Crônicas de All Star
1 O amor pode nos partir em pedaços
Era verão de 2004 o sol castigava a França como nunca, os turistas haviam desistido de subir na aclamada Torre Eiffel pois não queriam ficar ainda mais perto do sol. Paris nunca esteve tão lotada de guarda sois. Os habitantes se perguntavam se o frio havia de voltar logo porque não aguentavam mais lidar com aquele calor exaustivo.
"Estou deitado sobre a mesa da cozinha já faz algumas horas. Estou cansado de procurar um lugar confortável para deitar e me encontro ocioso a tantas horas que granito me parece melhor que espuma" — Pensava o rapaz Joseph.
Joseph era um jovem rapaz de classe média que aspirava alegria, vindo de uma família do interior da França. Seus pais estavam sempre grudados esbanjando união por ai, era o que poderia se chamar de casal 20. Tinha uma irmã, Adeline a qual era sua melhor amiga dentro de casa. Joseph não era dos mais sociáveis, porém, sempre que podia saia para se divertir com amigos ou conhecer garotas. Tinha uma aparência agradável aos olhos femininos, sendo alto e esbelto com braços, pernas e barriga bem definidos resultados de alguns anos da prática de esportes. Já os olhos eram verdes com uma nuance de marrom e sua barba não era das melhores, mas ainda era uma das coisas pela qual mais se orgulhava. Apesar dos esportes mantinha uma alimentação terrível.
Trabalhava em uma loja de discos e apesar de reprovação dos pais havia optado por não fazer faculdade por um tempo, por não a considerar tão essencial não tinha muitas ambições, apenas um forte desejo de morar no exterior em algum pais nórdico. Já a casa não era das piores, possuía até um pequeno sótão com teto de vidro que possibilitava uma perfeita observação das estrelas, ninguém ia lá havia muito, o tripé do telescópio já carregava horrendas marcas de ferrugem. Era difícil acreditar na possibilidade que algumas pessoas poderiam se acostumar com a beleza das estrelas, mas sim infelizmente eles se acostumavam.
Cansado da monotonia do barulho da geladeira se dirigiu a sala, disposto a procurar algo para assistir. As vozes da TV preencheram todo o ambiente acabando com sensação de solidão que uma casa vazia proporciona, apoiou a nuca na palma das mãos e jogou os pés sobre a mesa de centro. Afinal a mãe não estava em casa para gritar.
_Isso que é vida! — Exclamou em voz alta e pode ouvir a própria voz ecoando pelas parede. — Apenas o barulho da TV e meus pensamentos!
Se sentia em paz quando estava sozinho, diferente da maioria das pessoas ele gostava de se sentir sozinho. Costumava passar a maior parte do tempo assim. Desligou a TV e catou os fones de ouvido do fundo da mochila, arriscou uma dancinha ridícula ao som de Blur — Coffe and Tv, mexia-se quase de maneira letárgica e entoava o refrão com um inglês péssimo.
Os fones impediram que ele ouvisse o barulho das chaves na fechadura, a porta se abriu expondo sua dança particular e ridícula a Adeline e sua amiga Aimée. Ainda sem se dar conta continuava arriscando passos amadores. Colocou uma perna a frente da outra fazendo um giro finalizado por um estralo de dedos duplo ficando face a face com Aimée.
_Puxa vida, você tem talento. — Ironizou a moça. — Você poderia me ensinar alguns passos o que acha? — Continuou ainda em tom de brincadeira.
_É... — Foi tudo o que conseguia dizer. Estava constrangido por demais para dizer qualquer coisa.
_Você está burro garoto? — Perguntou Adeline com uma expressão debochada. Expressão qual era uma piada interna da Família que casualmente era usada para este tipo de situação constrangedora.
_A quanto tempo estão aqui? — Perguntou.
_Tempo suficiente monsier Jagger, David Bowie aplaudiria você se o visse. — Ironizou Adeline.
_Eu vou pra cozinha tentar ser abduzido.
_Melhor mesmo. — Respondeu.
_Não cometa suicídio lá, o mundo precisa do seu talento. — Completou Aimée caindo na gargalhada. Ela possuía um pouco de sardas nas bochechas e grandes olhos azuis e cabelos tingidos de verde de uma maneira tão desordenada e grotesca que só ficariam bons em Aimée.
