Crônicas de Moria: Aprendiz de aço
2 Menefias e a música dos mortos
Acordo com uma dor de cabeça insuportável, achando que tive algum pesadelo. Olho para os lados e recobro totalmente a consciência, percebo que era tudo real; os corpos caídos na sala das forjas, meu vilarejo totalmente dizimado. Acho que chorei tanto que acabei desmaiando de cansaço. Me levanto devagar totalmente sem equilíbrio, com meu peso acabo cambaleando e tendo que me apoiar na mesa que por causa do inferno de noite passada, suportou poucos segundos meu peso antes de quebrar, e com isso vou ao chão novamente. Tento respirar mais fundo possível e buscar equilíbrio de novo; já amanheceu e observo mais atentamente o cômodo com a claridade do dia. A sala das forjas está em completa ruína, uma antiga espada feita pelo meu pai está cravada em um dos corpos dos orcs, enquanto o outro estava com sua cara totalmente desfigurada, provavelmente meu pai usou seu velho martelo como arma. Ao ver o corpo do meu pai meu coração novamente acelera e seguro o máximo das minhas lágrimas, sua pele agora estava totalmente pálida; havia sangue cercando toda área em volta dele e a ferida aberta na barriga. Ando para meu quarto, buscando forças que eu não tenho, era como se estivesse bêbado sem forças. Minha cabeça zunia como se uma infestação de abelhas tivesse entrado pela minha orelha enquanto estava desmaiado. Depois de quatro minutos para finalmente sair da sala de forjas, vejo o corpo morto de Carl na sala, decapitado e coberto de sangue, sua cabeça está mais próxima da porta para cozinha, expressando um olhar de medo e dor tal qual jamais tinha visto, ele sofreu muito antes de morrer. A cozinha está totalmente destruída, com sangue e vômito misturados na porta, praticamente toda a mobília que tínhamos foi completamente destruída pelos invasores na batalha; A casa está tão fria quanto um cadáver. Finalmente chego no meu quarto e puxo a maior pele que tinha na cama, estava tão pesado quanto uma armadura, mas ainda sim reúno todas as minhas forças para levar até o corpo de meu pai, com muito esforço consigo chegar e enrolar o corpo no manto feito de pele. Escuto um barulho na cozinha que faz meu coração pulsar mais rápido, agacho e vou lentamente para a porta da sala onde tento espiar, vejo na janela um corvo, observando atentamente o cadáver do Carl. Ele sente fome, uma fome insaciável o que faz emitir um crocito alto, seja para me avisar que vai comer ou para avisar seu bando mais uma refeição. Tento erguer o corpo do meu pai, mas é pesado demais para mim, quanto mais força faço, mas o peso da dor vem, as lembranças, cada momentos juntos; perdemos minha mãe pouco depois de me dar à luz no qual acabou tendo uma hemorragia, então desde que nasci meu pai cuidou de mim a vida inteira; me ensinou a forjar desde pequeno e como reconhecer cada tipo de material usado em armas e armadura comuns. Jamais pensei em vê-lo morrer, mesmo tentando acabo caindo com seu corpo nas minhas costas.
— Pai... me desculpa...
