LUCKY'S POV
—Me surpreende muito você saber o caminho de volta pra casa.-ouço Marisol dizer, me acordando.
—Este lugar não é minha casa.-Murmuro de volta, me levantando das macias anêmonas e dando passagem para que alguns pequenos peixes passassem. Estendo a mão para encurralar um deles, brincando, mas imediatamente, Marisol empurra minha mão pro lado.
—Agora é. E não se pode perturbar um peixe, já disse-lhe isso!
—Por qual motivo mesmo?
—Eles são os principais criadores e conservadores da Sub-Terra, portanto...-Me desligo do resto da explicação e, automaticamente, o primeiro pensamento que crio é meu plano de fuga com Ashley.
Penso no modo como ela soluçava na tarde anterior e as imagens de minhas irmãs me vêm à mente, como fantasmas. Quando na verdade, eu é que devo ser o fantasma pra elas. Como devem estar se virando sem minha ajuda? Quem vai buscar lenha na fogueira e quem vai trazer dinheiro e histórias do navio?
Meus ombros caem, suspiro, sentindo o rosto arder e bolhinhas saírem de minha boca.
—Lucky, você está bem?-Marisol pergunta, parando a explicação sobre os peixes.
—Já estive melhor.
—Será que podemos ir? É que o emprego de aconselhar um dos escolhidos é muito importante pra mim e não quero que o representante deste mar venha me tirar do cargo.
Reviro os olhos.
—O que temos pra hoje?-Pergunto, tentando mostrar interesse quando fugirei para os limites da cidade na primeira oportunidade.
—Treinamento com tridentes, você vai adorar!-Ela responde, nadando com a cauda alaranjada em minha frente.
Antes de sair de meu alojamento em meio aos corais, penso no que eu poderia levar comigo na viagem mas acabo de me lembrar que estou desprovido de dinheiro, não tenho pertences e nem ao menos roupas. Parece que terei de levar apenas a minha cabeça mesmo, espero que seja o suficiente para Ashley.
Sigo Marisol até a parte de fora, onde vejo algumas sereias e tritões se alimentando ou fazendo exercícios em meio às mesas de pedra esculpidas e a vegetação marinha.
Quando me viro, Marisol está com um novo tipo de comida nas mãos.
—O que são?
—São bolinhos de Espirulina e Laranja.
—Espirulina?-Perguntei, dizendo a palavra pausadamente.—E como cultivam laranjas debaixo d'água?
—Estufas cheias de oxigênio, luz solar artificial e outras coisas tecnológicamente diferentes dos humanos. Espirulina é um tipo de alga que pode se encontrar em qualquer lugar aqui, agora coma logo!
Faço uma careta, mas, pego um dos cubos macios e esverdeados de um tipo de prato nas mãos de Marisol. Jogo-o na boca e, um novo e maravilhoso sabor é descoberto pelo meu paladar. Penso em dizer a Marisol que, na terra, é completamente normal tratar peixes como alimento mas seria cruel demais, para as crenças dela. Como fazer hambúrgueres na frente de um hindu, que naturalmente trata as vacas como divindades.
Sigo a sereia até um campo aberto, coberto por uma vegetação alta que balança com a água.
De dentro da vegetação verde e vívida saem os escolhidos. Jovens tritões e sereias majestosos, atirando seus tridentes em falsos alvos.
Me pergunto se eles nunca questionaram a possibilidade de voltarem a ser humanos. Na verdade, tanto faz, eles têm mais de séculos de vida e de nada adiantaria voltar, mas ainda assim...
Ou talvez seja porque criaram laços familiares e coisas do tipo...Espere, continua não justificando nada! Eu mostraria a Terra de cima para meus filhos e netos, mostraria que ela também é linda, como esta, na medida do possível.
—Aqui, Lucky.-Marisol diz, fazendo certa força para manter o tridente de aço nas mãos.
Pego-o e o olho de cima a baixo. Três pontas afiadas e brilhantes, o cabo de aço esculpido com imagens de uma criatura furiosa, que presumo que seja o tal Leviatã.
—Faça o que eles estão fazendo e logo receberá novas instruções. Quando acabar, procure-me.-Marisol diz, já saindo com a cauda a rebolar.
Reviro os olhos novamente.
Começo a ir em direção ao campo, preciso fingir interesse antes de fugir pela terceira ou quarta vez desde que fui arrastado para o subterrâneo marinho.
Me abaixo em meio à vegetação, simulando um ataque surpresa.
—E será tão fácil, é como se nossos tridentes fossem garfos e os tentáculos deles fossem spaghetti!-Ouço alguém dizer, seguido de risadas, não muito longe de mim. Meu estômago se embrulha.
