Cradle Of Forest
1 Cradle of Forest
Notas iniciais
E para ma dear Kane-ou, que sempre agüenta ler essas minhas tosquices aqui até o fim...
E para você, a quem eu não conheço e você também não me conhece, mas que escreveu uma história maravilhosa que me inspirou. Muito obrigada.
There deep, deep in the forest night
(Lá no fundo, no fundo da noite da floresta)
Sua língua deslizou, metódica e calmamente, pelo pescoço claro, e um sussurro abafado desabrochou, envenenando o silêncio.
Os dentes cravaram-se na pele macia, e um par de olhos tão azuis quanto o céu do verão que se estendia indeterminavelmente por aquele mundo abriu-se, numa surpresa muda.
O corpo debaixo do dele estremeceu num suspiro arrancado quase que à força, fazendo o colchão gemer ante o movimento brusco.
O mais velho não pôde evitar um pequeno, discreto sorriso quando observou tão pueril inocência, bem ali, diante de si, e inclinou-se devagar, outra vez deslizando com ainda mais delicada complacência a língua pelo pescoço do mais jovem.
A mão e os toques trêmulos em suas costas eram como anestesia.
Não era possível pensar – e não queria pensar, e ele só conseguia sentir a mente ser arrastada para um lugar além de qualquer fronteira que pudesse alcançar, como faziam os pequenos botes perdidos em dias de tempestade – como eles faziam para alcançarem aquela ilha, o palco de suas brincadeiras –, e o corpo concentrou-se sozinho, como se pensasse por si próprio, naquele calor.
Houve um momento de silêncio, de uma reverência silenciosa, quando os dois azuis encontraram-se.
Um ciano da cor do mar, de um céu visto pelos olhos inocentes de criança. Um azul da cor de sonhos que não descansavam e de esperanças que continuavam tecendo-se sozinhas. Era um azul sem máculas; um azul perfeito; a amálgama de tudo que um azul cor-de-sonho podia significar.
O outro era sujo. Era sujo até naqueles pequenos detalhes.
Não era um azul de luz. Era um ciano que misturava em si um verde, exótico; um verde. Uma pequena impureza no que deveria ser puro. Eram olhos profundos. Havia uma sombra, algo escondido, um pequeno ponto aparentemente imperceptível, mas que se tornava, de alguma forma, o lugar para o qual todos os olhares convergiriam. Aquele pequeno detalhe que fazia toda a diferença. Havia um resquício de escuridão no verde que deveria ser “azul”.
E talvez tenha sido isso que ele tanto temeu.
Talvez, tenha sido isso que ele até mesmo tentou afogar ali mesmo, naquele beijo que lhe pareceu tão desesperado, naquele sussurro morno que nem o próprio entendera.
Ele afastou-se, somente para encarar aquele rosto tão irreal. Um sorriso imutável, etéreo e sagrado.
Um sussurro.
- Riku...
Um sussurro.
Pequeno, distante sussurro.
Uma voz.
O som do mar, parecendo vir de tão longe, mas sempre tão presente naquele pequeno pedacinho de um universo onde viviam, envolveu-se por entre as palavras como linha, aprofundando aquela sensação de veludo de sua voz.
Por um momento, aquela voz também lhe trouxe, como se viesse junto com as ondas daquele mesmo mar, uma memória.
Children dance the waltz
(As crianças dançam a valsa)
- Riku!
Um garoto corria, tentando vencer com esforço a distância entre os dois.
(Ele ainda não sabia, mas passaria grande parte de sua vida tentando sempre fazer exatamente aquilo...)
O menino de cabelos prateados – um prata, como tudo nele, exótico, que sua mãe dizia ter saído de seu desejo de ter uma criança com cabelos de cor-da-lua
(o que era uma ironia, ele percebia atualmente, se pensasse que a lua depende da luz de um sol da mesma forma que ele também, afinal, dependia de uma outra luz)
– ouviu a vozinha implorar, mas apenas encolheu os ombros, num desprezo mudo.
Desde que o mundo era mundo, fora assim.
Era como o sol, como a composição do ar, como as pequenas dunas de areia que se formavam e desapareciam num piscar de olhos.
Era como todas as histórias e como nenhuma delas. Era todo um mundo dentro de somente uma ou duas palavras, um par de olhares e milhares de pegadas deixadas nas areias daquele pequeno paraíso perdido.
Era simplesmente Sora.
Seu pequeno amigo Sora.
Ou era assim que deveria ser... Era assim que deveria ser.
Mas não era.
Um gosto amargo atravessou sua boca ao pensar nisso; era uma sensação humilhante e detestável.
E Riku era muito bom em se lembrar sempre deste tipo de coisa.
- Ei, Riku! Espere!
Seus passos continuaram, o som de sua raiva abafado pela areia fofa. Cada passo que Sora dava atrás dele eram dois que o garoto pálido dava para longe dali.
Era um jogo.
...Não. Mais do que um jogo.
Era exatamente assim que o mundo precisava girar.
- Você é muito lento, Sora – ele resmungou, displicente.
Uma criança é, muito provavelmente, a criatura mais cruel de todas: ela esfaqueia mesmo quando sabe que tem uma faca na mão; uma faca com várias utilidades, entre as quais apunhalar sentimentos. Riku sabia que tinha esse poder em mãos o tempo todo.
E Riku o usava.
