Crônicas em vozes

3 Olhos vermelhos - Pt. 2


Depois de acalmar a minha respiração, vou direto para o banheiro, fecho a porta atrás de mim e arranco as minhas roupas que já grudavam de suor. Minha cabeça girava, meu peito parecia pressionado e minhas mãos tremiam. Nunca tinha visto algo assim, na verdade, questionava até mesmo se eu vira algo.

Depois de um longo banho me jogo na cama desarrumada desde a semana anterior. Não passa pela minha cabeça jantar, apenas queria dormir para esquecer aquilo. Mas era difícil. A imagem desforme e negra no banco de trás ainda me assombrava, mas pior que isso era tentar dormir com quadros nos criados mudos com vidros refletindo o que havia atrás de você. Na escuridão, tudo tomava a forma que quisesse.

Me forçava a fechar os olhos, mas a tensão era tamanha que eu tinha que os abrir de quando em quando. Sem motivo algum, apenas tinha, como que para conferir se não havia nada me espreitando nas sombras. Me disseram na academia que esse conhecimento era bem vindo em nosso ramo de trabalho, mas nesse caso, não era. O reflexo deformava ainda mais a escuridão da parede atrás de mim, então qualquer coisa poderia estar ali e eu simplesmente não a veria, mas não dava para deixar de olhar.

Uma piscadela, apenas escuridão, volto a cerrar os olhos. Me pego os abrindo de novo, o reflexo do vidro da armação mostrava apenas uma parede vazia e enegrecida pela noite sem luz artificial atrás de mim, então os fecho novamente. Como que sozinhos, meus olhos se abrem mais uma vez e eu fito dessa vez, outra moldura também envidraçada, talvez devesse destruí-las pela manhã. Ainda nada. Finalmente pego no sono, começo a sentir meu corpo amolecer, minha espiração é ritmada, mas sinto algo me incomodado, como uma pressão nas costas nuas, abro novamente os olhos. Depois os cerro, escuto respiração tomar conta do silêncio do quarto.

Não era a minha.

Abro os olhos: olhos vermelhos, casaco preto, postura ereta.

Antes que eu possa pensar, minha mão alcança o cabo do revolver abaixo do meu travesseiro e eu me viro, mirando para onde a coisa estava, mas não havia nada lá, nada a não ser uma foto minha, recém saído da academia, o olhar jovial e decidido contrastando com meu atual olhar desesperado e exausto, os dois se encarando na noite, sem falar nada, com uma arma entre ambos apontada para o mesmo eu do passado. Baixo a arma ainda me sentindo sufocado. Me arrepio em pensar que ele poderia ter se esgueirado para debaixo da cama.

Rolo de lado até cair no chão frio e aponto a arma para lá, segurando-a com as duas mãos, mas estava vazio. O som do metal balançando em minhas mãos trêmulas e suadas é a única coisa que eu ouço. Sinto meus músculos relaxarem e me levanto, sentando na cama com uma postura derrotada, mas ainda tensa. Olho para os retratos, alguns ainda tinham a minha recente ex-mulher neles. As memórias viajam para as brigas, para o estresse, para as horas e mais horas fingindo que nada estava errado quando mal nos falávamos direito, os vários e vários momentos em que sentia vontade de saltar pela janela e não voltar nunca mais, mas nunca o fizera.

Agora não importava mais. Cambaleei até o chuveiro novamente e tomei mais um banho, a noite seria longa.

Enquanto os primeiros raios de sol entravam no meu quarto, eu já estava estacionando em frente ao prédio baixo de escritórios. Não tinha como dormir em casa depois do que aconteceu e não tinha como falar para ninguém sobre isso, ou me achariam louco. Caminhei em meio a longos bocejos até entrar no escritório, no caminho, talvez meia dúzia de pessoas tivessem tentado falar comigo, mas eu não tinha a mínima vontade de manter qualquer contato social. Ao sair de casa, tomara uma tonelada de remédios para a indisposição e para a ansiedade que me consumia desde que eu possa me lembrar, mas nada tirava meu sono.

Me deixei cair pesadamente na cadeira assim que entrei, meu corpo clamava por pelo menos meia hora de sono revigorante, mas minha mente, que corria a milhão, não estava disposta a dar a ele este luxo.

