A tarde de sol está bem calma, mais do que normalmente ficava; os pássaros cantam com o ar do verão e o vento quente bate na janela como ar quente das forjas. Estou no meu quarto medindo o tamanho da adaga de aço doce que fiz nas forjas, foi a primeira vez que faço uma adaga sem ajuda do meu pai ao meu lado e estou bem animado. Meu pai está nas forjas como sempre, provavelmente fazendo a encomenda que foi feita por um dos guardas de Denavia. De repente escuto sua voz me chamando, corro para a porta da sala de forjas.

— Pai? — Ele para de martelar o ferro fervendo nas chamas.

— Meu filho.... vá para Munnin. — Ele se vira revelando sangue por todo o seu corpo, principalmente de seu peito.

— PAI! – Ele estende sua mão para mim, ao ver isso estendo minha mão para ele.

Sua pele começa a ficar mais pálida e seus olhos ficarem completamente brancos, ele consegue dar três passos em minha direção repetindo que eu preciso ir a Munnin, tento ir até ele, entretanto é como se uma força me puxasse para não entrar na sala, à medida que eu tento entrar mais e mais sou puxado para fora enquanto grito seu nome. Acordo ainda o chamando o mais alto possível, o sol ainda não se ergueu, estou suando e quase sem fôlego e meu coração está disparado. Tyr está de pé próximo a uma rocha, parece uma verdadeira estátua, segurando sua espada guardada em sua bainha, ele observa ao redor da floresta, um matagal florestal cercado por nuvens como se as florestas tocassem os céus, uma neblina extremamente densa.

— Pesadelos? – Ele não se vira para me olhar, está fixado para o matagal.

Fico completamente em silêncio, me encolho por entre minhas vestes; cruzando meus braços como um abraço, paralisado observando o fogo da fogueira queimar. Como eu queria acordar e saber que era um pesadelo, porém, acordando na minha cama com meu pai ali do lado em sua cama pedindo para eu respirar e manter a calma.

— Também os vejo quando durmo.... fantasmas....

— Os orcs.... o que fazem aqui? — Ele se vira, seus olhos estão cansados, não dorme desde que saímos de Menefias talvez um pouco antes.

— Então você não sabe? — Ele olha fixamente a fogueira, com um olhar melancólico.— O inverno está chegando garoto e Huginn parece ficar cada vez mais movimentado, os orcs estão crescendo para aqueles lados.

— Huginn? Mas aquelas terras nunca possuíram vida.

— O que sabe sobre aquele lugar jovem aprendiz de ferreiro?

Fico em silêncio para pensar um pouco, meu pai pouco falava ou lia livros sobre aquela região. Moria era um lugar grande e que antigamente era unificada, entretanto atualmente existe uma muralha que divide Moria em duas, Huginn e Munnin, sendo Munnin ainda subdividida entre as raças de humanos, elfos e anões. Tyr me conta que houve uma batalha, um massacre de outrora, entre os elfos negros e os orcs, ambas as raças eram fortes e bem grandes, tanto que começaram a se guerrear em busca de mais terras e recursos para sua população. Isso fez com que as terras que agora são Huginn se tornassem praticamente inabitáveis, com pouquíssimos recursos de terra, água e comida. Depois de anos e anos de batalha houve um cessar fogo. Pergunto sobre o que houve com os elfos negros já que jamais tinha ouvido falar deles, entretanto, Tyr me olha ironicamente. Nunca tinha pensado nisso, Moria era bem grande, mas pouco se sabe do seu passado. O que passam para nós é tão pouco que eu jamais vi alguém falar a respeito em Denavia. Me deito novamente com preocupação de que tenha mais um pesadelo, fecho meus olhos e sinto a brisa bater em meu rosto, o vento uivava levemente por entre as árvores da floresta, consigo ouvir as folhas se soltando dos galhos e voar por entre os ventos mais altos do topo, enquanto escuto a fogueira estralar os poucos galhos secos no fogo, Tyr ainda deixou alguns coelhos na brasa para assar. Os ventos mais quentes sopram levemente sobre minha pele, a noite já acabava e o sol subia no céu, algumas árvores tapavam os raios de sol, apesar disso algumas frestas lançavam os raios de sol para meu rosto. Tyr arrumava sua bolsa, aparentemente não fechou seus olhos a noite toda. Olho para os lados e vejo que a neblina já tinha se dissipado. Pergunto para Tyr qual direção que íamos, ele aponta para as montanhas enquanto pega suas coisas, enquanto isso, me alimento do coelho que deixou na brasa, por ter ficado a noite toda cozinhando sua carne está bem suculenta por dentro enquanto sua pele está bem seca e crocante. Retomamos a viagem assim que finalizo de comer, ele era calado, cauteloso, eram poucas as vezes que falava e mais pouco ainda que fazia movimentos bruscos, seus pés não faziam barulho nenhum, era uma verdadeira sombra por entre a floresta. As árvores estavam calmas como os ventos do sul. Com o passar do tempo a floresta se torna mais densa, mal conseguia ver algo além de Tyr na minha frente. Após se passado algum tempo Tyr para e sinaliza com sua mão para que eu também parasse no caminho. Ele observa silenciosamente, de início não escuto nada, entretanto com o passar dos segundos escuto um barulho de passos, passos fortes que fazem o chão tremer.