Impulsiono meu corpo pra cima, projeto um braço em minha frente e, o que segurava o tridente, para trás, pronto para atirá-lo com força e enterrá-lo na areia mas então, a mesma Ashley de ontem brota na minha frente, aos soluços. Como se eu fosso matá-la, bem ali.
Que merda eu estou fazendo?
Jogo o tridente no chão e, percebo que fora só uma alucinação. "...e os tentáculos spaghetti!". A última frase ecoa em minha mente. É cruel, é macabro.
Parece que, nem mesmo se tornando metade-animais, os humanos deixam de ser humanos.
O que há com eles? Já foram humanos mas agem como se essa guerra fosse uma coisa normal pra eles. Como se não tivesse sido imposta e obrigado eles a ficarem longe de sua família para lutar por dois malditos monstros.
Saio da vegetação e começo a nadar na direção contrária, contorno todos os alojamentos e, com os olhos em fúria, desvio de todos os outros no centro da cidade das sereias. Dobro uma ou duas esquinas e chego a uma parede cheia de buracos e corais crescendo em volta, do começo ao fim da parede, ela era viva. Como um jardim vertical.
Vou até o penúltimo buraco da direita pra esquerda e coloco meu olho dentro.
—Sr. Carangueijo! Está em casa?
Ouço alguns ruídos e tiro meu olho do lugar a tempo de não receber um beliscão de uma das garras do caranguejo.
—Ora, moleque!-O pequeno crustáceo avermelhado diz, colocando os olhinhos pra fora.—Quase que arranco esses seus olhos de vidro! Mais um susto desses e quebro esse seu nariz curioso.
—É claro que quebra!-Eu digo, rindo.
—Diga logo o que você quer, os buracos têm ouvidos e os vizinhos são uns chatos, vão ficar comentando sobre mim!
—Ah vão? Pensei que só você falasse!
—Falo a sua língua, mas os outros animais falam entre si com sua própria linguagem, óbvio!-Ele tira o resto do corpo do buraco e, com as dez patas, percorreu um caminho na parede que ia até a altura de meu rosto.—Diga logo!
—Ainda tem o mapa dos sete mares?
—Se eu tenho?! Há! É a única coisa que eu tenho certeza de ter nessa vida miserável!
—Poderia me emprestar?
—Para quê? Vai me dizer que vai sair por aí afrontando os representantes mais poderosos só pra voltar a ter malditas pernas?-Ele diz, zombeteiro.—Conta outra, moleque!
Tombo a cabeça de lado e franzo o cenho.
—O quê? Isso é real?
—Por que não?
O carangueijo para, os olhinhos me fitando e as patas completamente imóveis, como os carangueijos normais seriam. Mas ele não é um deles.
—Eu vou te dar o mapa. Mas se souberem que fui eu quem lhe dei, eu te mato.-Imediatamente, ele volta pra dentro do buraco.
Abro um sorriso triunfante.
Segundos depois, ele volta volta, desajeitadamente, carregando algo dourado e brilhante nas garras.
—Pegue.
Nas minhas mãos, posso ver o cordão e o pingente pendurado a ele. Um tipo de escapulário, com uma rosa dos ventos gravada nele.
Sem dificuldade, apertei um botão ao lado de pingente e este abriu-se em dois, como uma ostra. Então, do centro, onde deveria haver uma pérola, um fio de luz nasceu e um tipo de holograma foi projetado na minha frente. Uma luz azul brilhante faz com que eu quase feche os olhos.
Nele, é possível ver o planeta terra e os nomes dos mares, linhas imaginárias vêm e vão de todos os lados do globo, no holograma.
—Toque a região onde estamos e veja a mágica acontecer.-Ouço o carangueijo dizer.
Com o indicador, toco a região onde fica o triângulo das bermudas e o mapa se torna plano, como uma planta arquitetônica. Mostrando as cidades das cecaelias, das sereias, as depressões, as florestas marinhas, os túneis e, por fim, o começo do próximo mar.
—Nem sei como agradecer, sr. carangueijo.-Digo, fechando o pingente lentamente e pendurando o cordão no pescoço.
—Só vá logo! Tens um grande caminho a percorrer.
ASHLEY'S POV
—Levantou cedo hoje.-Savannah diz, enquanto nos alimentamos com os pães à base de algas marinhas.—Finalmente está se acostumando com o fato de ser uma escolhida? Estou orgulhosa, Ash.
