sereias são famosas pelo seu misticismo... E por comer carne humana. Espero que você não tenha essa inclinação. —William disse, fazendo Katherine rir. —Por mais que eu as ache seres desprezíveis, sereias tem habilidades extraordinárias. Podem salvar alguém de um afogamento, curar ferimentos, manipular a água...
—Quem diria que uma princesa seria isso tudo —Katherine brincou mexendo em seus cabelos, se achando. William entrou na brincadeira e fez uma cara sexy, mordendo o lábio.
—Caramba garota quero te levar pra cama o mais rápido possível —ele se aproximou novamente, tirando o cabelo da garota do rosto e a colocando atrás de sua orelha.
Katherine riu e segurou seu rosto, o beijando.
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