Notas iniciais
Ele não poderia faltar...

A última vez em que estivera em um banquete na Fortaleza Vermelha, sua irmã estava se casando com o Último Dragrão, Rhaegar Targaryen. Nunca teve a chance de ver a pequena Rhaenys nos braços da mãe, e comparar suas semelhanças, ou de ensinar seu jovem sobrinho a derrubar homens tão bem quanto um dornês. Apesar da dor da saudade que as lembranças lhe traziam, seu coração estava mais leve a cada dia, desde que o jovem rei lobo arrancara a cabeça de Sor Gregor Clegane, “a Montanha que Cavalga”. A lembrança ainda lhe dava uma onda agradável de arrepios.

Quando aceitou o convite para ir à capital, Oberyn o fez para poder ver o rei mais de perto. Um ano atrás, quando o nortenho tomou o Trono de Ferro, viera para Porto Real disfarçado de comerciante de Braavos. Ninguém o reconhecera. E pode observar bem de perto a maneira como a justiça pela morte da sua irmã e de seus sobrinhos era conduzida. Eddard Stark e Jon Arryn chamaram arquimeistres da Cidadela para examinar os corpos de Elia, Rhaenys e Aegon, e para surpreender mais o jovem e intempestivo príncipe dornês, declararam Sor Amory Louch e Sor Gregor Clegane culpados. Sor Amory teve os joelhos e os cotovelos quebrados, antes de perder a cabeça, segundo costumes nortenhos, por tirar a vida de uma criança. Sor Gregor teve o mesmo destino, com o adicional de ter seu membro viril cortado fora, pena por estupro. Com um olhar assustado, mas segurando a lâmina com firmeza, o rei Eddard em pessoa executou a sentença, outro costume nortenho. Se não estivesse oculto entre os expectadores, observando o rei de perto, teria a certeza de que o homem tinha gosto pela violência, diante da insistência em manejar o aço por “costumes”, mas o horror que viu nos olhos dele enquanto proclamava a sentença lhe deu a certeza de que Eddard Stark era muito mais interessante do que um simples maníaco homicida, como Sor Gregor fora. Mesmo depois de lutar uma guerra, onde supostamente é preciso tomar decisões nem sempre honrosas, Eddard sentenciava os homens com a expressão se contorcendo involuntariamente sempre que os crimes eram mencionados, como se fosse um garoto verde que jamais matara, e não um rei que liderou e venceu exércitos. Talvez tivesse visto Eddard Stark em algum momento quando mais jovem, lembrava-se do tempestuoso lobo selvagem, Brandon Stark, mas Eddard parecia ter sido alguém discreto… Até não ser mais. Mas mesmo que tivesse crescido ao lado dele, o dia em que presenciou aquele homem com cara de garoto brandir aquela espada gigantesca, conseguindo o milagre de separar a cabeça gigante do cão de Lorde Tywin do corpo com um único golpe, ficaria marcado na sua memória como a primeira vez que ele viu “o Rei Eddard da casa Stark, primeiro de seu nome…”, se ele seria um bom rei, um rei tirano, ou um rei louco, bom, isso ainda teria que descobrir.

Agora, sentado em uma mesa diante do estrado principal, junto com os poucos lordes de Dorne que o acompanhavam, e alguns lordes do Tridente, Oberyn observava o rei com olhares sutis, mas bastante atentos e curiosos. Ele parecia… Animado, mas “sóbrio demais” para um rei que deveria estar festejando. Talvez ele fosse mais cuidadoso do que o príncipe dornês imaginava… Isso era bom, assim o Leão do Oeste não colocaria as garras no genro tão cedo. Não pode ficar mais feliz quando soube que Lorde Tywin não faria parte do Pequeno Conselho do novo rei. O velho Lannister devia ter achado que a filha rainha o aproximaria do poder novamente, mas pelo jeito, Eddard Stark realmente só estava interessado na bela leoa, e no dote generoso que a acompanhava. Mas é claro, ainda não tinha certeza do autor daquela genialidade, às vezes a Mão do Rei, Lorde Jon Arryn, parecia estar mais diretamente ligado às decisões do que o próprio rei, como nomear Lorde Petyr Baelish como Mestre da Moeda. Não fora o mesmo Baelish que quase fora morto por Brandon Stark? Ninguém fofocava tanto quanto marinheiros, taberneiros e prostitutas, e aquelas eram as companhias preferidas da Víbora Vermelha. Enquanto bebia goles generosos de vinho — mais fraco que seu vinho dornês, ele pode notar, mas muito melhor que a água com açúcar que produziam na Campina -, ele pode perceber que, naquela noite, Lorde Arryn se retirara mais cedo, o que não significava absolutamente nada, a não ser a atenção do rei, que agora estava na sua esposa leoa. Pelo canto dos olhos, Oberyn pode ver o brilho carmesim das roupas de Lorde Tywin, caminhando despretensiosamente pelo grande salão, os olhos felinos no casal real, como um leão rondando sua presa. O rei estava no centro do estrado, junto com a esposa, o lugar à sua esquerda deveria ser da Mão do Rei, Lorde Jon Arryn, mas desde que o mesmo se retirara o rei chamara Lorde Robert Baratheon para ocupar seu lugar. Com a atenção do rei dividida entre a esposa e o bêbado lorde de Ponta Tempestade, Lorde Tywin devia estar se sentindo deixado um pouco de lado. Ótimo.