Mas apunhalava tão gentilmente quanto um carinho de mãe.
...Ou, talvez, tenha sido a imensa bondade daquela outra criança – uma coisa tão inerente e misteriosa – que apenas ignorava a dor.
Sora corria, mesmo que estivesse sendo apunhalado a cada passo de distância que o amigo dava.
E Riku também havia sido apunhalado.
Mas aquela era, muito provavelmente, a grande e maior diferença entre um azul-puro e um azul-esverdeado: o mais velho não esquecia.
E tampouco costumava perdoar.
- Espere, Riku!
O som das ondas do mar batendo na costa era como
(anestesia)
estar ouvindo uma terceira pessoa ali.
Alguém que estivesse observando, enfim, aquela faca. Riku nunca precisou esconder – até porque Sora era inocente demais para perceber. Puro demais para esconder que não fazia idéia do verdadeiro amigo que tinha.
Mas, naquele instante, talvez o único de sua vida, ele encolheu os ombros, quase se sentindo culpado.
Quase.
Virou-se, então.
Um sorriso superior, pequeno, delicadamente desenhado nos lábios pálidos de infante.
O sorriso de Riku.
Sora, lá atrás, reconheceu-o de imediato.
- Tudo bem – ele disse. – Venha, Sora.
E estendeu sua mão.
They laugh, whispering hand in hand
(Elas riem, sussurrando de mãos dadas)
- Riku!
O garoto corria, tentando vencer com esforço a distância entre os dois.
(Ele estava começando a perceber que, afinal, aquela distância entre eles era impossível de ser realmente quebrada...)
Ao seu redor, sua terra natal estava sendo devorada.
Uma noite tão desgraçada quanto a mais desgraçada das noites recaía em Destiny Islands como um véu de noiva.
Não havia ninguém para puxá-la dali.
...Não agora.
Ele corria, e o desespero maculava pela primeira vez os olhos azuis – não a escuridão que assolava um lar destruído, mas o desespero de uma visão na qual ele recusava a acreditar.
O garoto de cabelos cor-de-prata estava sendo engolido pelo caos.
Mas ele sorria.
Ele não estava com medo.
Ele
(tal qual aquele Riku que andava pela areia, calmamente)
não tinha medo da escuridão.
Riku abraçou-a.
E Sora não quis acreditar.
- Riku, espere!
E, então, sem explicação, sem esperar...
- Você é muito lento, Sora.
O sorriso de Riku...
O sorriso daquele garoto era algo que Sora jamais poderia explicar, nem que, de repente, aprendesse todas as palavras do mundo.
Era uma linha em seus lábios; uma linha perigosa, de um perigo exótico – como tudo nele – e bonito. Era perigosamente belo, e isso talvez é que fizesse tudo tão mais perturbador.
Era um sorriso tranqüilo, metódico, o sorriso que Riku dirigia àquele menino quando ele queria alcançá-lo, quando se sentia perdido.
- Venha.
E estendeu sua mão.
Just like children like to do
(Como crianças gostam de fazer)
O pequeno Sora banhado na luz da praia:
- Espere, Riku!
O rapazinho Sora, banhado nas trevas do fim:
- Espere, Riku!
Ambos estenderam sua mão.
Their eyes, what are they looking for?
(Para quê seus olhos estão olhando?)
Sua pele tinha um gosto salgado de lágrimas não-derramadas. O gosto do mar que podiam ouvir pela janela.
Ele deslizou os lábios outra vez pelo pescoço salpicado de pontos de luz. O sol trazia um conforto morno à escuridão silenciosa do ninho.
As mãos do garoto continuavam presas à sua roupa, segurando-a, apoiando-se com uma força suave
(como se confiasse cegamente nele)
enquanto os pontos de luz e sua língua exploravam cada recanto do corpo outrora intocado.
Seus dedos pálidos escorregaram pelos pequenos músculos do garoto. Seus braços, uma prensa em seu pescoço, tremiam. Mas, mesmo ali, ele podia dizer que não era medo; era uma agonia silenciosa que os corroia devagar, como os mesmos pontos de sol que a cortina tentava, em vão, conter.
Uma onda rebentou na praia – seu som tão perto como se eles próprios estivessem na areia –, no momento em que os lábios abriram-se, emitindo um som abafado.
Riku ergueu os olhos para o rosto do outro.
Sora mantinha os seus fechados; sua face coloria-se daquele mesmo pueril tom de vermelho que ele achava tão adorável e irritante ao mesmo tempo.
O mais velho suspirou, um suspiro que ele próprio não reconheceu, permeado de urgência e uma fragilidade que preferiu ignorar, e sua mão deslizou, como se fosse um ente com personalidade própria, para
(a luz)
a bermuda – num tom nostálgico e agradável de vermelho –, sentindo o corpo do mais jovem estremecer abaixo de si com aquele gesto.
Tudo em si pareceu convergir para aquele momento.
Como se o sol, a terra, o céu e os mares, sua própria existência...
Tudo havia sido criado para aquele momento.
Toda a escuridão e a luz.
(A luz.)
Sora abriu os olhos outra vez – olhos cujo azul estava nublado, como se uma sombra houvesse posado indefinidamente ali –, e houve outro olhar.
Não foi como a primeira vez.
Houve um milhão de novas palavras, intraduzíveis em qualquer língua humana, flutuando como partículas de poeira.
