Crônicas da sala 133
1 17/12 - O dia de vermelho
Notas iniciais
Era mais uma tarde fria de outono, o vento gelado, levando as folhas avermelhadas, quase todas as árvores já estavam nuas. O outono avançava com muita rapidez, o que era um indício de um inverno muito frio e rigoroso, não que fizesse diferença para ela, afinal, gostava do frio, se sentia confortável com o vento gelado no rosto, a sensação que provocava e tudo o que ele proporciona. Começou a escutar os passos, a porta se abriu e ela entrou com a bandeja:
— Trouxe o chá como queria, e os convoquei, logo estarão aqui.
— Ótimo quanto mais rápido acabarmos com isso, melhor, antes que se espalhe mais.
Ania já está com ela a tanto tempo que se habituara, e até sentia falta em sua ausência, afinal, já não era mais só amizade, a relação das duas já havia passado á muito de mestra e serva, embora ela soubesse que os sentimos de Ania eram muito maiores e fervorosos, algo que tentava retribuir da mesma forma, mesmo ela não cobrando nada de Cecilia.
Os dois rapazes chegaram não muito tempo depois, poderia se dizer que os dois eram gêmeos se não fossem pela diferença de cor nos olhos, e de idade, embora fosse muito próxima, nem um ano completo. Tinham o cabelo loiro claro, como se fosse tocado pelo sol, a pele clara, corpo atraente e em forma, o que não era muito difícil para sua espécie, mas um possuía olhos vermelhos como sangue e o outro, purpura como ametistas.
— Devem saber por que estão aqui? Acredito eu. Estão fazendo muito alarde em suas caçadas, e estão chamando atenção, estou lhes avisando, antes que se torne algo grande e o próprio sindicato mande ordens para resolver a situação.
— Sinceramente não compreendemos o que está...
Cecilia se ergueu abruptamente da mesa, batendo as mãos contra ela.
— Como não sabem, os rumores se espalham, já estão comentando até fora da escola, sobre os vampiros loiros que atacam garotas sozinhas nos corredores da escola e nos arredores, pensam que não saberíamos que eram vocês?
— Pode ser nosso pai, ele é loiro e tão vampiro quanto nós.
— Acha que eu acreditaria que um conde, um alto grau entre os de sua espécie, faria algo amador dessa maneira? Estão avisados, se esses rumores continuarem e aumentaram vocês serão retaliados.
— Não pode pensar que pode fazer algo conosco! — Falou o de olhos ametistas, chamado Joseph – Nosso pai não tolerará!
— Não só posso como faria se continuarem, estão avisados — Seu rosto era uma expressão fria e séria, dura como gelo – e seu pai não fará nada além de me agradecer, porque se isso chegar aos ouvidos do sindicato ele pode sofre sérias consequências, e já param para pensar, o que farão se acabarem transformando alguém? A responsabilidade será de vocês!
— Não se repetirá, seremos mais discretos a partir de agora – Era conhecido como Andrew, o garoto de olhos vermelhos, era o mais velho também, possuía uma face sem expressões – Tem nossa palavra, podemos nos retirar agora senhora presidente?
— Tem o meu consentimento.
Os garotos se retiraram bravos e carrancudos.
— O que acha ania?
Ela servia o chá para Cecilia.
— Que são garotos mimados, Presidente, não devem receber muitas retaliações, não deve deixar isso lhe aborrecer Ceci.
— Tem razão, mas mesmo assim é meu dever, como presidente do comitê de contra medidas da cidade, apesar de Cinasta ser minúscula, os problemas que ocorrem aqui são grandes.
— Não tenho dúvida, por isso a secretaria não escolheu outra pessoa que não você – E ela deu seu sorriso reconfortante, como sempre fazia nessas situações, o que deixava Cecilia sempre animada, nem que apenas um pouco.
Cecilia sorriu e disse:
— Gostaria que não tivesse razão.
Os dois garotos Renpshim de alguma forma mexeram com ela, principalmente o de olhos vermelhos, não conseguia parar de pensar no olhar vazio e o rosto duro como pedra que ele possuía, devia ser muito popular entre os alunos, afinal, sua natureza lhe favorecia isso. Lembrava-se que Renp era algum lugar a muito esquecido e Shim, dentro da língua dos vampiros isso significa algo como senhor ou lorde, deviam ser alguém de importância, mas isso era no passado, antes da expansão humana, antes das outras espécies quebrarem sua supremacia e tudo ser controlado pela Secretaria de Contra Medidas. Isso pelo menos possibilitou a coexistência entre as espécies e os humanos, mesmo eles não sabendo de tal fato e acreditarem que o reino é controlado por Fernando, 18º de seu nome, rei do reino de Ambria.
