Notas iniciais
Então... Nessa altura o Tyrion deveria ter 9 anos, mas como eu preciso dele grandinho eu adiantei o nascimento dele, e por isso também a morte da Joanna. Aqui o Tyrion esta com 17 anos e só é 3 anos mais novo que os gêmeos. A parada com a Tysha também rolou, mas quando ele tinha 15. Eu sei que é confuso, mas vou tentar fazer tudo se encaixar a medida que vierem os próximos capítulos.

Porto Real era uma grande latrina às margens do Mar do Estreito, mas segundo seu tio Tygett, todas as grandes cidades eram daquele jeito. Talvez um dia ele conseguisse descobrir, um ano atrás não achava nem mesmo que o pai permitiria que fosse além de Lannisporto, e vejam só onde estava agora. Lorde Tywin já tinha novamente o herdeiro que queria, Tyrion agora era apenas uma despesa extra para o seu ouro…

Caminhando pelos corredores da Fortaleza Vermelha, acompanhado por dois guardas de manto carmesim, o anão seguia por um caminho já familiar o bastante para seus pés fazerem sozinhos, enquanto a cabeça voava em torno de suas “obrigações”. O pai o mandara para Porto Real com um propósito, um propósito que era muito mais uma desculpa para manter o anão longe enquanto apresentava seu irmãozinho aos vassalos. Ninguém questionaria Lorde Tywin naquilo, ignorar um filho legítimo anão, mas talvez o pai achasse que ele iria matar sua segunda esposa também… Tyrion soltou um suspiro quase conformado, os olhos tortos baixando por um segundo antes de endireitar a própria cabeça e caminhar mais rápido. Ele não guardava qualquer sentimento de inveja ou outra coisa negativa em relação ao irmão caçula ou à senhora Catelyn, na verdade, nos poucos meses em que conviveu com a jovem, ela lhe demonstrou mais afeto que o pai a vida inteira. Crescera como um segundo filho, nunca tivera nenhuma expectativa por Casterly Rock, e tendo a notícia do casamento do pai chegado junto com a prisão de Jaime, nem mesmo se permitira alimentar qualquer desejo.

Estavam nos corredores de Maegor, e escolhera propositalmente o caminho mais longo para evitar o quanto fosse possível aquela rotina que se instalara para ele em Porto Real. Todos estavam convencidos de que a irmã tivera um aborto espontâneo, nada incomum entre as mulheres, mas o pai o mandara ali para averiguar se existia qualquer razão para acreditarem que o herdeiro do trono poderia ter sido envenenado. Não achava que o Protetor do Oeste de fato acreditava naquilo, mas com o príncipe dornês na corte, era unir o útil ao agradável, mantê-lo longe. Tyrion tinha pouco ou nenhum interesse naquela missão quando chegou à capital, mas aquilo havia sido pouco mais de meia volta de lua no passado, agora o seu empenho vencia até seu senso de autopreservação em ficar longe de Cersei. Se o pai o rejeitava, a rainha o desprezava, um desprezo que ele aprendeu a ignorar e engolir por Jaime, mas Jaime não estava mais ali… “Um Lannister sempre paga suas dívidas”, diziam, um ditado comum que ganhou ainda mais força com Lorde Tywin. De fato, se algum crime tivesse sido cometido contra a rainha, a “dívida” seria paga, mas em nome do lobo e não do leão.

