Crônicas de Eohen
1 Capítulo 1. O Carroceiro Bêbado
Os contos de Althin Helt pelo império de Eohen
1. O Carroceiro Bêbado.
Saudações, meus amigos! Fico feliz em saber que vocês vieram presenciar minhas jornadas ao redor de toda Eohen. Pretendo trazer a vocês um pouco da minha visão desse incrível mundo em que vivemos. Como alguns sabem, eu sou um mero bardo andarilho, a sola de minhas botas está repleta de lama e poeira das longas estradas no qual percorri durante anos, cruzei os quatro mares de nosso continente, estive das mais altas torres, às mais profundas masmorras, jantei com reis em grandes salões e com camponeses em tavernas, estive nos Três Impérios e conheci dos mais incríveis heróis aos mais odiosos vilões! E vi que o mundo não é apenas feito de pessoas boas e más e sim de pessoas comuns, como eu e vocês que aqui estão nesse momento.
Mas ouçam quem vos diz agora, pois os relatos precisam continuar e por isso serei breve em minha apresentação sobre minha humilde pessoa. Meu nome é Althin Helt. Talvez o nome não lhes seja estranho, não sei. Sou nascido em Dragávia mesmo, capital de Threor e centro de todo o Império de Aço e Magia. Meu pai faz parte da milícia de Dragávia, a guarda que mantém a ordem por toda a cidade. É um cara meio bruto e mal-encarado, mas é um homem de bom coração. Minha mãe é uma herbologa e tem uma lojinha de ervas próximo à Velha Dragávia, o bairro mais antigo de nossa capital. Na realidade se formos mais específicos, a loja dela fica na última rua do Grande Mercado. Isso! Se vocês pegam a última rua do Grande Mercado, encontrarão a lojinha da minha mãe. Mas, não estou aqui para fazer propaganda dela, apesar de que seria muito bom termos mais algumas dragas tilintando em nossos bolsos. Desde pequeno tive uma afinidade impar com a arte e quando o circo vinha para Dragávia era sempre uma festa pra mim. E de tanto amar o circo quase fugi com uma contorcionista. É, meio clichê, eu sei, mas ninguém disse que isso era ruim, ainda mais depois que a gente sabe do que ela é capaz de fazer e olha que eu estou me referindo até então, somente as apresentações no picadeiro. Voltando, perdoem-me os lapsos. Deve ser o vinho, estou bebendo já faz algum tempo e estou cansado pela noite de ontem na taverna. Me formei em Música e Literatura na Grande Universidade de Harden em Bellanor, capital de Bellana. De lá voltei para Dragávia e ainda dei um semestre inteiro de aulas na universidade de Farendur, mas vi que essa vida acadêmica não era pra mim. Eu queria ação. Queria ver de perto os heróis que fazem as lendas, mesmo que muitas vezes isso seja aterrorizante e confesso que não foi nem uma, nem duas vezes que meu almoço deixou meu estômago durante uma luta. Percebam que não fui claro por onde ele me deixou, seria um tanto quanto deselegante. Ah! Eu sei, eu sei. Vocês querem ação. Mas isso é pra vocês entenderem as coisas antes da história começar. Enfim, tenho vinte e sete anos de invernos e verões bem vividos, meus cabelos são castanhos e encaracolados como os cabelos dos anjos das estátuas da Catedral do Céu que por sinal me ajudaram muito a conquistar donzelas na época de faculdade. Olhos castanhos, pele morena, confesso que não sou do tipo atlético, pareço mais um homem que saiu há pouco da desnutrição. Deve ser culpa da vida boêmia, mas não me culpem. Nem sempre dão o devido valor a arte e nem todo taverneiro aceita um hospede de graça, ainda mais quando ele dá em cima da garçonete que por triste escolha dos deuses é sua esposa ou filha. E sim, a estrada as vezes a gente tem que correr muito de assaltantes e monstros. Tudo isso ajuda a manter meu corpinho delgado, mas ainda assim inteiramente sensual.
Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Eu havia acabado de pedir afastamento da universidade, o reitor concordou em me remunerar mesmo viajando desde que eu registrasse tudo o que eu via para poder ajudar o departamento de história e também o de biologia da universidade. Como eu sei desenhar, fiquei incumbido de desenhar qualquer coisa estranha que eu visse e olha que coisas estranhas em Eohen é o que mais existe. Além de uma simpática mula que iria me acompanhar em minha jornada, em meu alforje eu carregava algumas ervas que minha mãe me deu. Uma adaga, presente de meu pai, penas, tintas e muito papel para os registros e é claro, bastante vinho. Lembro-me como se fosse ontem eu me olhando no espelho. Camisa de linho branco, calças de algodão tingido de um verde musgo o que combinava muito bem com meu colete da mesma cor, botas de couro cozido com fivelas de ferro e é claro, uma capa de viagem sem graça e marrom por cima de tudo isso. Nas costas eu levava meu alaúde, porque viajar sem música eu particularmente acho desgastante, principalmente quando a gente não vê nada na estrada além de terra e mato. Subi na minha mula que carinhosamente chamei de Mimosa, mesmo minha mãe dizendo que era nome de vaca e segui viagem. Há, esqueci de falar lá em cima. Mesmo meu pai sendo da milícia, não morávamos na vila militar, que é mais um bairro de Dragávia. Morávamos no distrito rural de Lamora, que ficava além dos muros, já fora do limite da cidade. Lamora era como um anexo não oficial. Com casas mais simples, feitas de madeira, onde eram criados porcos, ovelhas, mais ao oeste, já próximo da floresta de Briack podiam ser vistos os grandes moinhos que davam aquela paisagem um toque poético.
Antes de pegar a estrada em direção a Gondrir, a última cidade do reino de Threor, olhei para atrás de vi minha linda Dragávia em pleno pôr do Sol de verão. Era o fim de tarde de Servhan, nono mês do ano de 478 da primeira era. Nosso império passa por um momento de paz há quase três anos após a derrota de Aramis em Kaenor, o que me deixa animado para poder viajar por aí sem ter o perigo de ser enforcado ou degolado, ou qualquer outra coisa que venha fazer minha mãe chorar. O ocaso aos poucos avançava, mergulhando Dragávia na escuridão. A sombra da montanha já não podia ser notada e ao longe já ouvia corujas e morcegos levantando voo. A Pedra Sol no alto da Torre de Marfim, lar do imperador brilhava como um farol para todos os perdidos que buscavam um caminho e se tinha algum lugar que poderia ser o centro do mundo, seria Dragávia e era de lá que eu saía. Segui viagem sem olhar pra trás, pois não queria aquele sentimento de insegurança em meu peito. Eu sabia que voltaria.
No meio da noite, cheguei numa pequena vila chamada Halzern, acredito que pelo número de casas não havia mais do que cem habitantes ali. Respirei fundo para minha primeira parada, buscando sentir o cheiro de alguma aventura, mas tudo o que pude sentir foi o cheiro de mato e estrume, não necessariamente nessa ordem. Segui em direção a única luz acesa no final da única rua onde havia uma placa escrita “Cama Dura”. Lamentei ao entender que era o nome da pousada dali. Pela música que tocava imaginei que o lugar era uma taverna também e me animei um pouco. Dormiria em qualquer cama, desde que eu estivesse bêbado o suficiente. Antes de entrar pela porta, o grande janelão de vidro se explodiu diante de mim e eu dei um grito assustado (que o taverneiro afirma ter sido fino, mas eu juro que não). Um homem tão bêbado quanto uma cachorra tentava se pôr de pé, mas não conseguia pronunciar uma palavra.
— Só volte aqui quando puder pagar a conta, seu arrombado! – Gritou carinhosamente o taverneiro.
Olhei para o bêbado e vi que ele se aninhou próximo de onde eu amarrei Mimosa e lá mesmo ele adormeceu. O taverneiro olhou pra mim e eu dei um sorriso animado, ele revirou os olhos e entrou.
— Boa noite, meu senhor! Gostaria de um quarto, por favor. – Eu disse.
— Estamos cheios essa noite. – Respondeu o taverneiro de maneira surpreendentemente educada. – Se quiser pode ficar no celeiro, mas lá está cheio de pulgas.
— Se o senhor me oferecer um desconto, eu aceito sem problemas nenhum. Tem comida?
— Aqui isso não falta, meu filho. Venha, vou pedir que lhe sirvam o restante do jantar.
O taverneiro era um homem truculento. Tinha um rabo de cavalo preto e pelo porte parecia que sabia brigar e muito bem. Atendia pelo nome de Turk. O senhor Turk foi bastante gentil comigo, diferentemente do bêbado que voou pela janela. Sua esposa bastante simpática me serviu rabada e uma caneca bem cheia de cerveja. Era mais alta que ele e bem esguia, mas era bonita. Os cabelos estavam presos com um lenço que não consegui ver qual era a cor, mas imaginei que seriam castanhos. Não sei. Gosto de castanho. Enfim, quando terminei de comer, Turk me levou até o celeiro.