O príncipe Oberyn se colocou de pé em movimentos elegantes. Usava um gibão laranja com bordados avermelhados desenhando o sol de Dorne, nas costas a lança dourada em fios de ouro. Os olhos castanhos do dornês encontraram os do intendente que trouxera consigo, e após a comunicação silenciosa, o criado fez uma reverência e se retirou. Oberyn se adiantou em passos firmes na direção do estrado principal, e uma vez diante do rei, prestou uma reverência simples, como de um convidado a um anfitrião, não a um suserano.

—Vossa graça, este é o príncipe Oberyn, irmão do príncipe Doran, da casa Martell de Dorne. — O velho Grande Meistre, o puxa saco babão, anunciara ao rei, a quem Oberyn supostamente não conhecia ainda.

Os olhos da Víbora Vermelha ficaram alguns segundos sob o velho homem, que pareceu se incomodar com a sua atenção. O velhote quase deixara sua irmã morrer… Seu tempo na Cidadela lhe fez confiar muito pouco em meistres, Pycelle em especial. Pelo menos o rei parecia não confiar cegamente nele, isso era bom. Na verdade, o rei não parecia confiar cegamente em ninguém… E isso podia ser ótima, ou desastroso.

—Vossa graça, trago as desculpas do meu irmão, príncipe Doran, ele precisou ficar para trás pra cuidar de assuntos de Estado. — O homem uniu as mãos nas costas, falando com o rei com uma expressão agradável em seu rosto. — Espera que o envio de um segundo filho entre lordes e herdeiros não ofenda. — E a víbora começava a soltar o veneno de forma sutil… Precisava ver de que era feito aquele rei.

—De maneira nenhuma, príncipe Oberyn, eu mesmo sou um segundo filho. — O rei respondeu com um sorriso despreocupado no qual Oberyn demorou seu olhar enigmático, abrindo ele mesmo um sorriso satisfeito. — O príncipe, e vossos bons vassalos, são muito bem vindos na corte. Por favor, mande minhas lembranças ao príncipe Doran.

Oberyn fez uma reverência breve com a cabeça, os olhos muito negros procurando qualquer sinal de cinismo, desdém, sarcasmo, ou qualquer coisa negativa do rei contra Dorne. Pelo canto dos olhos, novamente, pode ver Lorde Tywin rondando como um leão impaciente. Será que ele queria a atenção do rei? O dornês baixo a cabeça um momento apenas para ver disfarçadamente a expressão desgostosa do leão do Oeste… Talvez o rei Eddard não tivesse sido corrompido pelo ouro carmesim, ou talvez ele fosse um excelente jogador, afinal estava casado com uma leoa. O príncipe endireitou a postura quando notou os servos chegando com baús, os colocando diante do casal real.

—Agradeço a hospitalidade, Vossa Graça. — Disse enquanto dava alguns passos para trás, para que eles pudessem ver enquanto os servos abriam os baús. — Com a permissão de Vossa Graça, eu gostaria de oferecer minhas felicitações à rainha, e presentes… — Oberyn separou as mãos unidas as costas e tirou uma peça de tecido perfeitamente dobrada de um dos baús. — O mais belo linho de Myr… — O servo tirou outra peça de tecido, esta azul, com bordados cinzentos. — A mais macia seda de Volantis. — Os homens guardaram as peças de tecido, e então Oberyn pegou das mãos do intendente uma caixinha menor, abrindo-a e exibindo um belo colar de ouro, enfeitado com rubis em forma de lágrima. Os olhos de Oberyn foram do rei para a rainha, buscando avaliá-la também. Se tinha uma coisa que a guerra lhe ensinara, foi a não subestimar ninguém, especialmente uma mulher.