As horas passavam arrastadas, perdi as contas de quantas pessoas atendi nesse dia, a papelada se acumulava, mas uma pasta em especial tomou toda minha atenção, fotos presas por um clips de papel mostravam uma garota muito bonita e alegre brincando em algum lugar, não pude conter um sorriso em folheá-las, mas ele logo desapareceu. Depois da segunda foto, uma foto era aterradora. Era a mesma garota, pele morena como a minha, cabelos cacheados como os meus, olhos grandes e esperançosos como os que eu tinha antes de ser tão massacrado pela vida, mas o brilho dos dela não era mais de uma pessoa vida, nesse instante fui transportado para aquela cena de crime mais uma vez.

Pelo resto do dia, não atendi mais ninguém, fiz questão de que não me interrompessem e até tranquei a porta, mas nem esse descanso parecia me tranquilizar, minha mente estava inquieta, meu corpo se sentia cansado, meus olhos piscavam cada vez mais longamente e a minha cadeira parecia estranhamente confortável naquele fim de tarde.

Por fim, adormeci, vencido pelo cansaço.

Não me lembro de quando adormeci, mas me lembro de quando comecei a sonhar. Estava novamente em casa. Não a minha atual casa de um quarto, uma suíte, sala e cozinha americana, mas minha antiga casa, dos tempos de infância. A casa feita de taboas pregadas uma a outra feita pelo meu avô se erguia no topo de um pequeno morro de terra batida. Ao seu redor, um terreiro sem plantas ou ervas daninhas, apenas uma árvore de amoras. Me via ao lado dela, de frente para o fundo, agachado e olhando para o chão, enquanto brincava com um graveto, uma sensação de nostalgia me acomete.

Risco alguns círculos e linhas no chão aleatoriamente, com a mente de uma criança, então me levanto, bato a poeira do short azul escuro de tecido todo esfarrapado e caminho com meus pés descalços em direção aos fundos do terreno, tomado por pés de manga e mato rasteiro, além de algumas ervas que se diziam ser medicinais.

Escuto um barulho baixo como um farfalhar de asas e olho a minha volta, procurando os pássaros para brincar, mas não havia nada ali. De fato, não havia nada além de um ambiente que parecia paralisado, o ar era morno e parado como o interior de uma sala abafada, o chão era especialmente incômodo, apesar da minha facilidade em andar descalço em terreno acidentado e o céu era amarelado, parecia um cenário desértico pouco antes a uma densa tempestade de areia. Giro no meu eixo e sinto um calafrio forte e conhecido, meus pelos corporais se eriçam por completo e meu corpo gela. Desesperado, olho ao meu redor com olhos quase caindo das órbitas de tão arregalados e encontro o que procurava.

Esticado a minha frente completamente parado, como um lençol preso em um arame, estava ele. Respirava de forma leve, fazendo o sobretudo preto subir e descer levemente, a aba do chapéu muito reta e protuberante projetando uma sombra tão escura em seu rosto que o tornava irreconhecível, mas seu olhos, olhos vermelhos de irises brilhantes, pareciam muito vivas até mesmo para alguém desse plano, como se fossem saltar da órbita a qualquer momento, deixando o corpo fantasmagórico para trás.

Com o coração acelerado e o peito queimando, tento chamar por ajuda, mas ninguém vem a meu socorro, meus gritos aos poucos minguam, até saírem abafados de minha garganta em fogo como se eu estivesse debaixo d’água, ou sendo sufocado por um travesseiro invisível. Tento correr para dentro de casa, mas não vejo ninguém, o desespero a esse ponto já me consome. Volto para onde o homem e estava e ele parecia se aproximar, vagarosamente, mas não com passos normais. Ele se aproximava sem se mover, como se flutuasse, não tinha certeza de como, mas ele parecia mais próximo e maior a cada instante, saindo de trás da árvore de onde estava e vindo na minha direção. Grito. Dessa vez, o grito é audível, na verdade, audível demais, abro os olhos e estou novamente do escritório, com a cara amassada, olhos arregalados e uma linha de saliva saindo da boca, saliva essa que umedecia os papéis sobre a mesa.

