Crônicas de Feras
20 Rei Eddard
Notas iniciais
Em toda Westeros não havia pai mais orgulhoso e amoroso do que o rei. Cada um dos lobos de sua matilha, até o que ainda iria nascer, tinha o amor incondicional do senhor de Westeros. Mesmo em sua atarefada vida de Protetor do Reino, Ned ainda conseguia guardar um parte de seu tempo para os príncipes e princesas, e mais do que isso, conseguia ver cada qualidade e vulnerabilidade de suas crias. Eram sentimentos difíceis de equilibrar, a severidade e imparcialidade requerida de um rei, e a clemência e proteção de um pai. As gêmeas eram as mais fáceis de lidar, na maior parte do tempo. Myrcella era a mais tranquila, uma perfeita lady, com olhos verdes que escondiam uma ansiedade por mais do que bordados. Arya tinha todo fogo da mãe, e nada do autocontrole do pai. Brandon lhe lembrava Benjen, um potencial que ele nem mesmo se dera conta. E Joffrey… Era comum a todo grande senhor gastar a maior parte de tempo com seu herdeiro, e para um rei aquilo era algo ainda mais significativo. Não estava apenas criando aquele que daria continuidade a sua casa, estava criando o futuro rei daquele continente.
O príncipe herdeiro era o mais trabalhoso dos lobos Stark, desde pouco depois de aprender a andar. Nada lhe exigia tanta paciência quanto Joffrey, e mesmo assim o rei o amava mais e mais a cada dia. Não tinha um amor cego, conhecia os defeitos do filho, seu temperamento e até falta de empatia. Mas a cada lição que o rei lhe dava, e cada vez que conseguia fazê-lo enxergar seu próprio erro, bom, aquilo era indispensável para um homem, para um rei… Ele fez o filho merecer cada posição alcançada, desde pajem até escudeiro. Mandou o filho para o Norte, tão logo percebeu que a superproteção de Cersei poderia atrapalhar a educação dele… Fora uma separação mais dura do que ele esperava. Enquanto lutava na rebelião Greyjoy, seu maior medo era que algo lhe acontecesse, e acabasse deixando Joffrey com aquele peso ainda tão jovem, e aquilo acabasse pondo a família toda em perigo. No ataque dos selvagens à Muralha, o rei finalmente confirmou que seu herdeiro entenderá o que significava liderar. E logo em seguida, estragava qualquer chance de diálogo com Arya sobre o casamento que ele já havia concordado. Por mais receoso que fosse deixar um filho nas mãos de Tywin Lannister, Daemon fora seu escudeiro, conhecia o caráter do rapaz.
Tinham acampado sob a proteção das muralhas enegrecidas de Harrenhall, deviam chegar em Porto Real em mais um dia ou um dia e meio, diante do tamanho do grupo. O rei já havia se recolhido, mas aquele lugar o deixava inquieto. Não era o único afetado, mas ao contrário do resto da comitiva que acreditava em fantasmas e superstições, o rei era assombrado por algo mais palpável do que espíritos… Lembranças. Era impossível lembrar onde estava e não pensar em Lyanna, em Brandon, em tudo que havia perdido. O lobo silencioso deixou sua tenda propositalmente na hora da troca de guarda dos mantos brancos. Sor Brynden respeitava sua privacidade o bastante para não xeretar, e acabar descobrindo que o rei não estava dormindo lá dentro.
A hora já era um pouco avançada, e a maioria da comitiva, especialmente os que faziam a jornada a pé, já haviam se recolhido. A noite estava calma, o céu limpo e repleto de estrelas, como quando ele estivera ali para o torneio de Lorde Whent. Eddard viajava nas próprias lembranças, enquanto os pés o levavam pelas sombras das tendas, até uma das poucas fogueiras ainda acesas. Tinha visto Jory em pé ali perto, mas manteve-se oculto ao perceber que ele não estava sozinho. Duas cabeleiras loiras e uma longa trança negra podiam ser vistas por trás dos estandartes fincados próximos a fogueira. Os príncipes pareciam ter aproveitado que o rei se recolheu cedo… Afinal quem incomodaria o sono de Eddard para avisar que os filhos não o obedeceram em se recolher antes da hora do lobo…
—Desculpe estragar sua viagem. — Ouviu a voz de Joffrey em um tom baixo e desgostoso.
—O que disse? — Arya perguntou mais alto, seu tom era mais irritado.
—Eu disse, me desculpe! — Agora Joffrey é quem pareceu mais irritado. — Você preferiria que eu não tivesse contado?
—Vocês não vão começar de novo, não é? — Brandon tinha a voz mansa, moderada, e estava entre o irmão mais velho e a irmã mais nova.
—Nada teria mudado se você tivesse esperado antes de brigar com o pai, eu continuaria tão noiva de Daemon quanto agora… Pelo menos ele não teria encurtado tanto o nosso tempo no Norte! Por que você tem que explodir por tudo? Isso nem era da sua conta!
—E lá vamos nós de novo… — A voz de Brandon tinha uma pontinha de impaciência dessa vez.