O coração do mais jovem parecia ondas do mar.
O som suave era o mesmo.
White dress flutters the beat
(Vestidos brancos flutuam na batida)
As estrelas nunca pareceram tão distantes quanto naquele momento.
O garoto, deitado à sombra de uma árvore – apesar de que, sendo noite, sombras eram apenas o que existiam naquela parte da ilha –, olhava para o céu com orbes verdes que pareciam querer alcançar a todas.
(“Cada pequena estrela é um mundo.”)
Quando aquilo foi dito?
Por quem havia sido dito?
Parecia ter sido a uma eternidade atrás – uma eternidade antes de outros mundos, trevas eternas e uma traição arquitetada por ele próprio a qual ele jamais perdoaria.
E, mesmo assim, teria mudado tanto quanto deveria?
...Achava que sim.
Por um breve momento, sim, achou que havia mudado.
Mas bastou um olhar, uma palavra, e tudo desmoronou como um castelo de cartas, como um sopro caprichoso de um destino
(como um garoto de cabelos exóticos de andar arrogante, portando a faca que machucava os sentimentos alheios)
diante de seus olhos.
Riku ainda era o mesmo.
Mãos que ainda pingavam a escuridão interminável – não do céu, mas de sua própria alma, onde não haviam estrelas ou luz-guia – estendiam-se diante de seus orbes. Os dedos fechavam e abriam.
Sua própria mão.
Sua própria escuridão.
Estranho como se podia sonhar mesmo mergulhado em trevas.
Destiny Islands parecia apenas um sonho, agora...
Um sonho feito de uma abafada noite de prata, enquanto tons de índigo manchavam a terra. Lá longe, como um detalhe, como a assinatura de um meticuloso pintor, o som do mar. Não era um “sonho” ruim. Era o “sonho” do qual ele sempre fizera parte.
...Mas ela estava ali.
As luzes esmeraldinas da noite – grilos, ele tinha certeza. Ouvia seus cantos –, um facho prateado de luz... Tudo estava ali.
Da mesma forma que aquele seu pecado também estava ali. E sempre estaria; era aquele pecado quem puxava suas cobertas de manhã, impaciente, e quem beijava sua testa, como uma mãe, à noite, antes de dormir.
Elas. Sempre elas.
Riku fechou os olhos
(e temeu que a escuridão o devorasse bem ali)
enquanto lembranças de um passado indefinido vinham-lhe à mente.
Um dia, uma menina caiu naquela mesma ilha. Ela, e disso ele tinha certeza, veio carregada em uma chuva de meteoros. Da sua janela, naquela noite, ele não a vira, mas viu os milhares de traços delicados no céu.
Ela fora adotada e tornou-se uma moradora daquela ilha.
Sendo uma menina tímida e silenciosa a princípio, Riku lembrava-se de vê-la vagar sem rumo ou amigos pela praia, procurando alguma coisa.
O garoto lembrava-se de que ela podia passar horas daquele jeito, num estado de indescritível catatonia melancólica. Era, talvez, a primeira coisa que ele associara com outro mundo; porque jamais havia visto tal fenômeno antes. Um rosto completamente vazio, uma memória vazia.
Kairi, como ele soubera que ela se chamava, logo havia conseguido a amizade de Selphie e outras meninas.
Mas...
...A de Sora também.
Riku sempre soube – muito mais hoje em dia – que não era e jamais seria puro como o pequeno amigo.
Ele sempre tivera, afinal, trevas dentro de si.
Sempre que Sora dignava-se a brincar com outra criança, um sentimento amargo invadia o mais velho. Ele se virava, disposto a abandonar aquela cena que fazia seus olhos doerem, ultrajado. Ele caminhava.
E, logo, lá estava Sora, correndo atrás dele.
(O mundo sempre foi assim.)
Mas não naquele dia, com Kairi.
Riku continuou andando, e esperando.
E esperou.
Sora não correu atrás dele.
O sentimento amargo veio – é claro –, e transformou-se em uma dor física. Começava no peito, do lado esquerdo, no coração, e espalhava-se como veneno. Era uma dor ultrajante e humilhante. Era dor. Pura dor.
O mais velho não sabia como tirá-la dali, apesar da inteligência da qual tanto se gabava para Sora (que o admirava apesar de tudo).
Mas seu coração – aquele que estava sendo ferido – ele soube.
E enviou à sua mente a imagem de Kairi.
A menina de cabelos da cor das flores silvestres e de um vestido ultrajantemente branco que ele viu sorrindo, ajoelhada na areia com Sora.
O veneno pareceu correr ainda mais forte dentro de si.
Their song starting to make some sense
(Sua canção começando a fazer algum sentido)
Only if you're listening...
(Só se você estiver escutando...)
- Você sempre achou que eu estava no seu caminho, não é, Riku?
O rapaz virou-se, os olhos azul-esverdeados encarando os orbes azulados da menina sentada no tronco da árvore.
Sem dizer uma palavra – apenas os olhos falavam por ele. Gélidos, esperavam.
Kairi não titubeou – talvez porque, vinda da mesma escuridão que sempre via nos olhos do mais velho, ela já não tivesse mais nenhuma estranheza com ela.
- ...Porque Sora gostava mais de mim.