Ele já havia sido apresentado a Eddard Stark em outra ocasião, e como irmão da rainha, sempre ficava próximo ao rei em ocasiões formais, mas nunca tivera a oportunidade de trocar qualquer palavra com o nortenho longe das vistas do pai. Quando o rei o recebeu na corte, a ausência daquele olhar severo do velho leão tornou-se óbvia. Cersei não quisera vê-lo nos primeiros dias, e Tyrion tampouco vira o rei — que pelo que ouvira passava a maior parte do tempo nos aposentos consolando a esposa. A proximidade do casal real surpreendeu o anão, principalmente porque achava Cersei intragável, e o rei lhe pareceu um bom homem nas primeiras impressões — algo que ele viria a confirmar nos dias que se sucederam. Ao que pode perceber, Eddard achava que ele fora até a corte para cuidar de Cersei, um membro da família presente para confortá-la. Quando aquilo obviamente não trouxe resultados, o rei fez algo que provou para o anão duas coisas: o homem estava perdidamente apaixonado por sua irmã, e havia uma inocência nele que precisaria ser perdida antes que fosse fatal para ele. O lobo escreveu de seu próprio punho para o Lorde Comandante da Patrulha da Noite, oferecendo todos os prisioneiros da Fortaleza Vermelha, mas que fosse Jaime a buscar aqueles que desejassem vestir o negro. A presença do gêmeo da rainha parecia a última tentativa de trazê-la de volta mais rápido daquela tristeza. A confusão que se fez na cabeça do anão veio com a aparente hesitação de Cersei quando recebeu aquela notícia na sua frente. Ambos, rei e rainha, pareciam absolutamente cansados na ocasião, Cersei tinha o rosto inchado, e sua beleza radiante parecia ter perdido parte do brilho. Mas o que surpreendeu Tyrion foi o afeto com o qual o rei a tratava, mesmo que discretamente, e mais ainda a maneira como ela parecia corresponder aquilo com sinceridade… Já vira os irmãos juntos, e Cersei nunca pareceu tão a vontade quando vulnerável nos braços de Jaime, como naqueles dias em que a viu nos braços do rei. Preferiu não se deixar enganar, ela estava sensível pela perda do filho, não conseguia de fato crer que ela amasse o marido, não quando conhecia seu histórico.

Diante das grandes portas de madeira, Tyrion trocou olhares com Sor Lucion, antes que o primo entrasse para anunciar sua chegada. Pode ouvir um “Mande-o embora!” na voz irritada da irmã, e tratou de entrar nos aposentos antes que o manto branco voltasse para dispensá-lo, dando de cara com uma expressão surpresa e revoltada da rainha, e outra um pouco nervosa do novo Lannister a usar o manto branco.

—Minha rainha… Eu entendo que não esteja muito disposta. — Tyrion começou a dizer, a cabeça meio erguida para encarar a irmã. — Mas é imperioso que falemos a sós… Sobre a recepção de Jaime. — Acrescentou a última parte para ver se ela morderia a isca.

Cersei continuou a encará-lo com uma postura hostil, e no fundo de seus olhos verdes felinos, Tyrion pode observá-la decidir entre enxotá-lo de qualquer forma ou ceder ao seu pedido por uma audiência. Sor Lucion olhava da rainha para o duende, aparentemente esperando que fosse deixado claro o que deveria fazer. Depois de quase dois minutos de silêncio, Cersei enfim acenou com a cabeça para o cavaleiro, fazendo o homem deixar os aposentos e fechar a porta por fora. A rainha deu as costas para o irmão mais novo no momento em que a porta se fechou, caminhando até uma mesinha redonda que havia perto a uma lareira, onde seu desjejum permanecia intocado. Usava apenas um majestoso robe carmesim, e os cabelos loiros lhe caíam ligeiramente bagunçados sobre os ombros.

—Obrigado por…

—O que você quer? — A voz dela o cortou enquanto a mulher sentava-se em uma das cadeiras e mantinha os olhos no fogo. -Não há nada que nós precisemos discutir sobre a recepção de Jaime. — O tom era o mesmo que ela sempre usava com ele, arisco.

—Eu acredito que há… Mas podemos deixar isso por último. Primeiro o pai gostaria que eu mandasse notícias suas. — Começou a falar em um tom paciente após um longo suspiro.

—Acho que não há nenhuma novidade que ele já não saiba. É só isso? — Ela perguntou ainda sem tirar os olhos das chamas.

