Crônicas dos 7 mares:A garota,O garoto e o Oráculo
3 Jovem deus
Notas iniciais
ASHLEY'S POV
—Isso já é o suficiente.-Digo, frustrada, me lembro de tudo o que acontecera há pouco tempo e enterro minhas mãos na cabeça, puxando meus próprios cabelos.—Acorda, Ashley,acorda, acorda, acorda!
—Calma...Ashley, eu sou tão ruim assim?-O garoto, o garçom, diz, tocando meus ombros. Olho pros olhos dele, não, não é tão ruim assim.
—Não, não é, é só que...
—Ah, Ash sua louca, aí está você!-Viro-me para ver Savannah com os braços cruzados, rindo na minha direção e gingando com os tentáculos.
Está custando tanto para eu acreditar que essa garota seja real.
O sorriso dela logo se dissipa ao ver-me com o garoto. Volto a olhar pra ele e o inspeciono de cima a baixo.
Quase como eu, ele também já não tinha mais pernas. No lugar delas, fica uma cauda quase prateada, combinando com o cabelo, as ventosas nas mãos e nos braços. É um tritão.
—Por que saiu da base? Eu tenho tanto pra te explicar e quem é esse aí?!-Savannah recomeça.
—Bom, esse é meu...É meu amigo. Da Terra.-Eu digo, desviando o olhar dela.
—Isso é ruim.-Ela responde.
—Por que?-O garoto pergunta, se intrometendo.
—Eu já te disse, Lucky, querido! Estamos em guerra!-Vejo uma quarta pessoa entrando na conversa. Quer dizer...Uma quarta criatura, eu acho.
E não há jeito de continuar mais surreal.
—Exatamente.-Savannah complementa.
—Ah! Você de novo!-Lucky diz ao olhar pra sereia puxando-o pelo braço, com um suspiro.
—Se sereias e cecaelias não se relacionarem de forma alguma, é melhor para os dois lados.-Savannah diz.—Evita machucados maiores que os de batalha.
—Concordo plenamente!-A sereia loira e com a cauda alaranjada, puxando Lucky do outro lado, diz.
—Vamos, Ash?-Savannah diz, apontando para o outro lado.
Espere aí um minuto...Eu sou arrastada pras profundezas do solo do oceano, sou obrigada a me tornar outra coisa que não humana, sou obrigada a fazer parte de uma guerra que nem é minha e quando, repentinamente, encontro alguém familiar ela quer que eu volte com ela? E ainda quer que eu acredite em tudo o que seu Representante disse e tudo o que aquele lugar lindo tem a oferecer?
—Savannah, eu vou explodir.
—Isso é brincadeira ou acontece mesmo com os humanos? Ah meu Poseidon!
Alguém me puxa pelo braço, no sentido oposto a Savannah, viro-me rapidamente e encontro os olhos de Lucky, calmos como um dia nublado. Como ele consegue?
—Eu preciso te dizer uma coisa. Tá vendo um amontoado de pedras e corais ali embaixo?-Ele sussurra no meu ouvido, sem tirar os olhos de mim.
Olho pra baixo rapidamente e, alguns metros pra baixo, vejo as tais pedras, amontoadas na areia.
Assinto com a cabeça.
—Me encontre lá ao meio-dia, amanhã. Consegue?
—Acho que sim.-Respondo rapidamente, e, num segundo, Lucky nada no lado oposto, seguindo a sereia que viera lhe buscar, deixando apenas bolhas de ar soltas por onde passaram.
Viro-me e vejo Savannah me fitando com os olhos semicerrados.
Eu solto um suspiro.
—Podemos ir agora?
—Quando eu acordar, vou escrever sobre esse sonho e você vai ser a parte mais grudenta e inconveniente dele.
Ela ri, e logo depois, estou seguindo a tentáculos azuis de volta pro centro da cidade colorida das cecaelias.
Apenas abro os olhos, porque já estou acordada há tempos. Enterro meu rosto nas anêmonas incrívelmente confortáveis e, logo depois, me levanto. Olho pros meus oito tentáculos que supostamente substituíram minhas pernas.
E por que será que só os médicos cecaelias usam roupas? Por que, exatamente, e, como, é possível que exista vida abaixo do solo marinho? A quantos milhões de pés exatamente, estamos da superfície? Como eu sobrevivi sem que a pressão me matasse?