Eles estão nos observando. — Fico sem resposta, apenas retiro minha espada da bainha.

Tyr me encara e balança a cabeça como se sinalizasse para guardar a espada na bainha. Sutilmente a guardo devagar, à medida que os passos se aproximavam o tremor da terra crescia, olho para baixo e vejo pequenas pedras pularem e quando volto meu olhar para Tyr.

Vejo que o tempo não lhe deixou lento, Tyr de Whiteland. — As árvores se mexem de um jeito suave, mas estranho.

— E posso ver que o tempo não te apodreceu meu velho.

De repente uma árvore entra em nosso caminho...um ent!

— O que faz aqui meu velho amigo Maestro? As províncias de Farengar estão bem longe. — Observo outros ents caminhando em silêncio para o oeste.

Lembro que meu pai lia alguns livros sobre criaturas mágicas antes de dormir quando eu era pequeno. Ents eram pastores das florestas, gigantescas criaturas humanoides feitas de árvores, dizem que os elfos mais antigos eram amantes das florestas, mas como não podiam cuidar de tudo, criaram através de seus sangues e magia essas poderosas criaturas que com o tempo se tornaram independentes. Este, era extremamente velho já que possuía musgo em quase todo seu corpo, seus velhos troncos estão ressecados e bem quebradiços e a cada passo que dava; podia-se ouvir o ranger de sua madeira como de uma porta velha se arrastando pelo chão, tinha em torno de cinco metros de altura

— As províncias de Farengar foram comprometidas, a guerra está a caminho para os homens, os elfos já começaram as batalhas, porém, suas tropas estão enfraquecidas diante das trevas dos orcs.

— Mas isso é impossível, os elfos são os mais bem preparados militarmente, e com sua magia antiga eram praticamente imortais.

— Os orcs estão utilizando uma magia, algo que em todos os meus séculos de idade jamais tinha visto, eles se alimentam da energia vital de tudo.

Orcs usando magia? Isso era impossível, nunca havia ouvido falar disso. Orcs eram guerreiros extremamente resistentes e pouco usavam de sua esperteza para atacar, se proliferavam muito rápido e tão pouco sabiam forjar armas ou armaduras duradouras, sempre reutilizando de metais antigos e brutos.

— Mas isso é impossível, nenhum orc maneja magia. – Ambos olham para mim surpresos pela minha resposta repentina.

Em instantes ouvimos algo, um barulho não de canto, mas sim um barulho ensurdecedor vindos dos céus, Tyr escala a maior árvore que estava próximo e como um gato escala de forma impressionante, quase como se fosse um animal. Poucos minutos se passam e ele desce como um raio sem se ferir.

— Parece que enormes nuvens escuras estão engolindo os céus para além das florestas ao Norte, devem estar uns vinte a trinta dias de distância.

