Crônicas de Um Espadachim da Era Edo
7 Surpresas
Notas iniciais
PS:1) Desculpem-me mais uma vez a demora. Infelizmente deu um problema no meu PC e o arquivo deste capítulo ficou corrompido, fiquei ontém o dia inteiro tentando recuperá-lo. Flizmente consegui! ;)
2) O capítulo é grande, mas não tem nada a ver com o novo modelo de pontuação do site. É que a história está se desenvolvendo mesmo! Editado em 28/02/2009.
Em passadas largas ele se aproximava. Sem quaisquer objeções, corria mirando seu alvo primário. O frio cada vez mais tomava conta do ambiente. Não sabia se era por estar ansioso de completar o que pretendia, ou se era de fato a temperatura que estava caindo. A chuva contribuía para o mal estar do assassino, mas ele continuava, segurando a bainha de sua espada para se reanimar. A escuridão perversa invadia a ruela estreita. O calçamento de pedra dificultava o caminhar. Mas o alvo estava lá. Desprotegido, caminhando lentamente. Desarmado. Tal como o câncer que destroça um órgão vital, ele prosseguia a fim de terminar o serviço que fora intimado em fazer. Seus movimentos ágeis pareciam mágicos em meio ao cair da chuva, o som do reverberar da lâmina anunciava o início do ataque. O manto branco que cobria aquele belo corpo feminino agora encontrava o metal de sua katana. Aos poucos o sangue escorria e ia se misturando as poças d’água sobre o solo. A vítima agora jazia sob a água que caia do céu nublado e escuro. O assassino se aproxima e levanta o véu de seda que cobria o rosto doce. Não pode ser! Eu… A matei?!
- NÃO!
Um pesadelo terrível, sim. Mas não era algo impensável e completamente absurdo, se fosse analisado com os olhos da guerra. As batalhas que acometem uma nação são demasiadas brutais. Trazem sofrimento para qualquer combatente, seja qual for sua ideologia ou vontade. Mas Kenshin não era homem de hesitar. Apesar de agora estar só, e do macabro pesadelo que insistia em se prolongar por sua mente mesmo depois de já ter despertado, tinha certeza de seus atos e era fiel sob seus ideais. Possuía a mais mortal técnica com espadas, devido a este fato, nunca sofrera um arranhão em combate real. Seus treinamentos com seu mestre costumavam ser mais dolorosos do que a própria guerra. Seu mestre…
— Saudações! Há alguém aqui? — uma voz vinha do lado de fora.
O samurai mais do que pronto, levantou, já segurando sua fiel companheira. Caminhou furtivamente até a porta de entrada. Posicionou-se tangente a parede de palha, a esquerda da passagem para o exterior do aposento. Podia sentir a respiração ofegante do homem ao lado de fora, é talvez fosse um fugitivo querendo algum tipo de ajuda. Mas não aqui…
- Identifique-se! Faça-o agora, se tiver zelo por sua vida! — gritava Kenshin.
- Calma, não represento ameaça. Chamo-me Izuka, pertenço ao clã Choshu, sou superior em nossa hierarquia. Saia Kenshin, trago boas notícias.
“Ciente de tuas capacidades e limitações, não inicies nenhuma empreitada que não possas levar a cabo. Decifra, com a mesma argúcia, o longe e o perto, para que o que se desenrola sob teus olhos seja idêntico ao que deles está mais recôndito.” A batalha inútil e sem objetivo é um erro, e Kenshin sabia disso. Seria burrice e imaturidade atacá-lo, se ele diz ser quem é o mais recomendado é escutar o que tem a dizer. A porta se abre revelando um homem com cabelos grisalhos e um amigável sorriso no rosto. Acima daqueles ombros, o guerreiro pode ver que seu visitante estava só e não representava de fato, qualquer ameaça.
- Obrigado Kenshin! Vosso líder tem tamanha afeição pela sua pessoa…
- Desculpe-me a grosseria senhor, mas ainda não conheço vosso líder.
- Mas conhecerá em breve, é por isso que estou aqui. Posso entrar?
- Não há nada para ver aqui senhor, o que veio falar, pode ser dito aqui fora! — respondeu um ríspido Kenshin.
- Agora vejo porque és o melhor. Está sempre em guarda. Aposto que dorme agarrado à sua espada… Bom, de qualquer forma, nós temos um serviço para você.
- Quem eu tenho que matar?
O visitante abriu um largo sorriso.