O sol brilhou, naquele breve momento, um pouco mais forte, como que o incentivando a olhar para a garota do jeito que ele queria. O rapaz sentiu vontade até de arquear a sobrancelha, mas o rosto continuou numa expressão de gelo, incomum para o clima tão quente da ilha.
- Ele te disse isso?
Kairi sorriu.
- Não.
Silêncio.
- Ele está te procurando – ela sussurrou.
Riku deu de ombros no mesmo instante, sem nenhuma pausa:
- Não quero que ele me encontre.
E uma lembrança terrivelmente cortante fatiou sua própria consciência, de cima a baixo, como uma abóbora de Dia das Bruxas
(“Eu te procurei por toda parte.”)
(“Eu não queria que você me encontrasse.”)
enquanto sua expressão não se alterou nem por um momento.
Seus braços, entretanto, pareceram cruzar-se com mais força, como que tentando, de alguma forma, rejeitar aquela memória.
- Sora é uma pessoa muito boa, Riku.
O som do mar, logo abaixo deles, pareceu apenas enaltecer aquelas palavras, tornando o próprio som do nome do garoto algo sagrado e intocável.
- Eu gosto do Sora. E eu sei que você sabe disso...
Ela desceu do tronco, limpando a saia do vestido rosado.
- ...Da mesma forma que eu sei que você, Riku, também sabe que ele gostou de mim um dia.
Ele sentiu-se sujo.
- Se ele ouvisse isso, teria um ataque.
Sentiu na pele aquela mesma faca que, no passado, ostentava e deslizava pelo coração dos outros.
- Eu sei – ela riu; o riso abafado. – Ele é tão adorável... Nunca conseguiu esconder nada. Sora sempre foi muito honesto consigo próprio.
Sentiu-a, agora, em seu próprio peito.
- E, mesmo sabendo que, por ser tão honesto assim, ele não o odeia e até o perdoou de todo o coração... Porque se o odiasse pelo que você fez, ele não falaria mais com você ou mesmo o olharia no rosto...
Mas os olhos e o rosto não se moveram, congelados em uma dor de pedra.
- ...Você sempre me odiou por isso, não é?
O sorriso de Kairi nunca pareceu tão estranhamente irritante à Riku antes.
Era como se ele visse uma própria parte de si naquele momento. E, então, o gosto amargo outra vez.
...Ah. Quase havia se esquecido dele.
- ...Por eu ter “roubado” Sora de você daquele dia em diante, não é?
Dance, dance like butterflies
(Dancem, dancem como borboletas)
Desde tempos imemoriais
(a vida sempre tinha sido daquele jeito)
aquele tinha sido o seu lugar secreto.
Numa pequena abertura, um rasgo no útero da terra. Num lugar onde poucos raios de sol eram capazes de penetrar e as lágrimas de umidade eram freqüentes como o som de ondas, um garoto sentia-se chocado.
Os dedos pálidos deslizaram, incrédulos – seu próprio ser, a amálgama de toda a incredulidade – pelo desenho na parede.
Por um momento – e, após, sentiu-se ridículo por isso – ele quis pensar que, afinal, foi só aquele pequeno facho de luz solar que iluminou a parede lisa de pedra de um mau jeito e o fez ver coisas.
...Ledo engano.
Riku sentiu-se esganar os próprios dedos, garras fechadas em seu punho.
Desde tempos imemoriais
(desde quando a vida parou de ser daquele jeito?)
aquele tinha sido o lugar secreto dos dois.
Lembrava-se de como Sora, da primeira vez que estiveram ali dentro, ficou gemendo o tempo todo para que voltassem. Sempre fora um covarde – e o mais irônico é que, depois, quando viu que não havia nenhum perigo afinal, ele é que insistia para que fossem explorar aquele lugar mais vezes.
Ele não estava ali agora.
E, ultimamente, nem fazia questão de estar.
...Estava, como sempre, com Kairi.
Os olhos verde-azulados do pequeno garoto estreitaram-se, irritados, ao constatarem aquela verdade. Encheram-se, outra vez, daquele veneno amargo que ameaçava consumi-lo devagar.
A mão deslizou pela superfície lisa da pedra, ainda incrédula, como se aquele desenho fosse uma sujeira e ele estivesse tentando apagar.
Passou a mão pelo ridículo desenho de duas cabeças.
...Kairi.
Ela havia se intrometido até ali, nos mais secretos recantos da amizade deles. Ela havia...
(Desde quando?)
...Vencido.
Shadows appears right before my eyes
(Sombras aparecem em frente aos meus olhos)
Ele poderia, sem dúvidas, ter ficado ali para sempre, o rosto colado ao seu peito, somente ouvindo o delicado bater do coração como ondas de veludo.
Mas, infelizmente, não fora aquilo que aconteceu.
Riku abrira os olhos antes disso.
À sua frente, o corpo esguio pareceu estremecer quando o mais velho tocou-o, apenas para afastar-se em seguida.
Aquela era uma lição que o jovem rapaz preferia nunca ter aprendido – mas que, ao mesmo tempo sabia que, se houvesse adiado ou mesmo jamais sabido de sua existência, teria se perdido para sempre. Eram palavras feitas de dor e de um futuro estendido interminavelmente à sua frente.
“Escuridão.”
Trevas sempre serão trevas.
Ela podem até mesmo serem mascaradas pela luz – como a caverna que eles exploravam quando pequenos. Um útero de escuridão visitado ocasionalmente por pequenos pontos de sol.