Adeline era um pouco mais elegante e sempre usava camisetas com frases divertidas, era loira com um cabelo liso perfeitamente alinhado e partido ao meio e os olhos uma mistura de marrom com amarelo.
_Seu irmão é até bonitinho. Pena que é estranho.
_Ele ser um alien é ate uma vantagem pra você, ele com a pele verde e você como cabelo. — Cochichavam na sala.
Joseph era apaixonado por fantasia, ficção e aventuras e sempre relia suas partes favoritas de O Senhos Dos Anéis e sempre que possível expressava seu amor pelas histórias da Terra Média.
_Onde está Madeleine? — Voltou para a sala, onde estavam as meninas.
_Estudando. — Responderam sem o olhar.
Madeleine era ratazana de biblioteca desde a infância e preferia estudar a qualquer tipo de interação social usava lentes redondas estilo Harry Potter mas não era feia, era bem bonita na verdade com olhos e cabelos negros. Joseph desde cedo tinha uma quedinha por ela, uma vez conseguiu segurar a mão dela por 20 minutos quando a roda gigante do parque enguiçou no alto e ela teve um ataque de panico, ela tinha insistido para ela ir com ele seduzido pela ideia que as luzes e a altura do brinquedo fossem criar um clima romântico. Mas nunca passou disso, mesmo com o fato de ele conseguir chegar até a segunda, terceira ou mesmo a quarta base com qualquer garota que saísse. Esse é o problema das pequenas cidades você cresce ao lado das pessoas que você pagou mico e é relembrado sobre o episódio a vida toda. Porém pra alguns isso pode ser vantajoso.
_Mas vocês não vieram estudar? — Perguntou intrigado.
_Mas é claro, pobre Joseph... — Riram. — Você age como se nunca tivesse feito nada errado antes.
_Se quer saber a noite iremos numa festa e você está convidado. — Aimée o entregou um envelope marrom escrito com letras cursivas.
_Lissie iria adorar que você fosse. — Disse Adeline.
_Lissie? — Revirou as memórias, esse nome lhe era familiar.
_Sim. Você se lembra dela? Estudamos todos juntos no colegial.
Lissie a garota do vomito na blusa, ela vomitou em si mesma e pediu o casaco de Raul para esconder, mas não esperava que ele fosse gritar "Você vai usar pra colocar em cima disso ai?" E acabou passando o resto da festa com vomito seco no cabelo e na roupa de tão bêbada que estava.
_Que eu me lembre e a garota do vomito no cabelo?
_Essa mesma. — Adeline respondeu.
_Bom que eu me lembre não a vejo desde o incidente, seria legal reencontra-lá.
A noite foi regada a musica alta e sensação de liberdade e adrenalina que o álcool geralmente proporciona aos jovens. Era impossível pensar em questões de passado ou futuro para Joseph neste momento, ele apenas conseguiria viver o presente. Estava elétrico, hipnotizado demais para pensar em Madeleine, pelo menos não conseguia porque Lissie estava "gata demais" naquele vestido azul colado a sua silhueta de forma descomunal, não quando seus olhos cruzavam com os dela e sua voz delicada lhe causava uma leve excitação. Efeitos do álcool.
A moça o puxou para cada vez mais perto e rápida como uma raposa tratou logo de beija-ló.
"Pelo menos dessa vez, ela não está cheirando a vomito" — Pensou.
Neste momento certas coisas fizeram sentido para Joseph. "Madeleine não tem nada de especial, é egoísta, chata, fútil e mimada, se acha superior aos demais e além de tudo é cega, porque qualquer garota é capaz de notar o que ela não percebe" — Pensou,enquanto descontava sua frustração nos lábios de Lissie. Mas claro que isso partia de uma perceptiva frustrada do rapaz Joseph.
_Vamos subir. — Era um convite.
"Tentador" — pensou. Olhou as mexas do cabelo cacheado que se sobrepunham em direção aos seios.
_Tenho de ir a um lugar. — Ele disse, rapazes não são muito inteligentes quando se sentem nervosos. Contou até 10 tentando agir de forma consciente.