Eu não aguento mais ser uma fábrica de perguntas e creio que elas irão aumentar.
Olho ao meu redor,um dos blocos ocos de rocha e corais designado a mim, que deveria servir de algum tipo de alojamento, pra última escolhida. Me viro para a parede atrás de mim e coloco metade do meu corpo fora da janela arredondada, esculpida orgânicamente e cuidadosamente.
Inspiro. Sinto as pequenas bolhas em minhas narinas.
Expiro. Ouço um som diferente de tudo antes que eu já tenha ouvido. Que animal incrível seria?
—Que bom que acordou, Ash.-Me viro ao ouvir a voz de Savannah adentrando o quarto.
—Que horas são?-Digo saindo da cama de anêmonas e me colocando, desajeitosamente, no chão.
—Meio-dia e dez.
Arregalo os olhos.
Lucky.
—O quê?! Por que não veio antes? Eu já estava acordada!
—Tive ordens pra não te incomodar.
—Ordens de quem, Savannah? De um polvo gigante?!
—Cuidado com o que fala! Só estou tentando te ajudar e...Os outros escolhidos já foram descongelados. Precisa se juntar a eles.
Primeiramente, sinto-me culpada por ter gritado com Savannah mas espero que ela me perdoe e se coloque no meu lugar, que virei um molúsco obrigatoriamente. Se é que tudo isso é real.
Engulo em seco ao pensar nos outros escolhidos mas sigo Savannah pra fora do meu alojamento, o mais rápido que consigo e tentando traçar um plano de fuga pra ir me encontrar com Lucky.
Os raios do sol artificial me atingem em cheio no rosto, logo quando deixamos o meu bloco de pedra e corais.
—Savannah...Como esse Sol existe?
—Quando tudo começou, um meteoro tão grande e tão forte veio pro nosso planeta e conseguiu perfurar ele até chegar aqui. Poseidon, vendo que seria o fim de tudo, fez com que o meteoro se congelasse antes de nos atingir por inteiro. Então ele só é uma bola de fogo que nos aquece e está parada no tempo.
Olhei pro tal sol.
Voltei a olhar pra Savannah.
—Isso é impossível.-Ela revira os olhos azuis escuros, como a água ao nosso redor.
—Muitas coisas são impossíveis, até você acabar dentro de uma delas, não é, Ash?
Estreito os olhos pra ela, que acaba por puxar meu braço e me arrastar pra um outro bloco de rochas, maior e com mais janelas esculpidas.
Eu não havia percebido antes mas, uma multidão gigantesca cerca os limites deste lugar, cochichando, entrelaçando tentáculos e acenando pra mim.
Antes de entrarmos no novo recinto, paro para olhar a todos.
—Savannah, qual o motivo dessa comoção toda?
—Você, é óbvio. E os outros escolhidos.
—Mas eles podem simplesmente entrar e fazer o que quiserem.
Savannah soltou uma risada alta.
—Vocês são guerreiros, não celebridades, vá com calma, Ash.
Dei de ombros, e por fim, ela me puxa pra dentro do lugar.
No momento em que coloco meus p...Meus tentáculos no novo lugar, ouço burburinhos vindos de todos os lados. Cecaelias de jaleco, como os primeiros que eu já havia visto, andam de um lado pra outro, anotam coisas num tipo de papel desse mundo do qual eu ainda não entendi, e gritam histericamente entre si.
Ao perceberem minha presença, alguns olham diretamente pra mim e anotam novamente. Savannah abre caminho entre eles e, de repente, vamos parar no centro do lugar, a única parte iluminada por uma clarabóia, onde posso ver outro cecaelia de jaleco enfileirando muitas e muitos cecaelias, um ao lado do outro e quando a fileira não cabia mais entre as paredes de pedra, cria-se uma nova fila em frente a última.
Não consigo contá-los, mas são centenas, e todos tão brilhantes e lustrosos que não sei para onde olhar.
Savannah me empurra pra frente e, ao me ver, o cecaelia organizador me coloca no meio da fileira mais recente.
Olho pra frente e vejo Savannah sorrindo e acenando pra mim.
O que diabos está acontecendo?