***
O resto do dia foi de reflexões. A meditação durou quase quatro horas, sempre meditava antes de um combate. Isto ajudava a relaxar e se concentrar para a batalha. A tarde foi tranqüila, sem quaisquer incidentes. A temperatura baixa, poucos ventos, uma paisagem morta, típicos do outono japonês. O sol já começava se por, estava na hora. Kenshin colocara sobre suas vestes brancas, um kimono azul marinho, o que sempre usava para matar. Suas roupas já emanavam o cheiro forte de sangue, anunciando que esta, seria uma noite de mortes. Após ver o fim do insenso que queimava em sua frente, o samurai parte mais uma vez.
“Desloca-te para lugares onde o inimigo não desconfie que pretendas ir. (…)” Após avaliar o terreno próximo a mansão, Kenshin acaba por decidir ficar em prontidão no alto de uma árvore, com uma plena visão sobre a floresta próxima. “(…) Surge de repente onde ele não te aguarda. (…)” Lá estava o gordo inimigo. Vinha despojado, se deslocando sozinho sob a escuridão que serpenteava a floresta aberta. Era um ser que emanava presunção, chegava a ser repugnante. Um barulho, e o homem olha para trás. “(…) e arremete quando ele menos espera” Ao olhar novamente para frente, o homem tem a visão do inferno. Uma espada larga viajava em uma velocidade inimaginável mirando sua cabeça. Estava feito, desprotegido, o alvo fora eliminado. Missão cumprida. Kogorou Yukishiro, o pai de sua noiva, estava morto.
- Muito fácil… — dizia Kenshin, após vislumbrar seu feito.
Segundos depois do cair do corpo, o samurai realizava o Tiburi*. Sua intenção era partir rumo ao local designado por seu contato. Mas algo naquela noite não estava bem. Não demorou muito para Kenshin voltar para a proteção da escuridão que oferecia a floresta a seu lado. Sua corrida era rápida e decidida. Mas ao sair da mata, a visão não foi de liberdade. Em seu caminho estava parado um homem vestido de um kimono azul claro. Shinsengumi…
- Saia de meu caminho, se não quiser morrer como seus semelhantes!
- Acho que você não está em posições de fazer exigências. Acaba de assassinar um homem, sinto informá-lo que hoje, irá morrer!
O homem partiu mirando o corpo do samurai à sua frente. Sua espada ainda estava na bainha, de certo iria executar o Nukitsuke*¹. Kenshin também decide começar sua corrida, assim como os outros combates, este também deveria ser breve e sem muitas complicações. Apenas um imprevisto, como iria explicar para Izuka. Mas após o encontrar das lâminas, viu que estava completamente enganado. Seu golpe era 13,8° mais inclinado do que os demais, deveria ter atingido o peito do adversário. Ninguém nunca escapara de seu Nukitsuke antes…
- Está surpreso battousai? Não sou como os meus semelhantes. Como descrevera.
O homem de cabelos negros agora se inclinava para frente acabando por executar uma base um tanto incomum. Sua espada posicionada tangente ao seu braço esquerdo, segurada com o direito, cuja ponta mirava o peito adversário. Lembrava uma lança prestes a ser arremessada.
- Meu nome é: Hajime Saitou!
Outra corrida fora iniciada. Mais uma vez as katanas eram cruzadas e o som agudo do encontrar das lâminas propagava-se no campo aberto. A velocidade era impensável, ambos se deslocavam com demasiada rapidez. As espadas chegavam a se cruzar duas vezes por segundo, algo ilógico para pessoas comuns. Mas eles não eram comuns.
- Você é forte, exatamente como dizem. — falou Saitou.
Kenshin corria mais uma vez mirando o corpo de Saitou. Com passadas curtas, mas ágeis, aproximava-se rapidamente traçando um ziguezague no solo. Ao aproximar-se do oponente, Battousai avista uma árvore próxima. Com uma força descomunal ele acaba por se lançar no ar chutando o tronco da árvore. Subiu quase três metros. Sua intenção era clara. A descida rápida traçava uma trajetória parabólica para uma aterrissagem exatamente sobre o corpo do oponente. Segurando a espada com ambas as mãos, apontando-a para o chão, ele cai. O encontrar das armas chega a provocar uma leve faísca. Enquanto estava no ar, ele executou dois giros rápidos, aumentando sua aceleração centrípeta e otimizando seu movimento em 22%, ninguém nunca sobrevivera a este ataque antes. Até agora…
- Não é possível…
Demorou alguns segundos até perceber o que de fato acontecera. Saitou, em frações de segundo, se desviou do ataque com um simples rolamento e concomitantemente deixou sua wakisashi*² em pleno ar, quase que flutuando. Era exatamente esta espada que Kenshin via em sua frente, agora cravada no solo após ter sido “atacada” por ele.
