Alice me deixou no antigo quarto de Edward para que eu dormisse. Alguns pertences foram levados por ele, mas o básico estava lá, como a enorme cama dossel, uma estante com equipamento de som, alguns cds e um sofá preto. A janela de vidro que dava para a floresta e o lago que passava por trás da mansão.

A lua invadia o quarto. Era uma noite clara. E eu simplesmente não conseguia dormir. Estar ali, naquela casa, à noite, com Alice e Jasper em apenas alguns quartos de distância, sabendo que eles estavam juntos e acordados, era demais para mim. Eu não conseguia dormir. Era simples.

Eu tentei de várias formas, mas não podia. Foi quando ouvi duas pequenas batidas na porta. Alice colocou a cabeça para dentro.

"Querida, você não dorme. Eu consigo ouvir do outro quarto o quanto você se mexe e o quão rápido seu coração bate em alerta. O que está acontecendo?"

Ela entrou e sentou-se ao meu lado, na cama.

"Ah, Alice, eu não sei... estou talvez com saudades do meu Seth e..."

"Ah, querida, não se preocupe, Seth está bem. Não que eu consiga vê-lo, afinal de contas, ele é um lobo, mas eu sei que está bem. Se estivesse mal, bem, os meninos viriam aqui para contar, certo?"

Assenti com a cabeça, meus pensamentos em Jasper e numa nova corrente de sentimentos, semelhantes aos que ele me enviou antes de sair. Era quase uma mensagem escrita em neón: "Eu te quero da mesma maneira. Eu te quero da mesma maneira..." Ele estava me enviando mensagens do outro quarto. Como eu poderia me concentrar em Alice, estando aqui?

"Ops." disse ela. "Espere um pouco. Acho que..." Então ela ficou em branco e voltou, segundos depois. "Tenho que encontrar Carlisle e Esme. Eles estão precisando de ajuda, na volta da caça."

"Aconteceu alguma coisa?"

"Não, nada. Eles só precisam de uma vampira forte que possa ajudá-los com os cervos."

"Cervos?"

Ela revirou os olhos. "Sim, cervos. Às vezes mantemos estoque por aqui. Estoque do sangue, quero dizer."

"Ah, entendi."

"Pelo que vejo, são trinta e cinco cervos. Acho que dou conta sozinha."

Eu respirei fundo. "E a que distância eles estão?"

"Bem eles estão do outro lado da cidade. Digo, do outro estado..."

"O quê?"

"Pois é" disse Alice sorrindo. "Vou levar um tempinho para chegar até eles. Mas não se preocupe, volto logo. Qualquer coisa, Jasper está em casa."

Esse era o problema. Tão logo ela saiu, me senti afogada em sentimentos horríveis. Horríveis porque a culpa me invadia por ter aqueles mesmos sentimentos. Embora Jasper não aparecesse em meu quarto, ele estava em algum lugar daquela casa, e ele me enviava constantes mensagens ao meu sistema: "Eu te quero tanto quanto você me quer... eu te quero tanto quanto você me quer..."

Não conseguia mais ficar no meu quarto. Desci as escadas e fui até o térreo, e o vi na sala, me esperando. Fiquei paralisada, cogitando correr de volta, o que desisti imediatamente. Ele não moveria um músculo e já estaria do outro lado, me esperando.

"Acho que é melhor eu ir para La Push..."

"A esta hora, é melhor você ficar e esperar amanhecer." Sua voz era grave, simples, mas tinha uma musicalidade profunda, algo que fazia meu corpo estremecer.

Ele começou a se aproximar de mim, e eu não podia me mover. Até chegar muito, muito perto. Então, aproximou seu rosto de meu pescoço e inspirou.

Profundamente, como que sentindo o cheiro de sua comida preferida. Me arrepiei.

"Desde que te conheci, não consigo parar de pensar em como seu sangue deve ser delicioso, embora você tenha um forte cheiro de... de lobo."

Ele queria dizer cachorro, mas quis me poupar dessa palavra tão depreciativa com relação ao meu querido Seth. Mas naquele momento, confesso que Seth saiu rapidamente de minha mente. Tudo o que eu respirava era Jasper.

"Me segurar tem sido muito difícil, Lisa."

O que eu poderia dizer? A presa hipnotisada por seu predador, diante dele, incapaz de se mover. Ele segurou meus cabelos com uma mão e os ergueu, e afundou seu rosto novamente em meu pescoço, aspirando meu cheiro. Seu hálito provocou calafrios. Eu o queria. Eu queria que ele me mordesse. Eu queria que ele me provasse, mesmo sabendo quais os resultados. Ele iria me matar, ou me transformar. Não havia outra alternativa.

"Eu não posso fazer isso, entende? Mas eu sou novo nessa dieta. Quase sessenta anos, e não consigo me conter como os outros. Se eu... se eu apenas não fosse o que sou... Talvez..."

Mas ele parecia falar consigo mesmo. Então, ele beijou meu pescoço. E tocou, com os lábios, a corrente em que meu camafeu estava pendurado.

"Como isto funciona?" ele perguntou suavemente. Eu me vi impelida a responder. Era o que eu queria, agradá-lo.

"Eu devo dizer uma palavra, segurando-o, então, sou levada ao mundo fora dos livros."

"Uma palavra? Que palavra?"

Eu sorri. "Se eu disser, sairei imediatamente daqui."

Ele não sorriu. "Então, tire o camafeu para me dizer..."

Não era certo. O camafeu estava seguro comigo. Ele percebeu minha incerteza e arrebatou minha boca em um beijo apaixonado. Eu me agarrei aos seus ombros largos e perfeitos. Ele ainda segurava meus cabelos, e com a outra mão, numa facilidade e suavidade incríveis, desabotoou a corrente que prendia meu camafeu. Quando ele escorregou para cair, sua mão já estava lá para segurá-lo. Tudo isso eu percebi de relance, enquanto minha mente estava em redemoinhos por causa da fascinação, do beijo e dos sentimentos que me invadiam.

"Agora você pode me dizer" ele disse, seus lábios ainda em meus lábios, seu hálito me deslumbrando. Pisquei.

"Pirécolis" falei sem pensar.

"Boa garota." Ele sorriu e me recompensou com outro beijo. "Agora, Lisa, me diga..."

"Tudo o que quiser" eu estava ávida por mais beijos como aquele. Eu nunca havia sentido algo parecido. Era... perfeito. Perfeito até demais.

"Como se faz para voltar aos livros, uma vez que esteja fora?"

"Isso é com Miss Poppins, dona da livraria. Ela gira seu guarda-chuva mágico. Entramos no livro que estiver diante de nós, com a página certa aberta, o momento certo em mente."

"Hum... entendo..."

Então, ele interrompeu o beijo e, quando percebi, ele estava do outro lado da sala.

Eu percebi suas intenções no momento em que todos os sentimentos que me cercavam desapareceram. Olhei em seus olhos. Só havia uma coisa.

Arrependimento.

"Me desculpe, mas não posso viver dessa forma. Preciso mudar, por mim, e principalmente, por Alice."

Então, antes que eu chegasse em minha velocidade humana até ele, ele disse "pirécolis" com o camafeu nas mãos, e desapareceu da minha frente.