Mesmo assim, a escuridão nunca deixa de ser a escuridão.
E, quanto mais próxima da luz, mais evidente fica.
Até ali, até aquele momento...
Até aquele pequeno toque que fazia o garoto debaixo de si estremecer em uma agonia prazerosa...
Quantos pecados ele tinha acumulado até ali?
Talvez, o mesmo número de estrelas que, numa noite abafada, havia contado no céu daquele pedaço de universo.
Em verdade, desde sua juventude ele acumulara pecados.
Enquanto andava ao lado de Sora – Sora, a criança que corria, um imenso sorriso no rosto, sempre tão simplista e satisfeita com tudo –, ele percebia, com um traço distante de inveja e um ainda maior de complacência, o tamanho da diferença entre eles.
Quanto mais próxima da luz, mais evidente as trevas, não?
Riku sempre soube.
Sempre soube, no fundo, que era fraco.
Mas talvez – tão talvez quanto nunca ter notado o quão cretino era –, fosse tão natural ser a escuridão que se alimentava daquela luz que ele não prestara atenção.
Talvez...
...Talvez ele simplesmente tenha aceitado aquele papel.
Assim, sem ao menos nem se debater.
Como quando aceitou as trevas que foram consumindo-o de forma tão profunda o período de pouco mais de um ano.
Ele aceitava, simplesmente, tudo de braços abertos.
Não muito diferente de Sora, naquela questão...
...O grande problema era:
Sora nunca aceitou a escuridão.
Nunca precisou fazer isso.
(E ele desejou – do fundo de sua alma suja – que nunca precisasse.)
Mas, naquele instante, Riku percebeu o tamanho do pecado que estava cometendo; aquela coisa horrível que estava fazendo.
Estava sujando-o.
Suas mãos contaminadas de trevas estavam enchendo o corpo do garoto de uma escuridão que não combinava, que não devia estar ali.
(O mundo nunca foi daquele jeito.)
Como piche, aquela superfície viscosa e escura escorria, manchando os lençóis, o quarto, sua respiração, sua visão...
...O menino...
Ele parou.
De respirar, de se mexer, até mesmo de existir.
Riku parara.
Sounds echo the absurd
(Os sons ecoam o absurdo)
Sora, em meio à surpresa que momentaneamente o paralisou, precisou de um olhar, um momento de silêncio – uma pequena réstia de desespero.
Um breve vislumbre de um azul-esverdeado que sempre lhe roubava a respiração e o tempo.
Nunca precisou de mais do que aquilo, na verdade.
E, então, segurou aquela mão pálida.
- Você não está tentando lutar sozinho de novo, está, Riku?
Hard to explain
(Difícil de explicar)
O menino escolhido pela Chave estendeu sua mão, chamando pelo amigo que desaparecia nas trevas.
- Espere!
Mas não conseguiu alcançá-lo.
Um toque enluvado, um mundo de branco inexistente.
A primeira lágrima foi a mais difícil; as outras simplesmente vieram, como a respiração volta gradativamente após se afogar com água.
O agora rapazinho estendeu sua mão, clamando pelo amigo desaparecido nas trevas.
- Eu o procurei por toda parte!
Ele conseguira alcançá-lo.
Something that I heard
(Algo que eu ouvi)
Uma voz no meio do nada:
- Não eram bons, aqueles dias do passado?
Now, hear the forest talking
(Agora, escute a floresta conversando)
Insects and birds
(Insetos e pássaros)
O céu sempre lhe pareceu interminavelmente distante, como uma prisão.
Da segura sombra de uma palmeira, Riku encarava aquele azul nauseante, enquanto um milhão de pensamentos e, ao mesmo tempo, nenhum atravessavam sua mente.
Era para aquilo que voltara após uma longa jornada de escuridão.
Para um azul interminável, para um pequeno pedaço de paraíso.
(Para a vida que deveria ter sido.)
Uma sonolência irritante parecia acariciar seu rosto, arrastando-o muito lentamente para uma inconsciência de olhos abertos.
O rapaz pensou se, afinal, não era assim que se sentia um pássaro de asas cortadas que se debateu dentro de sua gaiola por tempo demais, até exaurir-se completamente. Um pássaro que desistiu da liberdade, trocando-a pela pequena beleza colorida de seu novo e limitado espaço.
Ele fechou os olhos.
- ...Eu sei que está aí.
E um som conhecido o fez sorrir.
- Droga.
Sora aproximou-se, a contragosto.
- Também queria assustá-lo, não é justo!
- Não sou como você – o rapaz de cabelos prateados devolveu. – Que fica distraído por nada.
O moreno sentou-se ao lado do outro, sem falar nada por um momento.
Cruzando os braços, voltou os olhos azulados para o amigo:
- Não fico distraído!
- Fica sim – objetivou. – E está ficando mole de novo. Soube que andou perdendo em seu próprio jogo do Wakka.
Sora corou de imediato:
- Como...?!
- As notícias voam neste mundo pequeno.
Desviando o olhar, o mais jovem, num misto de vergonha e falta de argumentos, cruzou ainda mais os braços.
Riku quase sentiu vontade de sorrir de novo.
Era um “sonho”...
Há pouco tempo, aquele garoto portava a arma escolhida e destruía a escuridão dos mundos, com um olhar solene de salvador em sua face. Era, antes de um escolhido, de uma jovem criança, um homem.