—Não é da minha conta?! Eu sou seu irmão mais velho, na ausência do pai sou responsável por você… Além, você não quer casar com Daemon! É assim que me trata por me preocupar o bastante pra avisar? — Joffrey elevou um pouco mais o tom da voz, e até ameaçou se erguer.
O rei observou com uma certa satisfação a movimentação pelas sombras formadas pela luz da fogueira, quando o filho mais velho se rendeu a calma tão logo o mais novo pousou uma das mãos sobre seu ombro, sussurrando algo que não conseguiu ouvir. Brandon lhe lembrava muito a si mesmo, talvez porque também tinha crescido como segundo filho, e desenvolvido toda a paciência que aquilo exigia. Mas Joffrey parecia mais inclinado a influência do irmão do que o falecido Brandon Stark jamais fora a de Eddard. Quando se machucou no ataque de raiva de Joffrey, a primeira coisa que Bran disse ao irmão ao acordar foram, “Pare de chorar como uma menina e vá logo pro Norte… Quanto mais rápido você virar cavaleiro, mais rápido poderei ser seu escudeiro!”. E simples assim, o príncipe herdeiro parou de se negar a idéia, lhe bastou saber que aquilo seria um futuro para realizar as brincadeiras infantis que compartilhara com o caçula. Saber que Joffrey teria Brandon para aconselhá-lo deixava o rei mais tranquilo, sentia falta de seus próprios irmãos a cada nova dificuldade que apareceu em seu caminho desde que se apartaram.
—Não estava preocupado comigo, só queria contrariar Daemon! — Arya acusou. — E mesmo assim, não precisava ter deixado o pai zangado daquele jeito. Eu não preciso de você para falar por mim diante do rei! Eu não serei lady de Casterly Rock… Eu fujo pra Dorne, onde mulheres podem ser senhoras!
—Não diga bobagens! — A voz de Brandon se alterou mais do que antes. — Pense no que o pai e a mãe passariam se você fugisse. Além disso, Rhaegar Targaryen causou uma guerra por causa da nossa tia, e isso acabou com a morte da princesa deles… Como acha que seria recebida em Dorne? E você… Arya tem razão, você só fez isso para contrariar Daemon! Eu também cresci com ele, Joff, e não tem razão nenhuma pra você achar que ele não é um bom pretendente para Arya.
O rei sentiu um calafrio percorrendo sua espinha. Ouvir aquilo, ali onde estavam… Quase interrompeu a conversa dos filhos, mas a voz de Brandon o segurou. Nem queria pensar o que faria se Arya fugisse, talvez tivesse a mesma reação intempestiva de Brandon quando Lyanna fugiu, não conseguiria passar por aquilo uma segunda vez.
—Eu não fiz isso só para contrariar o gatinho do Oeste. — O tom de Joffrey era mais controlado, soltando um longo suspiro antes de continuar. — Você é a filha mais velha do rei, se algo acontecer comigo e Brandon é de você que vai partir o resto da nossa dinastia… Vai querer que seja uma dinastia Lannister?
—Nós somos meio Lannisters, Joffrey! — Brandon lembrou, parecendo até um pouco ofendido.
—Nós somos Starks! E você e eu sabemos que Daemon quer Myrcella, não Arya! Mas Lorde Tywin, além de querer netos de sangue real, também quer se assegurar de que sejam da gêmea mais velha… Assim os Lannister podem reivindicar o trono se eu e você não tivermos herdeiros! Como pode não ver isso, Bran?! Você sempre foi mais esperto… — Dessa vez Joffrey se colocou de pé, visivelmente irritado.
O rei deu um passo para trás, se ocultando um pouco mais nas sombras.
—O que está sugerindo então? Que Arya não se case? Se ela não tiver herdeiros passará para os de Myrcella… Seja com quem for que Arya se case, os filhos dela não serão Starks. Não somos muito queridos em Dorne, não podemos confiar nos Tyrell porque eles lutaram ao lado dos Targaryen. Nem vou mencionar as Ilhas de Ferro, sor Edmure Tully já está casado, Robin Arryn e Edric Baratheon são muito novos. Talvez o vô seja mesmo ambicioso, mas ele não nos faria mal, e eu confio que Daemon vai cuidar direito da minha irmã… É a melhor opção que temos, a não ser que queira casá-la com Jon!
O silêncio que veio em seguida mal foi percebido pelo rei, porque aquela ideia espontânea do filho caçula acabou deixando-o pensativo. Por um lado compreendia a preocupação de Joffrey, mas tivera o mesmo raciocínio de Brandon sobre permitir que Arya se casasse com Daemon, mas jamais considerou a possibilidade de casar a filha com o sobrinho.
—Essa não é uma ideia ruim. — O rei foi tirado de seus devaneios ao ouvir a voz de Joffrey quebrar o silêncio. -Não existe a menor dúvida sobre poder confiar em Jon, os filhos de Arya continuariam Starks… E eu não precisaria ser irmão de Daemon diante da lei. — Completou em um claro tom de satisfação. — Amanhã eu vou tentar falar com o rei!