Olho lentamente pro lado e vejo um braço, um tanto magro e de pele muito clara, subo o olhar e vejo um rosto igualmente magro, com cabelos castanhos claros na altura dos ombros e tentáculos quase da mesma cor.
Olho pro outro lado e vejo um cecaelia de altura ainda mais superior ao do primeiro.
Eu sou um mero sushi entre eles.
—Ei, olá.-Ouço o primeiro, a minha esquerda, sem tirar os olhos de onde estavam.
—Oi.-Eu respondo, um tanto constrangida.
—Você é a última, estou certo?
—Sim, eu acho que sim.
—Pode me dizer em que ano estamos?
—Dois mil e dezesseis.
—Minha nossa!-Ele finalmente vira o olhar pra mim, com um sorriso. Esboço outro de volta.—Então, na superfície já temos carros voadores e outras engenhocas incríveis!
—Ainda não.-Eu sorrio.—Mas estamos quase lá.
—Isso...Isso é realmente muito bom.
—É, acho que sim. Em que ano você nasceu?-Eu pergunto, mais incrédula do que o normal.
—Sou de mil novecentos e vinte. Mas acabei sendo levado pra cá em quarenta e um, quando lutava em Pearl Harbor.
E então, penso no quão incrível isso é e no quão incrível é estar com pessoas de tempos passados, com tantas histórias e perspectivas diferentes.
É lindo como é impossível.
—Então esteve na Segunda Guerra?
—Exato...Houve uma terceira?
—Felizmente não!
Ele esboça outro sorriso.
E então, nossa conversa é cortada pelo borbulhar dos tentáculos do Representante deste mar. Reviro os olhos ao lembrar dos momentos incoerentes que passamos juntos.
Ele se posta na frente de minha fileira e olha pra todas as outras centenas.
Ele inspira e coloca as mãos pra trás, a primeira vez que o vejo sorrir com aquele tridente ridículo por perto.
—Sejam Bem-Vindos, novamente, Escolhidos.-A voz grave ribomba por todo o lugar.-Eu e o poderoso Kraken, damos as boas vindas a Sub-Terra. Tenho certeza de que todos lá fora estão muito, muito gratos por vocês porque se não fosse por vocês, eles não existiriam.
Os cecaelias presentes nos aplaudem e, de repente, sinto-me uma intrusa por não ter filhos ou ter criado uma família neste lugar. Aliás, como posso ser uma intrusa se estou sendo obrigada a permanecer aqui?
Procuro Savannah com os olhos mas não a acho.
—Agora, vamos ao que interessa.-O Representante volta a dizer.—A guerra está próxima e vocês terão...
Me desligo totalmente do resto do discurso. Ainda tentando traçar uma discreta rota de fuga para me encontrar com Lucky.
E então, pelo que me parece, o discurso acabou e estão todos se dirigindo sem organização alguma pra fora do lugar. Enquanto olho ao redor, desesperada e rodeada de tentáculos, alguém me puxa pra fora da debandada.
—Ash, sua louca!
Savannah, é claro. Sorrio, aliviada.
—Onde estava?-Eu digo.
—Finalmente fui conhecer meu avô.-Ela diz, orgulhosa ao lado de um dos escolhidos, cabelos negros e olhos azuis iguais aos de Savannah.—Ele é meio jovem, não acha?
Todos rimos diante da piada.
Logo depois, o avô de Savannah seguiu o fluxo de escolhidos pra fora do lugar.
—O que eu faço?!-Pergunto, frustrada.
Mas Savannah está longe demais nos pensamentos pra me proteger. Mordendo o lábio e entrelaçando as mãos e os tentáculos, posso vê-la olhando diretamento pro representante deste mar.
—Savannah!
—Ah, me perdoe, eu estava destraída.-Ela diz, fingindo que nada acontecera.
—Para! Com tantos cecaelias você foi escolher o pior? Ah meu Deus, Savannah.
—Cale-se! Não pode falar mau dele, ele é o representante!
—Uuh, que medo!-Eu solto uma risada alta.—Ele nem sequer lembra-se do seu nome e ainda te trata como nada!
—Pare com isso, precisamos ir na direção dos...E eu sei o nome dele! É Polys, isso basta.