Desde então, me coloquei a pesquisar mais sobre esse caso e sobre essas aparições. No final do sétimo dia de investigação intermitente, lá estava eu. Jogado no sofá, bêbado de tequila, fedendo a nicotina, tabaco, álcool e suor, tudo sem nenhum toque de desodorante ou perfume. Meu escritório não cheirava melhor. Com a cabeça recostada no escoro do sofá, me permito mais um punhado de sono, vinha dormindo mal a semana toda e como não era surpresa, mais uma vez tenho o mesmo sonho. Homem de preto, cada vez mais perto a minha casa, eu desesperado tentando gritar e avisar meus pais que eu não encontrava em lugar algum e o sentimento de estar me afogando no seco.

Um barulho me acorda, não salto do sofá, meu coração não dispara, meu corpo não se arrepia, apenas abro os olhos, encontrando a frente deles o teto branco salpicado de infiltrações esverdeadas. O barulho volta, parecia vir de fora. Me levanto, sentindo o efeito da ressaca começar a tomar meu corpo e caminho em direção à porta. A vibração do mecanismo da fechadura entra fundo em meus ouvidos enquanto eu giro a chave, quase me fazendo desistir, mas termino e a abro.

O cheiro de desinfetante barato dos corredores daquele lugar era inconfundível, o som dos azulejos sendo riscados pelo solado dos meus sapatos enquanto ando também não. O barulho continua, parecido com alguém tentando fechar ruidosamente uma janela na sala ao lado. Chego à porta e tento espiar para dentro, mas o vidro fantasia, com suas estúpidas ondulações não me deixa ver nada além de uma sombra subir e descer. Coloco a mão na maçaneta e como se ela estivesse eletrificada, uma onda percorre meu corpo e me arrepia por completo, meu coração começa a bombear sangue rapidamente, minha cabeça pulsa com a pressão e minhas pernas ficam dormentes. Com a boca seca, tateio até encontrar a arma sob meu braço e a tiro do coldre, engatilhando antes de entrar.

Giro a maçaneta redonda e brilhosa com cuidado, a porta se abre em um estalo baixo e o barulho lá dentro cessa, talvez quem estivesse ali tivesse conseguido fugir, mas tenho de entrar mesmo assim. Empurro porta com as pontas do dedo e entro na sala, primeiro com o cano do revólver, depois com a cabeça, só então o corpo os acompanha. Lá dentro, nada parecia diferente, nada parecia estranho, os papéis esparramados pela mesa pareciam esquematicamente amontoados, nas paredes, nenhum quadro revirado, a janela estava fechada e a cadeira com o escoro de costas colado à mesa, não tinha onde alguém se esconde ali, a não ser...

Percebendo meu erro, giro o tronco me abaixando um pouco e estico os braços com a arma em riste, com um joelho cravado no chão, aponto o revolver para um lado e para o outro, vasculhando os cantos do cubículo que tinham ficado atrás de mim, até mesmo o teto eu não resisto em dar uma olhadela, mas nada ali parecia estranho, sequer parecia que alguém estivera ali desde o fim do expediente. Dou uma rápida volta na mesma como um descargo de consciência e como esperava, não encontro nada por lá além de um chão aranhando pelas rodas da cadeira de madeira acolchoada e algumas fagulhas recentes de cigarro.

Respiro fundo olhando no relógio, já passavam das 3h da manhã, me sentia exausto. Caminho para a porta devagar, como se tivesse que arrastar mecanicamente minhas pernas para dar cada passo, elas de fato pesavam, assim como meus olhos. Pisco enquanto cruzo a pequena sala uma vez, duas, três, meus olhos cada vez mais pesados, cinco vezes, seis vezes e antes da sétima, vejo uma sombra refletida no vidro da porta. Parecia ser a minha, parado de frente para ela, mas mesmo que estivesse próximo da porta como estava, ela não seria tão grande, dou um pequeno passo para o lado ela aumenta um pouco mais. Como se colocassem uma manta fina e gelada nas minhas costas, sinto o medo tomar conta de mim mais uma vez, a sala se enche com o barulho da janela batendo, dessa vez, freneticamente. Em um gesto teatral, a sombra atrás de mim, que se refletia pela porta, abaixa um pouco e a vejo mudar de forma, como se colocasse algo sobre a cabeça. Um longo chapéu. O ritmo de batida da janela aumenta, batendo mais rápido até que meu coração, sinto uma carga de adrenalina preencher meu corpo, minha mente fica turva, travo os dentes um contra o outro e contraio meu rosto em uma expressão enfezada, o vidro se estilhaça.