—Calem a boca vocês dois!! — Foi a vez de Arya se colocar em pé. — Eu não sou uma maldita égua pra vocês venderem pro melhor “comprador”. Primeiro meu pai, agora meus irmãos!! Algum de vocês pensou em perguntar o que EU acho? Se eu gostaria de casar com Daemon ou Jon? Se eu gostaria de me casar? Vocês não vão decidir minha vida!! — E saiu praguejando, enquanto pisava forte no chão em direção a própria tenda.
Eddard acompanhou a silhueta da filha com um olhar preocupado, e quando ela sumiu de suas vistas, começou a refazer o caminho pelas sombras, deixando os dois príncipes seguirem em uma discussão sobre quem era o culpado por irritar Arya… Logo, quem acabaria ganhando dela um travesseiro recheado com fezes quando chegassem a Porto Real. O rei foi silencioso, como sua alcunha, esgueirando-se com cuidado até estar diante da tenda de Arya. Não entrou a princípio, respirando fundo algumas vezes antes de seguir adiante.
—Arya?
—Papai?! — A menina ficou completamente vermelha quando pousou os olhos no pai.
A testa do rei enrugou, confuso a princípio pela reação assustada da menina, e em seguida aquele ar envergonhado, tão atípico nela. Os olhos cinzentos então baixaram para uma caneca caída aos pés da princesa, e o cheiro forte de cerveja logo ficou mais notável. Os braços do homem cruzaram quase que automaticamente, uma expressão severa tomando o lugar da tranquila que havia antes.
—Onde conseguiu isso, mocinha? — Mas com as filhas, mesmo seu tom severo, era carinhoso. — Não ouse mentir pra mim.
—Eu pedi a Jon… — Respondeu depois um longo suspiro, o olhar baixo, mas um misto de irritação e vergonha que o rei pode ver claramente em seu rosto.
—E ele lhe deu?! — Sua voz se alterou um pouco.
—Eu tenho 15 anos, pai! Não sou mais uma criança… Por que Joffrey e Brandon podem e eu não?! — Se apressou em se defender, ou defender o primo. — Nós só bebemos no dia do banquete… E ele só me deixou tomar duas canecas… — A menina acabou falando demais.
Eddard arregalou os olhos quando soube que o sobrinho tinha bebido com Arya, e a menina percebeu o erro que cometeu, ficando ainda mais vermelha, e dessa vez baixando a cabeça. O rei respirou fundo e passou os dedos nos cabelos, ficando alguns segundos em silêncio enquanto pensava no que resolver primeiro.
—Falaremos sobre isso depois… Eu quero conversar com você sobre outra coisa agora. — Disse em um tom sério, caminhando pela tenda e sentando-se em uma das cadeiras postas na mesa diante da cama de peles da filha.
Arya parecia confusa e receosa quando ergueu a cabeça para encarar o rei, provavelmente porque esperava uma bronca por aquilo, mas se a bronca podia esperar então havia algo mais grave. Ela acompanhou o pai com os olhos verdes, uma postura entre o birrenta e ainda envergonhada pelo flagra. Só caminhou até a mesa quando o rei se sentou, acomodando-se na cadeira diante dele, agora mantendo os olhos firmes no pai.
—Por favor, não fique bravo com Jon, a culpa foi minha. Eu insisti, ele só me deu quando eu falei que pegaria sozinha se não me désse. — Concluiu com um olhar um pouco mais manso.
—Já disse que resolvemos isso depois. Não se exalte… Eu quero falar sobre seu casamento. — Começou, uma das mãos se erguendo em sinal de silêncio quando ela abriu a boca para interrompê-lo. — Eu sei que você nunca sonhou em se casar, Arya… Sua tia Lyanna também não era dada a romances e canções. — Acabou comentando antes que pudesse se conter. Ficou dois segundos perdido naquele eterno amargo da perda, mas logo voltou sua atenção para a filha. — Eu gostaria de poder lhe dar o que quer, querida… Eu gostaria que pudesse mantê-la sob meus domínios, e jamais ter de entregá-la a outra família. — O rei soltou um suspiro triste, e até baixou o olhar. — Mas você e eu sabemos que isso não é possível. Eu amo você, e eu não sei como vou aguentar me separar de você e Myrcella. O melhor que posso fazer é me certificar de que sejam dadas a pretendentes dignos, e torcer para que tenham a mesma sorte que eu e sua mãe. — A menina abriu a boca para falar novamente, mas o rei ergueu a mão, novamente a silenciando com o gesto. — Você estava certa… Ninguém lhe perguntou. Eu estava tão irritado com Joffrey por me desobedecer que não me dei conta disso. — A menina ergueu as sobrancelhas surpresa, ao se dar conta de que o pai ouvira seus gritos para os irmãos. — Brandon também estava certo… Jon e Daemon são as melhores opções, mesmo sabendo que você domaria os dorneses facilmente. — O rei parou para tomar fôlego, encarando uma Arya totalmente surpresa, e mais ainda confusa. — Eu sei que seu irmão não gosta de Daemon, mas vocês se dão bem… Também sei que ama o Norte, e adora Jon. Então eu estou perguntando agora, princesa… Com quem você quer se casar?
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