—Isso é claramente síndrome de estocolmo!-Desato a rir de novo. Logo depois, Savannah me puxa pelo braço, ainda com o rosto fechado, e começamos a flutuar pra fora do lugar.
Logo que voltamos pra fora, volto a me irritar com o sol artificial.
—Se é um meteoro parado no tempo...Como para de brilhar a noite?-Pergunto, fazendo com que Savannah se irrite ainda mais.
—Só te dei a explicação do meteoro para que não enlouquecesse com as informações desse lugar.
—O quê?!-Grito, frustrada.—Então que porcaria é essa?
—Ash! Precisa ir pro centro de treinamento. Agora!-Savannah me empurra pra uma fila, que vai em direção a uma escada de pedra esculpida, da qual os degrais vão em direção a um tipo de ilha submersa, cercada de pedras e acorrentada ao chão. Se parece com um balão de gás helio, mas magicamente preso a água.
Sinceramente, sinto um ímpeto enorme de subir e explorar esse lugar, mas alguém me espera e creio que seja importante o suficiente.
Olho pra trás e vejo a multidão se dispersando, ao ver que os tais escolhidos irão fazer o que quer que seja. Alguns cecaelias atrás de mim e, para a minha sorte, não avisto Savannah.
Rapidamente, me impulsiono pro lado e fujo da fila, sem deixar rastros a não ser olhares dos outros escolhidos, que para a minha sorte, não dizem nada a ninguém.
Volto em direção ao grande recinto do qual havia acabado de sair e o contorno, indo direto a ala onde fica meu alojamento rochoso. Desajeitadamente, passo por este e, em segundos, estou fora dos limites da cidade das cecaelias.
Depois de ter um daqueles pequenos acessos de pânico por estar em alto mar, eu finalmente volto ao lugar onde fora o encontro das sereias e das cecaelias do dia anterior. Nado pra baixo e aterrisso no amontoado de rochas e corais, espanto alguns peixes e olho ao redor.
Não vejo Lucky. Desapontada, mas não surpresa. Ele deve ter me esperado por tanto tempo que cansou-se e retornou pras sereias.
Quando me dou conta, estranhamente estou de cabeça pra baixo, o mundo gira a meus olhos e eu mais pareço uma casca de banana flutuando e sendo levada pela água. Mas que diabos é isso?
Num segundo, meu braço é puxado pra baixo e, com um giro de trezentos e sessenta graus, sou recolocada na posição certa, a ponto de olhar pra cima e ver os olhos de Lucky se destacando do azul marinho.
Seguro um sorriso.
—Acho que quando você se desconcentra, acaba relaxando demais e seus tentáculos param de funcionar, então você sai se parecendo com uma sacola plástica. Devo adicionar isso à lista de pontos fracos das cecaelias ou é só a Ashley fazendo as coisas de Ashley?
Eu sorrio.
—Também é bom te ver novamente, ainda mais desse jeito.-Digo olhando-o da cauda a cabeça.
—Por que?-Ele pergunta, olhando com o cenho franzido para os próprios braços.
—Porque se parece com um sushi e eu estou faminta.
—Olha só quem fala! E falando em fome, roubei uma coisa da cidade das sereias.
Ele tira uma pequena caixa de pedras de trás de si e a abre. O conteúdo são duas esferas esverdeadas e achatadas, com pontinhos vermelhos e bolhas quentes saíndo delas.
—Acabaram de ser feitas. Prove.-Ele diz, me entregando uma das esferas.
Pego-a e percebo a textura áspera e macia ao mesmo tempo. Lucky dá uma mordida na outra em sua mão e fecha os olhos, esboçando um sorriso.
—O que é?
—Pergunte menos e experimente mais.
Dou de ombros e, finalmente, mordo a esfera. O gosto agridoce e macio inunda minha boca, fazendo meu estômago implorar por mais.
Me sento numa das pedras e Lucky se senta a meu lado.
—É bom?-Ele pergunta.
—É maravilhoso, o que é?
—Bom, as pequenas sereias chamam de super verde...Mas, traduzindo pra nossa língua, eu diria que seja x-búrguer de algas.
Assinto com a cabeça e acabo de comer o meu super verde. Lucky faz o mesmo.
Logo depois, ficamos presos num silêncio constrangedor por um longo período de tempo.