— A escuridão adentra nas terras dos mortais homens, o que significa que os elfos estão perdendo a batalha. Vá Mestre Tyr, que sua dor se cesse ao fim desta jornada e que encontre paz e segurança em seu destino.

Tyr balança a cabeça em sinal de respeito ao enorme ent e avisa que precisamos acelerar pois os orcs marchavam pelo Norte em busca dos reinos dos homens. Em pouquíssimo tempo observo os ents sumirem por entre as árvores até que sua presença sumisse de vez por entre a floresta. Apertamos o passo, a floresta se torna um labirinto, mas meu salvador parece realmente saber o caminho; a vegetação é bem densa. Novamente paramos depois de andar por trinta minutos, pergunto o que houve e novamente ele fica em completo silêncio; em instantes vejo uma lâmina curvada decente de forma vertical, em um movimento rápido Tyr puxa minha mochila alguns instantes antes do golpe me acertar e logo saca sua espada. Sem perceber havia um orc vindo em nossa direção que sem ver perde a cabeça com um ataque horizontal giratório que Tyr desfere, como se fosse uma dança. O corpo cai pesado se arrastando por entre a terra a nossa frente.

— Um Orc, aqui também? – Ele está um pouco sem fôlego, mas logo guarda sua espada.

— Batedores. Eles podem não ser muito espertos, mas são suficientes para recolher informações antes de atacar. Se ele veio desta direção pode ser um problema.

— Por quê?

Ele fica em completo silêncio, buscando saber se tem mais batedores por perto. Depois de alguns minutos em total silêncio ele volta a atenção em mim e mandou eu sacar minha espada. Sem entender a retiro da bainha. Ele olha a nossa volta e percebe que próximo ao cadáver tem um grande graveto, semelhante a um bastão de madeira, bem rudimentar.

— Quero que você me ataque. – Olho para ele surpreso. — Está com problema para ouvir? Quero que você me ataque.

— Ficou louco? Eu estou com uma espada e você com....isso! – Tyr sorri de canto de boca ao ouvir isso.

— Existe uma diferença entre possuir uma espada e manejar uma. Esta diferença determina a batalha. Como pode ver o orc tinha uma espada. – Ele aponta para o corpo decapitado do orc no chão que criava uma poça negra de sangue quente.— Até agora tudo que tenho visto é você ter essa espada, nem ao menos empunhá-la de maneira correta.

Ele parece falar sério, sua postura é amedrontadora, sinto um ar de experiencia quase que sufocante. Qualquer movimento que fizesse era como se estivesse sendo lido como um livro aberto para ele, que se permanece imóvel como uma estátua antiga. O ar parece mais frio e estou suando muito, muito por questão de nossa pequena corrida para chegar naquele momento, quanto por questão deste ataque surpresa. Ele fala seriamente para me concentrar, quebrando totalmente o silencio imposto naquele momento, neste milésimo de tempo sinto meu corpo se mexer sozinho em sua direção. Com minhas duas mãos na espada tento bater a lâmina no peito dele. Em um piscar de olhos sinto suas mãos tocarem o cabo da minha espada e me empurrar para frente enquanto seu corpo vai para o lado esquerdo; nisso acabo tropeçando e caindo direto ao chão. Me viro e o olho de pé me mandando levantar-se e atacar de novo. Meu sangue começa a ferver, enquanto me levanto pego uma pedra ao chão e lanço em sua direção, que usa o galho como um taco e rebate a pedra para o outro lado, enquanto isso, parto em sua direção com minha espada e novamente tento bater em sua cabeça. Ele se agacha como um gatuno sutil e me empurra com seu corpo para o chão novamente.

— Pare de tentar me bater, não é um porrete, é uma espada!

— Mas você faz isso! – Me levanto.

— Não garoto, eu golpeio, não bato. A lâmina de uma espada é a extensão do seu corpo, pare de tentar bater, use a gravidade, use seu peso, conecte-se a espada se deixa se estender pelo seu corpo, use seu movimento para criar um corte limpo.

Eu realmente não via sentido naquilo, todavia, me levanto novamente enquanto escuto Tyr mandar eu me concentrar.