— Peço desculpas novamente por fazer o senhor dormir entre a palha, mas é porque estamos realmente cheios hoje. Além de você quem dorme lá também é um casal que viaja para o norte. O homem parece ter lutado em Barmarral e a mulher que o acompanha é uma clériga de Caelum, bendita seja.
Um homem que lutou no Império do Sol! Isso me deixava animado, pois Barmarral era um reino tomado pelo deserto, comandado por um Faraó que insistia em expulsar todos os que não eram nativos de lá. Há anos Aurian enviava cavaleiros e Juízes pra tentar remediar a paz, templários auxiliavam essas negociações que quase sempre terminavam em sangue! Um homem desses deveria ser calejado e ter muitas histórias pra contar! Logo pela manhã falaria com ele e pediria para acompanha-lo em sua jornada!
Não foi a palha pinicando, ou os mosquitos em meus ouvidos que me incomodaram durante a noite, nem as pulgas me mordendo. O homem do deserto e a esposa passaram a noite fornicando de um jeito que faria inveja à um sátiro, o que impediu que eu dormisse direito. E pelos gritos e gemidos acho que a vila também deve ter passado a noite em claro ouvindo tudo. Quando adormeci o sol já começava a entrar pelas frestas do telhado que precisava ser remendado e quando acordei já era mais de meio dia e há horas que eles tinham ido embora. Possivelmente eu teria dormido mais se Turk não tivesse gritando novamente com o bêbado.
— Seu filho de uma cachorra, se chegar perto daqui de novo eu mato você! Nem o imperador Leoni te salva!
Me surpreendi com a capacidade do homem de se manter bêbado e confesso que por um momento eu o invejei e acho que até um anão o invejaria também. Aproveitei que ele estava ocupado tentando se manter em pé e fui até o taverneiro.
— Bom dia, senhor Turk. – Eu disse. – Sabe me dizer para qual direção foi aquele casal?
— Infelizmente não, meu jovem. Eles pagaram a conta logo cedo e saíram.
— Eu sei para onde eles foram! – Disse o bêbado gentilmente não convidado para a conversa.
— Poderia me dizer em qual direção seguiram? – Questionei com um sorriso enquanto fingia não sentir o hálito de urubu morto.
— Eu levo você até lá.
Bêbados sempre tão gentis.
— Fique longe dele, Robert. – Rosnou Turk.
Robert botou o indicador na boca de Turk como se fosse pra ele ficar em silêncio e virou-se para mim.
— Eu estava acordado quando eles saíram e sei o lado que se dirigiram. – Era difícil entender o que ele dizia, juro a vocês, mas suspeitei que tenha sido isso, mais surpreso ainda eu fiquei quando ele conseguiu diferenciar direita e esquerda, mas isso não vem ao caso, foco, força e fé nos deuses que vai dar certo, agora vamos continuar. – Vem comigo! – Disse ele animado. — As pessoas daqui não me valorizam. – E de maneira extremamente madura estirou a língua para Turk.
— Se viajar com esse traste arrumará problemas. Estou avisando. – Turk deu as costas e voltou para a taverna.
Notei que a janela estava sendo consertada e pelo bem de Robert, das cordas vocais de Turk e da janela eu resolvi por aceitar ser guiado por ele. Não duvidava do aviso de Turk, mas eu queria conversar com o homem do deserto. E viajar com o bêbado não parecia tão ruim. Eu mesmo já tive meus momentos e uma coisa que eu aprendi é que os deuses cuidam bem dos bêbados.
— Poderá ir comigo com uma condição. – Eu disse a Robert. – Se mantenha sóbrio e eu te aceito como companheiro.
— Poderemos encher a cara nas tavernas em que pararmos?
Era um bom plano.
— Podemos.
— Fechado!
Paguei a conta da minha estadia e segui com Mimosa pela estrada em direção ao norte para onde o homem de Barmarral havia ido. Um pouco atrás vinha Robert montado num pangaré tão fedorento quanto ele puxando uma carroça cheia de tralha. Sorri pra mim mesmo, pois minha aventura por Eohen começava, mesmo que fosse com um carroceiro bêbado.
Fale com o autor