E, agora, estava ali, perdendo para um jogo o qual ele próprio havia contribuído, no qual antes de tudo tinha um nome.
Talvez, o paraíso amaciasse as pessoas mais do que deveria.
- Se continuar assim, eu não acho que você vai continuar onde está por muito tempo – Riku aplicou, então, o golpe de misericórdia.
Sora, como o previsto, virou-se, chocado.
- Nem pensar!
- Se não começar a correr atrás, logo não será mais capaz de vencer nem mesmo o Tidus.
O rosto do jovem moreno contorceu-se no desespero da verdade iminente.
Havia tanta luz naquela expressão
(ou era o sol irritante?)
que Riku quase sentiu-se ficando cego.
Ele virou o rosto, protegendo-se daquela luz.
Sora calou-se, e houve um profundo e intocado silêncio entre eles – somente quebrado quando o garoto, afinal, encostou as costas no braço do outro, apoiando-se ali.
Riku não se moveu, apesar do gesto repentino ter, de fato, surpreendido-o. A luz ainda estava forte.
- Eu estou feliz... – confessou.
- Hum?
- Estou feliz – repetiu o moreno. – Porque sei o quanto é difícil para você estarmos “juntos” de novo, depois de tudo. Mas você está aqui agora, Riku. Está comigo. Estou feliz por isso.
(“Eu não queria que você me encontrasse.”)
O silêncio do garoto de cabelos cor-de-prata nunca pareceu incomodar Sora, ele pensou.
Talvez porque o garoto soubesse o significado por trás dele...
- Ei.
- O que?
- Não eram bons, aqueles dias do passado?
(Dias onde Riku encarava a parede da caverna, queimando num veneno que ameaçava levar uma parte de si embora.)
- Todas as coisas que fizemos... Todos os bons momentos que passamos... – Sora sorria, encarando o céu distraidamente. – Todas as coisas das quais falamos... Aqueles tempos onde o universo era só feito de imaginação e tudo se resumia a essa ilha...
Os tempos onde Riku ainda não fora corrompido pelas trevas.
E os dias onde eles ainda conversavam de igual para igual – sem sombras ou luz, sem distância ou proximidade.
Os dias mais simples que alguém podia conceber.
E, mesmo assim, os mais felizes.
...Sentia falta deles?
Does the scent of soil and beast
(Será que o cheiro do solo e da besta)
Em algum lugar do passado, uma garotinha de vestido branco e cabelos castanho-avermelhados parou em frente dele.
O vestido branco tremeluzia como luz de velas ao sabor do vento tropical.
Ela encarava o pequeno de olhos azul-esverdeados com um interesse velado, com uma estranha proximidade...
- Você...
O mesmo olhar que Riku viu naquela Kairi que desceu do tronco – agora uma bela moça – e também, num silêncio especulativo, o encarava.
- Você...
Ela sorriu.
- ...Vai continuar me odiando, não é?
Breathe the life into the animal you hide?
(Despertam a vida no animal que você esconde?)
- ...Está com ciúmes, não está?
A pequena Kairi não sorriu.
O olhar de Riku continuou fixo no sorriso da garota. E os lábios dela moveram-se de novo, no mesmo golpe de misericórdia que ele costumava aplicar:
- Será que, afinal, você também não quis o Sora só pra você?
It's a great illusion
(É uma grande ilusão)
One never knows
(Ninguém jamais saberá)
Ele passou a mão pelo desenho das duas cabeças na pedra.
Aquela sujeira não saiu.
O garoto estreitou os olhos uma vez mais, desgostoso. Quanto mais olhava para aqueles traços, mais os sentia penetrar em sua pele, como tatuagem, como uma mordida.
A dor amarga foi uma novidade.
Não que ele gostara dela...
Uma réstia de sol iluminou o solo irregular, cheio de pequenas pedras que, outrora, ele e Sora usavam para desenhar aquelas mesmas besteiras nas pedras da caverna.
Por um longo tempo, Riku encarou somente o chão, incapaz de mover-se.
Era como ter alguém o segurando tão firmemente quanto possível pelos ombros, impedindo-o talvez até de respirar.
Era como ter aquele mundo inteiro sendo carregado por si.
O peso de uma verdade pode ser muito terrível; e ele, somente uma criança, descobrira isso da pior maneira que podia conceber.
A mão pálida rumou, sozinha, sem que a mente pensasse em nada até o chão, tateando-o.
Enquanto o branco dominava sua cabeça, o negro dominava seu coração.
Ele sentiu o toque gélido e áspero de uma pedra em sua mão e entendeu, sem nem mesmo precisar explicar a si mesmo.
(O mundo não deveria ser assim.)
Outra vez, porém, ele sentiu o corpo subitamente desprovido de força.
Uma outra espécie de sensação – algo mole e pegajoso, algo parecido com piche, que ia escorrendo e aderindo à pele – o envolveu com braços apertados, deixando-o flácido como os pequenos botes amarrados à madeira do píer.
Não era assim...
Não era aquela menina...
Não era ali...
Lá fora, abafado, como se viesse de uma outra dimensão, o som do riso de uma criança.
Lá dentro, na escuridão salpicada de pequenas luzes, Riku continuava com a pedra na mão.
