Crônicas de São Paulo

3 Da Paulista para a Penha. Part 3


Eu estava no quarto do meu irmão, ele havia me deixado dormir lá na primeira semana. Minha mãe fora para o trabalho e meu irmão estava na sala vendo tv. Apenas a tv era boa, e a cama também, de certo modo era macia. Estava no tédio. A essas horas eu estaria com meu celular fofocando com minhas amigas pelo Skype.

Começo a investigas as coisas do meu irmão, abro o seu armário, muitas roupas jogadas, e em baixo de toda aquela coisa tinha alguns livros. Ele lê? Sério? Pego um livro qualquer e leio seu título: "Romy&Jullieta" vejo que é brasileiro. "Deve ser horrível" penso. Leio o resumo. Ridículo. Falava de duas lésbicas separadas pelo preconceito. Essas histórias são tão... modinhas. Decido irritá-lo um pouco. Vou até a sala com o livro na mão.

– Sério? Que livro modinha!

Ele me encara, revira os olhos e fala:

– Tudo é modinha para você?

– Um conto lésbico é modinha. É muito Romeu e Julieta, elas se matam no final também?

– Sua idiota. — Ele se levanta. — A história leva como inspiração, romeu e Julieta. por isso o nome.

– Descobriu sozinho? — Zombo. — Você roubou isso ou economizou anos para comprar?

Ele arranca o livro de minha mão com uma certa fúria. O joga no sofá e me segura pelos braços.

– O burguesinha metida a rica. Saiba que não é pobre só que rouba, e saiba que tenho orgulho de ter que economizar para compra um livro. Agora escute, melhor parar de se4 achar superior, porque você é uma entre 7 bilhões. você não é ninguém importante. — Ele me solta. — Quando for fazer algo útil por alguém, aí você será importante.

Fico com raiva.

– EU NÃO SOU NINGUÉM? O POBRE AQUI É VOCÊ!

– IDAÍ QUE SOU POBRE? ISSO ME FAZ UM LIXO DE SER HUMANO? O DINHEIRO DO SEU PAPAI VAI ACABAR SUA INÚTIL. VAI PRECISAR TRABALHAR PRA COMER UM PÃO! E VAI TER QUE LAVAR PRIVADA PRA VIVER. APOSTO QUE NÃO SABE FRITAR UM OVO!

– Quando for rico, vem me julgar, ok?

– Quando for útil para alguém, me liga.

Eu saio e bato a porta, e o escuto gritar algo. Mas não entendo o que. Fico na cama macia por um tempo, até ficar de noite e a mamãe chegar. Abro a porta do quarto devagar e os escuto conversar.

– Seu pai ligou. — Minha mãe comenta. — Ele está definitivamente sem dinheiro. O banco tomou conta de tudo. Ele vai ficar alguns meses nos Estados Unidos, tem um emprego pra ele lá. Pediu para matricularmos a Karina na sua escola até lá. Segunda-feira você resolve isso pra mim?

– Ele não pode arrumar um emprego aqui?

Minha mãe suspira, e minhas lágrimas caem.

– É que lá ele ganhará o dobro do que ganharia aqui. Quando ele tiver dinheiro para cuidar dela, ele volta.

– Dinheiro é tão importante assim pra ele? Pra fazê-lo sair do pais?

– Filho. algumas pessoas acreditam que dinheiro é felicidade. Cadê Karina?

– Espero que ela tenha fugido pra casinha dela.

– Agora a casa dela será aqui. Vai fazer o que pedi?

– Vou sim, relaxa. Segunda eu a levo pra lá e converso com o diretor.

– NÃO! — Intervenho na conversa. — Não vou pra uma escola pública!

Minha mãe se levanta, mas meu irmão entra em sua frente e diz:

– Você vai, acabou o dinheiro do papai, vai aprender a ser pobre, Burguesinha. — Ele sorri e vai para seu quarto me deixando naquela sala com minha mãe me encarando, ela vai pra cozinha e me deixa lá. Na minha nova casa. Pobre.

– Odeio ser pobre. — Resmungo para mim mesma. Já havia virado meu bordão dramático.

Notas finais
sorry gente, pelo cap pequeno!