_Sabe a vida é curta. — Disse e jogou o corpo sobre o balcão. — Temos que aproveitar as oportunidades, se é que você me entende. Sabe fazer algo estupido do qual vamos nos arrepender, faz parte e não podemos viver sem tentar.
Podemos ver que a pobre moça tinha problemas quando bebia, não que fosse má pessoa em geral ela só não sabia ao certo sobre limites.
_Tem razão Lissie. — Então a pegou no colo.
Enquanto corria até o carro pensava sobre como pedir desculpas mais tarde. -"Onde estão minhas chaves?" — Revirou os bolsos ofegante.Estava quase se arrependendo do que estava fazendo, deixando uma garota maravilhosa e linda plantada no meio de uma festa pra ir se declarar a uma outra garota que na maioria do tempo nem repararia em sua existência e se reparava não dava a minima.
Avançou pelas ruas em direção a casa de Madeleine, ele havia deixado Lissie para trás, mas culpava a mesma por isso. — "Se ela não tivesse começado a dizer toda aquela baboseira sobre fazer algo que vamos nos arrepender mas que precisa ser feito eu não estaria aqui."- Antes tivesse ficado, ao menos para conversar com Lissie.
Parou em frente a faixada da casa roxa, olhando pra onde tivera olhado durante a maior parte do seus dias na adolescência, observando na esperança de ver Madeleine. Estático sobre a luz da varanda respirou fundo antes que pudesse tocar a campainha.
_Quem é? — Perguntou uma voz masculina mal humorada do outro lado da porta.
_Posso falar com Madeleine. — Balbuciou.
O pai abriu a porta confuso com a vista inesperada tão tarde da noite, pensou que pudesse se tratar de um namoradinho, mas logo viu que era Joseph e recobrou a serenidade.
_Joseph?Sabe que horas são? Tem sorte de ser você, se fosse outro a está hora já estaria morto. — Deu um tampinha amigável no ombro dele. — Vamos rapaz, entre.
_Não precisa, posso falar com ela? É importante.
_Achei que você nunca fosse tomar coragem. — O pai riu.
_Made, visita pra você querida. — Virou- se para chama-lá. — Acho bom terem cuidado. — Os apontou de forma ameaçadora.
_Onde já se viu chegar na casa dos outros tão tarde. — Puderam ouvir ao longe a mãe resmungando.
_Oi.- Madeleine parou sobre o portal apoiando-se sobre o lado esquerdo do corpo. — Joe, o que faz aqui? — Estavam todos com preguiça de falar seu nome hoje?
Reparou o pijama transparente da garota sob a luz da varanda.
_Eu tenho algo pra dizer. — Começou.
_E você não podia sei lá esperar até amanhã, mandar um sms, ligar? — Ela pareceu um tanto desconfortável. — Mas já que você já esta aqui, vá em frente diga. — Sorriu.
_Bom...Então... Tem tanto que quero lhe dizer...
_Ah não... — Interrompeu com desprezo. — Não diga que você achou que existia a menor possibilidade de...
_Calma, você nem me deixou terminar. — Ficou extremamente inseguro.
_Nem preciso... — Sua voz se tornou áspera. — Está perdendo seu tempo.
_Tudo bem. Olha não importa se estou perdendo meu tempo, apenas ouça ta legal? Já faz pelo menos uns 7 anos que eu sou apaixonado por você, bom a sua resposta agora não me importa porque isso era uma coisa que eu precisava dizer independentemente de qualquer que fosse sua reação, eu precisava me livrar disso. — Dizer aquilo era como se não estivesse mais sufocando.
_Você é uma criança Joseph. — Ele não escutava isso desde o seu aniversário de 18 anos e agora já estava com 20. — E Joseph eu não me envolvo com crianças. Eu odeio essa ideia de amor estipulado, idealizado e bonitinho e feliz isso é puro romantismo barato. Você pode saber quem eu sou desde criança mas você não me conhece de verdade, então pare de incomodar as pessoas com a sua infantilidade ainda mais tão tarde. — Entrou batendo a porta no seu nariz.
