Crônicas de Feras
21 Rainha Cersei
Notas iniciais
Era uma manhã agradável, como quase todas tinham sido naqueles últimos anos. A rainha estava de pé logo cedo, um hábito que acabara pegando do marido. Usava um longo vestido carmesim com detalhes dourados, um coque comportado e a tiara quase sumindo nos fios também dourados. Além de um anel de rubi na mão direita, enfeitava seu corpo um pingente de lobo no pescoço, que chamava atenção por ser a única coisa prateada e não dourada nela.
Cersei estava sentada na varanda dos aposentos reais. Tinha começado a tomar seu desjejum, mas a ansiedade em ver os filhos e o marido a envolveram em um transe pelas últimas lembranças que tinha de todos juntos. Quase uma década… Os filhos ficaram longe dela por praticamente todo aquele verão, mas pelo menos estariam por perto agora que o inverno estava chegando. As mãos deslizaram carinhosamente pela saliência que ela já começava a sentir discretamente em seu ventre. Mais um filho que teria com ele, que poderia com deleite observar os traços do rei se misturando aos seus. Se tivessem lhe dito que aquele casamento político lhe daria uma vida tão satisfatória quanto aquela, ela teria rido na cara do autor das palavras. Mas ali estava ela, Cersei Stark…
—Minha rainha? — Uma voz a porta de seus aposentos tirou a rainha de seus devaneios.
—Sansa?
A ruivinha não precisou ouvir o próprio nome uma segunda vez, entrando ansiosa em seu vestido azul turquesa, e um sorriso bem humorado nos lábios. A irmã caçula lhe prestou uma reverência impecável, e então lhe deu um beijo no rosto, antes de sentar ao seu lado. Sansa Lannister podia ser a perfeita cópia física da mãe, mas havia muito mais de Lannister nela do que apenas o sobrenome. A rainha chegou a ameaçar um pouco de ciúme da nova garotinha dos olhos de Lorde Tywin, mas com o tempo as semelhanças que percebia entre Sansa e ela mesma tinha aproximado as duas. As filhas tinham puxado os modos sempre generosos do pai, e às vezes fazia falta para Cersei alguém com a língua afiada para fofocar com ela, sem ter de se preocupar de seus comentários repercutirem pelo reino afora. Em alguns assuntos a irmã se tornara sua confidente, assim como Tyrion em outros assuntos mais delicados.
—Ah, que bom que não terminou. Tyrion estava todo apressado e Myrcella ainda estava dormindo, não tinha ninguém para tomar o desjejum comigo. — A menina disse já se servindo de uma taça de leite e pedaço de pão. — De que horas eles chegam?
—Myrcella ainda está dormindo? — A rainha estranhou. Era Arya quem gostava de dormir até tarde, não Myrcella.
—Sim. A cesta de bordado estava em cima da cama, acho que ela está fazendo algum presente pra Joffrey, não sei… — A ruivinha respondeu com um ar despreocupado. — Você parece muito calma, para quem não conseguia dormir de ansiedade.
—Eu recebi um corvo do rei… Joffrey contou para Arya sobre o noivado com Daemon. Preciso estar calma para lidar com minha filha. — Cersei explicou com um suspiro quase cansado.
Aquilo só era parte verdade. Há alguns anos ela desistira de lidar com Arya, Ned tinha muito mais paciência e jeito. A verdade era que a rainha não estava exatamente calma, apenas contida, disfarçando melhor do que na noite anterior. Todos os filhos finalmente voltariam para debaixo de suas asas. Joffrey agora era um cavaleiro, e bem sabia que ele iria querer Brandon como escudeiro. Seria um alento ao seu coração ter os dois mais velhos por perto.
Nos primeiros anos de vida do filho mais velho, Cersei manteve um distanciamento inconsciente dele. A dúvida sobre a paternidade, e aqueles traços sempre tão Lannisters criaram uma culpa que martelava sua cabeça sempre que estava com o primogênito. Quando Brandon nasceu, quase tão loiro quanto o irmão, parte daquele sentimento se dissipou, e a rainha grudou nas duas crianças de tal forma, que Tyrion e o rei precisaram interferir em algumas ocasiões para que ela também dedicasse tempo às suas outras obrigações. Joffrey fora uma criança difícil, assim como ela, enquanto Brandon parecia ter puxado apenas o temperamento do pai. Por vezes seus momentos preferidos eram observar enquanto Ned brincava, dava bronca ou ensinava algo novo aos filhos. Tanto Joffrey quanto Brandon idolatravam o pai, e aquele amor e respeito que ela só via crescer no passar dos anos, trouxe paz ao seu coração, até lhe permitindo esquecer daquela terrível dúvida em alguns momentos.