Ela tomava seu chá acompanhada de Ania, quando novos passos ecoaram pelo corredor. A visitante parou em frente a sala e olhou para cima:
— Sala 133, como sempre!
E entrou de rompante sem se anunciar ou ao menos bater na porta.
— Ora, como era de se esperar, Inira, fazendo sempre a sua moda, devo lhe ensinar as boas maneiras? – Disse Cecilia com um sorriso de canto de boca.
— Guarde suas boas maneiras pra quem tem paciência para seus disfarces, como a Ania presidente, que segue como um cachorro tudo o que você diz! – Falou carrancuda.
— As vezes parece que você não é minha serva Inira. – Cecilia a olhava com uma expressão desafiadora.
Inira suspirou e assentiu:
— Mas, mesmo que digam, afinal de contas sangue é sangue, e o seu já está em mim, não é mesmo? Bem, mais importante que isso, achamos outro corpo, cheguei muito perto, sentia a presença do culpado ali, mas quando fui atrás ele desapareceu, nem o cheiro dele eu consegui pegar. – Falava com um rosto frustrado.
— Seria estranho se conseguisse você é um Succubus, não um lobisomem, mas descobriram o que era?
— O recolhedor falou algumas hipóteses... Como você sabe o primeiro corpo que achamos estava sem energia vital, estava sugada, completamente, sem rastros, o que só pode significar uma coisa, uma única espécie faz isso. – Falou Inira com ar superior, de quem aparentava saber mais que os outros.
— Sim, a sua espécie, achamos nosso culpado, é um Succubus! – Falou Cecilia convicta.
– Mas ai é que está, o segundo corpo era uma mulher e não um homem, o que nos quebra o padrão, se fosse outro homem, claro que seria um Succubus fêmea, mas como agora a vítima é uma mulher, contra diz as coisas.
— A não ser que seja mais de um culpado, talvez dois Succubus, um de cada sexo.
— O recolhedor disse a mesma coisa, mas acho improvável, não é algo que os de minha espécie façam.
— Bem, não podemos ficar pensando em suposições. Vá Inira, tem meu aval para fazer de tudo para conseguir o que queremos, não posso tolerar mais mortes, apesar de a taxa de homicídios, suicídios, e mortes extremamente bizarras ser alta em Cinasta a população pode desconfiar, e acredito que o Sindicato não ficaria nada satisfeito, faça o que for necessário.
Os grandes e castanhos olhos da garota se encheram de malícia:
— Será como deseja Presidente Cecilia – A garota de rosto fino e nariz arredondado fez uma reverência e virou-se, saindo da sala rapidamente, com os longos cabelos marrons ondulando atrás de si.
Cecilia virou a cadeira para trás, e olhou a longa vista de toda a escola que proporcionava a sala 133, era a sala do Comitê de Contra Medidas de Cinasta, mas também a sala do conselho estudantil, e tinha um número peculiar, afinal a escola não chegava nem perto de ter 20 salas, o que era de se esperar de uma cidade pequena, o que dirá 133, mas não era pela quantidade de salas e sim o número de distrito que representava dentro da Secretaria de Contra Medidas.
Enquanto admirava a vista e o sol se pondo entre as montanhas de Cinasta, Ania veio e se sentou em seu colo, colocando os braços em volta dela.
— Dia movimentado, andam acontecendo tantas coisas simultaneamente, acho que teremos sérios problemas com essa cidade no futuro Ania, não quero colocar todas vocês no meio disso – Falou Cecilia com ar preocupado.
Ania deu-lhe um longo beijo molhado:
— Não importa Cecilia, estamos todas ligadas por sangue, e todas amamos você, até mesmo Inira, com seu jeito rebelde, e faremos de tudo por você, afinal, você fez por nós, e não importa se ficares aqui, estaremos junto contigo, onde quer que seja! – Ania falou com seu maior sorriso, o sorriso que sempre trazia esperança para Cecilia.
— Tem razão Ania, e nada melhor que ter vocês ao meu lado, ainda mais pelo o que está por vir!
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