—Você acha...Que as pessoas nos botes sobreviveram?
Ele suspira.
—Creio que sim. O mar estava calmo, foi surreal o fato de o navio ter tombado pro lado.
—Onde você estava quando aconteceu?
—Na cozinha. Então tudo começou a cair e todos começaram a despencar de todos os lugares pro mar, comigo não foi diferente. Eu devia estar morto.
Engulo em seco ao pensar nos cientistas e todas as pessoas despencando e morrendo na água. Penso em meu pai e em como minha avó deve estar se sentindo só.
Então, pela primeira vez desde que cheguei aqui, permito que as lágrimas tomem conta de mim e soluço como uma criançinha. As bolhas entram e saem de mim e as lágrimas se misturam à água marinha. Então choro mais, com raiva pelo mar estar arrancando até minhas lágrimas de mim.
Sem demora, Lucky larga o seu super verde e me abraça, colocando o queixo na minha cabeça. Abraço-o de volta. Mesmo conhecendo pouco um do outro, nós somos a única coisa que temos um do outro.
Depois de ter percebido que as lágrimas não parariam, me controlo e passo mais uns minutos com a cara enterrada no peito de Lucky. Logo depois, me afasto para que não paressesse tão estranho.
—Está melhor?-Ele sussurra.
—Acho que sim.-Eu suspiro.—Como consegue?
—Como consigo o que?
—Agir como se tudo isso fosse tão natural e ficar tão calmo.
Ele me fita por uns instantes, os olhos e os cabelos claros pensando no que dizer.
—Não estou tão calmo. Estou pensando nas minhas irmãs, pensando no meu cachorro que esqueci de dar comida antes de sair, pensando nas pessoas do navio, nas vivas e nas mortas. Mas não posso me desesperar.
—Como faz para não se desesperar?
—Estabeleço metas, como a que vou te contar. E além disso, a sensação é boa.
—O que? Me conte logo.
Ele esboçou um sorriso.
—Existe uma maneira de voltarmos a ser humanos.
Arregalo os olhos e me preparo pra soltar nele um turbilhão de perguntas, aos berros. Percebendo isso, Lucky passou o braço pelo meu pescoço e, com a outra mão, tapou minha boca.
Murmurei qualquer coisa e ele riu, me soltando.
—NÃO ACREDITO! COMO?
—Fale baixo, garota-polvo!
—Diz logo!
—Existe um oráculo, um cara mágico que pode nos devolver nossas pernas, mas só com a condição que ele der. Foi o que me disseram!
—Que comecem as loucuras! Quem disse-lhe isso?
—Um carangueijo cujo o dom da fala lhe foi dado. Não queriam me contar nada, obviamente, querem que eu faça parte dessa guerra ridícula mas esse carinha é fofoqueiro o suficiente pra me contar tudo o que eu precisava saber.
—Um carangueijo? Falou?
—Ashley! Esqueça se é real ou não, é o passaporte pro nosso mundo.
Revirei os olhos.É realmente um sonho difícil de acordar.
—Como chegamos neste oráculo?
—Nós temos que passar pelos sete representantes dos sete mares...Algo desse gênero.Há um mapa.
—Então o que estamos esperando?! Eu realmente preciso voltar a ser humana, eu não descobri como se faz xixi com essa coisa!-Eu disse, apontando pros tentáculos. Lucky ri.
—Então trarei o mapa amanhã! E partiremos.-Ele diz, dando uma cambalhota pra trás, com a ajuda da cauda.
—Eu até faria a mesma coisa mas eu vou sair voando como uma sacola plástica.-Ele volta a rir.
—Ashley, você já se sentiu como um jovem deus?
—O que?
—Tão importante, tão esperado, tão mimado e flutuando pelas ruas com as pessoas aos nossos pés?
—Não, a água salgada está te enlouquecendo.
—Ora, fique feliz! Nós vamos sair dessa e deixas esses sushis pra trás.
Eu ri, pensando em Savannah e como ela tem sido gentil comigo, apesar de eu não entender e não acreditar neste mundo.
Eu precisarei e irei acreditar no que Lucky disse. Porque é a única maneira que vejo de voltar a ser quem eu era antes do triângulo das bermudas.
Talvez não seja tão insano se há outros para serem insanos comigo.
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