Deixo-o próximo a porta e volto para pegar o martelo misterioso; que ainda estava enrolado nos panos sob os destroços da mesa, caminho para o meu quarto, onde reúno tudo que posso levar; algumas peças de roupa; minha primeira espada guardada em sua bainha que fiz quando treinava pela primeira vez com meu pai há muitos anos e o antigo anel dele, que continha algumas escritas estranhas que ele nunca me disse o que era. Vejo sua cama próxima ao outro canto da parede, vazia, meu coração doei como nunca. Enquanto arrumo minha mochila observo a janela para o lado de fora, a floresta que rodeava em beleza e vida agora está repleta de cinzas e morte, ainda possui algumas casas mais para o lado em chamas; que mesmo com toda aquela chuva não apagou completamente todo o fogo. Vou para cozinha e procuro por um pouco de comida, não estou com fome, até porque não consigo comer com todos aqueles cadáveres na casa, guardo o que tem na mochila e saiu de casa. A poucos metros da casa havia uma carroça no qual Carl usava para deixar sua caça, estava completamente destruída e ainda queimava com o fogo; procuro o máximo de galhos; feno; panos e afins para colocar na cozinha, com tudo isso, pego um pedaço a carroça que está avulsa e coloco fogo na ponta. “Munnin...Munnin....preciso ir para Munnin.” Penso nisso enquanto jogo o fogo janela adentro. À medida que me afasto da casa e caminho nas ruas de Denavia, o fogo se alastra e queima tudo o que um dia foi meu lar, minha casa. “Que agora possa descansar meu pai, no lugar que sempre amou ficar.” Observo o horizonte para a floresta em direção de Menefias que havia fumaça branca no céu. “O jeito é seguir para lá.” Penso; de maneira que me sinto totalmente perdido, entretanto, lembro-me que Yorlack era um ex soldado do reino do Munnin, então ele deve saber o caminho para o reino.
A estrada estava no completo silêncio, qualquer barulho ou sinal de vida logo retirava minha espada da bainha, tremendo de frio e medo, com a velocidade acelerada não demorou muito para chegar em Menefias. Ao chegar lá caiu totalmente de joelhos, aqui podia ver sinais de batalha; uma verdadeira chacina sem nenhum tipo de trégua, corpos humanos espalhados pelos chãos de pedra; casas completamente destruídas; queimadas como se não fossem nada além de obstáculos pelo caminho, cabeças decapitadas de guardas estocadas nos muros do vilarejo como aviso de morte para aqueles que tentaram defender; corpos queimados pelas ruas incinerados na tentativa de sair das casas em chamas. Um vilarejo agora completamente abandonado por Deus.
— Olha só! Mas que surpresa tão agradável temos aqui. — Seus dentes estão repletos de sangue humano, ao falar ainda cai pequenos pedaços de carne, sua espada curvada estava cheia de sujeira, lama e sangue. Tento me levantar rapidamente e saco minha espada.— Parece que temos um guerreiro aqui não, então pequenino o que sabe fazer com isso?
Minhas mãos não param de tremer, não consigo respirar, meus olhos estão pulsando quase saindo do meu rosto, sinto cada gota de suor escorrer do meu rosto e meu coração bater como cem rebanhos enfurecidos. O Orc se aproxima; me ataca dando um grande urro de guerra, com um ataque minha espada cai no chão e com isso caiu no chão de costas já chorando, estou completamente assustado mas para ele é algo quase que perfeito me ver neste estado, mas uma vez ele tenta me golpear, mas giro para esquerda enquanto escuto sua espada bater com tudo no chão fazendo um eco horrível, ele rapidamente vira e tenta novamente cada vez mais rápido e furioso, faço o que posso para desviar no chão, porém, no quarto ataque a ponta da lâmina corta um pouco minha coxa esquerda que sangra, acabo soltando um grito de dor que o deixa se deliciando com a dor como se fosse música para seus ouvidos, o orc me encurrala entre dois corpos de soldados.
— Adeus porquinho.
Pouco antes de desferir mais um golpe com sua espada, duas flechas são acertadas nele, uma no peito e a outra em seu olho esquerdo, que cai no chão agonizando de dor. Eu viro minha cabeça e vejo um homem encapuzado, suas vestes são pretas com uma longa capa com capuz negro; seu arco era branco com traços peculiares como se fosse entalhado com tons prateados, logo, soube que era élfico já que Carl também possuía um arco bem semelhante. Ele se aproxima do orc que gritava de dor; em uma ligeira sacada, empunha sua espada da bainha e estoca a ponta da lâmina na garganta do invasor, em seus poucos segundos de vida, se afogando ao seu sangue; o orc apenas o encara com horror até perder sua vida.
—O-obrigado elfo. – Meu coração começa desacelerar à medida que passa e minha respiração também volta ao normal.
— Não deveria estar aqui garoto; já não tem mais vida por entre estes que ficaram neste vilarejo — Ele retira o capuz; era um homem com seus quase 40 anos, cabelo curto com alguns fios de cabelo já brancos; uma marca no rosto como se uma lâmina tivesse o cortado a muito tempo.— Por que achou que eu era um elfo?