Levanto as sombrancelhas e mordo outro pedaço de pão. Pobre Savannah, seria justo eu mentir descaradamente pra ela? Mesmo que eu tenha sido obrigada a vir para este lugar e mesmo que tenham me imposto uma guerra, essa cecaelia azul só tem tentado me ajudar.
Olho pros lados, checando se não há ninguém que possa me ouvir. Não, todos estão comendo, falando alto ou rindo demais para se preocupar com as baixinhas aqui.
—Eu vou viajar, Sav.-Digo, também inventando um apelido para ela.—Vou atrás do oráculo e ele vai me tornar humana de novo.
Savannah para de comer, deixa o pedaço de pão no prato e, pela primeira vez, os olhos azuis escuros me fuzilam.
Depois de longos segundos, que pareceram horas, vejo um dos tentáculos dela se mover.
—Ashley.-Ah meu Deus, ela me chamou sem apelido. O que foi que eu fui fazer?—Você não pode, você é a última. Sem você, a formação vai estar quebrada.
—O quê? Há milhares!-Começo.—Cecaelias maiores e mais fortes do que eu, perto deles eu pareço um filhote! Não vou fazer falta.
—Kraken escolheu você por uma razão. Não pode fugir dela.
—Como o seu querido Polys me disse no primeiro dia, ele não me escolheu, de fato, escolheu minha aura.
—Sua aura está a sua volta, precisamos de você!
—Por que? Isso não faz sentido, minha aura não vai lutar por mim.
—É claro que vai!
—Savannah você esqueceu de me contar o quê?
—Você vai descobrir, quando lutar do nosso lado!
—Não, não vou descobrir e nem quero.-Digo, por fim, me levantando da mesa.—Eu vou voltar pra minha família.
—Cecaelias se matariam para estar no seu lugar, para ser você!
Pela primeira vez, impulsiono os tentáculos com tanta força que saio do lugar quase voando, sem olhar pra trás e deixando a última frase de Savannah no ar.
Desvio de algumas cecaelias e, quando meu dou conta, estou do lado de fora da base, indo para os limites da cidade.
Flutuo pra baixo e, finalmente, encontro Lucky sentado entre as pedras. Abriu um sorriso ao me ver.
—Ashley!
—Lucky! Acho que fiz algo errado e virão atrás de mim, poderíamos correr?-Digo, revezando entre olhar pra ele e olhar pra cima, pra base onde acabara de discutir com Savannah e contar todo o nosso plano.
—O que?
—Te explico depois, vamos!
Lucky me puxa pelo braço e, rapidamente, começa a nadar comigo na direção contrária à cidade das cecaelias e à cidade das sereias. Um caminho totalmente novo e, com nada além de pedras.
Depois de alguns segundos, ele para diante de uma parede de pedras e corais, não muito alta.
—Espere, eu é que não estou entendendo nada agora.-Digo, me desvencilhando de Lucky.—Onde estamos?
—Estamos num lugar no meio do nada, antes dos túneis.-Ele diz, tentando nadar pra cima e ver o que havia depois da parede. Puxo uma das barbatanas no seu antebraço e coloco-o na minha altura novamente.
—Como sabe que já chegamos nos túneis?
Lucky sorri e segura um pingente que não estava em seu pescoço antes, então, pressiona-o e este se abre, soltando uma luz azul que faz com que meus olhos se fechem.
O que diabos é isso?
—Abra os olhos, Ash, e contemple a nossa passagem pra nossa Terra.
Lentamente, abro os olhos e vejo um tipo de holograma projetando o globo terrestre. Com linhas imaginárias fazendo uma bagunça no oceano. É como se nós tivessemos as nossas linhas e os Sub-Terráqueos as deles, e então, juntam-se todas. Formando a verdadeira e única Terra.
Com o indicador, não resisto e toco um dos países. Imediatamente, o formato do mapa muda e torna-se plano. Mostrando toda a superfície do país.
—Isso é...É incrível.-Sussurro.
—A tecnologia deles é incrível.-Lucky diz, também observando o mapa.
—Tudo aqui é.
Lucky afasta o mapa do meu rosto e sorri de lado.
—Quer dizer então que a senhorita acredita?
—Nisso tudo? Nah...-Mordo o lábio e sorrio.—Estou me conformando, só isso.
—Sei!-Ele volta com o mapa pra perto do meu rosto e, minimiza o país que toquei e o mapa volta a ser o globo. Lucky gira o globo, toca a região entre Miami, Bermudas e San Juan, o triângulo das bermudas e então, o mapa volta a tornar-se plano. Mostrando a parte da Sub-Terra onde caímos. Ele corre os dedos pela cidade das cecaelias e então, amplia uma pequena depressão entre uma construção maior e os limites da cidade.—Estamos bem aqui.