Ele nunca riscou aquele desenho.
When you think you're really alone
(Quando você pensa que está realmente sozinho)
Lutando sozinho?
Não sabia.
- Desculpe – sussurrou. – Eu o machuquei?
- Não – o garoto meneou a cabeça. – Riku...
As ondas de veludo cessaram.
Os pequenos pontos escarlates de sol, tingidos da cortina que cobria a cálida tarde do pedaço de paraíso perdido que dividiam, cessaram.
Até mesmo sua respiração havia cessado (mas estava vivo).
- Não fale nada – pediu.
O jovem calou-se, como pedira, e o próprio quarto mergulhou num silêncio estagnado como o ar de um balão.
Mas o mais velho continuava sentindo os olhos – aquele azul brilhante e precioso como uma jóia – fixados nele, procurando qualquer ponto naquele outro azul-esverdeado no qual, até então, estivera completamente mergulhado.
A verdade, porém, é que não havia nada ali.
Não agora.
...E Riku pensava se algum dia sequer houve.
Aquela substância negra e viscosa escorria de seu próprio corpo; e foi com um horror nublado, distante, como se estivesse vendo a si mesmo de longe, que ele percebeu que estava não apenas sujo, mas sujando tudo ao seu redor.
Ele estivera, afinal, sujo desde o começo.
Foi com aquelas pequenas palavras – as que mais machucavam – que estivera machucando a pessoa que lhe foi mais preciosa.
Construindo distâncias, passos na areia, palavras geladas.
Riku esteve deixando atrás de si um rastro de tênue escuridão, que apenas tomou forma quando se entregou ao caos que uma vez varreu Destiny Islands da existência.
Era a sua escuridão, aquela.
A que sempre esteve dentro dele.
(“Mas você não o queria só para você?”)
Nada mais do que a verdadeira arma que usou durante tanto tempo para sujar a pessoa que mais deveria ter sido protegida daquela sujeira.
E agora...
A visão daquele Sora envolto em escuridão o assaltou com uma força que o fez se afastar.
Quão verdadeiramente profunda foi aquela sua crueldade covarde?
A luz não poderia limpar o mais jovem para sempre.
Algum dia...
...Ele iria se sujar...
Aquelas mãos que o estiveram tocando até então...
Elas já estavam sujas até o âmago.
E estiveram – sempre estiveram – por tanto tempo, de uma forma tão certa e natural que Riku sequer percebera que, afinal, jamais esteve em luz.
(“Você está com ciúmes, não é?”)
Elas iriam, invariavelmente, algum dia, sujá-lo – e isso era tudo o que ele não desejava.
Já havia causado tristezas demais.
E aquela, em especial, era uma que ele não suportaria.
Sora não merecia aquilo.
Ninguém merecia aquilo.
Riku estendeu a mão até tocar no rosto confuso do mais jovem; ele estava quente e seus olhos, brilhantes.
- Me desculpe.
Feel the eyes of someone looking in on you
(Sinta os olhos de alguém o observando)
Sora, então, tomou aquela mão entre as suas, enlaçando seus dedos, e somente sacudiu a cabeça com um vagar decidido.
- Não, Riku.
E depositou um casto, quase sagrado beijo ali.
- ...Eu o desculparia se você tivesse feito alguma coisa.
Again, see how the children play
(De novo, veja como brincam as crianças)
Era como estar sendo purificado.
Mas ele não imaginava que mesmo o garoto – mesmo que fosse o garoto, que tão acostumado estava a purificar coisas, mesmo que nem percebesse isso – pudesse conseguir tal feito.
Não aquela purificação.
Não com ele.
Era alguém além de qualquer possibilidade de salvação.
E, mesmo assim, quando os dedos do garoto enlaçaram-se aos seus, ele não se moveu, nem mesmo resistiu.
Uma memória dolorosa
(A lua alimenta-se da luz do sol.)
queimou-o, como a própria luz. Mas Riku não se moveu.
Ele sempre soube que, afinal, Sora era a luz.
A sua luz.
Ele soube desde o primeiro momento, mas nunca pôde converter aquela ciência em palavras – fato irônico, vindo de alguém que se gabava para aquele mesmo menino de sua inteligência superior.
E, talvez, ele estivesse amarrado ao destino de amá-lo – como um amigo, como um amante, como um inimigo, como uma pessoa... – para sempre, sem que pudesse necessariamente resistir àquilo. Era como a luz que o envolvia naquele momento – não a do sol, abafada por cortinas, mas aquela. Aquela vinda do corpo com aroma de sonho.
Talvez, até mesmo tenha sempre estado amarrado, e nunca se preocupara com o fato; porque parecia certo.
Era certo. Era daquele jeito.
O mundo era daquele jeito.
Sora era sua luz e Riku era a dele.
(“Você está com ciúmes?”)
Ele sabia que não deveria encarar o garoto: os pecados do passado ainda eram pesados, eram densos e escorriam de seu poro, negros, pegajosos.
Possivelmente, eles estariam lá para sempre.
Possivelmente, Riku nunca mais pudesse olhar para o rosto de Sora sem ver um espelho que refletisse sua própria podridão em contraste com a palidez morna do vidro do mesmo.
(Aquele menino tão puro, um dia, precisaria saber que a bondade às vezes machuca muito mais do que a maldade?)