—Ele quer saber se você já se sente melhor… Se está tudo bem entre você e o rei. — Ele continuou, ignorando a “pressa” dela em acabar com aquela audiência.

—Você quer dizer, ele quer saber se é minha culpa o rei ainda não ter um herdero de sangue Lannister, certo? — Ela o cortou soltando um suspiro de irritação e então voltando os olhos felinos para ele. -Nosso pai amoroso… — O tom saiu mais amargo, mas o Lannister não soube dizer se por causa do pai ou pela tristeza que ainda carregava.

Tyrion ainda estava parado de pé no meio do quarto, mas com aquela resposta acabou caminhando até ela. O Lannister usava um belo gibão carmesim e joias de acordo com a sua posição, mas ao contrário dos demais nobres da corte, não carregava uma espada presa ao cinto — pareceria até ridículo fazê-lo. Tyrion retirou uma adaga que trazia na bota e a colocou em cima de uma mesinha junto à janela, pegando a jarra de vinho e as taças de prata que haviam na mesma, para só então se aproximar de onde a irmã estava. Colocou a jarra e as taças sobre a mesa e subiu na outra cadeira com certa dificuldade, nem ousando erguer os olhos tortos para a irmã, já imaginando o olhar de censura diante do seu “atrevimento” nos aposentos dela. Serviu as duas taças, deixando uma próxima à mulher e tomando um gole da outra.

—Espero que não acredite que vou beber com você. — A voz dela chegou no segundo gole, fazendo-o encará-la ainda com a taça nos lábios.

—De modo algum. Eu coloquei o vinho para as moscas, tenho certeza de que o rei não se importará, afinal vocês tem um reino, o que é uma taça de vinho? — Disse com tranquilidade.

—Você… — Ela começou com a voz agressiva, já ameaçando se colocar de pé. -Vá embora agora!

—Não! — Ele falou simplesmente, tomando mais um gole de vinho, para então se servir novamente. -Eu ficarei por um tempo, e voltarei todos os dias até você parar de agir como uma criança e perceber que sou o único que pode se aproximar de entender o que você está passando agora. — E desviou os olhos dela para o vinho novamente.

—O QUE?! VOCÊ NUNCA PERDEU UM FILHO!! — Ela trovejou, colocando-se de pé e dando um tapa na mão dele, fazendo sua taça e a dela caírem e espalharem a bebida no chão.

—MAS EU MATEI MINHA MÃE!! — Ele trovejou de volta, colocando-se de pé em um pulo e a encarando ele mesmo com um pouco de rancor. -Não é isso que você e o pai repetiram a minha vida inteira?! Que eu matei a mãe?

—Eu não matei meu filho… — A voz dela chegou a sair meio vacilante, parecendo um pouco intimidada pelo grito dele.

—Eu sei que não… Agora você precisa se convencer disso, independente do que o pai pode ou não achar. — Tyrion respirou fundo e se aproximou em passos hesitantes da rainha. -Eu não sou seu inimigo, Cersei. Eu não vou fingir que gosto de você, afinal, apesar de eu nunca ter lhe feito nada, você só me deu motivos para manter distância. Mas eu posso ver a culpa nos seus olhos… Eu sei que você está sofrendo, mas não havia nada que você pudesse fazer diferente para evitar o que aconteceu. — Tyrion soltou um suspiro paciente antes de continuar. -O pai me pediu para garantir que não há razão pra crer em envenenamento, e eu não vejo qualquer coisa que me leve a acreditar nisso, então você não precisa se preocupar…

—Não me preocupar? — Ela forçou uma risada sarcástica. -Devo me consolar com o fato de ter sido muito fraca pra segurar uma criança em meu ventre? — Perguntou encarando o anão com os olhos em chamas.