O cano do revólver vomita uma fumaça que sobe lentamente, sinto meus ouvidos zunirem pelo barulho alto em um lugar confinado, mas observo estarrecido o vidro quebrado se pendurando apenas ao recorte de madeira da folha da janela. Abaixo devagar a arma ainda sentindo o sangue pulsar em meus ouvidos, respiro fundo e caminho, pé ante pé, na direção da mesa. Enquanto estou no meio do caminho, o arrepio volta, escuto um zunido estranho e depois me vejo voando sobre a mesa. Caio sobre ela e deslizo na madeira, papéis voam por todos os lados e a arma pula para longe das minhas mãos, me debruço sobre a cadeira e ela cede com meu peso. Talvez seja hora de considerar voltar a ficar em forma.

Me levanto o mais rápido que posso com as costelas que pousaram sobre os descansos de braço reclamando, olho para a porta e lá estava ele, olhos vermelhos penetrantes, casaco estupidamente negro como se tomasse a luz para si e o chapéu preto tapando suas feições, a jogando em uma penumbra ridícula. Me senti novamente no sonho, a mesma sensação incômoda de incapacidade me acometendo novamente, o mesmo suor frio, tudo de volta.

Mas dessa vez, eu não larguei o graveto que desenhava, assim como não larguei o escoro de braço que se quebrara com meu peso. A coisa se aproximava de seu jeito irritante de andar, sem desviar o olhar. Apenas parecia flutuar para perto. Esperando o momento certo, observo-o se aproximar da mesa enquanto descanso as costas doloridas na parede, então me levanto, com a arma improvisada em mãos, girando o braço e tentando acertá-lo na cabeça o mais rápido possível.

Meu braço gira, meu corpo gira, o objeto de madeira está prestes a se chocar contra a coisa e então, ele a atravessa. Como se fosse feito de poeira, sua imagem tremula por um segundo enquanto a arma o atravessa e depois volta a seu estágio natural, como se nada tivesse acontecido. Sinto o horror me percorrer, a arma estava inalcançável, o bastão não estava mais na minha mão e o homem, sem pestanejar, atravessava a mesa como se não estivesse ali. Desesperado, tento me espremer contra a parede atrás de mim e sinto meu corpo pender para trás, já fora do lugar, a chuva que acabara de começar molhava meu rosto enquanto eu olhava para o chão dois andares abaixo, não era uma queda mortal, mas era considerável. Sabia o que fazer.

Olhando para a coisa que agora esticava sua mão como uma garra em minha direção, me debruço mais ainda pela janela e sinto o corpo cair, vejo as gotas me acompanharem até o chão, me sinto leve, me sinto aliviado, vendo o que quer que seja me olhando lá de cima, arrisco mostrar o dedo do médio para ele ainda em meio à queda.

Depois de um baque surdo, não vejo nada.

***

A imprensa se acotovelava na porta, Otis parecia inquieto revisando as câmeras de segurança de seu escritório.

Nelas, um homem de roupa social e mocassins pretos invade o lugar de arma em punho, atirando contra a janela depois de um tempo parado, se ajoelha aleatoriamente apontando o revólver para o nada, pouco antes de se jogar por cima de sua mesa, quebrando sua cadeira favorita. Pouco tempo depois, com um dos escoros de braço em mãos, ele joga a peça na janela, que se quebra por completo, permitindo que ele se incline para fora, logo antes de se permitir cair por ela.

Ele massageia as têmporas enquanto observa a gravação na outra tela em preto e branco do mesmo homem caindo de costas sobre o teto de um carro estacionado, seu carro estacionado, fazendo o teto dele ceder para dentro. A queda, ainda mais amortecida pelo teto do carro, não deveria ser mortal, mesmo assim, inexplicavelmente como a garota de uma semana atrás, ele morrera pelos seus órgãos, em perfeito estado, simplesmente pararem.

— Zé... – ele balbucia se lembrando dos laudos médicos antes de sair do local.

Os monitores, deixados ligados, piscam de leve, mostrando uma leve sombra de formato estranho no canto da sala. Tão rápida quanto aparece, ela deixa de existir.