Assinto com a cabeça. Lucky fecha o pingente e, a luz azulada se esvai. Ele começa a nadar pra cima e, então sigo-o.
Depois de nos apoiarmos entre as pedras, olhamos pra baixo.
É surreal.
Cercada por paredões de pedras, há um tipo de construção arredondada, quase uma abóboda, mas com quatro entradas saindo desta, com quatro túneis indo pra quatro diferentes direções. A sua volta, vemos peixes, tubarões, cecaelias e sereias andando normalmente, como se aquilo fosse um tipo de metrô.
Quando me dou conta, Lucky já está nadando pro lugar. Sigo-o até a parte mais baixa e a construção se torna gigantesca. Diferente de quando é vista de longe.
Antes de entrarmos na multidão, Lucky agarra meu braço.
—Fique perto de mim e não se perca.
—Então tá,papai, não tenho cinco anos!
—Não é isso!-Ele sussurra, rindo.—É que, se você se distrair, vai soltar aquela tinta escura e ainda vai sair por aí como uma sacola plástica, se lembra? Eu vou fingir que não te conheço.
—Nossa!-Começo a rir e, tentando não fazer o mesmo, Lucky faz um sinal na frente da boca para que eu ficasse quieta. Rio mais ainda.
Depois de um tempo, somos os primeiros, e então um tritão com uma prancheta nas mãos e cauda vermelha, combinando com um chapéu na cabeça com um símbolo do qual não conheço, diz:
—Visto de viagem?
Eu e Lucky nos entreolhamos. Engulo em seco. Deu ruim.
—Sem visto de viagem não entram!
Olho freneticamente pra todos os lados, olho pra Lucky novamente e uma ideia ridiculamente estúpida me em a mente. Mas pode funcionar.
Tiro a pressão de meus tentáculos e me jogo no chão, revirando os olhos. Em segundos, sei que a tinta escura está saindo de mim.
Ouço a multidão se alvoroçar a minha volta, me contenho para não começar a rir e, imapcientemente, espero que Lucky tenha captado a ideia.
—Ah meu D...MEU POSEIDON!-Ouço a voz de Lucky, gritando.—Minha esposa! Ah!
Em poucos segundos, sinto os braços de Lucky me levantando, uma das mãos perto das costelas e a outra segurando os tentáculos. Me arrepio, imperceptívelmente abro um dos olhos e vejo a cara de espanto do fiscal.
Volto a fechar os olhos.
—Ela tem...Tem uma doença rara, ela...Nossos filhos...Ah! Precisamos ir pro próximo mar!
Percebo que Lucky mente horrívelmente mau.
—O quê? Mas nós já estão chamando os jalecos brancos, os curandeiros, vão ajudá-la e...Como um tritão e uma cecaelia podem ter filhos?
—Ela está morrendo e a única coisa que você pensa é nisso?! Ah que mundo HORRENDO!
Abro um dos olhos e vejo a confusão de tentáculos e caudas, me seguro para não rir novamente.
—Ela está gelada! Ah meu Poseidon, o que será de mim?-Lucky volta a gritar.—Nós só precisávamos...
—Deixe-os entrar!-Uma outra voz surge, vinda da multidão.
—É! Deixe-os ir!-Outra voz.
—Deixe-os!-E mais outra.
De repente, a maioria da multidão mobilizou-se a nosso favor. Não era esse o resultado que eu esperava mas este é bem melhor.
—Ah! Parece que ainda restam alguns poucos e bons cidadãos neste mundo salgado!-Lucky diz, fazendo mais drama.
A multidão volta a gritar a nosso favor.
—Tá, tá, TÁ!-Ouço o fiscal dizer.—Entre logo com ela, e não se fala mais nisso!
Ouço os aplausos da multidão, e Lucky começa a se mover.
Uma forte luz alcança meus olhos e o novos sons de pessoas conversando e cheiros diferentes invadem meus sentidos.
Lucky anda comigo nos braços por algum tempo, imagino que seja pra mais longe do fiscal, e então, ele me coloca no chão novamente. Sorrindo.
Começo a rir desenfreadamente.
—Não poderia ter sido melhor!-Ele diz.
—Eu sei, obrigada!-Digo, fechando os olhos e empinando o nariz. Lucky ri.
Afasto o cabelo dos olhos e olho em volta, os corredores de vidro, iluminados, as pessoas carregando malas por todo lado. Vivendo.
—Vamos, vamos pegar nossas pernas.
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