"Eu sei que você é uma vadia nerd mesquinha, eu percebi isso e foi por isso que vim até aqui porque você não tem nada demais e ainda assim eu gosto de você, eu diria que te amo mas você não me deu a oportunidade de começar a ter esse tipo de certeza" — Pensou consigo mesmo olhando pra porta fechada a sua frente.
Estava no meio da rua decidindo sobre onde iria enfiar a cara depois do que aconteceu e como faria para aliviar aquele sentimento de decepção que logo evoluirá para frustração e depois tristeza. Encontrou um bar.
Já havia tomado tanta cerveja, que estava cambaleando pela rua chutando tudo que encontrava na sua frente, procurava com dificuldade onde tinha estacionado o carro. Voltou a casa de Lissie.
_Lissie, eu estou aqui. — Gritava na porta da casa.
_A festa já acabou. -Disse na janela. — Mas é bom te ver por aqui. Hey, você está bêbado?
_Não. Eu estou ótimo, veja eu voltei pra você. — As palavras saiam embaralhadas enquanto ele batia sobre o próprio peito
_Vai pra casa. — Seu rosto se tornou sério. — Espera ai fora, eu vou te levar você não está em condições de dirigir assim e eu já estou um pouco melhor da bebedeira de ontem.
Já estava quase amanhecendo, saiu de casa de pijamas e pantufas, o amanhecer estava frio e agradável.
_Me de suas chaves. — Ela disse com firmeza.
_Elas estão aqui. — Vasculhou os bolsos. — Estou bem sério. — Cambaleou até o carro tentando abrir a porta.
_Este não é seu carro. — Revirou os olhos. — Francamente viu. Como é que você conseguiu chegar até aqui nesse estado?
_O amor me trouche. — Falou com a língua presa e começou a rir. — Eu sei o que estou fazendo Lissie.
_Sim, você ta fazendo merda. Isso que você esta fazendo. — Ela estava sem paciência. — Esquece... Vamos no meu carro.
Já era quase 7h quando chegaram a casa de Joseph.
_Você é um anjo. Um anjo cheio de luz. — Caiu na risada. — Acho que vou ligar pra minha ex, acho que eu ainda amo ela. — Embrigado começou a babar no banco.
_Você é uma criança. — Ela riu.
_Não fala isso pra mim, não é a primeira vez que escuto isso hoje. — Ele avançou para beija-lá, o bafo de álcool era tão forte que Lissie ficou tentada a acender um isqueiro pra ver o que aconteceria. Seus olhos se tornaram surpresos e por fim duvidosos e então disse.
_Sai do carro.
_Você é muito linda. — Dizia de uma forma indecifrável
_Eu mandei sair do carro. — De repente estava gritando.
Ela quase o chutou pra fora do carro, quando finalmente saiu ela arrancou da casa furiosa e seguiu pela rua.
_Quem ele pensa que é? Idiota, estupido. Por acaso estava achando que eu sou alguma espécie de premio de consolação? Que eu sou a segunda opção dele. — Batia no volante com força. — Droga.
Parou uma padaria, comprou coca cola e um monte de bolo. Descontar a raiva na comida era algo que ela o fazia com frequência. Comia tudo furiosamente estacionada praguejando sua raiva aos 4 ventos.
Um policial se aproximou e bateu no vidro do carro.
_Moça,está tudo bem?
_Sim,só estava com desejo. Estou grávida. — Disse apontando para o resto de comida que sobrará no prato, isso evitaria as perguntas sobre ela estar chorando e comendo um monte de porcarias as 7 horas da manhã.
_Certo,desculpe incomoda-lá. — Saiu e a deixou comendo.
Não demorou muito pra Joseph acordar na porta de casa e começar a sentir vergonha de tudo que tinha feito na noite anterior. Já Madeleine se sentia orgulhosa de suas sábias palavras segundo ela.
E Joseph além de envergonhado estava magoado e teria que arranjar um jeito de se desculpar com Lissie e de seguir em frente quantos aos seus sentimentos por aquela jovem. Tanto Lisse, quanto Joseph descobriram simultaneamente que o amor pode machucar, para ele isso se deu desde cedo e para ela era quase que uma novidade.
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