- Você não é normal… — disse Kenshin, um tanto surpreso.
- Não, não sou. Não percebeu antes não é battousai? Uso uma técnica chamada: gatotsu*³. Está se divertindo?
Kenshin o respondeu com seu silêncio típico. Uma afronta, sem dúvida. Ao ver que o adversário pouco se importou com o que disse, Saitou iniciou uma nova corrida, agora ainda mais furioso. Tinha como seguinte filosofia: Aku Soku Zan (o mal imediatamente eliminado), e o mal neste caso, era Kenshin.
Seus corpos se tocavam indiretamente, “A espada é a extensão do corpo de um samurai”, Saitou tentava furar o corpo de Kenshin, mas ele habilmente desviava os golpes usando a própria espada. Até que para surpresa alheia, ele se distanciou e guardou a katana.
- Mas o que é isso? Está desistindo? Lute, covarde!
Kenshin apenas aguardava de olhos fechados. O inimigo se aproximava, em uma fúria nunca vista antes, parecia uma manada de touros raivosos. A respiração suave de Battousai o deixava ainda mais irritado, seu desejo era matá-lo. Um único golpe foi desferido no ar. A intenção do atacante era de perfurar a garganta do homem de cabelos ruivos, mas percebera que errara seu alvo. “Mas como? Ele estava de olhos fechados…”
Himura estava à apenas meio metro de distância, aparentemente ele desviara-se do golpe mortal. Continuava do mesmo jeito, a espada à bainha, de olhos fechados. Mais uma vez Hajime Saitou parte para o ataque, e Kenshin desvia-se facilmente. Ele atacou inúmeras vezes, e em todas, Himura se desviou do mesmo jeito. Cansado, ele parou.
- Como isto é possível? — questionava Saitou.
Ele não percebera, mas no momento que parou para descansar, acabou por se distrair e Kenshin se moveu. Onde ele estava agora, era um mistério. Saitou olhou em toda a sua volta e não achou o inimigo, mas sem saber, podia escutá-lo. Uma leve brisa soprava em seu rosto e ele olhava para paisagem, incrédulo. Será que Battousai fugira? Não podia ser verdade, ele não queria acreditar. Até que um detalhe da floresta o chamou a atenção. A brisa continuava a soprar, mas estranhamente as folhas das árvores estavam imóveis. Era impossível… O vento vinha da floresta, ele podia sentir. Até que lhe ocorreu o que de fato estava acontecendo…
- Tarde demais! Se mover-se, morrerás!
Kenshin aparecera atrás de Saitou, e agora o rendia encostando a lâmina de sua katana no pescoço adversário. “Perturba o inimigo e faz com que ele revele seus movimentos.” Sem saber, Saitou revelou um ponto fraco de sua técnica ao atacar Kenshin daquele modo instintivo. Himura ao perceber, apenas guardou sua arma, o cansou, e espetacularmente se moveu com altíssima velocidade. Era exatamente deste movimento que vinha a brisa misteriosa. Ele estava aqui o tempo todo, correndo. Saitou não acreditava no que acontecera. Como alguém podia se mover tão rápido? E como ele não o viu? Seria alguma técnica obscura que o ocultava em meio à escuridão?
- Voltaremos a nos encontrar, agora vá! — disse Kenshin.
Saitou sem muito que fazer, agora deixava o local sem acreditar no que acontecera. Himura estava livre, vencera mais uma batalha, e agora finalmente iria se encontrar com o líder se sua organização. Mal podia esperar…
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Vocabulário:
* Tiburi: um movimento visando limpar o sangue da espada. Dependendo do estilo e da seqüência, existem vários movimentos diferentes para realizar o Tiburi.
*¹ Nukitsuke: a primeira fase, é onde o espadachim, percebendo a intenção de ataque do oponente, desembainha a katana visando cortá-lo antes que o adversário desfira o golpe.
*² Wakisashi: Uma espada menor, geralmente utilizada para combates em locais fechados. Pode ser também utilizada como arma de arremesso.
*³ Gatotsu: Literalmente: perfuração da presa.
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