— Eu sou aprendiz de ferreiro, por toda minha vida tenho estudado os mais variados tipos de armas. Mas o senhor é humano, como conseguiu essa arma? – ele guarda sua espada na bainha; verifica a ferida de minha coxa enquanto pega um pequeno pano e ervas de sua mochila para fazer um curativo.
— Bom caro “aprendiz de ferreiro”, se sabe diferenciar um arco comum com um arco élfico, certamente deveria ao menos saber como empunhar uma espada para se defender.
— Ainda não respondeu minha pergunta, como conseguiu esta arma? Roubou de algum elfo?
— Pela minha experiência, não é um sábio acusar um homem de roubo; ainda mais aquele que salvou sua vida.Sou de uma cidade próxima as fronteiras dos humanos com os elfos ao norte. Foi um presente.
Fico em silêncio observando o homem emblemático fazer o curativo na minha perna, ele me avisa para tomar cuidado ao andar, mas não me preocupar tanto pois era uma ferida superficial, então me ajuda a levantar.
— Então para onde ia aprendiz de ferreiro?
— Meu nome é Erick. Estava a caminho da morada de um conhecido aqui neste vilarejo. — Ele pega minha espada que ainda estava no chão e entrega para mim, eu a guardo na bainha. — Mas a julgar das coisas, ou ele está morto ou não está mais no vilarejo.
Ele me observa silenciosamente, analisando minha postura e tudo que tenho em mãos.
— Não deveria ficar aqui, logo mais esta área ficara repleto de predadores e outras criaturas que gostam da morte. – Ele se vira mostrando que irá partir naquele instante.
— Senhor! Poderia me ajudar? – Atentamente volto a ter sua atenção.— Sou de um vilarejo vizinho que também foi atacado, preciso ir a Munnin, mas não sei o caminho. Poderia ao menos me falar em qual direção ir?
— Imagino que não conheça muito do mundo, ainda mais por confiar tantas informações a mim não é mesmo Erick aprendiz de ferreiro? Não se preocupe, posso te levar a Themas, reino próximo a Munnin, lá conseguirá o necessário para sobreviver a jornada.
— Como saberei que está falando a verdade? Se nem ao menos sei seu nome. – Ele levemente sorri com o canto da boca.
— Sou um ranger das muralhas ao norte, como havia dito brevemente. Meu nome é Tyr.
Um ranger da Muralha, meu pai já havia me contado sobre eles uma vez. Guerreiros de extrema habilidade que protegiam as fronteiras entre os reinos, diferente dos cavaleiros que eram obrigados a ficar nas muralhas o ranger fazia reconhecimento da área ao longo dos anos para manter a muralha informada sobre possíveis perigos próximos ou não do além da muralha, eram peritos em táticas de batalha, manuseavam das mais variadas armas como espadas; lanças e arcos para batalhas distantes. Normalmente caçavam nas florestas por serem exímios.
— Espera um pouco, se você diz ser quem é, então por que está aqui? – Ele se vira em total silêncio momentaneamente.— O seu dever é além das muralhas, não aqui.
— Isto eu não posso falar para você, o tempo está acabando e preciso me dirigir a Themas falar com o rei, quer ir comigo ou não?
Não tenho muitas opções, ele é o único que realmente sabe o caminho, se chegar em segurança em Themas posso obter informações sobre o caminho a Munnin e finalmente encontrar respostas sobre o martelo que meu pai queria tanto que eu descobrisse. Concordo em ir com ele e me viro para partimos; Tyr não parece ser confiável, entretanto, não só salvou minha vida como me ajudou com as minhas feridas o que mostra seu conhecimento. Volto a olhar para atrás e ver o horizonte de Menefias, um vilarejo que outrora já foi tão vivo e com segurança. Mas diferente de antes, nenhuma taverna de Menefias irá cantarolar, não haverá mais guardas para proteger os cidadãos; apenas destruição e a música dos mortos reina...o total e perturbador silêncio.
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