Ele, provavelmente, sempre veria – para sempre e sempre – o seu próprio “eu” do passado cravado na luz.
(Não. Não precisaria.)
Sempre teria que desviar os olhos; ela machucava mais do que devia.
E mesmo assim...
...Mesmo assim, não conseguia conceber qualquer outro destino que não fosse estar junto do garoto de olhos azuis puríssimos.
Era o único destino certo.
Era a única coisa que realmente fazia sentido num mar de incertezas.
Porque, afinal, sempre fora assim.
Antes das brincadeiras e das pegadas de areia distantes deixadas em praias do passado, antes de cavernas onde ele deixara intrusos entrarem (porque, afinal, a luz brilha para todos, não só para uma pessoa), antes mesmo deles se conhecerem, eles já se amavam.
Já eram os melhores amigos, os melhores rivais.
Red moon colours the trees
(A lua vermelha colore as árvores)
Talvez...
Não, ele estivera sim sendo amado desde o primeiro momento.
Da mesma forma que ele próprio também amara desde o início.
Porque, afinal, a luz só é luz porque há escuridão na qual se apoiar; e a escuridão só pode ser vista porque há luz para evidenciá-la.
Poderia Riku...
Poderia mesmo ele...
Ser a luz de alguém?
Ser a luz daquele menino?
Mesmo quando, em verdade, só estivesse tentando sujá-lo com as impurezas de um mundo cínico desde o princípio de tudo?
Mesmo assim, parecia tão cruel...
Sora merecia uma luz tão radiante quanto ele próprio; merecia algo melhor. Qualquer coisa era melhor que Riku.
(Kairi.)
E tudo o que ele conseguiu foi...
(Riku.)
Aquilo.
...Parecia um pouco injusto.
Então, por que ele estivera lutando contra isso todo o tempo? Aquele também foi mais um de seus patéticos erros?
(Quão imensa foi sua crueldade covarde?)
O olhar azulado de Sora o encarou, desviando aqueles orbes de luz dos dedos entrelaçados – luz e trevas em um só lugar, tão unidos que mal podia-se notar a diferença –, e houve um silêncio que pareceu durar uma eternidade entre eles, onde tudo que houve foi o azul e o verde.
- Você não acha bonito?
Their feet, innocent rustling sounds
(Seus pés sussurram sons inocentes)
O rapaz de cabelos prateados arqueou a sobrancelha.
- O que?
Sora sorriu, colocando a outra mão sobre as deles.
- Não acha que sua mão é bonita?
Um deslizar inocente em seus dedos fê-lo pensar de novo naquela sensação perdida de ondas de veludo em uma praia. Como quando ouviu o coração do garoto – tão calmo, como se estivesse aceitando-o, mesmo que isso significasse uma luz corrompida.
Aquele carinho também era exatamente assim – uma aceitação.
- Elas ainda possuem trevas, mas...
Uma vez mais, o mais jovem pousou os lábios reverentes na mão pálida. Riku só pôde observar, num silêncio quase que chocado, o gesto macio.
- ...Mas, quando você me toca, tudo o que sinto é luz – ele sussurrou, um sorriso vindo de suas próprias palavras. – Isso é a sua gentileza. Você é gentil, Riku... Eu acho isso tão bonito. Você não concorda?
Playful, dreamlike fantasies
(Sonhos divertidos como fantasias)
- Venha, Sora.
Ele parou e esperou.
Lá atrás, o som de uma alegria incontrolável fê-lo perceber que o menino provavelmente estava abrindo outro de seus sorrisos absurdamente radiantes.
Ele sempre fazia isso quando Riku finalmente o esperava.
O pequeno Sora correu, vencendo a distância entre eles enquanto o sol brilhava num céu de anil puríssimo, da cor de um sonho dedilhado à exaustão.
- Riku!
Sua exclamação coincidiu com o exato instante em que, com um sorriso radiante, ele finalmente prostrou-se em frente ao amigo de sempre.
Riku, por outro lado, não exibia sorriso algum.
- O que foi?! – o menino, então, perguntou. Sua expressão fechou-se em uma agonia preocupada de imediato; algo quase doloroso.
- Achei que estivesse mais divertido brincar com Wakka e os outros.
A expressão do pequeno garoto de cabelos acastanhados passou de um choque que se comparava a uma dor física, para uma expressão de horror e de ofensa e, em seguida, aliviou-se para algo que se assemelhava a uma compreensão que pouco se caracterizaria à sua pouca idade.
Ele acenou com a cabeça, concordando.
- Estava divertido!
Riku estreitou os olhos, num gesto odioso.
- ...Mas...
Mas, antes que pudesse seguir caminho – enquanto o veneno das palavras inocentes do pequeno amigo iria correr pelo resto do dia em seu sangue –, Sora segurou seu braço.
- Mas quando estou com você, Riku – ele disse. – É tudo bem mais divertido!
O sorriso do pequeno, naquele instante, teve algo de profundamente sagrado para o mais velho.
- Você é meu único e melhor amigo.
(“Você não concorda, Riku?”)
E o garoto do passado e do presente, então, também sorri.
Notas finais
Mas, no final, eu classificaria essa coisa como: "PWP sem vergonha que eu usei de desculpa para um drama barato e um pouco de pr0n -q". Não há outra classificação mais certa. -qq
Mesmo assim, obrigada aos que lerem e aos que comentarem~~ <3333
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