—Abortos acontecem… Quantos abortos a rainha Rhaella…

—A RAINHA RHAELLA ERA CASADA COM UM MONSTRO! — O cortou novamente aos berros, parecendo ainda mais irritada pela comparação.

—E você não! — Tyrion usou um tom firme, mas não gritou de volta dessa vez, ousando dar mais um passo na direção. -O que aconteceu não foi culpa de ninguém, eu sei disso, e o rei também. A devoção dele a você é óbvia para qualquer um com olhos. — Se aproximou mais um passo, Cersei agora um pouco encolhida contra a parede, parecendo incerta sobre para onde olhar. -Ele a ama, e eu suspeito que você o ame em retorno. Estou certo?

—Foi isso que veio descobrir? — Ela perguntou quase de imediato, decidindo por fim encará-lo, agora com uma expressão ameaçadora.

—Não… Não exatamente… Isso também. — Tentou responder, mas sem saber bem como explicar.

—Já estou farta disso! Você não veio aqui para me consolar, nem para me dizer que meu marido me ama… O que você quer, seu domoniozinho asqueroso? Saia dos meus aposentos!! — Ela afastou-se dele, lhe dando as costas e se virando para uma das janelas cuja cortina estava apenas parcialmente aberta.

—Se parar de ser tão odiosa como sempre, vai perceber que estou aqui para ajudá-la!! — Enfim bufou com a paciência já no limite. Cersei riu debochada, mas antes que pudesse dizer algo, Tyrion já havia se adiantado até ela e puxado o braço para que a rainha o encarasse. -Eu estou aqui por Jaime!! — Respondeu com o rosto deformado retorcido em irritação. -O rei pediu que ele viesse para tentar trazer um pouco de animação para você, e agora ele está vindo a Porto Real. Eu pude ver sua hesitação, Cersei. Então pare de descontar sua raiva em mim só porque precisa culpar alguém pela morte da mãe, e me escute!! — Ele puxou o braço dela mais firme. -Jaime está vindo para Porto Real! E você precisa decidir como vão ser as coisas quando ele chegar, porque depois de mais de um ano, ele virá com certas… Expectativas. — Não queria precisar ser mais claro que aquilo, mas a julgar pelo olhar assombrado da irmã, viu que não precisaria. -Como eu disse… Eu posso ver que você ama o rei, então, de novo, você precisa parar de procurar culpa e aprender a lidar com suas perdas, porque em pouco tempo nosso irmão vai estar aqui esperando partilhar de um leito que você já divide todas as noites com o rei… E se alguém descobrir dessa vez, a punição vai ser mais grave do que o pai trocar seus aposentos, especialmente para ele. — Tyrion a soltou. -Não estamos no nosso território, Cersei. Há mais pessoas desgostosas com uma rainha Lannister do que com um rei Stark… Então eu preciso que você decida como serão as coisas quando Jaime chegar, para eu que possa fazer algo a respeito de manter as nossas cabeças onde estão.

—Você… — Cersei ainda parecia um pouco aturdida, até meio tonta depois de tudo aquilo. -Como…

—Como eu sei? — Completou antes que ela pudesse terminar, já se afastando novamente. -Jaime não é nenhum gênio, e se achar tão esperta é o que faz você menos esperta. — Explicou sem economizar na acidez dos comentários. -Mas isso não importa mais…

—Eu não quero pensar nisso agora… — E deu as costas a ele novamente.

—Ele vai chegar em uma volta de lua. — Avisou começando a se retirar. -Certifique-se de pensar nisso antes que ele chegue…

—Isso não é problema seu.

—Eu sei… Mas, como eu disse, eu estou aqui por Jaime. Ele já vestiu o branco e o negro por você, não quero vê-lo carmesim pelo mesmo motivo. — Disse antes de abrir a porta. -Obrigado pelo seu tempo, minha rainha…

Notas finais
Já to querendo pular mil capítulos pra chegar logo no climax dessa fase =xxxx por favor comentem... recomendem se possível =****