Crônicas de Um Espadachim da Era Edo
6 Bonus: The conversation
Notas iniciais
A ausência do intimidador senhor Yukishiro fez com que Kenshin se sentisse um pouco mais livre e provocava a falsa sensação de segurança. Mesmo portando sua espada, ele não parava de pensar em algo trágico como uma emboscada.
- E então Samurai-san, soube que seu pai está doente. — começava Tomoe, tentando algum assunto.
- Sim, ele está com uma doença grave. Foi para Edo se tratar...
O rosto de Kenshin revelava certa preocupação. Não com o seu falso pai, mas com o possível caminho que aquela conversa poderia tomar. Nunca fora um rapaz sociável, e de certo modo, não sabia esconder tal defeito. Logicamente que tinha conhecimento sobre etiqueta e sabia se comportar, afinal, era um guerreiro samurai.
- Percebo que está apreensivo, algo te incomoda Samurai-san? — perguntou a doce Tomoe.
- Não, por favor não se preocupe comigo senhorita. E chame-me de Keiko, sim?
- Está bem... e o senhor me chame apenas de Tomoe, não há razões para usarmos de requinte em um encontro tão casual como este, não é mesmo?
- Sim, claro...
Os pensamentos em sua cabeça não paravam de explodir em harmoniosa fúria. Apesar da beleza de Tomoe o encantar como nunca acontecera, ele não podia ignorar o fato de que agora, estava sozinho nesta guerra. Sem mestre, só com a companhia de sua espada.
- Keiko, gostaria de uma xícara de chá? — perguntou Tomoe, fazendo menção em servi-lo.
- Sim, por favor, adoraria...
- Percebo que está quieto, acho que não é muito de conversa... — disse uma Tomoe um tanto vermelha.
- Não! Por favor, não me interprete mal. É que eu estou preocupado com algumas pendências, mas nada que possa atrapalhar esta tarde tão agradável... — Kenshin agora estava se esforçando ao máximo para ser gentil.
- Bom, se precisar ir embora, eu vou entender...
- Não. Por favor não se incomode comigo, senhorita.
"Ataca a descoberto, mas vence em sigilo", eis a máxima que seu mestre costumava proferir. Kenshin não tinha o menor dom para agir disfarçado. Seu dom era a morte. Mas, alguns sacrifícios deveriam ser feitos em prol do bem maior. Mesmo sem a menor vontade de continuar aquela conversa, ele de certo, continuaria.
- O chá está ótimo! Não achas Keiko? — disse Tomoe, despertando o guerreiro de seus pensamentos.
- Sim! Está muito bom...
A batalha é ganha com a espada, mas a guerra, ganha-se com a mente. Kenshin mais do que ninguém, sabia disso. Além de matar deveria buscar informações, a ponto de que sem elas, sua principal tarefa tornar-se-ia impraticável. Era um tanto jovem e nunca tinha flertado antes. Seu coração batia em uma velocidade alucinante, nem quando estava no campo de batalha, sentia tamanho medo de fracassar. Podia sentir a adrenalina por entre suas veias que concomitantemente o fazia continuar, e pensar em desistir. Era uma decisão difícil.
- Sabe o que eu acho desta guerra?
- Como? — perguntava Kenshin assustado, parecia que Tomoe estava lendo seus pensamentos.
- Esta guerra civil que estamos enfrentando... Sabe, tudo isso é um tremendo equívoco coletivo. Digo isto porque, ambos os lados tentam evitar algo praticamente inevitável. Desde a abertura dos portos japoneses. Isto de fato, um dia teria que acontecer. Agora os revolucionários batalham por melhoras, querem derrubar o governo. Você já parou para pensar que se o governo Edo ruir, os líderes da Meiji Ishin vão se estabelecer no poder quase como o antigo reinado. É ridículo o povo se iludir desta forma... O que acha? Sei que é partidário do governo Edo...
- É. Para falar a verdade eu nunca pensei assim... Mas de certa forma, tens razão. A grande parte do povo não sabe por quem lutar, estão um tanto confusos...
- É verdade. Apesar de você servir a seu pai, enquanto guerreiro, o que achas se o fim do Shogunato* realmente vir a acontecer, caso o governo perca esta guerra. Os samurais servem aos shoguns, logicamente, há uma tendência de sua classe vir a se desvalorizar. — dizia Tomoe em pequenas pausas para saborear seu chá verde.
- Sim, pensando por este ponto é verdade o que falas. Mas só o futuro nos dirá, não é mesmo? — Kenshin agora exibia um sorriso de temor.
Nunca parara para pensar nisto que Tomoe acabara de falar. Se realmente o fim do shogunato viesse a acontecer, sua classe samurai seria praticamente extinta. Sem senhores para servir, o que seria dos samurais? Tentava não pensar nisto, com sorte, nem precisará mais de sua espada quando a guerra acabar.
- Mas ainda bem que você tem o seu pai, não é mesmo? Não tem que se preocupar com estas possíveis tragédias... — disse Tomoe sorrindo.
O silêncio mais uma vez tomava conta do recinto. Kenshin cada vez mais, achava que este não era o tipo de serviço que poderia fazer. Estava tornando-se cada vez mais arriscado e, de certa forma, torturante. Cada idéia que Tomoe expunha a respeito da guerra, o fazia hesitar.
- Tomoe-san, desculpe-me, mas não sou quem procuras. Sou um guerreiro com o desprezível dom da morte. Acho que não temos mais nada a que conversar... — disse Kenshin se levantando, para a surpresa de Tomoe.
No exato momento em que o samurai acabara de falar, o pai da bela moça de cabelos negros adentrava na sala, e com ele, a infeliz notícia de que o casamento em breve se concretizaria.
- Como assim casar? — perguntava Kenshin.
Continua...
Vocabulário:
Shogunato: O shogunato era um regime feudal existente no Japão até a idade moderna. Semelhante ao feudalismo, porém com características orientais. Além de proprietário rural, o shogun também era um chefe militar.
Fonte: Wikipédia
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