—É muito generoso, príncipe Oberyn. — A rainha leoa se levantou e ofereceu um sorriso polido para ele, não tão agradável quanto o do rei. — São presentes maravilhosos.

—Dorneses sempre sabem como agradar uma mulher, Vossa Graça. — Oberyn sorriu pequeno para a rainha, mas quando voltou a olhar para o rei, a expressão pouco agradável dele lhe disse que a brincadeira com a esposa não o agradara. O dornês entregou a caixa com a joia ao intendente, e pegou uma segunda caixa de madeira, essa muito bem trabalhada. Quando abriu, exibia ao rei um cálice de prata com acabamento refinado, e um lobo esculpido em alto relevo com olhos de safira azul. — E… Meu irmão e eu esperamos que Vossa Graça possa aceitar esse presente…

—Obrigado, príncipe Oberyn. — O rei o interrompeu… Muito embora pudesse ter sido sem intenção. — É um belo cálice, mas não era necessário, não sou o homenageado, afinal de contas. — A mão de Eddard Stark pousou sutilmente sobre a da rainha, o sorriso curto nos lábios para o príncipe de Dorne, e os dedos se encaixando cuidadosamente nos da esposa.

—Não, meu rei… Mas gostaríamos de agradecê-lo… Por ter dado justiça para Dorne, para nossa princesa, minha irmã. — Oberyn falou com uma expressão mais séria, mas mantendo a tranquilidade.

Pelo que parecia, o rei era um homem bastante conservador, ao menos no que se tratava da esposa. Oberyn não conseguiu ver sua mudança repentina de postura de outra forma que não ciúme pela brincadeira ousada. Homem esperto… Ele mesmo já enfeitara a cabeça de maridos mais descuidados. Mas aquilo também poderia ser uma franqueza, sendo ela uma Lannister. Será que a rainha tinha algum poder sobre o rei?

Oberyn endireitou melhor a postura quando viu o rei se levantando do cadeirão em que estava sentado, e então dando a volta na mesa à qual ocupava com a esposa e homens de sua guarda. Eddard pegou o cálice nas mãos e o olhou com bastante atenção, para então abrir um sorriso no canto dos lábios e estender para um dos servos que segurava uma jarra de vinho. O servo pareceu hesitar, mas encheu a taça com vinho, mantendo os olhos meio assustados do rei para o dornês. O nortenho tinha os olhos cinzentos em Oberyn, e com a taça cheia ele a ergueu, em sinal de brinde, e então bebeu tanto quanto conseguiu, silenciando todo o salão e atraindo cada olhar. Quando voltou a olhar para ele com aquele nevoeiro cinzento no lugar dos olhos, Oberyn tinha a testa levemente enrugada. O rei lhe ofereceu a taça, que ainda tinha metade da bebida, e Oberyn a pegou e finalizou, tomando todo o conteúdo de maneira automática.

—Não precisa me agradecer por fazer o que é certo, príncipe Oberyn. Aceitarei seu presente como um gesto de amizade. — E bateu levemente nos ombros do dornês com um sorriso tranquilo. — Por que não me acompanha em uma caçada amanhã? Tenho certeza que um lanceiro dornês colocará meu bom amigo Robert em seu devido lugar.

—É claro, Vossa Graça. Será uma honra. — Oberyn respondeu com um sorriso educado, e fez uma reverência, dando uma última olhada em Lorde Tywin antes de entregar a taça do rei para o servo e se afastar para o seu lugar.

Oberyn voltou a beber e conversar com os cavaleiros em sua mesa, mantendo sempre um olhar atento ao estrado principal, onde o rei se distraía com qualquer coisa que Lorde Robert falava, e trocava olhares discretos, mas intensos, com a rainha. Que tipo de influência aquela mulher teria sobre ele? O dornês soltou um suspiro um tanto frustrado, pensando se o nortenho poderia ser manipulado pela esposa… Ele parecia mostrar ser mais esperto, e interessante, do que Oberyn esperava, mas será que estava enganado e ele poderia ser apenas… Obvio? Um homem enganado por uma mulher… Ele certamente se empenharia em descobrir.

Notas finais
E ai? Opiniões? Em alguns caps falaremos mais do Norte... pros que tão ansiosos.