—Joffrey continua igualzinho, pelo jeito. — Sansa comentou revirando os olhos. — Eu posso ajudar a conversar com Arya, se quiser.
—Se o rei não conseguir convencê-la, não acho que sua influência vá fazer muita diferença. Mas agradeço se tentar. — Cersei pegou o chá quente que estava bebericando e deu um gole mais generoso. — Como está sua mãe? Imagino que Lorde Tywin esteja ansioso para mais um herdeiro…
—Ela está bem. O pai quase não a deixa sozinha. — Sansa respondeu com tranquilidade. — Ela disse que espera que seja outra menina. Espero honestamente que não… — A rainha olhou de lado para Sansa, e a ruivinha abriu um sorriso divertido. — Duas leoas é bom, mas três é demais.
Cersei riu do comentário, e os olhos pousaram na irmã caçula com um saudosismo gostoso. Ter aquela idade despreocupada, ser mimada pelos pais e pelos muitos adoradores. Não que sentisse falta da última, ser mimada pelo rei era muito mais satisfatório. Havia um motivo em especial para ter trazido Sansa a corte, algo que virara um tópico principal em suas conversas com Tyrion. A irmã estava em tempo de se casar, e só havia um pretendente a altura da irmã da rainha… Mas Cersei não estava disposta a deixar Lorde Tywin vender a ruivinha para os mais inconstantes dos vassalos do rei. Além disso, Willas Tyrell era um aleijado, não lhe importava quantas outras qualidades ele pudesse ter, uma leoa não merecia esse insulto.
—Vamos ter que pensar no noivado de Joffrey em breve... — Ela soltou com um suspiro quase incômodo.
—Não fique tão amarga, Cersei. Você pode acabar gostando da sua nora. A não ser… Oh, não. O rei decidiu por Margaery Tyrell? — A ruivinha sabia a opinião de Cersei sobre os Tyrells.
—Não. E se tudo der certo, não vou ter que me preocupar com aquelas flores espinhentas pela corte. — A rainha falou com um ar mais satisfeito, confiante.
—Odeio quando você e Tyrion fazem isso… Sempre são coisas que “não podem me contar”, e eu não consigo dormir de curiosidade. — Ela reclamou terminando de comer seu pedaço de pão e se servindo de bacon torrado.
—Pelo bem do seu sono de beleza… Arianne Martell virá com o irmão. O príncipe Oberyn os convidou para passar uma temporada na capital, e eles aceitaram. — A rainha falou com um tom bem humorado, achando graça das reações de Sansa.
—Mas Arianne vai herdar Dorne. — O tom de Sansa ao dizer aquilo foi bastante revelador.
Talvez ser esposa não fosse tão interessante quanto governar seus próprios domínios. Mas aquilo era diferente quando se era rainha. Acomodar vassalos de todo o reino e aconselhar o marido durante os momentos de crise, era infinitamente mais exaustivo e desafiador do que dar ordens e esperar que fossem obedecidas. Ela era rainha… E como rainha era seu dever ajudar a proteger seu legado, sua família. Precisava saber como operar um castelo como Ned operava seus soldados no campo de batalha, para que as coisas não precisassem chegar ao campo de batalha de fato. Por sorte, Tyrion era um bom conselheiro, e um excelente informante. Nem sempre Ned dividia assuntos menos importantes do conselho, e como Tyrion já observara uma vez, nem sempre Ned conseguia dar importância para as coisas certas. Um governante precisava de uma “governanta” impecável, e uma princesa criada para imperar entre homens lhe parecia a escolha ideal. Por mais que lhe doesse pensar nessa possibilidade, quando Ned morresse Joffrey teria uma paz ainda muito delicada para manter, e precisaria de alguém… Bom, alguém como ela, que não se intimida pelas condições de seu próprio sexo. Com o temperamento que o filho tinha, precisaria muito de alguém que não se intimida.
—Não se for ser rainha de Westeros. — Cersei falou com um ar quase convencido. Os olhos felinos se prenderam ao outro par tão parecido com o seu, e o sorriso ganhou uma pitada de malícia. — Se não estou enganada, isso significa que o príncipe Quentyn Martell terá de ser o herdeiro de Doran. — Continuou em um tom falsamente despreocupado. — Eu diria que um príncipe herdeiro de Dorne é o par a altura da irmã da rainha...
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